Adolescência: distraídos (e autônomos) venceremos

Volta às aulas pode exacerbar traumas coletivos, o que exigirá sensibilidade política e pedagógica. Repactuar as expectativas com a Educação, alimentar novos saberes e debater os desafios de estudar em cultura digital serão cruciais

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
(Paulo Leminski)

A poesia de Paulo Leminski é uma novidade na minha lista de leituras preferidas. Cada nova leitura, cada nova percepção, cada manifestação de sua sensibilidade impulsiona-me na busca por novos contornos para pensar a complexidade da vida contemporânea. Seus versos mobilizam-me a atitudes de ceticismo e de esperança. Em sua obra “Distraídos venceremos”, originalmente publicada no ano de 1987, encontramos a poesia que serve de epígrafe para este texto. Uma atitude intelectual que se deriva desta reflexão diz respeito à necessidade de conseguirmos uma distância de nossos objetos e sermos capazes de buscar novos prismas, outras inquietações, ouvir outras pessoas ou mesmo deslocarmos os pensamentos para outras direções. Uma temática recorrente nesse contexto de pandemia e que se configura como um problema a ser enfrentado refere-se à educação dos adolescentes, problema este que “não será resolvido por decreto”, como nos lembra a poesia de Leminski.

A literatura especializada nos revela que a adolescência é definida como uma fase da vida, de caráter intermediário, situada entre a infância e a fase adulta. Entretanto, como é do conhecimento de nossos especialistas, trata-se de uma definição incompleta, uma vez que a chegada na vida adulta não corresponde a um período de plena estabilidade. Outro modo de definição da adolescência encontrava-se, historicamente, no atendimento a uma relação de disposições dirigidas aos seus processos plurais de desenvolvimento: mudanças no corpo, construção de identidade, aquisição de competências variadas, dentre outros aspectos. Henry Lehalle (2011), em seu verbete para o Dicionário de Educação compilado por Agnès van Zanten, defende que a problemática central do percurso formativo dos adolescentes encontra-se no conceito de “autonomização”.

Ao concordarmos com esta apreciação, podemos reconhecer também que dois apontamentos de ordem metodológica precisam ser sinalizados, quais sejam: a) os significados sociais produzidos sobre a adolescência são construídos culturalmente; b) as trajetórias e modos de vida destes sujeitos são bastante variáveis e heterogêneos (LEHALLE, 2011). Estudar a adolescência, sob este prisma, não implica em um reducionismo para aspectos biológicos – buscando origens na puberdade, por exemplo -, uma vez que também nos deparamos com mudanças cognitivas, na relação com as famílias e com as instituições ou mesmo com o grupo de amigos. Assinalam os especialistas que os grupos de colegas oferecem um quadro de referências e, mais que isso, garantem apoio afetivo e acolhimento nas variadas tensões advindas da vida cotidiana (SILVA, 2020b).

Estudar a educação dos adolescentes, desde este enquadramento, configura-se como uma problemática central para refletir sobre a formação humana, especialmente no contexto da pandemia que ora experimentamos em todo o mundo. São de nosso conhecimento as preocupações com o desenvolvimento moral dos adolescentes (Kohlberg) ou mesmo a busca por uma representação coerente de si mesmo (Erickson); todavia, para a continuidade deste texto, assumirei como tarefa política e pedagógica uma reflexão crítica sobre a orientação dos adolescentes nas suas escolhas e projetos de vida, ao mesmo tempo em que priorizarei o desenvolvimento de uma sensibilidade pedagógica em relação a abertura de novas formas de participação ativa e protagonismo na vida pública.

Diante do cenário da pandemia (e as derivações para um contexto pós-pandêmico), em termos de uma reflexão sociológica sobre a educação dos adolescentes, seria conveniente que definíssemos alguns eixos estruturantes para esta agenda de estudos, tornando-a mais propositiva. O primeiro aspecto que tenho defendido diz respeito a uma repactuação de nosso campo de expectativas sobre a educação destes sujeitos. Isso supõe ultrapassar a lógica das performances e desempenhos acadêmicos em sua centralidade e, gradativamente, aproveitar a experiência pandêmica para produzir afetos, interesses comuns e novas possibilidades de diálogo.

O segundo aspecto que merece ser destacado implica no reconhecimento de que a pandemia expôs a nossa vulnerabilidade a um vírus. Além de fortalecer as possibilidades de autonomia, implica em aproveitar o momento para conversar sobre a vida e desenhar o futuro, alimentando perspectivas transformadoras. Concomitantemente, ao reconhecer as nossas limitações, valeria a pena colocar em discussão com os adolescentes estas nossas fragilidades: estresse emocional, exposição à violência doméstica, novas desigualdades e até mesmo saúde mental. Haverá traumas coletivos que serão expostos no retorno às atividades escolares – ligados à doença ou ao falecimento de familiares – o que implicará em dialogar sobre as finalidades da vida e da inevitável preocupação com a morte.

Por fim, será oportuno colocar em debate as questões atreladas ao engajamento estudantil e demais modos de relação com o saber. As possibilidades de estudo por meio de plataformas digitais servirão como caracterização das formas como almejamos educar em um contexto marcado pelas tecnologias 4.0? (SILVA, 2020a). Como prestamos atenção? Como registramos estes saberes? Como compilamos e sistematizamos as leituras realizadas? Como articular conhecimentos heterogêneos advindos de tradições e experiências variadas? Como desvendaremos as matrizes de desigualdade atreladas ao acesso a conhecimentos relevantes?

Após rememorar as poesias de Paulo Leminski, no decorrer deste texto, procurei examinar a questão da educação dos adolescentes no cenário contemporâneo. Como aposta para um cenário pós-pandêmico, direcionei nossos olhares para uma repactuação do campo de expectativas, a busca por novas formas de autonomia e os desafios para estudar em uma cultura digital. A combinação desses aspectos apresenta potencialidade política para inserirmos mecanismos democráticos na educação dos adolescentes, assumindo a horizontalidade como um caminho possível. Reinventar nossa agenda crítica implica em reconhecer, junto a Leminski, que “distraídos venceremos” – distraídos porque desejamos construir outras epistemologias e novas economias simbólicas da atenção, para além daquelas que o capitalismo nos ofereceu como única via possível. Sigamos na busca distraída por novas formas de educar com a maturidade e o equilíbrio daqueles que aceitam que os problemas não se resolvem por decreto!

Referências:

LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

LEHALLE, Henry. Adolescência (Psicologia da). In: VAN ZANTEN, Agnès. Dicionário de Educação. Petrópolis: Vozes, 2011 (p. 26-30).

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Educação, tecnologias 4.0 e a estetização ilimitada da vida: pistas para uma crítica curricular. Cadernos IHU Ideias, v. 18, n. 301, 2020a. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/344210399_Educacao_tecnologias_40_e_a_estetizacao_ilimitada_da_vida_pistas_para_uma_critica_curricular.

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Desafios para a educação dos adolescentes na pandemia. Série Unisinos em Rede [Entrevista realizada por Gustavo Reis], 2020b. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8wtsuaFOZE8.

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