O Papa errou no caso dos abusos no Chile; volta a errar ao falar de família

Tenho tanta identidade, carinho e admiração pelo Papa Francisco que nossa relação não pode ter outro caminho que não seja o da sinceridade. Nunca estive com Bergoglio, nem ele nunca ouviu falar de mim. Mas há um laço profundo que nos une. Por isso, volto a escrever, com o coração partido, como o fiz em janeiro último: Francisco errou. [O que escrevi em janeiro está aqui e aqui]:

Errou em janeiro em sua visita ao Chile, quando esteve ao lado da apodrecida hierarquia da Igreja chilena que, modelada por João Paulo II, foi servil a Pinochet e encobriu por décadas os padres criminosos, abusadores de crianças.  Francisco errou e teve a grandeza de reconhecer seu erro e, com isso, cresceu em estima e admiração em todo o mundo.

No mesmo espírito, volto a escrever. O Papa errou mais uma vez. Ao fazer um discurso (improvisado, o que serve como atenuante) para o Fórum Italiano das Associações familiares, em 16 de junho, Francisco apresentou uma definição de família que em nada fica a dever ao pensamento conservador mais atrasado no catolicismo em particular e no cristianismo em geral. Uma definição que des-humaniza o sentido da família. O que disse o Papa:

“Hoje — dói dizê-lo — fala-se de famílias ‘diversificadas’: diferentes tipos de família. Sim, é verdade que o termo ‘família’ é uma palavra analógica, porque se fala da ‘família’ das estrelas, das ‘famílias’ das árvores, das ‘famílias’ dos animais… é uma palavra analógica. Mas a família humana como imagem de Deus, homem e mulher, é uma só. Única.” [aqui a íntegra do discurso]

As palavras do Papa feriram profundamente milhões e milhões de pessoas que em todo o planeta integram famílias que fogem do padrão “homem e mulher”. A frase é terrível, porque, como fazem os fundamentalistas, atribui tal conformação familiar a uma projeção exata da “imagem de Deus”, como se o Eterno pudesse ser reduzido a uma dimensão particular, momentânea e parcial do fenômeno humano.

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Frei Betto: ao contrário do que dizem, Igreja já admitiu o aborto

A campanha das mulheres argentinas a favor da legalização do aborto

Uma das maiores referências da Igreja brasileira e latino-americana, o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto, escreve sobre o aborto de maneira aberta e sensível e desmonta o universo de mentiras, preconceito e desumanização ao redor do tema.

Ele explica que, ao contrário do que afirmam os católicos conservadores, “a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez”.

Ele desmascara a falsidade que se esconde na campanha agressiva da direita política e religiosa contra o direito ao aborto: “Por que alguns se opõem de maneira tão violenta ao debate sobre a descriminalização do aborto? Não se trata dos mesmos setores que proíbem a educação sexual nas escolas, defendem a ‘escola sem partido’ e a pena capital, e aplaudem a eliminação sumária de supostos bandidos e traficantes? Ora, para tais setores, a descriminalização do aborto poderia trazer à tona o que se passa entre executivos e secretárias, entre patrões e empregadas, além do risco de ter que dividir a herança com o filho bastardo. A morte clandestina no ventre elimina qualquer risco à propriedade e à imagem pública do proprietário. Para este, aliás, não há ilegalidade nesta matéria. Basta embarcar a gestante para um país que não criminaliza o aborto, e tudo estará resolvido de acordo com a lei”.

Sua proposta é uma abordagem humanizada sobre o assunto, que considere com equilíbrio os direitos da mulher e do embrião:

Enxergar com generosidade que “o feto é uma espécie de subproletário biológico. Tão reduzido à sua impotência, que não tem como protestar ou rebelar-se”.  

E, ao mesmo tempo, um olhar humanizado à mulher: “É a defesa do sagrado dom da vida que levanta a pergunta se é lícito manter o aborto à margem da lei, pondo em risco também a vida de inúmeras mulheres pobres que, na falta de recursos, tentam provocá-lo com chás, venenos, agulhas ou a ajuda de curiosas, em precárias condições higiênicas e terapêuticas”.

A legalização do aborto deve ser vista num contexto social de solidariedade no qual “deve-se assegurar o direito à vida do embrião e amparo moral, psicológico e econômico à gestante, bem como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário”.

