Europa em crise (IV): os Bancos Centrais e a oligarquia financeira

No intervalo de apenas duas semanas, o Banco Central Europeu adotou atitudes opostas diante de problemas semelhantes. Veja por que esta assimetria é reveladora

Todos os bancos centrais procuram apresentar-se como órgãos “neutros”. O pensamento econômico ortodoxo sustenta, aliás, que, para poderem proteger as moedas com eficácia, os BCs devem ser “preservados” inclusive da “interferência” de governantes eleitos. Neste caso, a técnica é vista como mais importante que a democracia. Mas… que fazer quando se revela a parcialidade e a interferência política destas instituições supostamente tão soberbas?

É o que está ocorrendo neste exato momento na Europa, diante dos olhos de todos. Na manhã de hoje, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um conjunto de medidas que beneficiam as instituições financeiras privadas. Suspeita-se que as decisões tenham sido tomadas em regime de urgência, para evitar um incidente devastador — por exemplo, a quebra de um grande banco europeu, capaz de se propagar rapidamente na forma de falências em cadeia.

São três as principais novidades anunciadas:

a) o BCE reduziu ainda mais a taxa de juros, nos empréstimos aos bancos. Ela caiu de 1,25% para 1% ao ano. Conforme lembra Ignacio Ramonet, as instituições financeiras podem tomar euros do BCE, a esta taxa muito rebaixada, e emprestar imediatamente a países como Espanha e Itália, cobrando algo em torno de 7%. Como os volumes são imensos, os ganhos são fabulosos;

b) uma nova linha de crédito, com prazo de três anos para pagamento, será aberta pelo BCE em favor dos bancos europeus. Especula-se que a medida é necessária porque alguns deles estão precisando desesperadamente de dinheiro;

c) para obter estes empréstimos, os bancos não precisarão mais oferecer garantias sólidas. O BCE anunciou que aceitará um leque muito maior de papéis, inclusive hipotecários, considerados de difícil cobrança e muito desvalorizados, nas próprias transações entre os bancos. Em outras palavras, o BCE aceita assumir grandes prejuízos das instituições financeiras privadas.

Mesmo antes de decretadas condições tão confortáveis, os bancos já vinham recorrendo pesadamente à generosidade do BCE. Só entre 30 de novembro e ontem, informa The Economist, eles tomaram emprestados 50,7 bilhões de euros. Aqui, aparece a primeira grande assimetria. Em conjunto com a União Europeia (UE), o banco central tem se negado, sistematicamente, a apoiar os países em dificuldades. O caso mais clássico é a Grécia. Cada parcela de 8 bilhões de euros do empréstimo prometido ao país é negociada, às vezes, ao longo de meses. UE e BCE impõem condições: definem que empresas públicas gregas devem ser privatizadas, e que direitos sociais serão extintos. O governo e o parlamento acatam, humilhados.

O BCE também poderia ajudar Espanha e Itália, que ainda não se submeteram tão profundamente quanto a Grécia. Estes países enfrentam dificuldades para rolar sua dívida junto aos credores privados. São obrigados a pagar taxas de juros cada vez mais altas. Para socorrê-los, bastaria que o BCE comprasse os papéis esnobados pela finança privada. Nada: ainda hoje, o presidente do banco, Mario Draghi, voltou a afirmar que a hipótese de uma compra relevante está fora de cogitação.

Qual a lógica de tal discrepância? Por que o BCE empresta dezenas de bilhões de euros aos bancos, cobrando 1% ao ano e aceitando títulos podres como garantia; e não pode fazer o mesmo em favor da Itália e Espanha, que são há décadas pagadores confiáveis?

Em tempos de crise, não é difícil encontrar certas respostas. Ao cobrir uma reunião entre Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, na última segunda-feira (5/12), o correspondente do Financial Times em Frankfurt escreveu: “O BCE diminuiu ainda mais o ritmo de sua compra de bônus [emitidos pelos governos]. As operações nos últimos sete dias totalizaram € 3,7 bilhões (…) Na semana passada, o BCE estava tentando manter o máximo de pressão sobre os políticos”.

A frase desmascara a suposta neutralidade e parece dar razão a Patrick Viveret. Já não é possível entender a crise e a política atuais sem levar em conta o surgimento de uma “oligarquia financeira global”. Trata-se de um pequeno conjunto de instituições e executivos muito poderosos, que exercem influência cada vez maior sobre as decisões políticas dos países mais ricos e centrais. Esta casta investe cada vez mais agressivamente contra dois elementos essenciais da democracia: a diversidade de opiniões e o tempo necessário para decidir refletidamente.

Num outro texto recente, Ignacio Ramonet alerta: esta investida pode ser o prenúncio de regimes que deveriam ser caracterizados como “democracias autoritárias”. Ou, numa única palavra, democraduras.

TEXTO-FIM

2 ideias sobre “Europa em crise (IV): os Bancos Centrais e a oligarquia financeira

  1. Já está na hora de os governos, em conjunto, aplicarem medidas que façam voltar ao normal a economia real e desinflar as bolhas de dinheiro falso travestidos de dinheiro real.
    No caso de uma crise em escala, a economia teria de continuar funcionando. Para isto é necessário que o governo mantenha o valor de pequenos e médios depósitos em contas do público e de empresas, até um certo limite que mantenha o sangue financeiro em circulação: o fluxo de moedas.
    No caso dos grandes títulos de dívida pública e não pública emitidos pelo banco imobiliário sênior pelos vetustos dirigentes do cassino financeiro, é inevitável que um dia seu jogo terá de apresentar perdas de seus valores virtuais.
    Seu valor na economia existe somente na imaginação de seus detentores, já que somando toda a economia real dos próximos 75 anos e utilizando-a toda para pagar estes títulos, sem ninguém comer ou gastar com mais nada é que se resgatariam estes títulos.
    JÁ PASSA DA HORA DE REGULAR-LHES O PODER, LIMITANDO-OS.
    Durante a crise de 2008 incluindo o mercado de balcão e os derivativos negociados em bolsa – seu volume foi estimado em cerca de US$ 791 trilhões, 11 vezes o tamanho da economia mundial.
    Hoje, já se fala em 75 vezes o volume da economia ou PIB do planeta os valores destes mercados somados.
    Isto indica que o suposto esvaziamento das grandes bolhas via intercapilaridade eletrônica de fundos não aconteceu. Aconteceu o pior: criaram-se novas bolhas em volume ainda muito maiores do que em 2008.
    Embora à primeira vista pareça que houve uma expressiva aceleração da economia dos países emergentes em que eles investiram, muito destes índices foram puxados pelo aumento do volume de capitais imobiliários inflados pela venda superfaturada destes imóveis via financiamento habitacional. Assim, mesmo com um pequeno aumento no volume de vendas de imóveis o valor deste pib acrescido à economia infla artificialmente seus índices já que os valores especulativos dos imóveis foram inflados até em dez vezes o que se praticava há cerca de 5 anos passados.
    Houve aumento na produção economica, inicialmente mas, até mesmo se não houvesse aumento no número de imóveis comercializados durante o ano, este apresentaria expressivo peso no aumento do PIB já que seus especulativos preços de mercado cresceram muito mais do que a inflação do período.
    Assim, podemos apresentar aumento do PIB, mesmo com a indústria apresentado cresciemnto zero no períodoaqui no Brasil, pela substituição da produção local pela dos parques fabris do Oriente.
    ASSIM, GRANDE PARTE DO AUMENTO DO PIB SE FAZ HOJE VIA AUMENTO ESPECULATIVO DOPIB DO SETOR IMOBILIÁRIO.

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