Metamorfoses: Os mundos possíveis dentro de nós

Em pandemia, quando a casa se transforma em universo, é preciso acessar o imaginário infantil. Parte do caminho do processo de conscientização do mundo está nas relações que cultivamos em casa — e recriá-lo pode partir daí

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Este texto faz parte do acervo do ciclo de reflexões Metamorfoses, que constitui-se de oito diálogos virtuais. A autora é uma das convidadas para o evento.
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A taxa de inscrição cobrada pelo SESC é R$ 80. Participantes de Outros Quinhentos pagam R$ 40 (instruções serão enviadas por email).
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Por Karen Acioly | Imagem: Pablo Picasso, “As Crianças” (1956)

“Não duvido que os interiores tenham
outros interiores… que a visão tenha outra
visão, que a audição outra audição,
que a voz, outra voz”

Walt Whitman

Há bem pouco tempo atrás, li na internet um texto sensível, de Gregório Duvivier, em que ele relatava que todos os dias sua filhinha manifestava o desejo de ir à praia. Na ausência dessa possibilidade, por conta do confinamento, Gregório resolveu a questão brincando de praia, dentro da sala de sua casa. O tapete era o mar, assim como a areia era substituída por outro espaço ou objeto, conforme as “convenções” acordadas. A brincadeira se tornou um hábito. Sua filha se arrumava para ir à praia, munida de baldinho e outros objetos e ali ficava, feliz com seu imaginário e pai. A grande questão, no entanto, não era mais não poder ir à praia, mas o que aconteceria quando sua filha fosse de fato à praia real?

Quando li o poema Assurances de Walt Whitman, do livro Folhas da Relva, imediatamente o associei ao contexto atual e à experiência criativa de Gregório Duvivier . Mais do que nunca, sabemos que o futuro é hoje e que é preciso “transver” o mundo, como já nos dizia o poeta Manoel de Barros. Não se trata somente de sermos resilientes e, como alquimistas transformarmos pedra em ouro, mas de transformamos o triste momento em que estamos vivendo, cercado de mortes — que poderiam ter sido evitadas — por todos os lados, em ações potencialmente transformadoras, plenas de afeto, criatividade, consciência, sabedoria e acolhimento.

Esse processo de conscientização que parte da casa, para o bairro, cidade, estado, país, continente, planeta, começa, por incrível que pareça, dentro de nós e na relação com aqueles que estão mais próximos.

Gastón Bachelard dizia que o quarto e a casa representam, em nosso inconsciente, o espaço feliz de acolhimento e proteção. Voltemos a essa noção simples, mesmo que aparentemente não seja tão simples assim. Talvez seja necessário aparar as pontas, desatar os nós e abrir o coração para novos paradigmas.

Se já não é possível irmos ao teatro com nossos filhos, podemos fazer teatro com eles dentro de nossas casas. O cinema será feito nas paredes, com as nossas mãos em teatro de sombras, as músicas compostas coletivamente entre pais, filhos e agregados. E as danças, ah… as danças vamos inventar, dedicar uma horinha do dia para ela, pois será preciso mexer com os nossos corpos. Reaprender a brincar, a sorrir sem consumir e repensar nosso corpo, como nosso altar, práticas saudáveis em meio à pandemia.

As crianças vão perceber, mesmo sem poder sair de casa, que podem viajar para vários lugares, descobrir mapas e minas, independentemente do tamanho de suas casas e do número de pessoas que habite dentro delas. Será importante preenchermos o cyber espaço com conteúdos de altíssima qualidade, e portanto, teremos que conversar sobre critérios de qualidade. É inevitável.

E se a tristeza por acaso chegar nas salas de aula de qualquer idade, é só para que possamos falar sobre ela, transformarmos a tristeza em conhecimento, em superação. Transcendê-la. Afinal, se existe a internet, podemos criar redes de apoio e cidadania, nos capacitar ao diálogo diverso no ensino fundamental, médio, superior, sem nos esquecermos de cantar e dançar com os bebês, do ensino básico.

Uma vez conheci uma professora que esclarecia aos seus alunos de 6 anos de idade, o que era o egoísmo. Contava o porquê de não dividir o lanche ou emprestar o brinquedo significar uma coisa errada e seríssima. As crianças entendiam imediatamente.

A realidade da covid-19 parece nos dar esse esclarecimento, na medida em que hoje estamos em nossas casas, junto com nossos parentes, filhos, netos, sobrinhos e que temos que repensar nossos espaços íntimos e refletir mais profundamente sobre nossas relações familiares, o que comemos, como nos divertimos, o que realmente precisamos consumir, em todos os níveis.

É nesse contexto de um olhar ampliado para o sensível e o poético, o que pode estimular imaginários, fortalecer os afetos e aprofundar conhecimentos, que desejo que possamos transver esse momento desafiador que nos atravessa.

Precisamos construir diálogos entre esses jogos de subjetividades, inventar sentidos, ressignificar casas, relacionamentos, aprendizados.

Seremos capazes?

Para tanto, é preciso estar bem perto das crianças, atentos às suas narrativas, prestando a atenção ao que elas nos contam, pois ainda que possamos captar um pouco do seu imenso imaginário, é necessário conhecer maneiras de criar campos de diálogo entre a linguagem adulta e a linguagem infantil. Uma coisa é certa: é preciso amar, estar perto das infâncias.

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