(Mauro Lopes)

Por Frei Betto

Ao contrário do psicanalista ou da psicóloga que se depara com o drama de mulheres que abortaram, como religioso tenho sido solicitado por aquelas que, diante de uma gravidez indesejada, sofrem a atroz angústia da dúvida. E raramente elas chegam acompanhadas por seus parceiros – o que não deixa de ser um preocupante sintoma.
É espantoso que, às portas do século XXI, haja questões tão sérias, como o aborto, que ainda são consideradas tabus indiscutíveis. O capitalismo erotiza a cultura, através da reificação das relações humanas subjugadas aos imperativos do consumo, e por isso mesmo mantém a censura em torno do tema da sexualidade.
Para o sistema, que depende da exacerbação do imaginário coletivo, só é real o que não é racional. Seria inquietante se, por exemplo, os movimentos feministas começassem a questionar o uso da mulher na publicidade. Pelo mesmo motivo, impede-se que nas escolas se trate de questões de gênero e de educação sexual (quando muito, há aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis).
Devo acrescentar que lamento as dificuldades que a Igreja impõe à discussão em torno do aborto. Se a Teologia é o esforço de apreensão racional das verdades de fé, o teólogo tem, por dever de ofício, de se manter aberto a todos os temas que dizem respeito à condição humana, mormente quando encerram implicações morais. Aquilo sobre o qual ninguém fala ou escreve, não existe – diz um personagem de Érico Veríssimo em Incidente em Antares.
Por isso mesmo, as instituições autoritárias preferem cobrir de silêncio questões polêmicas que refletem incomensuráveis dramas humanos. A própria Constituinte evitou o tema, preferindo adiá-lo para as leis complementares. Embora eu seja contra o aborto, admito a sua descriminalização e sou plenamente a favor da mais ampla discussão sobre o assunto, pois se trata de um problema real, grave, que afeta a vida de milhares de pessoas. Desconfio, entretanto, que há algo de verdade neste provérbio feminista: Se os homens parissem, o aborto seria um sacramento.

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Padre Paulo Bezerra: nome de Francisco não é mencionado nas missas em muitas paróquias

Padre Paulo Sérgio Bezerra é um dos mais expressivos líderes da Igreja Católica alinhada com o Papa Francisco no Brasil e, por isso, perseguido cotidianamente pelos católicos conservadores. Ele denuncia o boicote ao Papa no interior da Igreja: “[Francisco] nem é citado na oração eucarística. Há paróquias aqui que quando fala lembremos do Papa, não fala nem o nome dele”. Bezerra é padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.

Para ele, os seminários formam cada vez mais padres carreiristas e sua estrutura “leva à rejeição da Igreja de Francisco”. É a segunda entrevista de padre Paulo Bezerra que Caminho Pra Casa publica -a primeira foi em janeiro de 2017: “Padre Paulo: papados conservadores ‘destruíram Igreja inserida na vida dos pobres’ no Brasil e AL”.

Desta vez, quem fez a entrevista foi outro padre, Luis Miguel Modino, jornalista e pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM) e que terá um papel importante na divulgação e reflexão sobre o Sínodo da Amazônia, que acontecerá em 2019.

(Mauro Lopes)

Por padre Luis Miguel Modino

Um padre da periferia, da Teologia da lLbertação, da opção pelos pobres. Esse é Paulo Sergio Bezerra, alguém que, depois de 36 anos em Itaquera, na zona leste de São Paulo, tem se tornado uma referência para muitos. Chegou lá seguindo os passos de dom Angélico Bernardino, um bispo que, mesmo emérito, nunca perdeu sua voz e seu testemunho profético.

Nesta entrevista, o Padre Paulo, reflete sobre a realidade social e eclesial no Brasil atual e sobre as mudanças que têm acontecido desde que 38 anos atrás foi ordenado padre. Define os padres novos e seminaristas dizendo que “buscam a carreira”, clericais, interessados mais nos objetos religiosos do que nos livros, criticando também os institutos de teologia, onde “alguns professores são explicitamente contrários ao que o Papa fala”. Nesse sentido ele afirma que “com Francisco, veio, em primeiro lugar, uma certeza de que estávamos e estamos no rumo certo. Em segundo lugar, temos uma força maior que nos ajuda a enfrentar tudo aquilo que vem como repressão, ou incompreensão”.

