O homem que não mudou o mundo

Steve Jobs tansformou indústrias, influenciou pessoas e ganhou muito dinheiro, mas sua originalidade não foi além de computadores e telefones — no quesito trabalho, ele imitou os piores vícios do sistema

Com semanas de atraso, o Outras Palavras finalmente coloca no ar um texto sobre a morte de Steve Jobs. Deveríamos tê-lo publicado na semana seguinte ao falecimento do criador da Apple, mas as pesquisas — e uma gripe estrambólica — impediram que levássemos a cabo nosso planejamento. Mas, agora, está pronto.

A reportagem não traz nenhuma grande novidade — não diz nada que não possa ser encontrado, senão em português, certamente em inglês nos milhões de saites da internet. A ideia central do texto é: sim, Steve Jobs foi um sujeito importante, mas, ao contrário do que dizem à exaustão por aí, não mudou o mundo. Sim, sua visão empresarial transformou a tecnologia e nossa maneira de vivenciá-la, mas, fora da tela do computador ou do iPhone, as coisas não mudaram tanto desde que a Apple surgiu, nos anos 70 — e, se mudaram, não foi por causa dela.

Para sustentar a tese, buscamos informações sobre os efeitos colaterais das inovações trazidas pela empresa. E quem os sofre com mais força são os trabalhadores chineses que trabalham nas linhas de montagem da Foxconn, Wintek e outras fornecedoras da Apple instaladas no país para aproveitar o baixo custo de produção e a fragilidade dos sindicatos e direitos trabalhistas. São casos de suicídio, intoxicação química, trabalho infantil e explosões fatais dentro das fábricas, sem contar as jornadas execessivas, os baixos salários e a rotina monótona e repetitiva.

São as facetas menos conhecidas do “gênio visionário”, e dificilmente lembadas por seus admiradores, mas que a ONG Sacom, sediada em Hong Kong, conhece bem e difunde para quem quiser saber.

Outra curiosidade é a semelhança entre o design de alguns produtos da Apple desenvolvidos a partir dos anos 1990 e os produtos que a empresa alemã Braun colocou no mercado nos anos 1950 e 1960. A revista digital Gizmodo trouxe um pequeno texto dizendo como o designer da Appel, Jonathan Ive, inspirou-se em muitas formas criadas pelo projetista da Braun, Dieter Rams.

“Quando você olha para os produtos da Braun desenhados Dieter Rams — muitos deles no MoMA de Nova York — e os compara com o trabalho de Ive na Apple, você pode claramente ver as semelhanças na filosofia de ambos sobre o uso das cores, a seleção dos materiais e como os produtos são projetados a partir de suas funções, sem artificialidades, mantendo o design ‘honesto'”, diz a revista.

Cabe lembrar também que Steve Jobs — e a Apple — muitas vezes é lembrado por uma invenção que não teve: o mouse e a interface gráfica. O empresário já era milionário quando visitou o centro de pesquisas da Xerox, na cidade californiana de Palo Alto, e se deparou com um computador experimental chamado Alto. O protótipo se diferenciava das demais invenções disponíveis no mercado porque era controlado por um mouse — e também porque foi um dos primeiros a empregar a hoje imprescindível interface gráfica. Ou seja, usava imagens para facilitar a navegação do usuário. Até então, manipular a máquina exigia disposição e conhecimento específico para encarar uma tela preta que só respondia a comandos complexos.

“Lembro-me de ter observado a interface gráfica durante dez minutos, simplesmente sabendo que, um dia, todos os computadores funcionariam assim”, disse Jobs, em 1995, durante uma sessão de história oral do Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos. “Depois de ver aquilo, era tão óbvio. Não precisava ter um tremendo intelecto. Era tudo muito claro.” —@tadeubreda

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3 comentários para "O homem que não mudou o mundo"

  1. Atimoda disse:

    Bom, se ele não tivesse “copiado” a idéia da interface gráfica, melhorado-a ao ponto de difundir-se para bilhões de pessoas, você talvez não estaria hoje aqui escrevendo este artigo numa interface gráfica entendível, numa internet que também é fruto dessa interface gráfica e das investidas dele em comunicação (ele também não inventou a internet, apenas foi um dos primeiros a perceber e difundir o potencial que ela teria de mudar a comunicação do mundo).
    Mas os trabalhadores chineses ainda estariam lá, se matando dentro de indústrias que são contratadas por outras indústrias que também tem trabalhadores que se matam (em menor escala) em países desenvolvidos, dentro de um sistema inteiro onde todos estamos inseridos (para o qual você também colabora diariamente).
    Devemos então valorizar apenas os rebeldes, dispostos a não morrer, e sim a matar pela morte do sistema!
    Acho sim que podemos agradecer ao Stevie pela colaboração em ter percebido, formatado e difundido novas maneiras da informação ser gerada e circulada no mundo, mesmo que tenha sido às custas do sistema e dos pobres trabalhadores chineses que se matam dentro de indústrias pra fazer iPads e PCs (que você provavelmente também está usando agora), pois só agora temos meios para falar e discutir sobre coisas que antes sequer sabíamos que existiam, inclusive estes trabalhadores chineses.
    Agora que temos uma interface gráfica utilizável e uma internet que comunica, vamos agradecer esses caras que possibilitaram isso e discutir as novas mudanças…
    Meus dois centavos.
    Um abraço 😉

  2. Paulo disse:

    Steve Jobs e outros de sua geração sem dúvida contribuíram muito para facilitar a comunicação. Não se pode negar sua genialidade, mesmo que inserida e a serviço do ‘sistema’. Mas, graças a eles as redes sociais se converteram em meios ágeis para ajudar a reagir e tentar evitar simples reformas e provocar mudanças mais qualitativas na vida humana. A sociedade não pode continuar sendo um subproduto da economia !
    Talvez seja mais preocupante a dependência (vício?) dos nossos jovens com relação a essas maquininhas fantásticas. Saberiam/conseguiriam viver sem elas? Essa dependência pode tornar-se um calcanhar de Aquiles das novas gerações cada vez mais manipuláveis/manipuladoras.
    Isso tudo me leva a pensar naqueles seres chamados “Borgs”, criação do genial Gene Rodenberry, na séria Jornada nas Estrelas. Será que as novas gerações serão seres bioeletromecânicos (quase) sem emoção ?
    Bem, … o futuro dirá !

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