A disputa real por trás dos protestos no Irã

Alta do custo de vida foi o estopim das manifestações. EUA e Israel tentam dirigi-las para a “mudança de regime”. Esta ousadia pode ser seu ponto fraco: população rejeita interferência externa. Regime age para enfrentar as sanções, mas resultados ainda são limitados

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Isabela Agostinelli em entrevista a Glauco Faria

Os protestos que voltaram a ocupar as ruas do Irã entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 têm sido frequentemente descritos, sobretudo fora do país, como um novo capítulo de uma suposta revolta popular contra a República Islâmica. Contudo, uma análise mais cuidadosa revela um cenário mais complexo e menos alinhado às leituras que buscam celebrar, de forma apressada, a possibilidade de uma mudança de regime.

Diferentemente das grandes mobilizações de 2022, marcadas por reivindicações ligadas aos direitos das mulheres e às liberdades civis, os protestos recentes têm origem na condição econômica da maior parte da população iraniana. Os protestos surgiram de maneira espontânea, impulsionados por comerciantes tradicionais dos bazaares e por trabalhadores diretamente afetados pelo colapso da moeda local, pela inflação elevada e pela deterioração da qualidade de vida.

Mesmo diante deste panorama, no plano interno, não há sinais claros de uma ruptura decisiva dentro do regime. A elite política e militar iraniana permanece relativamente coesa, sem divisões capazes de sustentar um processo de transição de poder. Não existe tampouco uma liderança unificada dos protestos nem um programa político capaz de canalizar o descontentamento social para uma mudança institucional.

O cenário, entretanto, pode mudar com o agravamento da crise. Nos últimos dias, a situação se intensificou e segundo a organização Iran Human Rights (IHRNGO), pelo menos 734 manifestantes teriam morrido desde o início das manifestações. Na segunda-feira (12), o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou à emissora estatal IRIB que “as mesmas pessoas que atacaram este país” durante a guerra de 12 dias em Israel, em junho passado, estavam agora “tentando intensificar esses distúrbios em relação à discussão econômica”, conforme matéria da Al Jazeera.

“Eles treinaram algumas pessoas dentro e fora do país; trouxeram alguns terroristas de fora”, afirmou ele, alegando que eles ​​atacaram um bazaar na cidade de Rasht, no norte do país, e incendiaram mesquitas.
Israel não nega que opera em território iraniano. O ministro israelense do Patrimônio, de extrema-direita, Amichai Eliyahu, disse à Rádio do Exército na semana passada: “Quando atacamos o Irã durante a Operação Leão Ascendente [em junho], estávamos em território israelense e sabíamos como preparar o terreno para um ataque. Posso garantir que temos alguns de nossos agentes operando lá neste momento”.

O ex-secretário de Estado dos EUA e ex-diretor da CIA, Mike Pompeo, também reconheceu a presença de agentes israelenses atuando em solo iraniano. “Feliz Ano Novo a todos os iranianos nas ruas. E também a todos os agentes do Mossad que caminham ao lado deles”, disse ele em uma postagem no X (ex-Twitter). Na mesma toada, mas sempre de forma mais incisiva, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, incitou manifestantes a “ocuparem suas instituições” e prometeu que “a ajuda está a caminho”, cancelando reuniões com autoridades iranianas.

São evidências de que o quadro interno do Irã não pode ser dissociado do contexto geopolítico regional. Desde o genocídio em Gaza e a escalada dos conflitos no Oriente Médio, o país persa passou a ocupar uma posição ainda mais central na disputa entre projetos antagônicos de ordem regional. Com o enfraquecimento de atores não estatais do chamado Eixo da Resistência e a queda do regime sírio, Teerã tornou-se o único Estado que é um obstáculo real às pretensões hegemônicas de Estados Unidos e Israel na região. Ao mesmo tempo, o país busca garantir sua sobrevivência econômica e estratégica aprofundando relações com China, Rússia e outros países do Sul Global, inclusive no âmbito do BRICS — uma aproximação que, paradoxalmente, foi impulsionada pelas próprias sanções ocidentais.

