Massacre de indígenas no MS é também um massacre midiático

caarapó

Estadão noticiou em 77 palavras um atentado de fazendeiros que deixou um morto e vários feridos, entre eles um menino de 12 anos; em 2013, mataram Denilson, de 15

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O Estadão traz no pé da página A8, hoje, lá no cantinho direito, a seguinte notícia: “Ataque deixa um índio morto e cinco feridos”. Contei 77 palavras na notícia, incluídos, os artigos, preposições e palavras inevitáveis, como “Mato Grosso do Sul” e “terra indígena Dourados Amambaipeguá I”. Não encontrei o nome do morto. “Uma liderança indígena”. Deu tempo de registrar o “o ataque de 70 fazendeiros armados em 60 veículos”.

Quase uma palavra para cada fazendeiro.

Esse descaso da imprensa representa uma metralhadora às avessas. O pé de página é a vala – quando muito – onde os jornais brasileiros enterram as centenas de Guarani Kaiowá mortos nos últimos anos, entre assassinados, atropelados, mortos por problemas básicos de saúde e os que, em meio ao confinamento histórico do qual são vítimas, se suicidaram. Cada uma das 77 palavras significa o silêncio entre cada bala assassina.

Ontem foi assassinado Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, de 23 anos. Com dois tiros. Outros três indígenas correm risco de vida. Uma criança de 12 anos, Josiel Benites, foi baleada no abdômen. Vejamos este trecho do relato do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), bem mais completo que o do Estadão:

– Em filmagens feitas pelos próprios Guarani e Kaiowá é possível ver uma centena de homens armados, queimando motos e demais posses dos indígenas. A maioria dos indivíduos está vestida com um uniforme preto; nas filmagens, é possível ouvir gritos de: “Bugres! Bugres!”, forma pejorativa usada para se referir aos indígenas na região sul do país. Caminhonetes circulam como moscas ao redor dos homens de preto e das enormes fogueiras usadas para incendiar tudo o que antes era o pouco que estes Guarani e Kaiowá possuíam.

Voltemos para 2013. Mas ainda em Caarapó. Nesse mesmo município do Mato Grosso do Sul, onde proprietários rurais declaram uma quantidade de terras superior à área do município (e a gente acha que mora num país normal), foi assassinado Denilson Barbosa, de 15 anos. Com um tiro na cabeça e outro no pescoço. Ele e mais dois indígenas estavam indo pescar – e os fazendeiros não deixam.

O texto do Cimi de 2013 (apenas três anos atrás, mas, para a imprensa brasileira, um passado distante e inexistente) informa que, nessa reserva, 5 mil Guarani Kaiowá vivem em 3.594 hectares de terra. Menos, por exemplo, que a quantidade de terras pertencentes, no mesmo Estado, ao senador cassado Delcídio do Amaral. Os indígenas aguardam demarcação. (O estudo relativo à TI Amambaipeguá foi aprovado em maio pela Funai. Às vésperas do golpe. Terá sido coincidência a nova investida dos fazendeiros?)

É preciso ser justo com a imprensa. Nos anos 70, em plena ditadura, eram bem mais frequentes as notícias sobre violações de direitos de indígenas e camponeses, ou sobre os assassinatos e massacres no campo. Em 2016, ao longo de governos golpistas ou democraticamente eleitos (todos eles indiferentes ao massacre dos Guarani Kaiowá), os jornais consideram Denilson, Josiel ou Clodiodi brasileiros de menor importância.

É como se os chamassem de bugres, tal qual os fazendeiros assassinos. Aos berros. Quase um carro para cada um. “Bugres, bugres, bugres! Sabem qual a parte que lhes cabe neste jornal? Este pé de página!” (Risos do editor. O redator se esforça em condensar a notícia nas 77 palavras possíveis e ela nem chega ao mesão, onde se decidem as notícias da primeira página. Lá temos Dunga, Eduardo Cunha, Tia Eron, Temer, Haddad, Sarney, Jucá. Romero Jucá, o ex-presidente da Funai? Sim, Jucá. A política brasileira se repete como extermínio.)

