A aposta de Marina Silva

Uma entrevistamarinasilva2 revela: a direita
não tem motivos para comemorar a possível candidatura da senadora à Presidência

Para todo problema difícil há uma resposta fácil — que é, quase sempre, falsa. Os jornalões, decididamente pró-Serra, comemoraram, durante a semana passada, o possível lançamento da candidatura da senadora Marina Silva à presidência da República. Parte da esquerda julgou, ao contrário, que o novo fato visa, principalmente, prejudicar Dilma Roussef, a opção do PT e de Lula.  Uma terceira candidata, segundo as análises de ambas as partes, desfaria o caráter plebiscitário, povão versus elites,  para o qual a disputa de 2010 parecia se encaminhar.

Pode ser uma avaliação errada. É o que sugere entrevista concedida pela própria Marina (ao blog da Amazônia, do jornalista  Altino Machado), antes de viajar para Rio Branco, onde manteve, neste fim-de-semana, consultas com amigos, companheiros e parentes.  Três aspectos se destacam:

1. A agenda ambiental e as novas disputas de projetos:

Marina frisa que seu objetivo é atualizar o debate em torno de projetos para o país — introduzindo não apenas a dimensão ambiental, mas tudo que ela carrega consigo. “O que está em questão é (…) que as utopias do século 21 de fato possam acontecer, que a gente saia das agendas dos séculos 19 e 20”, diz ela. Trata-se de algo indispensável.

Dilma pretende apresentar-se como continuadora da obra de Lula; nova expressão da emergência das maiorias e de sua luta — lenta, pacífica, mas formidável — contra 500 anos de domínio das elites. Mas parece muito presa ao velho desenvolvimentismo, e nesse sentido aproxima-se muito de José Serra. O que ela tem a propor, por exemplo, sobre o caos das metrópoles, ou sobre a Amazônia? Que a indústria automobilística produza carros para todos? Que novas rodovias e mineradoras e metalúrgicas assegurem emprego para os amazônidas?

Nesse sentido, o desafio proposto por Marina pode aprofundar — ao invés de confundir — a disputa de projetos para o país. Ainda mais porque a senadora não parece interessada em se apresentar como proprietária dos temas ambientais. Ela declara que seu objetivo “é um movimento para que todos se comprometam com esta agenda, pois ela não está colocada com a dimensão necessária por nenhum partido”.

2. Uma visão não-fundamentalista de ambientalismo:

TEXTO-MEIO

Parte da esquerda rejeita, com razão, uma vertente do ambientalismo que, em nome da natureza, minimiza as lutas sociais e a garantia de condições dignas de vida para todos os seres humanos.

Em pelo menos dois trechos de sua entrevista a Altino Machado, Marina Silva afasta-se, explicitamente, de tal concepção. Num deles, ela destaca que a agenda ambiental não pode ser vista “como algo em oposição ao desenvolvimento, mas como parte integrantes da mesma equação. E vai além: “Esse movimento tem que acontecer sem que a gente perca avanços que tivemos no governo do presidente Lula, que passou de R$ 8 bilhões para R$ 28 bilhões os investimentos em política social”.

Mais adiante, ao defender a garantia de uma matriz energética limpa, o combate firme ao desmatamento e o incentivo à agricultura orgânica, a senadora ressalava que estas medidas devem ocorrer “sem que isso signifique sofrer os efeitos indesejáveis dessas mudanças”. O repórter indaga: “Quais seriam os efeitos indesejáveis”. Marina responde de pronto: “Que o país não possa continuar se desenvolvendo, perca empregos e oportunidades”. E arremata: “Ainda temos tempo para fazer o trânsito. Não dá para dizer mais que não podemos perder o bonde. Nós não podemos é perder o trem-bala da história”…

3. Uma disposição explícita para entender-se com a esquerda:

A entrevista de Marina é toda pontilhada de declarações de apreço por Lula, por seus companheiros do PT do Acre, pelas lutas em favor das maiorias que ela fez e faz. Se a senadora optar pela candidatura, como parece provável, é evidente que os partidos conservadores e a mídia procurarão apagar esta identidade, explorando ao máximo as divergências entre a senadora e a esquerda.

É algo inevitável, mas que pode ser revertido — desde que haja, de parte a parte, serenidade, respeito, visão de longo prazo sobrepondo-se aos interesses partidários e momentâneos. Há um longo caminho até as eleições de 2010. A eventual confirmação da candidatura de Marina mudará o cenário estabelecido até agora. Mas é perfeitamente razoável desejar que esta mudança sirva para acrescentar um ingrediente indispensável à luta das maiorias por um novo país.

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras

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