No incrível traço de Fefê Torquato, a complexidade de bichos e gente

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Capa de Gata Garota (Volume 1). Por Fefê Torquato.

 

 

Com desenho raro e sacadas intrigantes, quadrinista prepara novo livro, conta como enfrentar barreiras que bloqueiam edição independente e aposta que mulheres, em breve, irromperão na literatura gráfica, ainda marcada pelo sexismo

Por Carolina Ito

Fefê Toquato é uma quadrinista de destaque no cenário nacional e autora do livro “Gata Garota” (editora Nemo, 2015), que conta a história de uma personagem meio mulher e meio gata chamada Gigi. O traço traz a sensação de leveza e precisão, o que caracteriza bem o movimento dos felinos. O contraste em preto e branco ambienta as aventuras da personagem que, por onde passa, atrai todas as atenções.

Ilustradora desde 2010, Fefê mora em Imbituba (SC) junto com 10 bichos de estimação e diz ter “uma identificação especial com os gatos”. Além das características fofinhas e sedutoras que muitos donos e admiradores conhecem, o comportamento deles pode parecer contraditório em diversas situações. E existe algo mais humano do que a contradição?

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Fragmentos de Gata Garota disponíveis em: gatagarota-hq.tumblr.com

Na entrevista, ela conta mais sobre a paixão por animais e fala de sua nova empreitada nos quadrinhos: o projeto de financiamento coletivo de “Estranhos”. O livro contará a história de moradores de um mesmo prédio que, ao serem observadas de perto, revelam comportamentos inesperados. A ideia, que lembra uma “janela indiscreta” ao estilo Hitchcock, também pode nos fazer refletir sobre as relações contemporâneas, tão influenciadas pelas redes sociais.

“Acho que pode ser uma interpretação para a história, considerando que nós vivemos numa época onde o voyeurismo é a base de todo o nosso entretenimento. A gente gosta de saber da vida do outro pelo Facebook, o que ele pensa pelo Twitter, como ele vive pelo Instagram e não importa se a realidade é maquiada, o que realmente importa é como a gente interpreta o que vê”, comenta Fefê. Para ela, enquanto tentamos viver nessa espécie de filme de nós mesmos, a vida “real” acaba se tornando cada vez mais hostil.

E a vida real para muitas mulheres quadrinistas ainda é cheia de barreiras em relação à credibilidade, oportunidades e reconhecimento. Mas isso vem mudando e Fefê indica um cenário possível: “não é absurdo afirmar que num futuro próximo nós seremos maioria, tanto como criadoras, autoras e leitoras”.

Quando começou a fazer quadrinhos?

Logo que comecei a trabalhar com ilustração, em 2010/2011. Eu não lia quadrinhos desde quando era criança e não sabia que dava pra fazer quadrinhos pra adultos (imagine só!). E foram as webcomics que me mostraram isso. Outra coisa que eu não sabia, era que quadrinhos não precisavam ser só engraçados, que eles podiam falar sobre a vida, o dia a dia, podiam funcionar como uma forma de comunicação e expressão. E foi aí que o negócio me pegou.

Quais são suas referências de autores(as) de quadrinhos?

Eu gosto de muitos autores e ilustradores, então fica difícil citar todos. Mas alguns deles são Ryan Andrews, Kate Beaton, Emily Carroll, Jane Mai, Seo Kim, Grant Snider, Roman Muradov, Michael Cho, Bianca Pinheiro, LoveLove6, Rebeca Prado, Morgana Mastrianni, Fernanda Nia, e muitos e muitos outros mais que eu admiro bastante.

Como é a rotina de trabalho? E o processo criativo?

Eu tento to-do-dia organizar a minha rotina de trabalho e ser mais “saudável”, digamos assim. Mas é muito  difícil! Trabalho em casa, e moro com dez bichos de estimação, entre gatos e cachorros, então pense numa bagunça! Basicamente, eu trabalho quando posso e isso, em geral, é de noite e de madrugada e em cima do prazo. Eu trabalho, desesperadamente com lágrimas nos olhos, mas bem sob pressão.

fefetorquatoO cenário dos quadrinhos ainda é dominado pelos homens? Como você enxerga a atuação e reconhecimento de mulheres atualmente?

Sim, ainda é dominado por homens, mas não no que diz respeito à produção. As desculpas esfarrapadas de que “não existem tantas mulheres quadrinistas quanto homens” ou que “as mulheres se interessam menos por quadrinhos, portanto, existem em menor quantidade e por isso se destacam menos” não são mais engolidas. A produção e inciativas que envolvem quadrinhos feitos e organizados por mulheres são bastante significativas e crescem a cada dia. Não é absurdo afirmar que num futuro próximo nós seremos maioria, tanto como criadoras, autoras e leitoras. Mas os homens ainda controlam o meio, nas editoras, nas premiações, na mídia, nas feiras e festivais. E existe um pequeníssimo grupo de uma ou duas quadrinistas/cartunistas “aceitas” nessa panelinha masculina, que tem alguma abertura no meio, sendo sempre chamadas para preencher “a cota da representatividade feminina”. Mas, mesmo assim, elas não têm 10% do prestígio que eles desfrutam entre editoras e impressos.