A professora de Relações Internacionais na Fecap, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP, Isabela Agostinelli, explora as múltiplas dimensões da crise iraniana atual em entrevista concedida ao Outras Palavras. Desde o impacto das sanções e a estratégia de “olhar para o Leste” na política externa do Irã até o papel desestabilizador de Israel na região, a reconfiguração das alianças no Golfo Pérsico e as disputas em torno das narrativas sobre o cenário atual. Confira os principais trechos da conversa abaixo.

Os protestos de agora são diferentes dos anteriores?

Tenho visto duas narrativas em torno do que tem acontecido. Uma, que é meio wishful thinking, celebrando o que poderia ser uma “revolução”, aos moldes do que foram as manifestações nas revoltas árabes de 2011, para a queda do regime iraniano. A outra parte tem narrado esses protestos em torno de uma ideia de que se trata de uma influência direta imperial dos Estados Unidos e de Israel, principalmente. As duas narrativas acabam apagando de fato o que os iranianos que estão indo às ruas estão demandando, de forma multifacetada, que é diferente em relação aos protestos anteriores. No caso desses protestos recentes, as causas são fundamentalmente econômicas.

Esses protestos não começaram em 2026, mas em dezembro de 2025, quase espontaneamente e fruto das movimentações de alguns trabalhadores, principalmente os comerciantes que trabalham naqueles chamados bazaar, algo semelhante a mercados tradicionais do Oriente Médio. Esses comerciantes têm sido muito leais ao regime desde a Revolução de 79 e forjaram uma aliança que tem perdurado há um certo tempo. Só que existe uma questão muito anterior, um pano de fundo importante, estrutural, e acho que é isso que está faltando nas análises sobre o que está acontecendo: as sanções econômicas ao Irã.

Esses comerciantes e a população iraniana como um todo tem sofrido com os efeitos das sanções econômicas dos Estados Unidos e dos países europeus há muito tempo, desde 1979, mas elas foram aumentando e se intensificando ao longo dos anos. Em 2006, sanções foram aprovadas pelo próprio Conselho de Segurança da ONU, que também foram implementadas pela União Europeia. Na ocasião, as sanções foram aplicadas visando pressionar o Irã a interromper o programa de enriquecimento de urânio como parte do seu desenvolvimento nuclear. Cerca de dez anos depois, houve um momento de resfriamento quando [Barack] Obama estava no poder, por conta do acordo nuclear de 2015, mas quando o Trump assume seu primeiro mandato, retoma e aumenta as sanções no que chama de campanha de pressão máxima, política que foi continuada no governo Biden. Desde então, o Irã tem sofrido muito com as sanções, mas ao mesmo tempo criou estratégias de sobrevivência ou resiliência econômica.

Uma das estratégias é justamente fortalecer a indústria e agricultura internas, tentar produzir os seus próprios armamentos, e ao longo dos anos isso tem sido feito gradativamente. O que tenho visto de críticas em relação a como o Irã tem reagido a essas sanções do ponto de vista interno, é que, nos últimos anos, o fortalecimento tem se voltado para a Guarda Revolucionária, e não necessariamente para a classe média ou a classe mais baixa.

As pessoas que participam desses protestos pacíficos e legítimos não têm demandado uma mudança de regime, mas soluções econômicas. Claro que, aqui e ali, houve gritos contra o Ali Khamenei e descontentamentos com algumas escolhas políticas. Isso acontece em todos os países, mas isso não necessariamente significa que vai haver uma revolução ou uma revolta como foi, por exemplo, aquilo que alguns chamam de Primavera Árabe, ou como aconteceu no Egito, na Tunísia e na Líbia.
Mesmo assim, estamos num momento em que não é possível termos tantas certezas e prever qual vai ser o futuro, mas potências externas têm aproveitado a agitação política para tentar avançar a sua própria agenda.

Protestos espontâneos e agendas externas

Vários protestos em diferentes locais do mundo podem começar de demandas espontâneas e se transformar em comandos organizados. Isso não tem acontecido no Irã, pelo menos não por agora.

Não existe uma liderança em torno desses protestos. Vimos manifestações nesta segunda (12), inclusive, não a favor do regime exatamente, mas em apoio à permanência do regime nas suas condições estruturais. Essa oposição seria, na verdade, ao que os Estados Unidos e Israel têm tentado avançar, que é na queda de Khamenei e de outras lideranças do governo iraniano, em especial a elite militar.

