Eu avisei!, dizem Ciências Humanas sobre crise nos transportes

Caminhões fecham a Rodovia Régis Bittencourt, em São Paulo, 25 de maio

Ao contrário da maioria da população, pesquisadores já sabiam quanto poder o petróleo tem, nas condições atuais, sobre funcionamento da vida cotidiana

Por Antonio Gomes

A pesquisa acadêmica é, para nós das Ciências Humanas, um trabalho muitas vezes ingrato.

Não importa o quanto nos dediquemos, passando horas a fio queimando os miolos em uma biblioteca, discutindo interminavelmente nos grupos de estudo ou pensando em nossos temas de pesquisa no travesseiro antes de dormir: invariavelmente, somos questionados (inclusive por nós mesmos) sobre o sentido de passar anos vivendo de parcas bolsas para escrever um trabalho que possivelmente vá ficar “empoeirando em uma prateleira de biblioteca sem que quase ninguém o leia”.

Mais do que isso, somos acusados de “viver às custas do governo”, “torrando” dinheiro público em pesquisas “sem utilidade alguma” enquanto faltam remédios nos hospitais e livros nas escolas, e também nos acusam de viver em um mundo de fantasias, de teorias e conjecturas que “só existem em nossas cabeças”, enquanto a suposta “realidade” da vida prática seria mais simples e menos “metida a besta”.

Contudo, para alguém que se enquadra em todas as descrições acima, é um pouco contraditória a sensação neste momento em que o Brasil está praticamente suspenso por uma greve de caminhoneiros como não se via há pelos menos duas décadas, numa situação bem palpável e visível aos olhos de todos os cidadãos minimamente envolvidos na vida social do país.

Contraditória, pois, se por um lado é terrível ver o caos anunciado que vai se instalando, por outro há uma ponta de trágica satisfação ao acompanhar todo o desenrolar dos fatos e falar, abaixando a cabeça e olhando para o lado, a frase que ninguém gosta de ouvir em meio a uma crise: eu avisei!

Quando alguém das Ciências Humanas vem à mídia e fala que o petróleo da Petrobrás é questão de soberania nacional, confesso que até para mim soava como algo indecifrável, praticamente intangível, mas eu repetia a afirmação quase numa profissão de fé.

Mas quando a Petrobrás deixa de proteger a estabilidade do preço dos combustíveis e o Brasil todo percebe, assustado, que é movido a derivados do petróleo, apenas me convenço mais de que a pesquisa em Ciências Humanas tem um chão, um substrato material, um viés prático que apenas é pouco visível inclusive para nós pesquisadores.

Do mesmo modo, se Marx dedicou um livro inteiro de seu famigerado Capital à circulação, e se nós geógrafos dedicamos uma linha de pesquisa inteira a ela, não é apenas porque detestamos o capitalismo ou queremos aproveitar para fazer umas viagens de campo.

Se fazemos isso, é porque percebemos que há um nó por aí, há alguma coisa nesta história de circulação que é crucial para a vida em sociedade, sobretudo em um território tão vasto como o brasileiro, como os caminhoneiros fizeram questão de escancarar esta semana.

Se recorremos à História para entender como se deu a construção do sistema de transportes no Brasil, predominantemente rodoviário e dependente de combustíveis fósseis (inclusive no transporte fluvial e aéreo), não é porque queremos ver 200 milhões de bicicletas rodando pelo país, ou queimar na fogueira os donos das montadoras estrangeiras de automóveis.

Fazemos isso pois, de alguma maneira inexplicável, percebemos o tamanho do problema, e queremos, recorrendo à memória do que já aconteceu no Brasil e no mundo, evitar que situações à beira da catástrofe como a desta semana ocorram, não por algum messianismo ou síndrome de salvador da pátria, mas apenas para que nossa difícil vida em sociedade seja minimamente viável.