Você é apaixonada por gatos, certo? Por quê? Eles têm algo a nos ensinar?

Eu amo bichos em geral, a questão é que, até eu adotar meu primeiro cachorro, a Mel, eu morria de medo deles! Então, até pouco tempo atrás, eu só convivia com gatos. E eu convivo com eles desde que nasci, porque a minha mãe e irmãs também amam os animais. Mas eu confesso que sinto uma identificação especial com os gatos. Eles gostam de atenção, mas precisam de espaço. Eu também. Eles gostam do silêncio. Eu também. Eles são calmos. Eu… sou nervosa, o que é perfeito porque eles me acalmam. Eles vivem no ritmo deles, e tão se lixando pro que o mundo pensa sobre isso, eles não precisam agradar ninguém. O que significa que, quando eles demonstram carinho, é porque eles querem e porque gostam de você genuinamente. Mas eles não levam desaforo pra casa. Se você ultrapassa os limites (o que eu faço sempre) eles vão fazer você pagar, às vezes, com sangue. Eu amo os gatos, mas também amo todos os animais, porque eles são 100% coerentes e confiáveis. Pra quantos humanos eu posso afirmar o mesmo?

Gata Garota é uma graphic novel (HQ publicada em formato de livro) vendida em grandes livrarias. O que muda de um trabalho totalmente independente para outro que seja mediado por editora?

Em primeiro lugar, crédito. Do público, de meios de comunicação e até dos parentes! As pessoas param pra prestar mais atenção quando uma editora intermedia o seu trabalho. O seu nome ganha mais peso e respeito automaticamente. A editora quer vender o seu livro, então ela divulga, espalha e projeta o seu trabalho, e te põe em feiras e festivais que de outra forma você não teria acesso. Então, é incrível por esse lado. Por outro lado, você recebe uma pequena porcentagem do valor do seu livro, porque, pra produzir, divulgar e distribuir, muita gente é envolvida e precisa ser paga. Enquanto que produzir independentemente é… bem eu não sei ainda com certeza, já que a minha campanha no Catarse ainda não fechou… Pra quem não tem a grana como eu, é necessário recorrer aos sites de financiamento coletivo, e daí é uma luta desgastante. Você precisa se desdobrar entre ser marketeiro, social midia mananger, vendedor, diretor financeiro, distribuidor e se ainda sobrar energia, criar, escrever, diagramar e ilustrar os quadrinhos. Isso tudo enquanto você mantém o seu trabalho ainda, que é aquele de fato paga as contas – ou se for freelancer, quase paga. Mas, uma vez tendo o livro impresso nas mãos, o lucro será só seu, como o trabalho todo foi só seu. Então, não importa qual caminho você siga, pra fazer quadrinhos no Brasil é preciso ter muito amor pelo trabalho.

Como surgiu a ideia da HQ “Estranhos”? Por que optou pelo financiamento coletivo?

Eu escrevi uns contos anos atrás, antes mesmo de começar a fazer quadrinhos. Relendo esse ano achei que dariam boas HQs. Pensei numa forma de uni-los numa história só. Eram histórias estranhas sobre pessoas normais, então, tive a ideia de colocá-las todas num mesmo prédio, como se fossem vizinhos. Mas, como as histórias estão em terceira pessoa, achei interessante continuar dessa forma e criar um novo personagem, dessa vez oculto, que é quem narra (ou inventa) e observa tudo, interpretando o que vê de maneira única. Como eu pensei nesse livro na última hora, não deu tempo de acrescentá-lo no calendário da [editora] Nemo este ano. Eu queria muito lançá-lo no FIQ, então, apesar de ter sempre temido muito os financiamentos coletivos (e agora eu entendo o porquê), resolvi me arriscar!

O próprio nome da HQ e a sinopse sugerem que as pessoas não se conhecem, mesmo sendo vizinhas. Você vê isso como um problema contemporâneo? Por que estamos cada vez mais distantes?                                       

Na verdade HQ lida com a estranheza individual de cada personagem, quando observados de perto, mais do que com o fato deles não se conhecerem entre si. Mas acho que pode ser uma interpretação para a história, considerando que nós vivemos numa época onde o voyeurismo é a base de todo o nosso entretenimento. A gente gosta de saber da vida do outro pelo Facebook, o que ele pensa pelo Twitter, como ele vive pelo Instagram e não importa se a realidade é maquiada, o que realmente importa é como a gente interpreta o que vê. E é uma época muito contraditória, já que, ao mesmo tempo que nós adoramos nos observar uns aos outros online, nós tentamos ao máximo nos ignorar na vida real. É como se agora, finalmente, todos nós pudéssemos viver a vida como um filme e editar toda a parte chata e feia deixando só os momentos memoráveis. Quantas pessoas já não pararam pra ver as próprias fotos no Instagram e a própria timeline do Facebook pensando, inconsciente ou até inconscientemente, “como a minha vida é legal” ou “como eu sou legal.” E é por esse motivo que nós não queremos ser confrontados na vida real, isso significaria encarar a vida real. Por outro lado, eu não diria que nós estamos mais distantes. Talvez estejamos mais distantes dos nossos vizinhos sim, mas acho que ficamos mais próximos das pessoas com quem a gente se identifica de verdade.

Veja o teaser da HQ Estranhos:

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