Grande parte da população iraniana que tem ido às ruas também tem essa noção de que a interferência externa não vai resolver o problema. O Irã tem um histórico de aversão a essas interferências externas, desde o século XX, pelo menos, quando o país sofreu perda de territórios e ocupação por forças estrangeiras, como Grã Bretanha e Rússia no final dos anos 1910. Em 1953, o Irã sofreu um golpe apoiado diretamente por Grã Bretanha e Estados Unidos, que auxiliaram na instauração da ditadura do Sha Reza Pahvali. Desde a Revolução de 79, que destronou Pahlavi, a grande estratégia iraniana, politicamente falando, bem como em termos militares e de defesa, é justamente garantir algum tipo de estabilidade interna para que essas questões domésticas não sirvam de instrumento para fazer avançar intervenções externas, como aconteceu em outros países da região, a exemplo do Iraque e do Afeganistão, dentro desse marco maior da chamada guerra global ao terror. O Estado iraniano, assim como todos os outros Estados do sistema internacional, busca a sua própria sobrevivência. Então, diferentemente do que análises imprecisas e sensacionalistas tentam ventilar, o Irã não age conforme uma “teocracia islâmica”, mas buscando garantir sua própria independência e segurança em uma região que abriga diversas bases militares dos Estados Unidos e que buscam eliminar, direta ou indiretamente, o projeto político anti-imperialista e contra-hegêmonico que o Irã tem levado a cabo desde 79.

Em relação à participação de grupos que têm sido qualificados como infiltrados, até mesmo como terroristas, não sabemos se isso é verdade ou não, mas o fato de os próprios norte-americanos e israelenses utilizarem essa retórica tem como objetivo inflar esse espírito contrário ao regime iraniano, que eu vejo muito mais presente na diáspora iraniana e no Ocidente do que internamente no Irã. Muitos iranianos que moram nos Estados Unidos e na Europa têm clamado por essa queda do regime, alguns deles não pela via da interferência externa. Mas aí é que está a questão: essas duas dimensões estão vinculadas, uma queda do regime vai significar interferência externa.

São escolhas que não são fáceis de serem feitas. Por um lado, há uma demanda legítima por direitos humanos, direitos políticos e liberdade, mas, ao mesmo tempo, o perigo está justamente na instrumentalização dessa narrativa por meio do Ocidente.

No caso da Primavera Árabe, por exemplo, no caso do Egito, da Tunísia e de outros países, o início do processo de revoltas também foi com demandas em torno de reformas econômicas para acabar com a desigualdade, abrir mais empregos, tudo isso influenciado pelas medidas de austeridade dos governos neoliberais daquela época, que acabaram impactando muito fortemente as classes mais baixas e a classe média. A instrumentalização desse discurso de abertura política e econômica acabou gerando, por exemplo, as interferências externas na Líbia, uma intervenção da OTAN no país, que hoje está completamente em frangalhos.

O Egito teve ali um momento de transição com a queda do governo do Hosni Mubarak, e depois entrou Mohamed Morsi. Mas, por ser vinculado à Irmandade Muçulmana, e pela incapacidade do Ocidente de compreender que a democracia no Oriente Médio não necessariamente precisa ser laica ou liberal, houve uma arquitetura de golpe, apoiado pelos EUA e Arábia Saudita, que depôs Mubarak e instaurou a ditadura do Al Sisi.

Se falarmos do ponto de vista mais estrutural e materialista, as forças em disputa no Irã contrapõem o seu projeto revolucionário e contra-hegemônico no Oriente Médio, desde 1979, sendo abertamente anti Israel e anti Estados Unidos, e de outro lado, um projeto levado a cabo por Estados Unidos e Israel com pretensões imperiais, que é de construir uma ordem regional no Oriente Médio baseada na desordem e instabilidade.

