Quadrinhos que incomodam (feito gastrite)

Breno Ferreira, qua lança primeiro livro este mês, enxerga com acidez e inquietação a desigualdade quotidiana, a democracia esvaziada e a tenebrosa expansão do banal

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Por Carolina Ito

Relacionamentos falidos, a efemeridade das redes sociais, idiossincrasias em meio à vida urbana, entorpecimento. Tudo isso aparece nas tirinhas devastadoras de Breno Ferreira, autor do blog Cabuloso Suco Gástrico. Apesar de, no princípio, parecerem um tanto pessimistas, elas têm o poder de nos fazer refletir sobre o quanto esses temas são familiares, o quanto afetam nosso cotidiano.

Breno é formado em Artes Plásticas e trabalha com quadrinhos e ilustrações desde 2010. O Cabuloso Suco Gástrico surgiu em 2012 e apresenta tirinhas que não levam títulos, apenas algarismos romanos que contabilizam as publicações – algo que pode sugerir a sujeição da vida aos números, à mecanização, ou a uma ausência de palavras que deem conta de sintetizar tudo o que há para ser dito. Mas também pode não ser nada disso e isso é o mais legal.

Ele comenta que “a palavra arte é tão vaidosa que tentamos justificar o tempo todo como se fosse algo excêntrico, genial e mais importante que o normal”. Em oposição a essa ideia, seus traços, sujeiras e cores nos permitem transitar por uma arte sem imposições, um exagero palpável da própria existência humana.

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Na entrevista concedida por e-mail, Breno conta sua experiência em projetos contemplados pelos ProAC e sobre a origem da revista Miolo Frito, uma das publicações mais emblemáticas dos quadrinhos underground. Além disso, tem a participação no livro Volume Morto, que reúne histórias relacionadas à falta d’água, contadas por vários artistas, e a publicação de um livro reunindo suas tirinhas cabulosas, que será lançado em breve, pela Editora Elefante, parceira de Outras Palavras.

Primeiramente, por que quadrinhos?

Poxa, sempre me interessei por essa arte mais popular. Desde pequeno, eu ficava alucinado vendo desenhos animados e histórias em quadrinhos. Acabou sendo natural seguir por algo próximo disso.

Há quanto tempo trabalha com HQ?

Há muito tempo rabisco coisas que seriam bem próximas da linguagem dos quadrinhos, mas, por uma certa insegurança, demorei pra fazer realmente um trabalho em quadrinhos. O primeiro trabalho foi uma história chamada Graffiti, com um roteiro de Leandro Luigi Del Manto, contemplado pelo PROAC de 2010. Fui convidado a desenhar juntamente com o Benson Chin e com o Thiago A.M.S. O Cabuloso Suco Gástrico surgiu no meio de 2012.

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Quais autores ou autoras te inspiraram a começar nos quadrinhos?

Caramba, muita gente. Tem o clássico time: Laerte, Angeli, Glauco, Adão e os quadrinhos da Circo Editorial, em geral.

O Lourenço Mutarelli, pra mim, é o melhor quadrinista brasileiro. Além de ter um trabalho fodido, ainda tive a oportunidade de ter aulas com ele no Sesc, o que acabou me dando um puta gás para produzir. Mas, acho que cada vez mais sou influenciado por pessoas mais próximas, amigos e tal. Até pessoas que não necessariamente têm ligação com quadrinhos.

Seu trabalho carrega críticas ácidas à vida urbana e ao comportamento humano. Qual a influência de viver em uma grande cidade como São Paulo nesse processo criativo? A propósito, você sempre morou em SP?

Acho que o lugar e o momento em que vivemos acabam invadindo o nosso trabalho, mesmo sem a gente deixar. Uma cidade como São Paulo, onde tudo é muito carregado, tanto para o lado bom quanto para o ruim, deixa um rastro muito evidente. Vai fazer 11 anos que moro em São Paulo. Vim de Limeira (interior do estado) para estudar e acabei ficando. A velha história do caipira que se perde na cidade grande.

Por que escolheu a internet para publicar suas tirinhas?

A internet tem essa possibilidade de mostrar seu trabalho pra muita gente de uma maneira bem eficiente. Aliás, de mostrar qualquer coisa pra muita gente. Mas, o fato é que muita gente com um ótimo trabalho vem aparecendo usando a internet como ferramenta principal. Acho isso muito importante e muito saudável para a questão dos quadrinhos, particularmente.