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Nas missas, proclama-se a divisão do pão e do peixe; mas a Igreja escuta cada vez menos

Foto de João Zinclar

A mais explícita indicação da consequência do amor proclamado por Jesus é repetida por seis vezes nos Evangelhos: a  partilha do pão e do peixe. Isso não acontece com nada mais nos textos de Mateus, Marcos, Lucas e João. As primeiras comunidades cristãs assumiram essa mensagem e praticaram um tipo de comunismo primitivo. Uma dessas  narrativas foi proclamada nas missas deste domingo (29); mas a Igreja quase não escuta mais

Por Mauro Lopes

Não há nada parecido nos Evangelhos: apenas a passagem da divisão dos pães e dos peixes é narrada seis vezes, sendo duas vezes em Mateus e Marcos. Neste 17º Domingo do Tempo Comum, ouviu-se nas missas na Igreja Católica e de algumas outras denominações o mais longo dos relatos, do Evangelho de João (leia ao final ou aqui).

É a expressão mais concretizada da mensagem central de Jesus: o amor só se realiza na partilha, no movimento que realizamos na direção do outro, da outra. Não há cristianismo quando vige a insensibilidade diante da miséria e da fome, das doenças que as acompanham, da opressão e humilhação dos mais pobres.

As primeira comunidades cristãs entenderam isso de maneira radical (indo à raiz) e, no relato dos primeiros dias, os Atos dos Apóstolos, por duas vezes está descrito como a mensagem de Jesus foi entendida, numa espécie de comunismo primitivo:

“Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.” (Atos 2, 44-45)

“A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade.” (Atos 4, 32-35)

Este comunismo primitivo foi brilhantemente anotado num pequeno livro de Rosa Luxemburgo, de 1905: O socialismo e as igrejas – o comunismo dos primeiros cristãos (Rio de Janeiro, Dois Pontos, 1986).

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Contra as versões falsificadas de Francisco, o Papa dos Pobres

Padre Julio Lancellotti chamou-me a atenção para este texto do excepcional Andrea Grillo, um do teólogos de vanguarda desta primeira metade do século 21. O artigo, ao fazer a crítica de um livro recém-lançado sobre a trajetória intelectual de Francisco, é uma vacina poderosa contra as tentativas de pasteurização e aburguesamento de sua imagem. Há três Papas na praça, apenas um deles é de fato Francisco: o Papa dos Pobres. Episódios recentes das homilias de Francisco contra os golpes e as mídias conservadoras e sobretudo o caso do “terço do Papa” ilustram bem as diferentes projeções da figura de Bergoglio.

Por Mauro Lopes, breve introdução ao texto de Andrea Grillo.

Temos hoje três projeções da figura do Papa Francisco disseminadas mundo adentro, no cristianismo e fora dele. São elas, resumidamente:

1.  O Papa dos Pobres, que recupera a originalidade do cristianismo, o espírito do Vaticano II, que combate a herança desastrosa e conservadora de Wojtyla e Ratzinger e alinha a Igreja aos deserdados, ao degradados, aos perseguidos e injustiçados à turma de Jesus. Recupera o Pacto das Catacumbas que reuniu bispos e padres num compromisso à margem do Vaticano II, de uma Igreja pobre com os pobres. Assim leem o Papa os cristãos vinculados à teologia latino-americana, à teologia liberal norte-americana e europeia e à teologia do ecumenismo e do pluralismo religioso da Ásia, todos perseguidos nos 35 anos anteriores a Francisco.

2. O Papa esquerdista, tirano, com tendências comunistas, amigo dos “vermelhos”, traidor da tradição e da “pureza” da Igreja (na verdade, da Igreja medieval e do projeto restauracionista dos dois papas que o antecederam). Assim enxergam Francisco os tradicionalistas radicais, a direita da Igreja, que desejam uma religião de ritos tridentinos e dupla moral, cujo maior exemplo é a Igreja do Chile. São liderados pelos católicos extremistas dos EUA e Europa e no Brasil têm uma rede de apoio.

3. O Papa “meio a meio”, “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, na verdade um continuador de João `Paulo II e Bento XVI, que é moderado, em cima do muro, que dá uma no cravo e outra na ferradura. Um papa “tucano” (isso antes de os tucanos se tornarem adeptos de golpes de Estado). Disseminam esta imagem os “moderados”, cuja representação mais vistosa é a atual direção da CNBB. É a turma do “deixa disso”. Além deles, apropriam-se desta imagem  e os tradicionalistas “espertos”, que querem ir “cozinhando” Francisco até sua morte e a eleição de (esperam) um continuador de João Paulo II e Bento XVI, os “papas de verdade”. Esta turma engole Francisco em público, faz festa nos temas morais em que Francisco busca alguma composição, distribuem “fake news” todo o tempo, inventando um Papa que nunca existiu.

Vimos essa “disputa” em torno da imagem do Papa nos episódios das homilias recentes de Francisco contra as ditaduras e os golpes de Estado patrocinados pelas mídias conservadoras e, sobretudo, no caso do envio do argentino Juan Grabois a Lula na cadeia, em Curitiba -a visita foi vetada pela PF e ficou conhecida pelo terço que Francisco abençoou e mandou ao ex-presidente.

Foram duas homilias, ambas em celebrações na capela Santa Marta, no Vaticano, onde preside as missas sempre que está em Roma. Em nenhuma delas o Papa citou Lula ou o Brasil (ou sua Argentina), mas é evidente a menção:

Na primeira, em 17 de maio, Francisco condenou o golpe de maneira dura. Sem citar o Brasil ou o nome de Lula diretamente, fez uma descrição perfeita do que acontece no país. O Papa descreveu à perfeição a situação brasileira: “a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas”. Depois chega a justiça, “as condena e, no final, se faz um golpe de Estado” (aqui).

Na segunda, ontem (18), um mês depois, Francisco voltou a descrever a situação brasileira à perfeição, sem mencionar o país: “Se concede todo o aparato da comunicação a uma empresa, a uma sociedade que faz calúnia, diz falsidades, enfraquece a vida democrática. Depois vêm os juízes a julgar essas instituições enfraquecidas, essas pessoas destruídas, condenam e assim vai avante uma ditadura. As ditaduras, todas, começaram assim, adulterando a comunicação, para colocar a comunicação nas mãos de uma pessoa sem escrúpulo, de um governo sem escrúpulo” (aqui).

O caso de Juan Grabois ficou bem conhecido no Brasil, com enorme repercussão. O argentino, coordenador dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares ao lado do cardeal Peter Turkson e consultor do Vaticano, é um dos braços direitos de Francisco, que o enviou até Curitiba, com uma mensagem e um terço (toda a história está aqui).

Nos episódios das homilias e do terço, as três visões sobre Francisco moldaram a reação dos agrupamentos de católicos e dos protagonistas na sociedade. Os que consideram Francisco o Papa dos Pobres alegraram-se com as homilias e o envio de Juan Grabois e cuidaram de divulgá-las ao máximo, com apoio entusiasmado ao Papa; os que consideram Francisco um Papa esquerdista consideraram as homilias “políticas” e tentaram desmoralizar a iniciativa da visita da Lula considerando as notícias sobre o fato como “fake news”; os que  projetam Francisco como um Papa “meio a meio” silenciaram, não se referiram às homilias ou à visita, o que tem sido recorrente -é o caso, por exemplo, da CNBB. No caso dos grupos do catolicismo de direita e moderado, há um aspecto relevante em sua postura: Francisco, como o mais carismático Papa da história, foge a todos os padrões do monarca que obedece às normas e regras rígidas da instituição; Bergoglio passa por fora da estrutura eclesial e age diretamente na relação com seu rebanho, utilizando até um argentino com jeito de motoqueiro em vez de monsenhores sisudos e fantasiados de solenidade.

O artigo de Andrea Grillo, escrito originalmente em seu blog Come Se Non (aqui, em italiano) foi traduzido por Moisés Sbardelotto e publicado em português no fantástico IHU, dos jesuítas do Rio Grande do Sul. A íntegra segue abaixo.

O texto é uma resenha crítica do livro de Massimo Borghesi,  Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual (Petrópolis: Vozes, 2018), que está mobilizando grande atenção nos meios intelectuais católicos e cristãos em geral. Como explica Grillo no início, o artigo é iluminado por sua experiência no  Simpósio IHU sobre “A virada profética do Papa Francisco” que polarizou teólogos e pensadores cristáos de todo o mundo entre 21 e 24 de maio de 2018 no campus da Unisinos, em Porto Alegre.

