No Brasil exuberante, as marcas da maldade

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Parque Nacional do Iguaçu, PR, Julho de 1974. O Parque abriga as Cataratas do Iguaçu, uma das Novas Sete Maravilhas da Natureza, e tem uma das maiores e mais importantes áreas de Mata Atlântica do país. Ali aconteceu a Chacina do Parque Nacional do Iguaçu: a execução de seis militantes ligados à Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, liderados pelo ex-sargento Onofre Pinto. O grupo tentava voltar ao Brasil, vindo da Argentina, após o golpe militar chileno em 1973.

Em exposição provocadora, fotógrafo relaciona os grandes cartões postais do país à violência cometida pela ditadura pós-64. Acabou? Pergunte aos Amarildos

Por Patricia Cornils

EXPOSIÇÃO: “POSTCARDS FROM BRAZIL — CICATRIZES NA PAISAGEM”

Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Av. Paulo Gama, 110 – Farroupilha, Porto Alegre-RS (mapa)

Até 15 de julho

“Aqui é o Paraíso!”, dizem as pessoas sobre lugares onde a natureza parece sugerir possibilidades de outra vida. “Nossos bosques têm mais vida”, diz o Hino Nacional brasileiro, reiterando a ideia do país como o Paraíso na Terra. Mas nada, nem a natureza e muito menos um hino, é em si toda a verdade, como mostra o fotógrafo Gilvan Barreto. Sem esconder a beleza de lugares como o Parque Nacional do Iguaçu, o Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Ceará, Goiás, e região do Araguaia, divisa dos estados do Pará, Goiás e Maranhão, Gilvan nos devolve outra parte da verdade do Paraíso: a da expulsão, da espada de fogo, da morte.

Postcards from Brasil – Cicatrizes na Paisagem é uma mostra de cartões postais cedidos pela Embratur e por outros órgãos oficiais de turismo, baseada no relatório da Comissão Nacional da Verdade. São fotografias de lugares onde pessoas foram torturadas, assassinadas e “desaparecidas” por agentes do Estado brasileiro durante Ditadura Militar. Lugares belos.

No Parque Nacional do Iguaçu, seis exilados foram mortos a tiro de fuzil quando tentavam voltar ao Brasil e seus corpos podem ter sido enterrados ali, clandestinamente.

No mar em frente à cidade do Rio de Janeiro a Aeronáutica jogou, de aviões P-16 que decolavam da Base Aérea de Santa Cruz, corpos de militantes assassinados, para que nunca mais fossem encotrados. Os voos da morte também foram feitos no Araguaia. Na Granja São Bento foram executadas seis pessoas, entre elas Soledad Barett Viedma, grávida do agente duplo José Anselmo dos Santos. Da Casa da Morte, em Petrópolis, somente uma vítima saiu com vida. Para cada morte e desaparecimento, um buraco na fotografia. Uma cicatriz. E uma lembrança: neste momento, em centenas de “paraísos” do Brasil, homens e mulheres lutam para que a natureza dos lugares não seja também a natureza dos massacres. É preciso resistir.

A exposição “Postcards from Brazil – Cicatrizes na Paisagem” foi lançada na 9ª edição do FestFoto – Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, que aconteceu de 10 a 14 de maio, na capital gaúcha. A exposição está aberta ao público, em frente à Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), até o dia 15 de julho.

A mostra é resultado de uma pesquisa realizada pelo autor há cerca de dois anos, com consultoria do pesquisador e fotógrafo André Vilaron, um dos redatores do relatório da Comissão Nacional da Verdade. A curadoria é de Carlos Carvalho, fotógrafo e diretor do FestFoto. E trabalho continua, porque o Paraíso não é aqui. “Essas cicatrizes não foram curadas, tanto é que está tudo acontecendo novamente. No Rio de Janeiro ‘pacificado’, os crimes de assassinato caíram muito, mas, coincidentemente, o número de desaparecidos cresceu muito também. Vejam o Amarildo.” Nenhum torturador daditadura foi punido, observa Gilvan, e estão vivas e atuantes as mesmas forças que quebraram o país e que mataram os militantes de esquerda. Nossos símbolos nacionais ainda são inspirados na natureza – e na morte. “O gigante da américa do sul é selvagem. Golpista por natureza”, lamenta ele.

Leia aqui uma entrevista de Gilvan Barreto ao Sul 21.

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Gilvan Barreto, fotógrafo

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Rio de Janeiro — Vôos da Morte: Assim como na Argentina, os militares teriam jogado corpos de opositores no mar. “Recebi a missão para resolver o problema, que não seria enterrar de novo. Procuramos até que se achou [o corpo], levou algum tempo. Foi um sufoco para achar. Aí seguiu o destino normal.”

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Lamarca e a Baraúna. Sertão baiano Por volta de 16h30 do dia 17 de setembro de 1971, os agentes da Operação Pajussara finalmente localizaram Lamarca e Zequinha Barreto. Lamarca descansava embaixo de uma baraúna. Foi cercado e alvejado em diversas direções, inclusive pelas costas, executado pela equipe do major Nilton Cerqueira. No laudo original, Lamarca é descrito como “magro, com aspecto de subnutrido”. Os corpos de Lamarca e Zequinha chegaram a Oliveira dos Brejinhos no dia seguinte. Toda a população local desceu para a pista de pouso para acompanhar a chegada de um verdadeiro aparato de guerra. Cerca de 215 militares e policiais participaram da Operação. A Mineração Boquira, Petrobrás e TransMinas colaboraram fornecendo apoio logístico, carros e aviões. Além de Zequinha e Lamarca, a Operação executou Luiz Antônio Santa Bárbara e Otoniel Barreto, em Brotas de Macaúbas. Dias antes os agentes já tinham assassinado Iara Iavelberg, em Salvador.

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Usina Cambahyba, Campos dos Goytacazes, RJ, 1974. Pelo menos 10 corpos de presos foram incinerados nos fornos da Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, RJ, que pertencia a Hely Ribeiro Gomes, ex-vice-governador do Rio de Janeiro. O local está em ruínas e hoje é ocupado por integrantes do MST. Em depoimento à CNV, o ex-delegado Cláudio Guerra afirmou que os corpos eram oriundos da Casa da Morte, em Petrópolis, e do quartel da PE, na rua Barão de Mesquita (RJ). O ex-delegado afirmou ter sido responsável pelo transporte dos corpos, e descreveu que encostava o carro no portão da Casa da Morte e os corpos eram entregues pelo coronel Freddie Perdigão, codinome ‘Doutor Flávio’. “Era entregue ensacado. Eu abria por curiosidade. Eu abria.”

 

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3 comentários para "No Brasil exuberante, as marcas da maldade"

  1. Filipe disse:

    Obrigado por falar sobre isso.

  2. João Evangelista disse:

    E ainda há os “não humanos” pedindo ditadura militar e apoiando esta ditadura jurídico-midiática.

  3. josé mário ferraz disse:

    A humanidade está ainda a anos luz da civilização. As atrocidades são uma constante na vida humana, e tudo em função de riqueza. O lado espiritual da vida restringe-se a frequentar igrejas onde a irmandade pregada acaba junto com a reunião. Nem podia ser de outra forma porque ao deixar o peito da mãe a criança entra no aprendizado de matar e destruir a fim de não ver nada de anormal quando os lacaios da economia se referem a seres humanos como material humano.

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