E se outro jornalismo for viável?

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Campanha de financiamento autônomo de Outras Palavras começa veloz. Novas parcerias com produtores culturais ampliam contrapartidas a quem contribui. Em meio à crise da velha mídia, parece haver esperanças

Por Antonio Martins, editor de Outras Palavras

Escrever sobre a hipótese teórica de um novo jornalismo é mobilizador – mas viver concretamente esta possibilidade é incomparável. Em sua primeira semana, os resultados da campanha para assegurar a existência e ampliação de Outras Palavras em 2016 superaram largamente nossas previsões. Entre 20 e 27 de janeiro, 159 leitores somaram-se ao programa Outros Quinhentos. Sua participação projeta entrada, ao longo do ano, de R$ 29,4 mil, e sugere que poderemos alcançar ou mesmo superar a meta fixada. Além disso, novas parcerias com produtores culturais permitem ampliar, agora, as contrapartidas a quem nos apoia. Os resultados são ainda mais expressivos porque contrastam com a crise aguda vivida pela velha mídia brasileira – apesar da farta publicidade corporativa e das benesses incessantes do governo federal.

Este ano, o programa de financiamento autônomo de Outras Palavras precisa arrecadar R$ 210 mil. O valor corresponde a 85,8% de nosso orçamento, que é público. Aberta em 20/1, a fase final do esforço estende-se até os feriados da Páscoa. Em dez semanas, precisávamos arrecadar R$ 161,7 mil. Os R$ 29,4 mil dos primeiros sete dias correspondem a 18,2% deste valor. Faltam, agora, R$ 132,3 mil. Um número expressivo (e crescente) de leitores compreende a necessidade de apoiar voluntariamente um trabalho que fazemos questão de oferecer sem catracas.


Outros Quinhentos retribui este apoio, graças a um sistema inovador de anúncios não-mercantis. Abrimos o espaço publicitário do site para produtores culturais e da Economia Solidária. Nada cobramos, em dinheiro. Mas estabelecemos contrapartidas em produtos e serviços, compartilhadas com quem participa de nossa sustentação.

Há boas notícias também nesta frente. Na última semana, ampliamos nossas parcerias com a Fundação Rosa Luxemburgo, o restaurante Soteropolitano (São Paulo) e a Editora Perseu Abramo. Poderemos oferecer, aos novos participantes de Outros Quinhentos, um acervo mais amplo de livros-bônus. Entre os novos títulos, estão Indígenas no Brasil, de Gustavo Venturi (org.), O negócio do michê (de Néstor Perlongher), Diálogos da perplexidade – Reflexões críticas sobre a mídia (de Bernardo Kucinski e Venício Lima) e Livos contra a ditadura – Editoras de oposição no Brasil, 1964-84 (de Flamarion Maués). A lista completa inclui mais de vinte obras.

Já a nova parceria com o Soteropolitano oferece, a [email protected] @s que contribuem com a R$ 60 mensais ou mais, um desconto de até R$ 100, num restaurante que oferece, em São Paulo, culinária baiana muito refinada e é, além disso, um espaço cultural aberto para música, poesia e artes visuais.

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Transformar a sociedade exige pensar, também, novas formas de produzir e novos circuitos para a distribuição dos produtos. Em tempos de crise, Outros Quinhentos quer explorar as possibilidades do não-mercantil, do gratuito e da reciprocidade. Novas parcerias virão – e você pode sugeri-las. Elas sinalizam ser possível estruturar as relações sociais com base em outros valores: compartilhar, em vez de acumular; priorizar os direitos, ao invés do lucro; colaborar, no lugar de apenas competir. E não se trata apenas de um projeto futuro. A ideia de pós-capitalismo, que Outras Palavras sustenta, sugere que o novo se constrói, e disputa espaço, desde agora, quando ainda estamos sob hegemonia do mercantil.

Novo jornalismo, novas formas de produzir, outro mundo possível. Estamos conscientes: são projetos muitíssimo maiores que nossas forças. Mas vivemos um impasse civilizatório. Como sustenta Immanuel Wallerstein – cujos textos traduzimos e publicamos com frequência – não há saídas heroicas: ele será rompido, para bem ou para mal, por uma miríade de pequenos gestos e atitudes. Estamos criando os nossos…

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