O artigo de Grillo tem o título de “A virada profética do Papa Francisco: virtudes histórico-filosóficas e vícios sistemáticos de uma biografia intelectual”. É imperdível.

Segue a íntegra:

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Os leigos da pequena Osorno são os líderes da Igreja neste momento

Protesto de leigas e leigos em Osorno contra nomeação do bispo Juan Barros

Esculpida a mão por João Paulo II, a Igreja chilena encontra-se em estado terminal. Os corajosos leigos e leigas da pequenina Osorno são os grandes líderes do catolicismo no atual momento. Eles ousaram dizer NÃO ao clericalismo e à “cultura do Templo”. Para a hierarquia católica, os leigos e leigas são pessoas desprezíveis, incômodas, um estorvo. Mas Jesus era leigo, como seus discípulos e o maior santo da história, Francisco. Uma reflexão apresentada à comunidade da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (10) tive a enorme alegria de ir à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, para participar de uma das sete celebrações eucarísticas o redor do 90 anos da paróquia. Foi um convite amigo do pároco, padre Paulo Sérgio Bezerra, das lideranças comunitárias do grupo Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM). Participei da missa e, logo depois da saudação inicial, apresentei à assembleia uma reflexão sobre o tema dos leigos e leigas na Igreja hoje.

A seguir, a íntegra do que falei lá:

Caros irmãos e irmãs, paz.

Estou aqui hoje com a missão de apresentar a vocês uma reflexão sobre a questão dos leigos e leigas na Igreja nos dias de hoje.

Começo com uma notícia estrondos: o Mestre de vocês era leigo.

Os discípulos do Mestre, seus primeiros seguidores, eram todos leigos.

O maior santo da Igreja, que ultrapassa as fronteiras do catolicismo e mesmo do cristianismo, São Francisco, era leigo.

Quando Maria Madalena encontrou Jesus no momento crucial da ressurreição, em João, como ela saudou-o? Não o foi como Vossa Santidade, Papa, eminente cardeal, ou, mais apropriadamente, como convém a um católico obediente, Vossa Eminência Reverendíssima, dom Jesus, senhor bispo ou simplesmente padre ou Vossa Reverendíssima. Nem o chamou, como eram expressões correntes à época de grande rabino ou ilustre mestre da lei ou sacerdote afamado.

Nada disso. Saudou-o, entre surpreendida, alegre e assustada, o que índica extrema espontaneidade, de Rabuni! O que quer dizer mestre, grande mestre ou ainda mais própria e intimamente, meu mestre, meu grande mestre.

Jesus sentava-se para conversar com seus amigos em roda. Ceava com eles em roda. Não havia um lugar mais elevado ou um trono reservado a ele para partilharem pão e vinho.

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Corpus Christi: de uma “festa de guerra” ao encontro com o outro

A solenidade de Corpus Christi, criada no auge da cristandade para afirmar um catolicismo hegemônico com “espírito de guerra”, serviu ao desenvolvimento de uma religião na qual imagina-se comungar com Cristo no íntimo do coração, num rito ensimesmado,  sem preocupação com os que sofrem. Partilha-se o pão da eucaristia ignorando a fome de milhões de irmãos privados de pão, de justiça e de futuro. No Vaticano II, buscou-se reformar este espirito, aproximando a solenidade do centro da mensagem de Jesus Cristo: a doação de si para o outro, na convicção de que apenas a relação com o outro nos torna capazes de humanidade -e, portanto, de divindade.

Por Mauro Lopes, com texto de José Antonio Pagola | Ilustração: Guy Veloso,  da série “Penitentes”, Belém, Pará, Brasil (2006), tomado de Matersol  

A solenidade de Corpus Christi (Corpo de Cristo) celebrada hoje (31) foi estabelecida no século XII, auge da cristandade, como uma “festa de guerra”, animada por um espirito apologético. A dinâmica de sua criação foi a da afirmação da hegemonia da Igreja Católica, numa lógica ensimesmada que buscava fazer da missa o centro da vida do católico e do rito da comunhão um privilégio que conduzia ao ensimesmamento.