Você acha que a internet está formando novos leitores de HQ? O que ela muda no cenário da produção nacional?

Com certeza está ajudando. Mais do que dar a oportunidade de mais pessoas divulgarem seu trabalho, a internet tem funcionado bem como um ambiente onde é possível se articular, organizar interesses e informações. Pra galera que faz quadrinhos, principalmente, quadrinho independente, isso é do caralho.

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Conte um pouco sobre sua experiência com o ProAC (política pública da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo).

Participei de três projetos contemplados pelo ProAC, todos em parceria com outros autores. Acho muito importante esse tipo de incentivo. Tem muita gente produzindo quadrinhos e a questão da publicação impressa é ainda uma parte difícil, pois envolve grana e não é barato. Dessa forma, o ProAC seria uma possibilidade para sair um pouco da mídia virtual, atingir outros públicos com um outro formato.

Mas gosto de lembrar que é um incentivo, não acho que seja algo pra se fazer carreira, do tipo, se prender ao edital como se ele fosse a única possibilidade. Por mais que ele tenha se mostrado cada vez mais aberto em relação aos temas e aos estilos dos contemplados, ainda é um edital vinculado a alguns padrões, muitas vezes, mais conservadores. Parece-me que, de certa maneira, os projetos selecionados são mais “senso comum”, se é que me entende.

Outra coisa que acho importante em relação ao ProAC é que, normalmente, depois de contemplado, fica mais fácil de entrar em contato com editoras que possam ter interesse em publicar seu trabalho. Lógico que isso deve ser analisado com cuidado, a questão do contrato com uma editora, porcentagens e etc. Mas em relação à distribuição é bem interessante, na minha opinião.

Como e quando surgiu a revista Miolo Frito? Qual a proposta da publicação?

O Miolo Frito surgiu em 2013, da cabeça um bando de amigos que, desde que se conhecem, tentam fazer alguma coisa de quadrinhos.

No final de 2012, eu e o Benson nos encontrávamos bastante no Sesc e, depois da aula do Mutarelli, a gente ia pro bar do Walmir e ficava lá bebendo e tendo ideias. A ideia errada tinha tudo pra dar certo.

Depois da pergunta que fala da Miolo Frito

A proposta é produzir algo que a gente tenha tesão em fazer, sem amarras e sem grandes pretensões também. Além disso, gostamos do lance de experimentar, testar uma ou outra forma narrativa, usar materiais diferentes, formas de impressão e suportes não tão comuns. É uma pesquisa meio esculhambada, mas que aos poucos vem dando certo.

Em quais projetos está envolvido atualmente ou pretende desenvolver?

Poxa, acabo sempre me envolvendo em mais do que consigo dar conta. Um dos projetos que me deixa bem contente (e um pouco ansioso) é que eu e a galera da Editora Elefante estamos transformando o Cabuloso Suco Gástrico em um livro. Será um apanhado do que tem no blog e mais uma parte de inéditas. A ideia é lançar o livrinho no final de setembro.

Além disso, estamos no meio da produção do Miolo Frito #3, que também pretendemos lançar mais ou menos nessa data. Teve também o Volume Morto 2, que foi a primeira tentativa, juntamente com uma porção de amigos, de fazer uma publicação pelo esquema do financiamento coletivo, mas não foi bem sucedida. O Volume Morto 1 foi feito a partir da realização de uma oficina pela Casa Locomotiva e é um gibi conta com 9 autores e suas histórias relacionadas à água ou à falta dela.

depois da pergunta que fala do Volume Morto

Por fim, você acha que existiria uma “função” da arte?

Pô, essa é treta, heim? Não sei bem, mas, de certa maneira, me parece que se preocupar com uma função já é uma coisa que não cabe muito à arte. Função é algo meio determinado, né? E é um fim – no caso da arte, penso que seja mais o meio, um estado. Pensando de um jeito meio “espiritual”, ela viria antes da função.

Mas é lógico que podemos aplicá-la de uma forma funcional em lugares diferentes, com objetivos diferentes, para O BEM e para O MAL. Por outro lado, a palavra arte é tão vaidosa que tentamos justificar o tempo todo como se fosse algo excêntrico, genial e mais importante que o normal… Não vejo assim. Quando penso que não precisa ter uma função para acontecer, é mais ou menos a lógica da criança quando brinca, ela faz sem se preocupar se vai servir pra alguma coisa. Depois acaba servindo. Ou não.

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