Internação compulsória em debate

Movimentos discutem se as medidas do governo contra a “epidemia de crack” prezam pela saúde dos moradores de rua ou pela higienização das cidades

O “enfrentamento ao crack”, como se uma substância — e não processos históricos de desigualdade e opressão — fosse responsável pelos complexos problemas sociais dos moradores de rua brasileiros, vem sendo uma das bandeiras do governo Dilma. Nesta quarta-feira, a presidente — acompanhada dos ministros da Justiça e da Saúde — lançou novo programa sobre o tema, no qual boas iniciativas como os consultórios de rua convivem com o apoio às majoritariamente nefastas comunidades terapêuticas e com o fantasma cada vez mais concreto da internação compulsória de menores.

Felizmente, a reação a esta saída higienista, segregadora, preconceituosa, regressora das conquistas do movimento antimanicomial e, além de tudo, ineficaz — Bruno Gomes, da ONG É de lei, lembrou, também nesta quarta, que entre 95% e 98% das pessoas internadas compulsoriamente têm recaídas — tem crescido entre os defensores dos direitos humanos e de políticas de saúde marcadas pelo respeito aos direitos do cidadão.

Neste sentido, sexta-feira, dia 9, está sendo convocado o Dia Nacional contra o recolhimento compulsório de crianças, adolescentes e adultos em situação de rua, uma vez que claramente a iniciativa está sendo testada nos “menores” com vistas a uma política mais ampla de contenção e segregação social.

Antenados aos verdadeiros interesses por trás das bonitas (e vazias) palavras da presidente Dilma e sua trupe, os movimentos participantes dessa mobiização se manifestarão nas doze cidades-sede da Copa do Mundo no Brasil, buscando discutir com as pessoas se o que está em jogo é a saúde dos moradores de rua ou os interesses econômicos envolvidos neste megaevento.

Em São Paulo, o ato será às 10h, em frente à Prefeitura Municipal (Viaduto do Chá). Mais informações sobre as outras cidades no link acima.

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4 comentários para "Internação compulsória em debate"

  1. Raul disse:

    Julio,
    Só faço uma observação: no campo da defesa de direitos da infância e juventude não se usa o termo “menores”, muito comum na linguagem jurídica tradicional, mas sim crianças e adolescentes, já que o termo “menor” remete a estigmatização e a uma visão preconceituosa dessas pessoas.
    Abraços
    Raul

  2. carmen disse:

    O que fazer nestes casos então? Deixar como está? A internação compulsoria não é a saida ? e não é algo magico, que dá “todas” as respostas. Consultorio de rua não é a saida?
    Acredito que não é todos que se “enquadram” em uma unica forma de tratamento. Então quanto maior as alternativas, mas possibilidades existirão. Pode não servir para um, mas pode ser eficaz a outro.

  3. Paulo disse:

    Só recentemente questões como regulamentação do uso de drogas e coisas do tipo entraram na pauta de debates. Não será fácil encontrar saídas, no plural mesmo, já que certamente não se poderá aplicar a mesma medida para [email protected] A política de redução de danos já seria um bom começo.

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