Tunísia: a hora das grandes escolhas

Nove meses depois de deflagrar “Primavera Árabe”, país elege Constituinte com votação maciça, inovações democráticas surpreendentes e uma incógnita: a posição do partido islâmico moderado 

Após ter derrubado o ditador Zine Abdine Ben Ali, em janeiro de 2011, a Tunísia realizou neste domingo (23/10) as primeiras eleições livres de sua história. Também foi a primeira vez, desde os anos 1950, que um país árabe convoca sua população às urnas para escolher democraticamente seus representantes. Em alguns meses, ocorrerão eleições no Egito. A Primavera Árabe, que despertou a atenção do mundo na virada do ano e inspirou movimentos que condenam o esvaziamento da democracia no Ocidente, parece caminhar para uma fase de reassentamentos. Dois textos publicados hoje em Outras Palavras ajudam examinar a fundo este processo.

Na Tunísia, parece haver tendências contraditórias. De um lado, a própria natureza das eleições revela: a mobilização popular pode ampliar os limites da democracia, evitando que se reduza a um exercício formal, em que os cidadãos podem escolher nomes, mas não alternativas. As principais inovações estão descritas numa ampla reportagem de Serge Halimi, editor do Le Monde Diplomatique francês. Superada a ditadura, teve início um movimento febril de organização política. Há ampla liberdade para os partidos, mas o pleito não se restringiu a eles. As novas leis permitiram que os cidadãos se articulassem em listas eleitorais e concorressem. Estabeleceu-se, além disso, uma exigência, notável para um país islâmico. As listas tinham de reunir igual número de homens e mulheres (o machismo, arraigado na sociedade, fez com que 95% dos candidatos que encabeçam de listas, e por isso têm mais chances de se eleger, sejam do sexo masculino.   Estabeleceu-se controle rigoroso sobre os gastos em campanha, para evitar que o poder econômico criasse grandes desigualdades no acesso aos eleitores.

Um segundo texto, do espanhol Santiago Alba Rico, revela o clima de mobilização que estas novidades despertaram domingo, em Tunis. Formaram-se imensas filas nas seções eleitorais. As ruas debatiam o futuro do país — em especial, a relação entre estado e religião e as alternativas, diante da crise social. O relato constata que já não há, nove meses depois, o mesmo clima que questionamento e ebulição permanentes que marcou a revolução. Mas não é pessimista: nada indica que o período de debate sobre a nova Constituição, que a princípio durará um ano, será de pasmaceira. Novas momentos de lutas sociais poderão eclodir.

Nos momentos em que a história está aberto, há oportunidades e riscos. Os resultados oficiais das eleições serão divulgados nesta terça-feira (25), mas acredita-se numa forte presença, na Constituinte, do partido En Nahda (Renascimento), cuja orientação ideológica se aproxima ao islamismo moderado. Calcula-se que pode obter até 40% dos votos. A escolha dos tunisianos que vivem fora do país oferece uma pequena amostra do apoio que a agremiação pode conseguir nas urnas. Segundo o jornal espanhol El País, com a contagem já finalizada, o En Nahda faturou 9 das 18 cadeiras reservadas para o voto dos emigrantes. Logo atrás aparece o Congresso para a República, de orientação liberal, fundado por exilados em Paris.

Ainda durante a campanha, alguns partidos laicos da Tunísia vinham denunciando os supostos perigos de uma vitória islâmica à nascente democracia tunisiana. “Se os muçulmanos vencem, reduzirão as liberdades”, profetizou ao diário espanhol El País Ahmed Nejib Chebbi, líder do Partido Democrático Progressista. Entretanto, o principal nome do En Nahda, Rachid Ghanouchi, explica que seu sonho é conjugar Islã e Modernidade. Numa entrevista ao mesmo jornal, Ghanouchi adiantou que, caso integre o governo, suas primeiras medidas serão combater a corrupção e o desemprego, que, segundo o líder do En Nahda, assola a 700 mil tunisianos. A segunda prioridade de Ghanouchi é a redução dos desequilíbrios regionais — ou seja, o desenvolvimento das regiões mais pobres do país.

Para quem suspeita de sua vinculação religiosa, Ghanouchi diz que seu partido espelha-se no modelo de governo da Turquia, país que visita frequentemente, e que deseja evitar o radicalismo argelino. “Lutamos contra o extremismo”, afirma. “É uma doença de que padeceram muitas sociedades ao longo do tempo, inclusive a nossa.” Quanto às denúncias de que está de acordo com os preceitos machistas do Islã, o líder do En Nahda, que viveu no exílio em Londres por mais de vinte anos, argumenta que todas suas quatro filhas foram à escola e à faculdade e têm bons empregos hoje em dia. “Assim as eduquei. Que mais tenho que mostrar?”

Além do En Nahda, do PDP e do Congresso para a República, outras forças políticas de destaque no cenário eleitoral tunisiano são o Ettakatol (Fórum), conduzido por Mustafah Ben Jaafar e ideologicamente próximo ao Partido Socialista francês. Mais à esquerda, encontra-se o Pólo Democrata Modernista e Ettajdid (ex-comunista), que se articulam em torno de um projeto laico. A grande surpresa está no Partido Comunista dos Operários Tunisianos (PCOT), um dos poucos encabeçado por uma mulher, a renomada advogada Radia Nasraoui, mulher do líder PCOT, Hamma Hammami.

Os remanescentes do antigo regime (RCD) se reagrupam no Al-Watan, liderado pelo ex-ministro do Interior e da Defesa de Ben Ali, Mohamed Jegham. O Al-Watan qualificam-se como centristas, porém seu projeto soa um tanto quanto confuso, pois, segundo Serge Halimi, editor do Le Monde Diplomatique francês, o RCD foi economicamente liberal, politicamente policial e, ao mesmo tempo, membro da Internacional Socialista.

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