Existe uma lucratividade em torno dessas guerras permanentes, ou forever wars, que o Trump, ironicamente, tem dito que vai acabar com elas, mas sua retórica não reflete a realidade. Essa instabilidade, do ponto de vista da acumulação de capital, por exemplo, vinculada à indústria armamentista e à indústria do petróleo, é importante e lucrativa. Embora Trump e Netanyahu tenham advogado por essa ordem regional e estabilidade, na verdade o que eles querem é instabilidade.

E o Irã tem sido, acredito, o único país na região que consegue hoje fazer frente a essas pretensões imperiais em termos de Estado nacional, já que há outros atores ali, não estatais, que compõem o chamado Eixo da Resistência e tem, desde muito tempo, se colocado como anti Israel e anti Estados Unidos, mas foram enfraquecidos desde o genocídio em Gaza e a expansão dessa guerra para a Síria, Líbano e Iêmen. É como se o Irã fosse o último bastião para os interesses imperiais dos Estados Unidos e por isso tem sofrido tantas pressões. Ao mesmo tempo que tem resistido, em junho de 2025, com a Guerra dos Doze Dias, o país demonstrou alguma fragilidade com o assassinato dos cientistas nucleares, mas também mostrou capacidade de defesa, ainda que não no mesmo nível de Israel, por exemplo.

Trump disse que pode conduzir ataques militares, mas postou na sua rede social que vai aplicar tarifas de 25% a países que comercializam com o Irã. Isso faz parte do que os Estados Unidos utilizam como sanções secundárias, que é sancionar países terceiros que têm relações com o Estado iraniano. Não é novo, mas ele inova na intensidade. Quem seria mais atingido nesse sentido seriam a China e a Rússia, mas os russos já estão sancionados desde a Guerra da Ucrânia.

Unidade contra o caos

Acredito que a elite política iraniana não está fragmentada, nem a elite política, nem a militar ou político-militar. O Irã tem demonstrado uma unidade nesse sentido, as alternativas que vêm a uma possível queda de Khamenei são alternativas externas. Ressurgiu a figura de Reza Pahlavi, que seria o herdeiro da monarquia, uma monarquia que não existe desde 1979, além de algumas outras lideranças que estão na diáspora mas não são vistas como legítimas internamente no país. Pahlavi tem aparecido em algumas notícias e entrevistas, sempre no Ocidente, e também nas redes sociais. Mas sua figura representa uma monarquia, ele é herdeiro dessa ditadura que existiu entre 1953 e 1979 e não tem qualquer possibilidade de se colocar e se tornar de fato a nova liderança do país. Se isso acontecesse, acredito que haveria uma resistência interna muito forte por conta da falta de legitimidade política.

Há críticas legítimas em torno das escolhas políticas e econômicas do Irã, mas essas críticas não têm se transformado em demandas para a queda do regime, para a queda do Khamenei ou de Masoud Pezeshkian, um presidente considerado da ala moderada, que tem sinalizado uma abertura para renegociar a questão nuclear com os Estados Unidos. Como disse, existe essa ideia muito bem consolidada de que a instabilidade doméstica abre margem para essas interferências externas. Se voltarmos para a Guerra dos Doze Dias, que foi um ponto de inflexão, a vontade dos Estados Unidos e de Israel era de que os protestos fossem inflados, mas aconteceu o contrário. Teve gente que foi às ruas pedindo para o país, de fato, desenvolver sua bomba nuclear, porque existe a ideia de que o inimigo central é externo. Por enquanto, a elite política e militar iraniana parece bem consolidada. Pode haver algumas fraturas aqui e ali, como em todo e qualquer país, mas não o suficiente para acabar com o regime.

Elemento desestabilizador

Desde a guerra em Gaza, houve uma tentativa, uma vontade muito grande de Israel de aproveitar esse genocídio, expandir as suas pretensões regionais e enfraquecer o Eixo da Resistência, com a ofensiva contra o Hezbollah; o ataque dos pagers e o assassinato de lideranças como [Hassan] Nasrallah no Líbano, uma liderança muito forte, histórica; os ataques aos Houthis no Iêmen; o assassinato de lideranças do Hamas não apenas em Gaza, mas também no Irã e no Catar. No caso do Eixo da Resistência, o Irã é o ator mais forte militar e estrategicamente falando.