No Concílio Vaticano II foi reformada, tornou-se a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Apesar de os conservadores buscarem manter este caráter de uma “festa de guerra”, ela é hoje, depois do Vaticano II, uma celebração do centro da mensagem de Jesus Cristo: a doação de si para o outro, na convicção de que apenas a relação com o outro nos torna capazes de humanidade -e, portanto, divindade.

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Scholas Ocurrentes: projeto político pedagógico de Francisco que atualiza as CEBs

Eduardo Brasileiro e a delegação da IPDM com o Papa em Roma

Um novo jeito de os jovens serem  “Igreja em Saída” no meio dos pobres. Scholas Ocurrentes, o projeto do Papa Francisco que atualiza a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

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Leia artigo-testemunho de Eduardo Brasileiro, membro da IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento), educador social do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, e participante do 3º Encontro Internacional de Jovens animado pelo Papa Francisco e organizado pela Fundação de Direito Pontifício Scholas Ocurrentes entre 6 e 11 de maio em Roma: 

Desde 1990, Francisco, ainda Cardeal de Buenos Aires, iniciou um projeto chamados ‘Scholas de Ciudadania’ onde desenvolveu uma experiência comunitária de engajamento popular nas causas comuns. Naquela época realizou encontros ecumênicos, oficinas para jovens, ações comunitárias, convivências compartilhadas.

Quando eleito Papa, criou uma fundação de direito pontifício chamada “Scholas Ocurrentes” (escolas dos encontros), onde ampliava o projeto de Buenos Aires, numa dimensão global de formação cidadã para jovens com engajamento em suas comunidades.

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No fim, Jesus não mandou olhar pro céu, erguer palácios ou promover guerras

Um peregrino segura uma folha para receber o darsham matinal (a oferenda de comida), no Templo de Ouro dos Sikhs, Amritsar, Índia, foto de Abbas Attar (1944-2018), Magnum Photos, Irã. Publicada em Matersol, Manos da Terna Solidão (http://matersol.blogspot.com.br/)

Neste domingo (13) já no finzinho do Tempo da Páscoa, cristãos de diversas denominações, como os católicos, celebram a solenidade  conhecida como Ascensão do Senhor. Ela refere-se à conclusão da missão de Jesus, que “passa o bastão” para seus amigos e amigas. Jesus enviou-os a mudar o mundo e a si próprios, a disseminar a Boa Nova de um tempo-lugar chamado “Reino de Deus”. Não mandou ninguém ficar olhando para os céus, orar piedosamente, erguer palácios ou promover campanhas de ódio. 

Por Mauro Lopes

O texto sobre o qual se medita nas missas deste dia é extraído do Evangelho de Marcos (Mc 16,15-20), exatamente a passagem da ascensão. Como observou o excelente biblista da novíssima geração no Brasil, padre Francisco Cornélio, depois dos estudos bíblicos dos últimos 100 anos já se dá como certo que este trecho não estava no texto original do Evangelho e foi acrescentado décadas depois.

O episódio da ascensão de Jesus aparece em Marcos (como adendo posterior) e em Lucas (Lc 24, 50-53)  e há referência a ele no início do texto que relata a missão e vida das primeiras comunidades cristãs, o Atos dos Apóstolos (At 1, 9-11), cuja redação usualmente atribui-se ao mesmo Lucas. Não há qualquer referência ao episódio em Mateus ou João.

Há consenso também de que as passagens de Marcos, Lucas e dos Atos dos Apóstolos sobre a ascensão não são relatos jornalísticos, mas teológicos, voltados à animação das comunidades nascentes que sobreviviam debaixo de perseguição, divisões e ondas de desânimo.

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A teimosa esperança do povo – para Boff e Esquivel

 

Uma poesia do professor Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães, da PUC-MG para Leonardo Boff e Adolfo Pérez Esquivel. É para Lula também. E para os profetas e todos os perseguidos por terem sede de justiça. Mas é sobretudo sobre a primavera e a teimosa e corajosa esperança do povo.

Por Edward Neves Monteiro De Barros Guimarães

Neste tempo atroz em que vivemos
Há tiranos que se julgam onipotentes
Tentam impedir o novo, a primavera
Parar a fé militante e a luta do povo
Mas não é suficiente!

Primeiro tentam destruir o nome
Difamar a trajetória do líder
Aquele em quem o povo se reconhece
E que alimenta o fio tênue da esperança
Mas não é suficiente!

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