As 70 milhões de crianças que vão morrer e o recall das cômodas assassinas

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Relatório do Unicef diz ainda que 750 milhões de mulheres se casarão ainda crianças, até 2030; notícia sobre cômodas assassinas ganhou quase o mesmo espaço

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Li as duas notícias ao lado uma da outra, na home do UOL. 1) “70 milhões de crianças morrerão até 2030 se o mundo não agir, diz Unicef“. Antes de completarem 5 anos. 2) “Gigante de móveis Ikea fará recall de 29 milhões de cômodas após mortes“. (Mortes de crianças. Pelo menos seis crianças morreram desde 1989.)

E fiz a conexão singela entre elas: em que momento faremos um recall desse sistema?

As cômodas estão caindo. Elas vão cair. O sistema que permite 70 milhões de mortes de crianças e é naturalizado diariamente pelos meios de comunicação… precisa mudar. E esta não é apenas uma questão revolucionária. Pode ser uma questão para quem tem formação religiosa (mais ou menos conservadora), ou em direitos humanos – direitos humanos nasceram no capitalismo, não são coisa de comunista.

Para quem tenha compaixão. Algum código de princípios. Pois boa parte desses milhões de crianças vai morrer. Fora as que têm mais de 5 anos. Quantas, exatamente? Quantas ainda podem ser salvas? (E que editorial de jornal está tratando deste tema, hoje?)

Segundo o Unicef, 750 milhões de mulheres terão se casado ainda crianças até 2030. (Alô, feministas.) Na África subsaariana, 9 entre 10 crianças viverão, nesse ano, em pobreza extrema. (E há quem fale em meritocracia.)

Mas voltemos às cômodas – aquelas que essas crianças não terão. “As cômodas satisfazem as obrigações de estabilidade em todos os mercados onde são vendidas”, afirmou o porta-voz da Ikea, gigante sueca do setor de móveis. Ele disse que as cômodas que mataram as seis crianças são seguras se estiverem afixadas às paredes. (A empresa vendeu 147 milhões de cômodas em 13 anos, e diz que as pessoas não seguiram o manual de instruções.)

Claro. Simples. Que ideia das pessoas, não é, deixarem de fixar as cômodas nas paredes. Mas tomemos o cinismo desse senhor como metáfora. As armas são seguras se ninguém apertar o gatilho. As pessoas que vivem em áreas de risco (expulsas pelo sistema para esses lugares perigosos) só morrerão se não estiverem mesmo muito afixadas. Que não chova, portanto. Para as doenças ocasionadas por falta de saneamento, que se tenha saúde.

Qual o manual de instruções para que as populações vulneráveis não sejam executadas pela polícia (ou por algum Exército imperialista), mortas de fome, exploradas sexualmente?

“Quando olhamos para o mundo de hoje, somos confrontados com uma verdade desconfortável, mas inegável: as vidas de milhões de crianças são arruinadas pelo simples fato de terem nascido num determinado país, comunidade, gênero ou circunstância”, escreve o diretor-geral do Unicef, Anthony Lake, no prefácio do relatório.

Mas não, Unicef, não se trata de uma questão climática, física. E sim econômica. E geopolítica. De distribuição das riquezas, de divisão do mundo do trabalho, do acesso das famílias e comunidades aos bens naturais – a começar da terra, da água – e ao que deveria ser oferecido pelo Estado: como saúde, saneamento, educação.

Como? Se essas terras foram usurpadas, se essa água vai sendo privatizada. Se os Estados (como aqueles ao sul do Saara) vão se tornando refém dos mercados e não estão estruturados para salvar essas vidas? Não adianta falar em “iniquidades”, como se elas fossem um puxadinho mal resolvido da casa. São os pilares do sistema que precisam ser questionados.

É o sistema, diretor. É o sistema. E precisamos ser honestos em relação a isso. Muito antes de Thomas Pikkety muita gente expôs as vísceras desse sistema (ele atende pelo nome de capitalismo). A desigualdade é uma questão intestina, estrutural. E não uma “circunstância”. O Estado de Bem Estar Social e os arremedos de social-democracia só têm encolhido, sob pressão diária de nossa imprensa liberal e cínica.

Corolário: a imprensa burguesa mata. Isso precisa ser dito com todas as letras. Como dissociar? Genocídios pressupõem a existência de genocidas. O mercado não salva e não alimenta. Quem o defende acima das pessoas – dos jornais e partidos políticos aos especuladores de plantão – mantém uma bala apontada para cada uma dessas 69 milhões de crianças.

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