SP sem água, 17 e 18/11 – Os que devem poupar e os que podem esbanjar

141119-aguaindustria

 

Setor industrial usa 40% da água disponível para Grande São Paulo e Baixada Santista, mas toda a campanha de economia é voltada ao consumidor residencial

Por Camila Pavanelli de Lorenzi

18/11/14

– Comecei a fazer um curso online gratuito da ANA sobre política nacional de recursos hídricos; prometo compartilhar por aqui o que eu aprender de interessante. Para começar, deixo o link para a Lei das Águas (http://bit.ly/1xTRvrE) e listo seus seis fundamentos:

1. a água é um bem de domínio público;

2. a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico;

3. em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais;

4. a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas;

5. a bacia hidrogáfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos;

6. a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades.

– Aproveito também, só porque deu vontade, para compartilhar o artigo 22 da Lei:

Art. 22. Os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos serão aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados e serão utilizados:

I – no financiamento de estudos, programas, projetos e obras incluídos nos Planos de Recursos Hídricos;

II – no pagamento de despesas de implantação e custeio administrativo dos órgãos e entidades integrantes do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos.

<comunismo> Engraçado: estou procurando até agora o inciso que diz que os valores arrecadados devem ser aplicados no “pagamento de lucro aos acionistas da empresa de abastecimento”, mas não o encontrei. </comunismo>

– Quando você vir uma reportagem sobre algum novo milagroso aplicativo de economia de água, lembre-se disto: o setor industrial usa 40% da água disponível para a Grande São Paulo e a Baixada Santista (http://bit.ly/1xlXpBV), mas toda a campanha de economia de água da Sabesp é voltada ao consumidor residencial (http://bit.ly/1uNpIrZ).

–  Vocês se lembram que um poço artesiano está custano R$50 mil em SP (http://bit.ly/1sW34cm). Acontece que, ora vejam só, a água subterrânea também acaba (http://bit.ly/1p0gurw). A água do poço não vem do além; ela vem deste mundo aqui – exatamente o mesmo mundo em que os sistemas que abastecem São Paulo estão secando.

(- No aniversário do meu pai, há muitos anos, fomos jantar em um restaurante chique para comemorar. A garçonete trouxe o couvert e avisou que poderíamos pedir a reposição dos pães sem custo adicional. Meu primo, que na época tinha uns 10 anos, não acreditou: “Peraí… mas então o couvert é eterno? Posso ficar aqui comendo pão para sempre?” A garçonete confirmou que era isso mesmo: bastava pedir que, magicamente, o pão tornaria à mesa, até o fim dos tempos.)

<comunismo2> A água é um recurso natural limitado, mas o capitalismo não lida muito bem com limites (exemplos: couvert eterno; refrigerante gigante com refil eterno; campanhas publicitárias baseadas no conceito de “no limits”). Não existe para nós, seres capitalistas, o conceito de “água acabando”. Existe, isso sim, o conceito de “tô pagando”. Se estou pagando, como pode acabar? </comunismo2>

– Da série “problemas da falta d’água em que você não havia pensado”: dengue. O mosquito transmissor da doença se reproduz, acho que todo mundo lembra, em água limpa parada. Falta água – armazena água quando tem – deixa um tantão de água exposta no balde – mosquito – dengue – acho que deu pra entender (http://bit.ly/11hVilR).

– A ANA e o DAEE adiaram a redução na captação de água para o interior de SP (http://bit.ly/1wUZyjL). O problema da medida, segundo o MP em Piracicaba, é que ela restringe a retirada só para o interior e não mexe com a capital. Esta decisão judicial também argumenta que sempre se priorizou o abastecimento da capital e região metropolitana, em detrimento do interior (http://bit.ly/1yXHPyT).

– O nível dos sistemas? Está como o meu ânimo nesta terça-feira à noite: baixo e caindo cada vez mais (http://bit.ly/1uFUiUt).

17/11/14

– A notícia-de-todos-os-dias – o nível dos sistemas – é a mesma de todos os dias: está caindo. O nível. Dos sistemas. Caindo. O nível. De todos eles. Caindo. Um dia zero vírgula dois, outro dia zero vírgula três por cento. Caindo. Em novembro. (http://bit.ly/11eXcnj)

– A novidade da notícia-de-todos-os-dias de hoje é que a Folha fez um cálculo bem interessante: considerou todos os sistemas que abastecem São Paulo e a região metropolitana como se fossem uma coisa só, e verificou que o nível desse “sistema unificado” está em 14,68%. Só não sei se nesse cálculo o Sistema Cantareira conta como estando em 10,3% de sua capacidade (número de mentirinha que inclui os volumes mortos) ou em cerca de -20% (número da vida real).

– Mas a notícia específica do dia de hoje é: autoridades do governo federal e estadual reuniram-se em Brasília para discutir o pacote de obras em São Paulo (http://bit.ly/1zxLgJ9) e a ministra do Planejamento já garantiu que a “ajuda” (i.e. grana) do governo federal será definida até a semana que vem (http://bit.ly/1EX7nf1). “A presidente Dilma (Rousseff) está disposta a ajudar o governo de São Paulo e vamos discutir onde é mais adequado o governo federal entrar”, disse a ministra do Planejamento.

– Vamos atentar para como a questão ambiental foi abordada na reunião. Cito a Ministra do Meio Ambiente: “Na quinta, teremos técnicos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para detalhar a questão do licenciamento com técnicos do Ministério do Meio Ambiente. Há a questão da Mata Atlântica, mas a legislação permite a supressão de vegetação para obras de utilidade pública, com posterior recuperação da área”.

– Ou seja: a realização das obras não é uma questão sobre a qual os técnicos da Cetesb ou do MMA tenham qualquer autoridade. Eles estão ali para garantir o licenciamento, e só. As obras vão sair, a ministra do Planejamento já deixou isso bem claro: resta saber como iremos adequá-las à legislação ambiental vigente.

– Como deveria ser: o governo enfrenta um problema e propõe uma obra para solucioná-lo. Os técnicos ambientais avaliam o projeto e concluem se dá para fazer ou se não dá. Se der, ótimo. Se não der, o governo que busque outra solução mais adequada.

– Como é: o governo enfrenta um problema e propõe uma obra para solucioná-lo. Os técnicos ambientais que se virem para aprová-la.]

***

– Tem esse cara que eu conheço, alcoólatra, que sofre de cirrose hepática. Ele quer se tratar, claro, cirrose é uma coisa horrível – mas já avisou o médico que continuará tomando dois litros de uísque por dia.

– Nossas autoridades pretendem ~combater a crise hídrica~ com “novas e caras obras que não cuidam das nascentes, não recuperam áreas já exploradas e não reduzem consumo e perdas, repetindo o padrão histórico insustentável” (http://on.fb.me/1wZ5aNL). Não tem como não dar errado.

E esse foi o boletim de hoje. Pode entrar em pânico que amanhã tem mais.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Um comentario para "SP sem água, 17 e 18/11 – Os que devem poupar e os que podem esbanjar"

  1. Alan Boccato disse:

    Quero deixar a minha provocação: trata das duas dimensões do problema da água: estoque e demanda.
    Para tanto, não me limito à noção de eficiência que trata apenas do processo produtivo ou de uso, ou seja, o mais eficiente é o que se produz utilizando menos recursos (ex. produção de 1 hectare de cana com menos água utilizando uma variedade nova), ou o funcionamento de determinado bem utiliza menos recursos (ex. descarga com caixa acoplada usa menos água que a Hydra).
    Utilizo a noção de eficiência que se abarca à função socioambiental do uso de determinado produto ou serviço e do seu processo produtivo. Ou seja, o uso de determinado bem ou serviço é eficiente quanto menor for a relação entre a função pela quantidade de matéria e energia necessária para sua produção e funcionamento, incluindo aqui toda a infraestrutura para sua operação, e que gera menos externalidades negativas para o ambiente e a sociedade.
    Também utilizo a noção de essencialidade, ou seja, aquilo que é indispensável, o necessário, algo muito importante que não pode faltar.
    Nestes termos pergunto: qual é a eficiência e a essencialidade de um carro, dos “alimentos” ultraprocessados, dos produtos de petshop, etc? Todos esses bens utilizam água no processo produtivo e seus fabricantes estão em alerta e organizados devido ao colapso de abastecimento de água em SP.
    Pergunto isso, pois em tempos de racionamento as pessoas são desencorajadas de fazerem atividades que são ineficientes e não essenciais como, por exemplo, lavar o carro, usar o esguicho para lavar a calçada ou ainda encher a piscina. Mas da mesma forma por que não desencorajamos a produção de bens e serviços que também não são essenciais, como carros, cana, soja, refrigerantes, cerveja, carne em excesso, produtos de petshops, etc?
    Além de não essenciais, todos esses bens são extremamente ineficientes.
    O carro é, certamente, o mais escandaloso, pois usa-se uma enorme quantidade de matéria e energia, para produzir uma massa que varia de 800 a 1500 Kg, mas que vai transportar, na maioria das vezes, um corpo com massa 10x menor. Um carro é feito, basicamente, de aço, plástico, alumínio, borracha e vidro. Para extração e processamento de todos esses componente precisamos de muita água. Então se utiliza uma enormidade de matéria e energia para se produzir uma massa que vai transportar um corpo 10x mais leve, e que ficará a maior parte do tempo parada. Um carro é utilizado, em média, de 2,5 horas por dia. O restante das 21,5 horas ele fica parado ocupando espaço urbano. Além disso, um carro têm em média 15 anos de vida útil. Mas se ele é usado apenas 2,5 horas por dia, em 15 anos ele terá sido usado efetivamente por apenas 1,5 anos… o restante ele ficou parado. É uma ineficiência enorme. Somado a isso, temos de considerar que, só no Estado de São Paulo no ano de 2011 “houve cerca de 17 mil mortes e 68 mil internações de pacientes mais suscetíveis a doenças associadas à poluição”, cujos veículos automotores são peça principal. Além dos acidentes de trânsito e os distúrbios emocionais causados pelos congestionamentos e falta de locais para estacionar. Devemos somar a baixa eficiência do carro a necessidade de construção de “ruas, viadutos e avenidas”, estacionamentos, garagens, etc. Sabemos que obras de infraestrutura demandam uma enormidade de água, além de impermeabilizar o solo. Na conta do uso da água pelo carro deve ser somada a produção de cana para ser transformada em etanol que vai queimar nos motores dos automóveis.
    E por falar em cana, ela também utiliza água para produzir açúcar. Matéria prima da indústria agroalimentar. Qual é a eficiência e a essencialidade dessa indústria? Estamos utilizando uma quantidade alta de água para produzir um conjunto quase infinito de produtos ultraprocessados que erroneamente são chamados de alimento e que ocupam grande espaço das prateleiras dos supermercados. Esses produtos têm uma eficiência nutricional baixíssima, além de causar graves problemas de saúde na população. O açúcar e a soja são componentes básicos dos “alimentos” ultraprocessados tem envenenado a população brasileira. Hoje, segundo dados do Ministério da Saúde, problemas cardiovasculares é a segunda maior causa de internação e óbito no Brasil. E esses problemas têm como causas principais a alimentação incorreta e sedentarismo. E o que é alimentação incorreta? É alimentação industrial, incluindo excesso de carne. E essa indústria é altamente consumidora de água! E que têm um conjunto enorme de embalagens, também demandadoras de água. Além da logística de armazenagem e distribuição altamente demandadora de recursos naturais, incluindo água!
    Tudo isso tem relação com a demanda de água. Mas e o estoque? Também!! Um dos principais fatores de redução do estoque de água é o desmatamento. E para que se desmata? Para produzir soja, cana e carne. Bingo!!
    Então além de não lavar a calçada com água, eu sugiro que paremos de produzir carros, “alimentos” ultraprocessados, soja, etc. Fiquemos no essencial, no eficiente e no que é bom para nossa saúde. Mobilidade coletiva e alimentos à base de folhas, frutas, sementes e raízes produzidas pela agricultura familiar rural e urbana.”
    Divulgado em: http://jornalggn.com.br/blog/dan-moche-schneider/para-alem-do-esguicho-na-calcada

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *