Zimbábue: surpresa na nova vitória de Mugabe?

ZIMBABWE-CRISIS/

Ao contrário do que ocorreu nas eleições passadas, não há sinais de fraude. Oposição e Ocidente precisam rever seus próprios erros

Por Vinícius Gomes

Então Robert Gabriel Mugabe venceu, no fim de semana passado, mais uma eleição para presidente – a sétima! – no Zimbábue. Nenhuma surpresa até aí, certo? Errado. Há cinco anos, este homem controverso de 89 anos, que governa o país (muitas vezes com mão de ferro) desde o fim da segregação racial, em 1980, era visto como liquidado, politicamente. Seus dias estavam contados – tanto na opinião de seus adversários internos quanto para a maior parte dos governos e da mídia internacional.

Um dos sinais do declínio fora a obrigação de dividir o poder, em 2008. Em meio a uma crise de hiperinflação e crescente perda de legitimidade, o partido de Mugabe (ZANU-PF) formou um governo compartilhado com a oposição (MDC), dirigida por Morgan Tsavangirai – que se tornou primeiro-ministro. Tudo indicava que este assumiria o comando do país, em 2013.

Mas agora, a oposição perdeu, por ampla margem. Mugabe foi eleito no primeiro turno com 61% dos votos e viu o seu partido obter mais de dois terços das cadeiras do Parlamento. O que não surpreendeu foi a reação dos governos ocidentais e, claro, do MDC, em dizer que houve fraude na eleição. Ainda assim, o partido de Tsavangirai está sem muito apoio para contestar os resultados. A larga diferença deixa pouca margem a dúvidas. O ex-presidente nigeriano, Olusegun Obasanjo, que chefiou a equipe de monitores da eleição pela União Africana, disse nunca ter visto uma eleição tão perfeita e pacífica. Acrescentou que eventuais discrepâncias na contagens de votos não seriam suficientes para legitimar a acusação de fraude.

As razões para a derrota do MDC podem ser justificadas internamente no partido. Aceitar a divisão de poder com o ZANU-PF, após o último pleito, foi como fazer um “acordo com o diabo”. Tsavangirai passou a fazer parte do jogo de poder, ainda que discordasse abertamente de muitas decisões do presidente. Ele ainda parecia ser um novato em briga de cachorro grande. Além do fato de os próprios partidários do MDC acreditarem que ao ceder à “oferta” de Mugabe, a oposição deu poder a ele no momento em que estava mais enfraquecido em toda sua história como presidente, desde o fim da segregação racial, em 1980.

Que ocorrerá, após as eleições? Dirigentes do ZANU-PF têm falado em novas mudanças econômicas, com “redistribuição única de riqueza para as pessoas comuns”. Parecem crer que, livre da necessidade de dividir o poder, o partido voltará a agir em favor dos mais pobres – o que, no passado, foi feito muitas vezes de maneira atabalhoada. Em razão, dessa promessa, a Bolsa de Valores de Harare, na capital do país, amanheceu na última segunda-feira (5), registrando uma queda de 11% em suas ações.

A situação para Tsavangirai e seu MDC é complicada. Por mais que países como Austrália, EUA e Grã-Bretanha denunciem uma fraude, Mugabe possui o apoio da maioria dos países da região, exceto Botswana, e de seu principal parceiro comercial nos últimos anos, a China. E é impossível negar que os investimentos chineses fizeram muito mais pelo Zimbábue e por diversos outros países africanos, que os EUA e os antigos colonizadores-exploradores da Europa jamais fizeram. Assim sendo, o grito de “fraude” vindo por parte deles chega mais baixo como um sussurro para um lobo (ou dinossauro…) político como Mugabe.

A verdade parece ser bem mais simples e cruel. Este político veterano – que passou onze anos preso pelo governo de minoria branca, quando o país ainda se chamava Rodésia e ele era, ao lado de Nelson Mandela, um dos símbolos da luta de resistência do povo negro da África – talvez tenha sido, pela primeira vez em muito tempo, eleito legitimamente…

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