O maior massacre de 2016, um dos maiores dos últimos anos, ganha sua dose jornalística de escárnio. Hashtag: jornalismo bugreiro. #jornalismobugreiro

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38 comentários para "Massacre de indígenas no MS é também um massacre midiático"

  1. Walter Boechat disse:

    Excelente reportagem, muito louvável posicionamento, tenho apenas a corrigir que não existe “risco de vida” e sim “risco de morte” do indígenas gravemente feridos. Grato pela reportagem e divulgação desse buraco negro da sociedade.

    • Alceu Castilho Alceu Castilho disse:

      Grato, Walter. Eu prefiro a expressão “risco de vida”, correta, elíptica, ou “risco de morrer”.

      • Oscar Lobo disse:

        Perfeito, Alceu.
        Só se corre risco de perder o que se tem – e o que temos é a vida… então, corremos, sim, “risco de vida”.
        Abraço
        Oscar Lobo – Jornalista

      • Maria-Betânia Ferreira disse:

        Também prefiro, pois é a vida que está em risco.

      • Ernani RIbeiro Filho disse:

        Olá Alceu, parabéns pelo blog.
        Estamos juntos na indignação pelo massacre dos povos indígenas.
        O mais triste de tudo é que hoje vemos os mesmos métodos e resultados da ditadura aplicados e obtidos por gente que subiu ao poder pelo voto. É assustador esse projeto fascista orquestrado por corruptos eleitos, mídia mafiosa e classe média ignorante.

        Sobre a expressão ‘risco de vida’, ela está correta. Significa que a vida está em risco, e não que se corre o risco de perder a vida, um nonsense que circula pela internet. ‘Risco de vida’ é uma expressão idiomática, não se decompõe. O seu significado não é a soma do significado isolado das partes, como você muito bem demonstra saber.

        Longa vida ao jornalismo independente.

  2. Walter Boechat disse:

    Excelente reportagem, muito louvável posicionamento, tenho apenas a corrigir que não existe “risco de vida” e sim “risco de morte” do indígenas gravemente feridos. Grato pela reportagem e divulgação desse buraco negro da sociedade.

    • Alceu Castilho Alceu Castilho disse:

      Grato, Walter. Eu prefiro a expressão “risco de vida”, correta, elíptica, ou “risco de morrer”.

      • Oscar Lobo disse:

        Perfeito, Alceu.
        Só se corre risco de perder o que se tem – e o que temos é a vida… então, corremos, sim, “risco de vida”.
        Abraço
        Oscar Lobo – Jornalista

      • Maria-Betânia Ferreira disse:

        Também prefiro, pois é a vida que está em risco.

      • Ernani RIbeiro Filho disse:

        Olá Alceu, parabéns pelo blog.
        Estamos juntos na indignação pelo massacre dos povos indígenas.
        O mais triste de tudo é que hoje vemos os mesmos métodos e resultados da ditadura aplicados e obtidos por gente que subiu ao poder pelo voto. É assustador esse projeto fascista orquestrado por corruptos eleitos, mídia mafiosa e classe média ignorante.

        Sobre a expressão ‘risco de vida’, ela está correta. Significa que a vida está em risco, e não que se corre o risco de perder a vida, um nonsense que circula pela internet. ‘Risco de vida’ é uma expressão idiomática, não se decompõe. O seu significado não é a soma do significado isolado das partes, como você muito bem demonstra saber.

        Longa vida ao jornalismo independente.

  3. Edson disse:

    duvidas.dicio.com.br/risco-de-vida-ou-risco-de-morte/

  4. Edson disse:

    duvidas.dicio.com.br/risco-de-vida-ou-risco-de-morte/

  5. ANDRE BORGES disse:

    Olá, Alceu.
    Sou André Borges, repórter que escreveu algumas matérias no Estadão sobre o que ocorreu. Compreendo o que disse sobre a versão impressa. Concordo que deveria ter mais espaço. Como profissional de comunicação, fui atrás da história. No portal do Estadão, publiquei algumas matérias sobre o tema, ontem e hoje. Espero que tenha tido oportunidade de olhar o que foi informado pela internet, mesmo espaço utilizado por você para fazer suas observações. Vamos em frente. Cordialmente. André Borges.