Tudo isso são tentativas de diminuir a capacidade de resistência desses grupos ou atores não estatais, que militarmente são menos fortes do que o Irã. Em 2024, Israel já havia atacado a embaixada iraniana na Síria. O ataque direto chegou ao país, de fato, em junho de 2025, com a justificativa de guerra preventiva para atingir o programa nuclear iraniano. Não à toa vários cientistas nucleares foram assassinados. Nessa época, houve uma preocupação por parte do Conselho de Cooperação do Golfo, basicamente formado por monarquias árabes, algumas delas próximas a Israel, como os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein. Emirados Árabes Unidos que protagonizam, desde 2020, a normalização das relações desse grupo de países com o Estado israelense, aprofundando um processo anterior de aproximação comercial e estabelecendo formalmente relações diplomáticas, de turismo e troca de tecnologia, inclusive armada. Foi o primeiro governo Trump que organizou e mediou esses acordos principalmente com seu genro e então conselheiro sênior da Casa Branca, Jared Kushner.

No governo Biden, havia uma tentativa de trazer a Arábia Saudita para esses acordos. Ela é a grande joia da coroa dos Acordos de Abraão. Mas o 7 de outubro mudou tudo, imediatamente a Arábia Saudita falou que ia paralisar e suspendeu de fato as negociações para normalizar suas relações com Israel porque isso significaria um abandono total da questão palestina. A Arábia Saudita imediatamente falou que não ia voltar às negociações enquanto não houvesse uma solução factível para o estabelecimento de um Estado palestino.

Outro grande ponto-chave diz respeito aos ataques que Israel fez no Catar, em setembro de 2025. Como Israel ataca outro aliado dos Estados Unidos? O Catar sedia a maior base militar americana no Golfo. Então é nesse momento que alguns países do Golfo começam a perceber que na verdade o centro da desestabilização regional não é o Irã. O Conselho de Cooperação do Golfo foi criado em 1981, no contexto da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), para ser um contraponto às pretensões de expansão da revolução do Irã, que as monarquias do Golfo viam como uma ameaça política, de segurança e energética. Essas preocupações estavam alinhadas à política externa norte-americana da época, com a chamada Doutrina Carter. Mas esses ataques de junho e setembro de 2025 mostraram que o centro da desestabilização regional não é o Irã, é Israel. E sempre foi, mas os palestinos não são levados em consideração. Desde 1948 há essa tentativa de desestabilizar a ordem regional e os palestinos que pagam esse preço há muito tempo. Em setembro de 2025, Israel atacou seis países em menos de 72 horas.

Ainda é muito cedo para pensarmos o que os países do Golfo vão fazer nesse sentido, porque o próprio Conselho de Cooperação do Golfo tem algumas divisões. O Catar se coloca como esse país mais mediador, a Arábia Saudita se afastando mais de Israel e os Emirados Árabes Unidos se aproximando cada vez mais do Estado israelense, inclusive abandonando totalmente a causa palestina. De qualquer maneira, há sim uma discussão em torno dos custos dessa aliança com os Estados Unidos, pois o ataque ao Catar deixou claro que Israel pode fazer o que bem entender que os EUA não vão impedir, inclusive contra seus próprios aliados regionais árabes.

O Irã e a busca pela saída do isolamento

Desde 2021, com o início da presidência do Raisi (2021-2014), o Irã busca o que alguns autores chamam de política externa de “olhar para o Leste”. Não é uma nova política externa, ela vigora desde 2005 com Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), com a orientação de se afastar um pouco dessa crença de que é possível dialogar com o Ocidente. É em 2006 que o país deixa evidente que está enriquecendo urânio e por conta disso vai receber as sanções formais aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Entre 2013 e 2015, já na presidência de Rouhani (2013-2021), houve uma mudança no “olhar para o Leste”, com a adoção de uma política externa mais aberta à aproximação e diálogo com os norte-americanos e com Barack Obama para se chegar a uma solução e reduzir as sanções. Isso de fato deu frutos, sobretudo a assinatura do JCPOA, o acordo nuclear, e a retirada de boa parte das sanções. Mas tudo vai por água abaixo quando Trump chega ao poder e, em 2018, adota a política de pressão máxima ao Irã. Desde 2021, pelo menos, o Irã renova essa política de olhar para o Leste, buscando aumentar as parcerias comerciais, energéticas e estratégicas com China e Rússia, o que representa um alívio econômico para o Irã, uma forma de conseguir estabelecer alguns pontos de resiliência.