E eu não poderia deixar de mencionar, quando um colega e professor está prestes a lançar, após anos de preparação, um livro de fôlego oriundo de seu doutorado em Geografia Humana sobre o transporte rodoviário de cargas no Brasil, não é porque ele está atrás de status, louros, ou de enriquecer com a venda de um best-seller.

Mais do que tudo, ele está, como é possível ver desde a epígrafe, preocupado com este frágil equilíbrio da economia brasileira, assentado em um exército de caminhoneiros que trabalham em condições muitas vezes lastimáveis, e que apesar de tudo isso ainda conseguem colocar o Brasil pra funcionar diariamente, desde o macarrão que chega na sua dispensa até os contêineres que vão cruzar os oceanos para enriquecer seletos empresários dos países europeus.

Assim, e eu poderia ficar horas dando exemplos de pesquisas “inúteis” que vislumbraram (e até apontaram saídas para) problemas homéricos, quando pregamos no deserto contra os cortes de verbas para a pesquisa científica, ou quando ficamos putos com a fusão do Ministério da Ciência com outras áreas também importantes, não é porque nos alinhamos com o partido A ou B, ou estamos com medo de perder nosso ganha-pão (sendo que este último já seria dignamente suficiente para nos mobilizar).

Ficamos enfurecidos, pois temos a dimensão da importância do que fazemos, por mais que nosso trabalho pareça sempre envolto por uma neblina meio intransponível.

Não, nas Ciências Humanas não fazemos nada muito parecido com o que fazem as mais bem aceitas Ciências Exatas, Naturais ou Biológicas (termos questionáveis, a propósito).

Não provamos nada cabalmente, não resolvemos equações insolúveis nem fazemos demasiadas contas, e não elaboramos leis fundamentais, por mais que vez ou outra até tentemos.

Apenas argumentamos, após muito esforço de análise e síntese, de acordo com o que outros já argumentaram antes, ajudados por alguns dados e outros recursos igualmente importantes.

Mas o que fazemos também é ciência, e também pode contribuir para a construção de uma sociedade um pouco melhor, se não pelo desenvolvimento de alguma tecnologia de ponta ou por alguma descoberta inovadora, pela capacidade de apontar a raiz de problemas sociais (humanos) estruturais, que invariavelmente agravam a desigualdade que vemos crescer dramaticamente ano após ano.

Se você foi pegx de surpresa com o alcance da greve dos caminhoneiros, ou não imaginava o quanto o petróleo, a circulação e os caminhoneiros tinham poder sobre o funcionamento da sua vida cotidiana, sugiro que faça uma visita a alguma dessas velhas bibliotecas universitárias ou acesse algum repositório de trabalhos científicos disponíveis (infelizmente nem sempre a qualquer um) na internet.

Garanto que você encontrará, em várias áreas das Ciências Humanas, ótimas pesquisas sobre cada detalhe dessa crise do momento, que se não elaboram nenhuma fórmula mágica nas suas considerações finais, trazem contribuições importantes para a discussão, e apesar da aparente distância do “mundo real”, bem poderiam ser mais levadas em consideração na hora de “colocar a mão na massa”, nas políticas e práticas sociais.

TEXTO-FIM

3 ideias sobre “Eu avisei!, dizem Ciências Humanas sobre crise nos transportes

  1. O comentário é perfeito, embora, para um velho professor de Sociologia, aposentado, ainda me pareça um lamento pelo não reconhecimento de um status que não nos é concedido. A descoberta do Caos e a superação da certeza pela probabilidade ainda não foram suficientes para curar nosso complexo acadêmico de vira-latas. Retire as queixas e acuse a cegueira humana, e vá em frente.

  2. Li seu texto com muita satisfação. E como futura geógrafa entendo muito bem do que você fala sobre os cortes de bolsas, e principalmente sobre o sentimento que os outros têm sobre nossos trabalhos de campo.
    E digo mais: não somente nos baseamos no que já foi feito, nossos trabalhos de campo e entrevistas são para nos fazer emergir na realidade com outros olhos, e refletir sobre o agora.

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