  6. ANDRE BORGES disse:

    Olá, Alceu.
    Sou André Borges, repórter que escreveu algumas matérias no Estadão sobre o que ocorreu. Compreendo o que disse sobre a versão impressa. Concordo que deveria ter mais espaço. Como profissional de comunicação, fui atrás da história. No portal do Estadão, publiquei algumas matérias sobre o tema, ontem e hoje. Espero que tenha tido oportunidade de olhar o que foi informado pela internet, mesmo espaço utilizado por você para fazer suas observações. Vamos em frente. Cordialmente. André Borges.

  7. Tudo isso e mais o massacre cultural, que coloca uma tristeza imensa nestes que são os legítimos donos das terras. Obrigados a ser o que não são, mesmo os que não foram massacrados já estão mortos.

  8. Tudo isso e mais o massacre cultural, que coloca uma tristeza imensa nestes que são os legítimos donos das terras. Obrigados a ser o que não são, mesmo os que não foram massacrados já estão mortos.

  9. Wania Maria Previattelli disse:

    Caríssimos.

    Como educadora, selecionei essa matéria e pesquisarei as citadas pelo André Borges, para leitura e comentário com grupos de professores, amplindo a discussão sobre temas tão relevantes para a cultura brasileira e formação de alunos leitores.
    Somente ler as publicações não é condição suficiente para a formação de nossos alunos.
    O comentário de Alceu mostra como a leitura não só do conteúdo mas, da forma como foi escrito e onde aparece traz informações sobre outros aspectos, dentre eles a relevância que se deu ao tema.
    Bom trabalho.

  10. Wania Maria Previattelli disse:

    Caríssimos.

    Como educadora, selecionei essa matéria e pesquisarei as citadas pelo André Borges, para leitura e comentário com grupos de professores, amplindo a discussão sobre temas tão relevantes para a cultura brasileira e formação de alunos leitores.
    Somente ler as publicações não é condição suficiente para a formação de nossos alunos.
    O comentário de Alceu mostra como a leitura não só do conteúdo mas, da forma como foi escrito e onde aparece traz informações sobre outros aspectos, dentre eles a relevância que se deu ao tema.
    Bom trabalho.

  11. Rosemary Pinheiro Lima disse:

    Ótimo texto.

  12. Rosemary Pinheiro Lima disse:

    Ótimo texto.

  13. Lemascel disse:

    Desgraça a parte, quanto ao português, a forma correta é “risco À vida”, forma compacta de “risco À continuidade ou manutenção da vida”. Outra alternativa é “risco DE morte”, forma compacta de “risco DE ocorrência de morte”.

    Já é demais o massacre dos indígenas, não assassinemos também o português!

  14. Lemascel disse:

    Desgraça a parte, quanto ao português, a forma correta é “risco À vida”, forma compacta de “risco À continuidade ou manutenção da vida”. Outra alternativa é “risco DE morte”, forma compacta de “risco DE ocorrência de morte”.

    Já é demais o massacre dos indígenas, não assassinemos também o português!

  15. Marcia Cristina de Souza disse:

    Considero de menor importancia questiomamentos sobre a correta adequação das palavras , pois o que de fato interessa saber, são das providências a serem tomadas em defesa dos nossos legítimos ancestrais, os “Donos desta Terra”. Onde estão os defensores dos Direitos Humanos? afinal, eles são HUMANOS não são? A imprensa também se omite em realmente prestar um serviço de informações condizentes com a premência, gravidade e importância dos fatos. Nós brasileiros devemos e queremos ser informados de todas as noticias em pauta no dia, para assim decidirmos qual delas serão motivo de. IBOP. Se tivéssemos esta prerrogativa, poderíamos ser mais SOLIDÁRIOS e ATUANTES. Quem disse que estas notícias não venderiam jornais? O povo hoje se movimenta., repudia e se posiciona nas redes sociais contra toda e qualquer injustiça. A mídia deveria ser mais útil se ampliasse o seu horizonte de notícias. Fica aqui o meu protesto e o meu apelo por Frentes de ações efetivas em prol de providências que ponham termo à estas injustiças sociais , à esta carnificina!

  16. Marcia Cristina de Souza disse:

    Considero de menor importancia questiomamentos sobre a correta adequação das palavras , pois o que de fato interessa saber, são das providências a serem tomadas em defesa dos nossos legítimos ancestrais, os “Donos desta Terra”. Onde estão os defensores dos Direitos Humanos? afinal, eles são HUMANOS não são? A imprensa também se omite em realmente prestar um serviço de informações condizentes com a premência, gravidade e importância dos fatos. Nós brasileiros devemos e queremos ser informados de todas as noticias em pauta no dia, para assim decidirmos qual delas serão motivo de. IBOP. Se tivéssemos esta prerrogativa, poderíamos ser mais SOLIDÁRIOS e ATUANTES. Quem disse que estas notícias não venderiam jornais? O povo hoje se movimenta., repudia e se posiciona nas redes sociais contra toda e qualquer injustiça. A mídia deveria ser mais útil se ampliasse o seu horizonte de notícias. Fica aqui o meu protesto e o meu apelo por Frentes de ações efetivas em prol de providências que ponham termo à estas injustiças sociais , à esta carnificina!

  17. Adilene Cavalheiro disse:

    Amigos,

    Eu acabei de criar minha própria petição e espero que possam assiná-la. Ela se chama: ONU (Organização das Nações Unidas): Acabe com o massacre dos Povos Indígenas no Mato Grasso do Sul!.

    Eu realmente me preocupo sobre este assunto e juntos nós podemos fazer algo a respeito disso! Cada pessoa que assina nos ajuda a chegarmos mais próximo do nosso objetivo de 100 assinaturas — será que você pode nos ajudar assinando a petição?

    Clique aqui para ler mais a respeito e assine:
    https://secure.avaaz.org/po/petition/ONU_Organizacao_das_Nacoes_Unidas_Acabe_com_o_massacre_dos_Povos_Indigenas_no_Mato_Grasso_do_Sul/?launch

    Campanhas como esta sempre começam pequenas, mas elas crescem quando pessoas como nós se envolvem — por favor reserve um segundo agora mesmo para nos ajudar assinando e passando esta petição adiante.

    Muito obrigado,
    Adilene

    https://secure.avaaz.org/po/petition/ONU_Organizacao_das_Nacoes_Unidas_Acabe_com_o_massacre_dos_Povos_Indigenas_no_Mato_Grasso_do_Sul/

  18. Adilene Cavalheiro disse:

    Amigos,

    Eu acabei de criar minha própria petição e espero que possam assiná-la. Ela se chama: ONU (Organização das Nações Unidas): Acabe com o massacre dos Povos Indígenas no Mato Grasso do Sul!.

    Eu realmente me preocupo sobre este assunto e juntos nós podemos fazer algo a respeito disso! Cada pessoa que assina nos ajuda a chegarmos mais próximo do nosso objetivo de 100 assinaturas — será que você pode nos ajudar assinando a petição?

    Clique aqui para ler mais a respeito e assine:
    https://secure.avaaz.org/po/petition/ONU_Organizacao_das_Nacoes_Unidas_Acabe_com_o_massacre_dos_Povos_Indigenas_no_Mato_Grasso_do_Sul/?launch

    Campanhas como esta sempre começam pequenas, mas elas crescem quando pessoas como nós se envolvem — por favor reserve um segundo agora mesmo para nos ajudar assinando e passando esta petição adiante.

    Muito obrigado,
    Adilene

    https://secure.avaaz.org/po/petition/ONU_Organizacao_das_Nacoes_Unidas_Acabe_com_o_massacre_dos_Povos_Indigenas_no_Mato_Grasso_do_Sul/

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