Rumo a uma nova crise financeira?

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Dois textos sugerem: eleições brasileiras de 2014 poderão ocorrer em meio a graves turbulências; e medidas adotadas até agora pelo governo tornam país mais vulnerável

Por Antonio Martins

Num artigo recente, sobre as mobilizações de junho e suas consequências eleitorais em 2014, o cientista político André Singer sugere: o pleito será definido, fundamentalmente, pelo estado da Economia no próximo ano e pelo debate sobre seu futuro. Mas de que dependerá a situação econômica?

Dois textos recentes e importantes sugerem que novas turbulências econômicas, potencialmente devastadoras, estão se armando nos circuitos financeiros internacionais. Elas poderiam ter repercussões graves no Brasil e exigiriam do governo, provavelmente, políticas muito mais ativas que as praticadas hoje. Vale a pena examiná-los. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Europa em crise (VI): gráficos de uma hipocrisia

Dados oficiais demonstram: Estados estão endividados porque emprestaram aos bancos; “austeridade” e ataque a direitos jamais atingirão raiz do problema

O argumento central dos governos e da mídia conservadora para defender o corte dos serviços públicos e dos direitos sociais é a promoção da “austeridade”. A palavra foi incorporada ao discurso oficial. Apoia-se num preconceito cultivado durante décadas: o de que despesas públicas são sinônimo de ineficiência e corrupção. Esconde dois fatos essenciais:

a) na União Europeia (UE), uma parcela cada vez maior dos gastos dos Estados é empregada para pagar juros;

b) enquanto cobram “austeridade” dos aposentados e usuários de serviços públicos há anos em declínio, estes Estados estão sustentando salários milionários, jatinhos, iates e porsches da oligarquia financeira.

Os gráficos deste post ajudam a compreender o fenômeno. Foram produzidos pela revista Economist, que, embora defenda os mercados financeiros, produz excelente jornalismo — e parece perceber, aos poucos, o caráter anti-civilizatório das políticas praticadas na Europa. O primeiro mostra a evolução do déficit público europeu em onze países-chaves, e na média da UE, antes e depois da crise de 2008.

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Europa em crise (IV): os Bancos Centrais e a oligarquia financeira

No intervalo de apenas duas semanas, o Banco Central Europeu adotou atitudes opostas diante de problemas semelhantes. Veja por que esta assimetria é reveladora

Todos os bancos centrais procuram apresentar-se como órgãos “neutros”. O pensamento econômico ortodoxo sustenta, aliás, que, para poderem proteger as moedas com eficácia, os BCs devem ser “preservados” inclusive da “interferência” de governantes eleitos. Neste caso, a técnica é vista como mais importante que a democracia. Mas… que fazer quando se revela a parcialidade e a interferência política destas instituições supostamente tão soberbas?

É o que está ocorrendo neste exato momento na Europa, diante dos olhos de todos. Na manhã de hoje, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um conjunto de medidas que beneficiam as instituições financeiras privadas. Suspeita-se que as decisões tenham sido tomadas em regime de urgência, para evitar um incidente devastador — por exemplo, a quebra de um grande banco europeu, capaz de se propagar rapidamente na forma de falências em cadeia.

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Europa em crise (III): entre o péssimo e o pior

Reunidos até sexta-feira em novo encontro de cúpula, chefes de Estado parecem limitar-se a duas opções: grave retrocesso antidemocrático ou crise financeira devastadora

Esta manhã (8/12), poucas horas antes de começar em Bruxelas mais uma reunião dos governantes do Velho Continente, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um conjunto inesperado e dramático de medidas. O objetivo evidente é evitar o risco de uma grande falência financeira, que poderia levar ao naufrágio uma reunião já muito difícil. Nas últimas horas, esta ameaça cresceu de forma inédita (veja porque).

Este fato novo embaralha as perspectivas da cúpula da União Europeia (UE). Nos últimos dias, os governos e correntes mais conservadoras haviam começado a costurar um acordo, que pretendem ver sacramentado na reunião. Ele foi desenhado nesta segunda-feira (5/12), em Paris, numa reunião entre a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Significa obrigar as sociedades europeias a sacrifícios novos e inéditos, para ampliar os ganhos (e manter a “tranquilidade”) dos mercados financeiros. (Veja relatos aqui: 1, 2, 3)

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Europa em crise (II): outro passo contra a democracia

A pretexto de “salvar o euro”, governantes querem tirar das sociedades poder de manejar finanças públicas. Retrocesso pode ser imposto em uma semana

Em tempos de crise, grandes transformações podem se dar em semanas; mas também os retrocessos são profundos e rápidos. Há meses, a União Europeia tem protelado a adoção de medidas simples e eficazes, que dissipariam o ataque dos mercados financeiros contra países como Grécia, Portugal, Espanha e Itália. O bloqueio à ação foi comandado, desde o início, pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Há poucos dias, começou a se desenhar um grande fato novo. Sob liderança da mesma Merkel, o Banco Central Europeu (BCE) e governantes do continente passaram a costurar um pacote de medidas extremas. Querem vê-lo aprovado em tempo recorde: até 9 de dezembro, segundo declarou a chanceler nesta manhã (2/12), em discurso ao Parlamento alemão.

Os detalhes das medidas não estão definidos (“estamos trabalhado na arte final”, disse Merkel). Seu sentido, porém, é claro, segundo informa o Financial Times. Os países-membros da União Europeia (UE) perderão sua soberania orçamentária. Um “comissariado do orçamento”, não submetido nem a voto, nem a controle democrático, terá poder de intervir sobre as contas nacionais dos membros do bloco. Além disso, para “restabelecer a confiança dos mercados”, sanções automáticas poderão ser disparadas contra os Estados que se desviarem da ortodoxia fiscal. Para assegurar tais mudanças, o próprio Tratado Constitucional europeu poderá ser alterado. Se o plano for adiante, o pacote será adotado na próxima reunião dos chefes de Estado da UE. A pretexto de “salvar o euro”, este rito sumaríssimo permitirá que medidas de enorme alcance e consequências sejam adotadas sem nenhuma consulta às sociedades ou aos Parlamentos.

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Para compreender a crise europeia (I)

No acordo dos bancos centrais para evitar pânico financeiro, mais um sinal da hipocrisia por trás dos “planos de austeridade”

Depois de semanas de baixas e tensão permanente, as principais bolsas de valores do mundo viveram, ontem, uma euforia fugaz. Alguns dos principais bancos centrais do mundo (EUA, Europa, Japão, Inglaterra, Suíça e Canadá) anunciaram um acordo raro, que permitirá transferirem sem formalidades, entre si, imensos volumes de dinheiro.

A medida destina-se a afastar uma ameça que assombra a oligarquia financeira mundial: a quebra de um grande banco europeu poderia desencadear perdas em cadeia, provocando novas falências e espalhando pânico no sistema. A intervenção evitará o pesadelo por apenas alguns dias, como se verá adiante. Mas puxa o fio de uma meada. Torna possível examinar alguns aspectos da crise que permanecem ocultos, em grande medida por cumplicidade dos grandes grupos de mídia.

O primeiro: quando se trata de evitar que os bancos sofram perdas, o discurso em favor da “austeridade das contas públicas” é rapidamente esquecido. Ontem, em meio ao anúncio do acordo inter-BCs, revelou-se que o Banco Central Europeu (BCE) emprestou, só nas últimas semanas, 265,5 bilhões de euros às instituições financeiras. É mais do que o dobro do valor oferecido (€ 109 bi) para o “resgate” da Grécia.

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