05.11.20 — EUA: A ELEIÇÃO PODE SER DECIDIDA NAS RUAS

À beira da derrota, Trump tenta melar o jogo. Em resposta, manifestantes protestam em dezenas de cidades. Quais os cinco estados capazes de definir a disputa. Como a queda da ultradireita americana poderia abir novas agendas pelo mundo

Por Antonio Martins

Arcaico e elitista, o sistema eleitoral norte-americano está mostrando, desde ontem, que é também suscetível a golpes. A derrota de Donald Trump aproxima-se e poderá ser confirmada nas próximas horas (veja a seguir em detalhes). Inconformados, o presidente e seus segudores iniciaram ações, jurídicas e de caráter miliciano, que poderiam adiar indefinidamente a proclamação dos resultados. Em resposta a elas eclodiram em diversas cidades, de forma muito rápida, manifestações pelo respeito aos votos. Elas podem ser sinal de que um provável governo Biden sofrerá também pressão das ruas – certamente necessária para evitar que repita as políticas conservadoras dos presidentes democratas que o antecedram.

Faltam a esta altura apenas 17 delegados – num total de 71, ainda em disputa – para que Joe Biden alcance maioria no Colégio Eleitoral e se torne presidente (no voto popular, ele tem quase 3 milhões de vantagem sobre Trump). Estes 71 delegados concentram-se em cinco estados. Em dois deles, o candidato democrata já lidera: Arizona (11 delegados) e Nevada (6). Além disso, Biden avança consistentemente e pode vencer em 3 estados onde a liderança ainda está com Trump: Pensilvânia (20 delegados), Georgia (16) e Carolina do Norte (15). Basta-lhe virar num destes três, ou confirmar a dianteira onde já a mantém, para derrotar a candidato da ultra-direita. Vale ver em algum detalhe cada situação.

Na Pensilvânia, parte do rust-belt – o antigo cinturão industrial hoje em declínio – a vantagem de Trump parecia firme no dia da eleição, mas caiu ontem de 700 mil para menos de 200 mil (10 pontos percentuais para 3). Há ainda cerca de 10% dos votos a contar, cerca de 1 milhão. Vêm, em maioria da maior cidade do estado, Filadélfia, onde a tendência anti-Trump é avassaladora. A tendência principal é virar.

Na Georgia, a vantagem inicial de Trump caiu ontem de 100 mil para 24 mil votos – e nesta manhã, para apenas 18 mil, ou 0,5%. Faltam poucos votos para o final – cerca de 200 mil. Mas vêm principalmente de Atlanta, maior cidade e reduto da luta negra.

É na Carolina do Norte que a dianteira do presidente parece, a esta altura, menos ameaçada. Ainda assim, ele lidera com 1,4 pontos de vantagem, mas os 5% de votos que faltam parecem estar concentrados nas áreas urbanas e que favorecem Biden.

Já no Arizona, que algumas contagens davam ontem como favas contadas em favor de Biden, sua vantagem caiu em 11 mil (é agora de 69 mil e tende a se manter). A queda deveu-se à contagem dos votos do condado de Maricopa, uma espécie de bastião conservador. O estado viveu nos últimos anos uma mudança demográfica importante. Forte migração de latinos jovens rompeu em parte o ambiente de ruralismo atrasado que o caracterizava – e permitiu a surpreendente dianteira de Biden. Maricopa é a expressão do antigo. Como o é, também, a presença de cerca de 150 manifestantes de direita, alguns armados, que cercaram local das contagens, na noite passada.

Por fim, há Nevada. Lá, a vantagem de Biden é estreita – 8 mil votos – mas o estado vota costumeiramente pelos democratas. Falta apurar 14% dos votos e um novo boletim eleitoral está prometido para esta tarde (horário de Brasília).

Os esforços de Trump para melar a eleição, que vêm de antes do pleito (ele chegou a nomear um diretor dos correios cujo papel era sabotar o voto por correspondência) assumiram ontem duas formas. O presidente pediu recontagem de votos em dois estados onde foi derrotado (Michigan e Winscosin), o que é normal e não terá maiores consequências. Mas, além disso, reivindicou, sem qualquer argumento razoável, a suspensão das apurações na Geórgia (onde está prestes a perder a maioria). E desencadeou, nesse mesmo estado, uma ação de milícia advocatícia, passando a questionar o resultado de múltiplas seções eleitorais. Caso estes pedidos sejam aceitos por juízes conservadores, o imbróglio jurídico poderá ter consequências imprevisíveis.

Porém, num eco das imensas manifestações de junho deste ano, eclodiram, ainda na noite de ontem, manifestações de jovens em dezenas de cidades – entre elas, Portland, Mineápolis, Nova York, Chicago, Filadélfia, San Diego. Foram convocadas, via internet, por movimentos como o Protect the Results. Algumas reuniram milhares de manifestantes. Exigem que se conte cada voto (count every vote), uma consigna com clara inspiração antidiscriminatória. Propõe-se a defend democracy. Em muitos cartazes, lê-se uma reivindicação de mudança maior: “o Colégio Eleitoral precisa acabar”.

Num artigo recente, ao analisar as perspectivas econômicas de um provável governo Biden, o economista Paul Krugman lembrava a oportunidade perdida por Barack Obama, há doze anos. Num ambiente de crise econômica profunda, em que a ação do Estado poderia ter revertido as políticas neoliberais, Obama acomodou-se e adotou políticas que, ao final, reforçaram o atual modelo – além de abrirem caminho par Trump. Krugman argumenta que Biden não pode cometer o mesmo erro. Precisa, ao contrário, desencadear um vastíssimo plano de investimentos públicos – no social, na infraestrutura, na conversão para uma economia verde.

Comprometido até os ossos com o grande poder econômico (e com a indústria bélica), é muito improvável que o Partido Democrata, por si mesmo, adote esta agenda. Mas em sites como os do Movimento Sunrise e dos Socialistas Democráticos dos EUA, já surgem sinais de algo pouco comum na paisagem política norte-americana. São convocações para não crer da democracia que se expressa apenas pelo voto; para exercer, já a partir da proclamação dos resultados, pressão constante sobre o novo governo. Menciona-se em especial, a luta por um Green New Deal, virada socioambiental que significaria enfrentar a devastação da natureza e o aquecimento global e, ao mesmo tempo, enfrentar com determinação inédita as desigualdades.

São, por enquanto, projetos. Mas, se antes de junho pareceriam impossíveis, agora são um elemento real, uma peça que pode se mover cenário político. Como as ruas fazem toda diferença…

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