Crianças envenenadas: nem bebês estão a salvo dos agrotóxicos

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Pesquisa da USP traz detalhes sobre distribuição etária da contaminação por pesticidas no Brasil; 40% dos casos até 14 anos em MG e MT atingem faixa até 4 anos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Crianças e adolescentes até 14 anos estão entre as vítimas – e entre as vítimas fatais – de pesticidas no país. E não há limite de idade. Em Estados como Minas Gerais e Mato Grosso, a incidência entre crianças de 0 a 4 anos supera 40% do total de crianças e adolescentes envenenados.

Esses são alguns dados organizados pela professora Larissa Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), e que farão parte da Geografia do Uso dos Agrotóxicos no Brasil, uma pesquisa que será finalizada e divulgada neste semestre. Continuar lendo

Agrotóxicos: a história de 1 milhão de envenenados

Professora da USP prepara “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”; repercussão de entrevista mostra importância de um observatório do agronegócio no Brasil

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Entre 2007 e 2014, 25 mil pessoas foram atingidas pelo uso de agrotóxicos no Brasil. Intoxicadas. Dessas, 1186 morreram. Mas essa é apenas a ponta do iceberg, aponta a professora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da USP. Estima-se que, para cada caso notificado, ocorram outros 50. Em outras palavras, o país teve nesse período mais de 1 milhão de pessoas envenenadas por pesticidas.

Larissa finalizará neste semestre a “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil”. Com dados atualizados por Unidades da Federação, municípios, gênero, idade. De Olho nos Ruralistas – um observatório jornalístico sobre o agronegócio no Brasil – entrevistou a professora e detalhou esses dados, mapa a mapa.

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Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.) Continuar lendo

Konder Comparato: Sérgio Moro, “o major Vidigal”, será o próximo presidente

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Salão Nobre da USP-Direito lotado (Foto: Helio Carlos Mello/ Jornalistas Livres)

“infelizmente”, completou o professor emérito da USP-Direito, em ato pela legalidade e democracia; isto a se continuar o atual “desprezo pela política e pelas instituições”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Um homem foi aplaudido de pé por um Salão Nobre lotado, ontem à noite, na Faculdade de Direito da USP: o professor emérito Fábio Konder Comparato, 79 anos. Um nome, vaiado: o do juiz Sérgio Moro, 43. Este foi comparado pelo jurista com o Major Vidigal, personagem central de “Memórias de um Sargento de Milícias” (1854), de Manuel Antônio de Almeida. “Infelizmente, se continuar esse desprezo pela política e pelas instituições, será ele o próximo presidente”, afirmou Comparato, pessimista em relação ao futuro imediato do país. “Os partidos de oposição já devem tê-lo convidado, e será difícil ele resistir”.

Ele acabara de mencionar o Major Vidigal – um chefe de polícia – como símbolo de autoritarismo, ao abrir o Ato de Juristas pela Legalidade e pela Democracia. No clássico de Almeida, três senhoras vão à casa do major para pedir sua condescendência em relação ao deslize de um soldado. Vidigal alega que existe uma lei, não pode fazer nada. Uma delas retruca: “Ora a lei, a lei é o que senhor major quiser”. O escritor conta que o major “sorriu-se com cândida inocência”. Continuar lendo

Ativistas calam José de Souza Martins na USP; mas eles conhecem sua história?

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Reivindicações justas do movimento negro da USP são prejudicadas pela humilhação a um professor que sempre estudou os excluídos; métodos são autoritários

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

José de Souza Martins não nasceu em família rica. Trabalhava como operário  enquanto, à noite, cursava Ciências Sociais na USP. Décadas depois tornou-se professor emérito, com extensa contribuição ao estudo das dinâmicas da exclusão, especialmente no campo. Bastaria mencionar um clássico: “O Cativeiro da Terra” (1979). Ou suas contribuições mundiais à reflexão sobre escravidão contemporânea. Nada disso contou na hora de ser enxovalhado por ativistas do movimento negro, no dia 17, em plena Universidade de São Paulo. Ele foi impedido de proferir a aula magna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O método de calar a boca alheia não deveria nem ser qualificado como estratégia possível. E sim como puro autoritarismo. É condenável em qualquer situação – de Eduardo Suplicy a Yoani Sánchez, de Lula a FHC. Tamanha truculência combina melhor com atitude de fascistas. E não de movimentos sociais com causas nobres, no caso o Ocupação Preta, com o aval do DCE Livre da USP. A dificuldade de perceberem que repetem métodos opressores preocupa duplamente, já que os ativistas parecem comemorar algo que não significa nem uma vitória de Pirro. Fosse uma vitória, os fins (repito, necessários) não justificariam os meios. Continuar lendo