Mas não são só as grandes potências que estão dentro do marco da política externa de olhar para o Leste. Há alguns estudos interessantes sobre as relações que o país tem estabelecido com Cuba e Venezuela, por exemplo. No caso da Venezuela, no setor petrolífero, e no caso de Cuba, no setor farmacêutico. O desenvolvimento e distribuição de vacinas contra a covid-19, por exemplo, durante a pandemia, foram bem importantes. Então, são pequenas estratégias de investimento em desenvolvimento interno que os iranianos têm buscado desde a Revolução de 1979.

Do ponto de vista das relações externas, essas duas grandes potências, Rússia e China, têm sido alternativas para o Irã se posicionar nessas mudanças mais estruturais da ordem internacional, que tem caminhado para o que alguns chamam de multipolaridade, com outros polos de poder estratégico ao redor do mundo. As monarquias do Golfo também buscam essa diversificação de parcerias, não necessariamente se alinhando política e militarmente. Isso vai explicar o porquê de a China ter conseguido, por exemplo, mediar o acordo de normalização das relações entre Irã e Arábia Saudita em 2023, que eram dois grandes inimigos regionais.

O Iêmen se tornou um território de disputa muito importante, com o apoio do Irã aos Houthis e a intervenção da Arábia Saudita na região. Na época, alguns autores chamavam aquilo de Nova Guerra Fria no Oriente Médio, que não era entre árabes do bloco “moderado” (as monarquias) e os árabes do movimento nacionalista encabeçado por Nasser do Egito. No contexto das revoltas árabes, essa nova Guerra Fria se deu entre a Arábia Saudita e o Irã, sobretudo na Síria e no Iêmen. Isso deixou de ser uma realidade desde os anos 2020. Foi possível também a partir de uma visão da Arábia Saudita de que não era estratégico se vincular apenas aos Estados Unidos, porque agora a China é o grande parceiro comercial de vários países da região.

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros países do entorno têm tentado navegar nessa disputa entre as grandes potências e tirar benefícios próprios. A Rússia também busca se beneficiar. O país está sofrendo sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia e houve uma pressão para que a Arábia Saudita e os países do Golfo aderissem a essa campanha de sanções, mas eles não aderiram porque têm boas parcerias comerciais com os russos, inclusive no campo energético. Foi por conta das sanções que esses países conseguiram diversificar essas parcerias. Assim como o Irã, que se aproximou da China não apesar das sanções, mas por causa delas.

Direitos e democracia

Algumas narrativas em torno do que tem acontecido no Irã têm adotado a chave da democracia liberal, da democracia de mercado, o que aconteceu na Primavera Árabe também. Não posso afirmar, com certeza, se tem algum elemento geracional ou não, mas as narrativas que vejo por parte do Ocidente, principalmente de algumas feministas liberais, têm trazido um pouco essa questão dos direitos das mulheres, que supostamente só seriam garantidos numa democracia.

Só que a democracia que se pretende instalar no Irã, por parte do Ocidente, não é uma democracia verdadeira. Seriam soluções trazidas de fora, como no caso do Egito, que hoje é uma ditadura. Não tem ninguém conversando com essas mulheres iranianas in loco, perguntando quais são as suas demandas. E há um silêncio em relação aos direitos das mulheres palestinas, por exemplo, mães palestinas que têm sido assassinadas constantemente, as que não conseguem ter filhos em meio à guerra, os bebês que morrem de fome… Enfim, é uma comoção seletiva que de novo faz parte dessa mentalidade orientalista que temos muito aqui no Ocidente. As mulheres iranianas não precisam de uma salvação que venha do Ocidente, elas mesmas podem criar as suas organizações e têm criado essas organizações de direitos das mulheres, os protestos de 2022 são um pouco reflexo disso. Acho que é nossa função ficar atenta ao que essas narrativas podem gerar, mesmo que essa não seja a intenção, mas o resultado pode ser outro.

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