Quando nos empurram para a Zona Cinza

Preso pelos nazistas, Primo Levi descreveu a queda psíquica, nos campos de concentração. Em outras condições, túnel sem luz do neoliberalismo produz o mesmo efeito. Para evitá-lo, os insubmissos precisam reatar o compromisso com a esperança

Por Rosemberg Cariry | Imagem: Ioana Olteş, Holocaust in Romania (1949)

Ao tratar da situação limite dos campos de concentração, o escritor Primo Lévi alude à sensação de queda psíquica numa zona cinza, quando é retirada a perspectiva de futuro. Nessa condição, os valores civilizacionais são esquecidos, o mal toma aspecto de normalidade, os prisioneiros se submetem às situações mais absurdas e são hostis entre si, numa luta insana, sem ética e sem piedade, estado mental que lembra o absurdo kafkiano. Diferenciando-se do modelo concentracionário nazi, o fascismo derivado do capitalismo neoliberal contemporâneo tem uma capilaridade destrutiva, capaz de jogar uma nação inteira na zona cinza da indiferença bestial. Quando o incêndio das florestas, a matança de índios, de negros, de pobres e de lideranças sociais; a entrega de todos os bens nacionais e a substituição da soberania pela submissão a países hegemônicos; a destruição da cultura e da educação já são rotinas tidas como normalidades, sob aplauso ou impotência das massas bestializadas, estamos diante de uma catástrofe humanitária de grande proporção.

Os que são insubmissos e se recusam a aceitar a naturalidade do autoritarismo (em suas velhas e novas formas), vivem o cerco da “banalidade do mal” e da angústia mais profunda. Os que não suportam a situação e fogem do país são penalizados pelas dúvidas, saudades e duras condições de recomeço que encontram em um mundo estrangeiro. Assim, a melhor opção talvez seja mesmo ficar e lutar. Ficar e denunciar. Ajudar na construção do futuro e da esperança. Sabendo que, antes de tudo, é preciso manter a sanidade mental. Afinal, o pior do neofascismo é fazer as pessoas destruírem a si mesmas. É preciso não dar ao tirano de plantão o prazer de nos ver entregues à depressão ou desesperança. A dignidade humana é uma construção e o amanhã será feito das luzes que conseguirmos acender nessa escuridão. Se nenhuma fagulha for acesa, então é hora de partir, sem remorsos e sem olhar para trás, para que não se transforme o retirante em uma estátua de sal, como a mulher de Ló.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: