Para conhecer a obra Bernard Stiegler

Filósofo francês morto em 2022 debruçou-se sobre as transformações técnicas contemporâneas, relacionando-as com a crise do capital, a formação de novas subjetividades e a alienação. Livro de Anne Alombert, ainda inédito no Brasil, oferece pistas preciosas para compreendê-lo

Bernard Stiegler. Foto: Reprodução

Introdução

.

O novo livro de Anne Alombert, Penser avec Bernard Stiegler (Pensar com Bernard Stiegler), tem como objetivo apresentar ao leitor a obra deste filósofo francês que renunciou à ideia de criar uma filosofia própria. Embora ainda não publicado no Brasil ou em língua portuguesa, esta obra representa uma importante contribuição para pensarmos criticamente o desenvolvimento da técnica, bem como os seus possíveis destinos face à degradação das ecologias. Bernard Stiegler, ainda pouco conhecido no Brasil, pode aportar uma contribuição efetiva a uma crítica à economia política que se apropria da técnica para a expansão do capital.

Além de oferecer aos leitores não familiarizados com o pensamento de Stiegler ferramentas conceituais para explorar seu pensamento de forma contextualizada, Alombert apresenta uma resposta possível aos problemas do meio tecnológico em evolução. Esta fase da evolução técnica está impregnada de sonhos coletivos de uma sociedade emancipada pela força dos androides e da “inteligência” artificial. Um dos méritos do livro consiste no esforço de libertar a técnica das visões tecnófobas ou tecnófilas, ao mesmo tempo que busca “tratar” (panser) esses imaginários de seu potencial desorganizador. Trata-se de um esforço para situar o desenvolvimento das indústrias tecnológicas em um quadro histórico e econômico, o que evidencia as escolhas que subjazem aos usos das técnicas como meio de proletarização das mentes.

A obra está dividida em cinco partes temáticas, cujos capítulos abrangem uma vasta gama de temas, desde aspectos biográficos da vida de Stiegler até questões relativas ao papel da tecnologia no esgotamento das mentes e dos corpos. As críticas e propostas do autor nos campos da economia, do trabalho e da ecologia são desenvolvidas ao longo de todo o livro.

Vida e obra, dimensões de uma práxis

A primeira parte da obra fundamenta-se nos trabalhos teóricos e práticos de Stiegler. Alombert apresenta nela as premissas do pensamento do filósofo, ao mesmo tempo que reconstitui as etapas de sua vida que o levaram ao desenvolvimento de uma prática filosófica. Os quatro capítulos que compõem esta primeira parte são estruturados cronologicamente, começando por sua formação filosófica durante seu encarceramento e concluindo com os momentos que se seguiram à sua morte em 2020.

Bernard Stiegler foi preso por um assalto a banco, que ele descreveu como uma passagem ao ato — em referência ao conceito psicanalítico em que o sujeito age sem elaboração simbólica —, o que lhe permitiu passar ao ato filosófico. Em sua tese de doutorado, Stiegler (2018) abordou a questão da tecnologia e seu papel de suporte da memória, o que modifica a percepção do espaço e do tempo no indivíduo humano. Embora a tecnologia seja um tema recorrente em sua obra, Stiegler não se definia como um filósofo da técnica. Na realidade, como destaca Alombert, Stiegler concentrou-se nos aspectos impensados da tradição filosófica que exigiam uma tomada de “cuidado” (Alombert, 2025, p. 23) por parte do pensamento filosófico em nossos tempos.

Stiegler defende que as mutações das tecnologias digitais abalam nossa percepção do tempo. Esta transformação temporal está circunscrita ao declínio das democracias industriais, que ele diagnostica como o resultado de uma tríplice crise. No plano econômico, há a crise do consumismo degradante; no plano político, a crise do psicopoder televisivo; e no plano existencial, a crise provocada pela morte do desejo e pela desafeição do sujeito. Essa última tese decorre de sua reinterpretação do marxismo a partir da teoria freudiana da libido, a fim de conceber modelos de intervenção concreta para uma nova economia política.

A centralidade dos artefatos técnicos na crítica de Stiegler não deslegitima, no entanto, a sua existência. O autor considera que a tecnologia não é, na realidade, mais do que um bode expiatório para a falta de elaboração crítica, a qual está inscrita na alienação gerada pela decadência da produção e da transmissão dos saberes. A solução mais apropriada para o problema não reside em nenhum dos polos que guiam o debate sobre a tecnologia — a tecnofobia e a tecnofilia —, pois ela constitui um Pharmakon, termo usado por Derrida (1985) em A farmácia de Platão para designar, ao mesmo tempo, veneno e remédio, problema e solução. O problema das redes sociais, da governamentalidade algorítmica e do psicopoder não reside nessas tecnologias — que não são desmaterializadas, como se faz crer —, mas na maneira como são utilizadas em uma dinâmica de entropia das mentes. Nesse sentido, as novas técnicas digitais não diferem qualitativamente das antigas, como a escrita, o cinema, a rádio e a televisão. Elas diferem quantitativamente na medida em que captam mais intensamente o potencial de reflexão e de crítica do sujeito.

Na segunda parte do livro, Alombert continua a explorar o pensamento de Stiegler sobre o papel constitutivo da tecnologia na memória e na formação humanas. O autor defende que, primitivamente, os objetos técnicos não são fruto de um raciocínio humano. A invenção técnica responde, antes, a uma necessidade de exteriorizar funções corporais. O ser humano pode integrar os elementos do seu meio histórico-geográfico e simbólico graças ao processo de “exosomatização” (p. 318). Em outras palavras, a tecnologia é aquilo através do qual os indivíduos humanos operam uma “gramatização” (p. 126) de suas vivências, ou seja, uma materialização que torna possível a apropriação e a reinterpretação de elementos de uma realidade não experimentada. Os artefatos técnicos guardam, assim, gestos e experiências que podem ser vividos a posteriori.

É assim que Stiegler chega à sua tese do paradoxo da exteriorização, segundo a qual não há interioridade anterior à exteriorização técnica; o indivíduo cria-se a si mesmo no momento da invenção técnica.

A farmacologia dos objetos técnicos

Alombert prossegue na reconstituição de uma tese central presente no pensamento de Stiegler: a dimensão farmacológica dos dispositivos de retenção da memória. Em outras palavras, o que determina as qualidades positivas ou negativas de uma tecnologia não é sua essência técnica em si. Para melhor delimitar essa tese, Alombert apresenta seus argumentos dividindo as tecnologias em grupos que correspondem aos tipos de suportes mnésicos.

A escrita, enquanto tecnologia, já era percebida pelos Antigos com expectativas e temores — sentimentos que parecem acompanhar o surgimento de cada nova tecnologia. A escrita amplia a capacidade de retenção mnemônica humana por meios hipomnésicos (ou seja, enquanto memória artificial). No entanto, essa “melhoria” da memória traz consigo o risco de perda da capacidade de memorização e, mais importante ainda para os Antigos, o de ver a escrita se transformar em um instrumento de charlatanismo sofista.

A evolução tecnológica deu origem às tecnologias analógicas, das quais a fotografia é um representante notável, amplamente estudada por autores como Benjamin e Barthes. Enquanto tecnologia farmacológica, a fotografia representa igualmente um suporte de individuação e, pelo acesso ao passado a posteriori, apresenta, contudo, o risco de suplantar a capacidade de retenção da memória humana. Da mesma forma, a fonografia é outra tecnologia de retenção analógica que, ao suprimir a exclusividade dos músicos na produção fonográfica, aporta consigo potencial democrático. Esse avanço tecnológico acarretou a abertura de uma nova divisão do trabalho e o estabelecimento de uma indústria cultural de massa.

Esse novo mercado cultural inclui a filmografia, tecnologia analógica estudada por Adorno e Horkheimer, que diagnosticaram a sujeição passiva do indivíduo cujas faculdades imaginativas são capturadas pelas telas. Apoiando-se no paradoxo da exteriorização, Stiegler sustenta que as capacidades imaginativas, todavia, não podem ser apartadas dos indivíduos, pois já são originariamente alienadas, na medida em que não existem independentemente da materialidade tecnológica. O fator mais determinante para ele, em concordância com os filósofos críticos, é a industrialização das mentes pela produção cultural para fins comerciais. É também o caso da televisão que, ao sincronizar a consciência e os eventos mundiais pela simultaneidade do “ao vivo”, organiza um encontro das massas e estabelece a primeira forma significativa de psicopoder.

Segundo a análise de Alombert, uma das consequências mais notáveis do pensamento de Stiegler reside em sua tese de que a memória depende sempre dos dispositivos que ela inventa. O risco que acompanha o advento das tecnologias não corresponde à existência delas, mas à ausência de saberes que deveriam acompanhar sua evolução.

A função humana do trabalho 

Alombert explora a crítica à economia política marxiana realizada por Stiegler, que parte do princípio de que o trabalho e a riqueza devem ser repensados. Para o filósofo, a análise econômica marxiana dos processos de industrialização e de proletarização deve ser atualizada em função das circunstâncias atuais. Stiegler desenvolve o conceito de proletariado para além da posse dos meios de produção, critério que ele julga insuficiente para dar conta dos processos contemporâneos de proletarização.

Segundo Stiegler, para superar a proletarização desta nova fase do capital, é preciso criar e desenvolver saberes. O modo de organização social do trabalho, no entanto, entrava a realização deste objetivo. O emprego, enquanto modelo hegemônico de produção, baseia-se na remuneração e na criação de automatismos no assalariado pela internalização de tarefas, o que contribui para o projeto de proletarização dos espíritos.

O trabalho, ao contrário, corresponde a uma atividade de individuação, ou seja, de atualização do indivíduo mediante a uma atividade viva. Um exemplo proposto por Simondon (2024) e teorizado por Stiegler refere-se à atividade do artesão, que é, na realidade, um agente efetivamente trabalhador. Ou seja, o artesão é alguém que se tornou mestre de seu ofício, desautomatizando os automatismos desenvolvidos no exercício de sua função em proveito da criação de saberes — seja o saber-fazer, o saber-pensar ou o saber-viver. É a partir da ideia de trabalho que Stiegler cria suas propostas para uma economia contributiva, na qual os autômatos seriam colocados a serviço da criação de valor social, abrindo a possibilidade da existência de « zonas de exceção » (Alombert, 2025 p. 270) à proletarização do capital.

O pensamento de Bernard Stiegler demonstra sua originalidade pela fecundidade dos conceitos que criou a partir das lacunas identificadas na tradição filosófica. No entanto, na última parte da obra, Alombert demonstra que sua originalidade reside não apenas na criação desses conceitos, mas também em sua tentativa de operacionalizá-los em uma práxis emancipatória. Stiegler utilizou a entropia, uma grandeza termodinâmica, para pensar as “três ecologias”, em referência a Guattari (2024). Na física, a entropia designa o aumento da energia e o grau de desorganização de um sistema dado. Para Stiegler, contudo, a entropia não se define unicamente como a dissipação de energia no domínio físico. A entropia é também biológica, ao reduzir a biodiversidade, e psicossocial, ao decompor os saberes, o pensamento reflexivo e ao capturar a atenção.

Entretanto, a luta contra a entropia pela conservação da energia é uma característica dos seres vivos. A tendência ao acúmulo de energia corresponde à negentropia, que também deve ser vislumbrada além do domínio biofísico. É em razão dessa compreensão que Stiegler criticava a ideia de Antropoceno como uma nova era geológica para a Terra, pois essa proposta oculta os valores que motivam as ações políticas que corroboram a entropia. Ele projeta a negentropia à luz da antropologia e da exteriorização da tecnologia, o que o leva a criar o conceito de negentropologia, que consiste em uma transformação dos saberes para pensar e “tratar” (panser) as tecnologias, constituindo o que ele chama de peanser.

Consequentemente, a ideia do Entropoceno (resultado da entropia dos ambientes físico, biológico e psicossocial) inscreve-se igualmente em uma lógica farmacológica. Ela pode gerar desorganização e homogeneização, características da entropia, ou diversificação, organização e imprevisibilidade, características da negentropia. É a isso que Stiegler chama de bifurcar: cultivar os saberes para escapar do cálculo preditivo, abrindo as portas para o imprevisível.

Conclusão

A obra de Anne Alombert consegue apresentar de maneira sistemática a obra de toda uma vida. Ela conclui seu esforço de síntese e de rigor conceitual sublinhando os principais pilares do pensamento de Stiegler, que é menos uma filosofia própria do que uma resposta possível aos problemas postos pela economia política. De fato, sua resposta concebe a memória e a técnica fora de qualquer oposição, à semelhança da cultura técnica de Simondon, que buscava esmaecer as categorias entre artesanato e indústria, objetos técnicos e indivíduos humanos, enfatizando a ideia de um meio associado. Alombert abstém-se de qualquer contraponto aos conceitos de Stiegler para se dedicar a apresentar seu pensamento, ao mesmo tempo que apresenta um leque de tradições filosóficas com as quais ele se confrontou. A obra de Stiegler testemunha o que ele chama de peanser: a práxis que compreende os desafios de nossos dias e pode, a partir da reflexão crítica, renovar nossos sistemas econômicos e políticos através do “curativo” (pansement) de nossos meios ecológicos.

Referências


Alombert, A. Penser avec Bernard Stiegler. Presses universitaires de France.

Guattari, Félix. Les trois écologies. Lignes.

Simondon, Gilbert (2024). Du mode d’existence des objets technique. Flammarion.

Stiegler, G. (2018). La technique et le temps. Fayard.

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para [email protected] e fortaleça o jornalismo crítico.

Leia Também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *