Os Marinho, as ruas, Temer, mídia e luta de classes

Tirar Temer no tapetão e com eleições indiretas como querem os Marinho é muito diferente de derrubá-lo nas ruas e com diretas já

Veja que interessante. A Globo quer a renúncia de Temer. A esquerda, os movimentos sociais, os sindicatos querem a renúncia/derrubada do presidente golpista.
Ora, não seria razoável imaginar uma aliança, ainda que pontual entre a Globo e os movimentos sociais/a esquerda? Todos não querem o mesmo, a queda de Temer?
Não seria razoável pensar que a Globo devesse repetir o que fez ao convocar de maneira persistente, intensa, os movimentos de rua contra Dilma, em 2015/2016? Ora, hoje (21) há manifestações de rua convocadas em todo o país, assim como na quarta (24), quando há uma marcha sobre Brasília e os Poderes corruptos e traidores da democracia.
A Globo não deveria estar convocando maciçamente essas manifestações? Não é evidente que se a postura da Globo se repetisse haveria uma enorme potencialização dos protestos de rua pela queda de Temer? Então por que há silêncio, porque há veto dos Marinho e seus capatazes em relação às manifestações de agora?
Porque a posição de cada qual está perpassada por seu caráter de classes.
Os Marinho e sua turma querem a saída de Temer para que tudo fique como está, para que as reformas prossigam, que os pobres sejam ainda mais esfolados. Os Marinho são a personificação do príncipe de Falconeri, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa, na metade do século 20: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”.
Para isso, é fundamental derrubar Temer e fazer uma transição sob controle dos ricos, com uma eleição indireta no Congresso comandado por eles (mais da metade dos parlamentares tiveram seus mandatos comprados pelos grandes grupos empresariais, como o megadelator Joesley Batista revelou). É preciso que o Judiciário faça sua parte e tenha tempo de vetar Lula de concorrer às eleições, é preciso manter as chaves da senzala nas mãos.
Os movimentos sociais, os sindicatos e a esquerda querem derrubar Temer para mudar radicalmente a orientação do país. Querem eleições diretas -de preferência eleições gerais com proibição taxativa do patrocínio/compra empresarial de candidaturas.
Por isso a Globo não convoca os protestos de rua. Ela morre de medo de perder o controle. Quanto ao Estadão Folha, Bandeirantes e outros, esses continuam cães de guarda do golpe, ao lado de outra fração dos ricos -a Abril está que nem barata tonta. Em parte porque têm medo do que pode acontecer no processo de queda de Temer; mas em verdade, desesperados por seus acordos sigilosos que envolvem dezenas, centenas de milhões de reais com Temer para salvá-los da bancarrota -Otavinho, os Saad, os Civita e outros são como Joesleys que negociam outro tipo de carne.
Estamos vivendo um momento duro, tenso, de intenso sofrimento para os pobres e algumas esperanças, um momento raro em que um fato abalou uma correlação de forças que estava estratificada.
Estamos também assistindo uma aula a céu aberto sobre luta de classes.

[Mauro Lopes]

E era tudo ódio a Lula e aos pobres

O ódio dos ricos e de amplos segmentos da classe média não se volta aos corruptos: os pobres e Lula são seus alvos

A implosão do governo golpista de Temer revela com transparência o caráter do que aconteceu no país nos últimos três anos, especialmente depois que Aécio Neves convocou as elites à derrubada de Dilma, ainda na noite do segundo turno, em 26 de outubro de 2014. Nesse tempo, as mídias conservadoras em aliança com os representantes das elites incrustados no aparelho de Estado instrumentalizaram o nojo de boa parte da população aos políticos e construíram uma narrativa segundo a qual o PT seria o autor de toda a corrupção no país. Mas a rejeição à corrupção era apenas a couraça, a carapaça legitimadora. O vetor decisivo das mobilizações verde/amarelas foi um sentimento que está na gênese da elite e de boa parte da classe média do país: o medo/ódio aos pobres e àquele que é visto como seu grande representante, Lula –como no passado devotaram ódio a Getúlio Vargas.

Os pobres são vistos pela elite do país e por vastos segmentos por ela ideologizados como usurpadores que querem assaltar “o que nos pertence por direito”. São assaltantes, vagabundos, feios, cheiram mal e, crime supremo, consideram-se pessoas com direitos. Não importa que este outro seja, em realidade, alguém frágil, desvalido –ele é sempre ameaçador. Aos ricos é um escândalo que os pobres invadam seus ambientes, de aeroportos a universidades e, sobretudo, que tomem para si receitas do Estado que sempre foram reservadas às elites. Uma economista que se tornou a queridinha da elite, Mônica de Bolle, recentemente formulou com clareza esta concepção: os pobres entendem por direitos o que “na verdade se tratam de benefícios” (esmolas, atos de caridade). Se tiver um dinheirinho na carteira (no Tesouro), que sobrou da farra (o pagamento dos juros aos bancos e rentistas), a gente dá pros pobres, se não sobrar… danem-se.

Se corrupção fosse o fio condutor do processo de derrubada de Dilma, porque os ricos e a classe média estão em casa, quietos, silentes?

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Kátia Martins, líder rural, assassinada com cinco tiros no Pará; o massacre não acaba

Kátia Martins, assassinada aos 43 anos, no Pará

Um assassinato atrás do outro no campo, depois do golpe. Um massacre sem fim. A trabalhadora e líder rural Kátia Martins, 43 anos, foi assassinada com cinco tiros numa emboscada ocorrida na noite desta quinta-feira (4) diante de sua casa, no Assentamento 1º de Janeiro, quase na divisa dos municípios de Castanhal e São Domingos do Capim, no nordeste do Pará, a 130 quilômetros de Belém.

Kátia era presidente da Associação de Agricultores Familiares do assentamento e foi assassinada por volta das 20 horas na frente do neto de apenas oito anos. Segundo Pablo Esquerdo, do Sindicato dos Assalariados Rurais de Castanhal, o crime tem todas as características de uma execução. Os dois assassinos estavam numa moto. No momento em que ela chegava em casa após uma reunião, atiraram para matar. De acordo com testemunhas, Kátia chegou a correr e pediu para que o neto fosse poupado.

O Assentamento 1º de Janeiro está localizado no quilômetro 20 da PA-127 onde, há cinco anos, vivem 94 famílias. Kátia sempre se destacou como liderança na área. Pablo Esquerdo observou que o local é uma área de conflito e que a Kátia Martins já tinha sofrido ameaças: “Existem grupos rivais da associação que queriam a terra para vender”.

Kátia lutava para garantir uma vida de qualidade para as famílias assentadas. Pela manhã, ela havia participado de uma reunião para conseguir alguns recursos para projetos do assentamento no Banco da Amazônia (Basa).

O corpo dela será velado por assentamento e depois seguirá nesta sexta para ser sepultado em Capanema, município também do nordeste paraense, onde moram seus familiares.

A morte de Kátia Martins é mais uma a engrossar a estatística de mortes do massacre no campo do Pará. A violência vem recrudescendo nos últimos. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, em 2014 ocorreram 36 mortes, subindo para 50 em 2015, enquanto que no ano passado foram registradas 61.

[com informações de Fátima Gonçalves, da CUT-PA, no site da Comissão Pastoral da Terra da CNBB]

Assembleia da CNBB: governo Temer defende os capitalistas contra os trabalhadores

Sessão da Assembleia da CNBB que aprovou a nota sobre a conjuntura nacional, na tarde de 3 de maio – foto: CNBB

Em sua última manifestação antes do encerramento da 55ª Assembleia Geral da CNBB, que acaba nesta sexta (5) em Aparecida, os bispos brasileiros divulgaram uma nota intitulada “O grave momento atual” a qual, sem mencionar o nome de Michel Temer, representa a mais dura condenação ao governo nascido do golpe: “não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista.” Segundo os bispos, a gestão da economia sob a lógica da globalização, “tem sido tem sido um verdadeiro suplício para a  maioria da população brasileira, vez que dá primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana e ao capital em detrimento do trabalho, quando deveria ser o contrário.”

A nota foi apresentada durante a última entrevista coletiva da Assembleia, à qual compareceram Dom Sergio da Rocha, presidente da CNBB; Dom Murilo Krieger, vice-presidente; e Dom Leonardo Steiner, secretário-geral –este leu a íntegra da manifestação episcopal.

A epígrafe sob a qual foi apresentada a nota é uma passagem do Evangelho de Mateus, no contexto do conhecido Sermão da Montanha de Jesus: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33). Ao final do texto, como que em resposta à epígrafe, os bispos assinalaram que está “nas mãos” do povo brasileiro “defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.”

A manifestação desta quinta-feira é como que o ponto culminante de uma sequência iniciada em outubro passado. Foi uma inflexão da CNBB, que manteve uma postura ausente do cenário nacional, sem sequer emitir uma manifestação em condenação ao golpe de Estado. Em 27 de outubro de 2016, rompendo com a inércia, a Conferência lançou uma dura condenação à emenda constitucional que aplicou uma brutal redução nos gastos públicos direcionados aos mais pobres –conhecida como PEC 241. Na ocasião, os bispos qualificaram a medida de “injusta e seletiva” ao eleger “para pagar a conta do descontrole dos gastos, os trabalhadores e os pobres, ou seja, aqueles que mais precisam do Estado para que seus direitos constitucionais sejam garantidos. Além disso, beneficia os detentores do capital financeiro, quando não coloca teto para o pagamento de juros, não taxa grandes fortunas e não propõe auditar a dívida pública” –a íntegra está aqui. Foram sucessivas manifestações contra as medidas do governo –terceirização, reforma trabalhista, liquidação da Previdência Social-, de protesto contra a violência que tem vitimado os mais pobres, até o apoio explícito à greve geral de 20 de abril último, quando mais de 100 bispos, 1/3 do episcopado brasileiro, convocou a adesão do povo à mobilização (aqui).

Logo no início da nota divulgada hoje, os bispos perguntaram: “O que está acontecendo com o Brasil?” E apresentaram um questionamento à crise ética que perpassa o país: “O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção.” A degradação do ambiente político-institucional está no horizonte de preocupação dos bispos, que consideram que “o Estado democrático de direito, reconquistado com intensa participação popular após o regime de exceção, corre riscos” e advertiram que “desconsiderar os partidos e desinteressar-se da política favorece a ascensão de ‘salvadores da pátria’ e o surgimento de regimes autocráticos”.

Os bispos condenaram o massacre de trabalhadores rurais no município de Colniza, no Mato Grosso (20 de abril), e o ataque ao povo indígena Gamela, em Viana, no Maranhão (30 de abril), como “barbáries que vitimaram os mais pobres”.

A CNBB também fez críticas ao Poder Judiciário, afirmando que “espera-se atuação independente e autônoma, no estrito cumprimento da lei” e aos veículos de comunicação de massa, ao afirmar que “da Mídia espera-se que seja livre, plural e independente, para que se coloque a serviço da verdade.”

 

Leia a seguir a íntegra da nota:

O GRAVE MOMENTO NACIONAL

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil–CNBB, por ocasião de sua 55ª Assembleia Geral, reunida em Aparecida-SP, de 26 de abril a 5 de maio de 2017, sente-se no dever de, mais uma vez, apresentar à sociedade brasileira suas reflexões e apreensões diante da delicada conjuntura política, econômica e social pela qual vem passando o Brasil. Não compete à Igreja apresentar soluções técnicas para os graves problemas vividos pelo País, mas oferecer ao povo brasileiro a luz do Evangelho para a edificação de “uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (Bento XVI – Caritas in Veritate, 9).

O que está acontecendo com o Brasil? Um País perplexo diante de agentes públicos e privados que ignoram a ética e abrem mão dos princípios morais, base indispensável de uma nação que se queira justa e fraterna. O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção. Urge, portanto, retomar o caminho da ética como condição indispensável para que o Brasil reconstrua seu tecido social. Só assim a sociedade terá condições de lutar contra seus males mais evidentes: violência contra a pessoa e a vida, contra a família, tráfico de drogas e outros negócios ilícitos, excessos no uso da força policial, corrupção, sonegação fiscal, malversação dos bens públicos, abuso do poder econômico e político, poder discricionário dos meios de comunicação social, crimes ambientais (cf. Documentos da CNBB 50– Ética, Pessoa e Sociedade – n. 130)

O Estado democrático de direito, reconquistado com intensa participação popular após o regime de exceção, corre riscos na medida em que crescem o descrédito e o desencanto com a política e com os Poderes da República cuja prática tem demonstrado enorme distanciamento das aspirações de grande parte da população. É preciso construir uma democracia verdadeiramente participativa. Dessa forma se poderá superar o fisiologismo político que leva a barganhas sem escrúpulos, com graves consequências para o bem do povo brasileiro.

É sempre mais necessária uma profunda reforma do sistema político brasileiro. Com o exercício desfigurado e desacreditado da política, vem a tentação de ignorar os políticos e os governantes, permitindo-lhes decidir os destinos do Brasil a seu bel prazer. Desconsiderar os partidos e desinteressar-se da política favorece a ascensão de “salvadores da pátria” e o surgimento de regimes autocráticos. Aos políticos não é lícito exercer a política de outra forma que não seja para a construção do bem comum. Daí, a necessidade de se abandonar a velha prática do “toma lá, dá cá” como moeda de troca para atender a interesses privados em prejuízo dos interesses públicos.

Intimamente unida à política, a economia globalizada tem sido um verdadeiro suplício para a  maioria da população brasileira, uma vez que dá primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana e ao capital em detrimento do trabalho, quando deveria ser o contrário. Essa economia mata e revela que a raiz da crise é antropológica, por negar a primazia do ser humano sobre o capital (cf. Evangelii Gaudium, 53-57). Em nome da retomada do desenvolvimento, não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista. Recorde-se, com o Papa Francisco, que “o dinheiro é para servir e não para governar” (Evangelii Gaudium 58).

O desenvolvimento social, critério de legitimação de políticas econômicas, requer políticas públicas que atendam à população, especialmente a que se encontra em situação vulnerável. A insuficiência dessas políticas está entre as causas da exclusão e da violência, que atingem milhões de brasileiros. São catalisadores de violência: a impunidade; os crescentes conflitos na cidade e no campo; o desemprego; a desigualdade social; a desconstrução dos direitos de comunidades tradicionais; a falta de reconhecimento e demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; a degradação ambiental; a criminalização de movimentos sociais e populares; a situação deplorável do sistema carcerário. É preocupante, também, a falta de perspectivas de futuro para os jovens. Igualmente desafiador é o crime organizado, presente em diversos âmbitos da sociedade.

Nas cidades, atos de violência espalham terror, vitimam as pessoas e causam danos ao patrimônio público e privado. Ocorridos recentemente, o massacre de trabalhadores rurais no município de Colniza, no Mato Grosso, e o ataque ao povo indígena Gamela, em Viana, no Maranhão, são barbáries que vitimaram os mais pobres. Essas ocorrências exigem imediatas providências das autoridades competentes na apuração e punição dos responsáveis.

No esforço de superação do grave momento atual, são necessárias reformas, que se legitimam quando obedecem à lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum. Do Judiciário, a quem compete garantir o direito e a justiça para todos, espera-se atuação independente e autônoma, no estrito cumprimento da lei.   Da Mídia espera-se que seja livre, plural e independente, para que se coloque a serviço da verdade.

Não há futuro para uma sociedade na qual se dissolve a verdadeira fraternidade. Por isso, urge a construção de um projeto viável de nação justa, solidária e fraterna. “É necessário procurar uma saída para a sufocante disputa entre a tese neoliberal e a neoestatista (…). A mera atualização de velhas categorias de pensamentos, ou o recurso a sofisticadas técnicas de decisões coletivas, não é suficiente. É necessário buscar caminhos novos inspirados na mensagem de Cristo” (Papa Francisco – Sessão Plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais – 24 de abril de 2017).

O povo brasileiro tem coragem, fé e esperança. Está em suas mãos defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.

A CNBB está sempre à disposição para colaborar na busca de soluções para o grave momento que vivemos e conclama os católicos e as pessoas de boa vontade a participarem, consciente e ativamente, na construção do Brasil que queremos.

No Ano Nacional Mariano, confiamos o povo brasileiro, com suas angústias, anseios e esperanças, ao coração de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Deus nos abençoe!

 

CNBB: nunca houve tamanha retirada de direitos; Igreja de Jesus trabalhador quer “sociedade que espelhe o Reino definitivo”

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz, ao falar sobre o 1º de Maio em nome da CNBB, em entrevista coletiva realizada na tarde deste Dia do Trabalhador, afirmou que “nunca se assistiu no Brasil tamanha retirada de direitos”. O bispo que é também presidente da Pastoral da Saúde, falou em Aparecida (SP), onde acontece a 55ª Assembleia Geral da CNBB: “Este 1º de Maio no Brasil é celebrado no contexto de um recuo sem precedentes nos direitos, de retirada dos direitos; o Estado esqueceu sua tarefa de mediador dos conflitos entre capital e trabalho para voltar-se contra os trabalhadores”; para ele o governo Temer “segue à risca a agenda neoliberal e, ao impor as ‘reformas’, usou uma palavra -reforma- que dá impressão de avanço, mas é uma ação para recuar ao capitalismo selvagem”.

O pronunciamento de dom Ferrería Paz foi extremamente contundente. Ele disse que “ao longo da história do Brasil os trabalhadores sempre estiveram na vanguarda das lutas democráticas” a garantiu que “os trabalhadores podem contar sempre com a Igreja Católica como companhia de caminho rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna que espelhe o Reino definitivo”.  Ele explicou que essa opção da Igreja prende-se à sua origem: “Estamos com a classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, pois Jesus foi um trabalhador”.

O bispo de Campos mencionou três iniciativas do governo Temer que concretizam a agressão aos trabalhadores: a terceirização das relações de trabalho, a reforma trabalhista e a PEC 287, “que praticamente elimina o sistema de Previdência Social no país”; dom Ferrería Paz . Ele reafirmou o apoio e incentivo da CNBB às mobilizações contra a reforma, afirmando que “diante da precarização das leis trabalhistas, nossa palavra é de encorajamento e de estímulo às mobilizações justas, democráticas e pacíficas para gerar uma cultura do trabalho decente, justo e solidário”.

No espírito do ensinamento do Papa Francisco, dom Ferrería Paz convocou os católicos e os democratas do país: “Temos que responder à globalização do descarte, da exclusão e da indiferença com a globalização da solidariedade, da comunhão e da justiça”

[Mauro Lopes]

CNBB e quase 100 bispos convocam população para a greve geral

A Igreja no Brasil acerta o passo com o Papa. Na foto, Francisco com o povo no Rio, em 2013

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – aqui) e 98 arcebispos e bispos de um universo de 308 na ativa neste momento no país lançaram convocações à população para a greve geral contra as reformas do governo Temer e a política de massacre dos pobres do país iniciada depois do golpe de Estado. É uma mobilização eclesial na direção dos pobres não vista desde o fim do regime militar no Brasil, sob o impacto da mudança de rumos que o Papa Francisco lidera na Igreja em todo o mundo.

[nota: na primeira versão desta reportagem, ao fim da manhã da quarta, 26, eram no total 42 bispos e arcebispos, mas a mobilização eclesial continua a crescer]

É significativo o silêncio dos cardeais de São Paulo (dom Odilo Pedro Scherer) e do Rio (dom Orani Tempesta), que tornam suas arquidioceses em bastiões do conservadorismo católico no país em oposição ao Papa Francisco.

[Nota: No começo da tarde de quarta, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, rompeu o silêncio e falou. Um vexame que envergonhou a Igreja. Escalado para a entrevista coletiva da primeira tarde da Assembleia Geral da CNBB, pouco depois das 15h, o cardeal foi encarregado de falar sobre os temas sociais do país. Ao apresentar a agenda da Assembleia, ele ignorou a greve geral, apesar do posicionamento oficial da CNBB. Questionado por um jornalista, dom Odilo deu razão a todos os que o acusam de aderir ao regime do golpe. Disse secamente que “o povo tem direito de se manifestar”, disse que espera que a reforma da Previdência seja boa (?) e arrematou: “dizer que somos a favor ou contra é muito simplista”.
Apresentou uma posição “neutra” quanto à reforma da Previdência e quanto à reforma trabalhista e à terceirização –neutralidade que é o desejo maior de Temer neste momento em que o governo está isolado na sociedade.
Como o personagem bíblico, o cardeal lavou as mãos: “Quanto aos bispos que conclamaram a greve, bem, cada bispo é livre para fazer o que quiser.
Candidato a Papa da Cúria romana no último conclave, derrotado por Francisco, o cardeal de São Paulo deixa toda a Igreja-Povo de Deus com enormes saudades dos tempos de dom Cláudio Hummes e especialmente dom Paulo Evaristo Arns.]

Veja a lista dos arcebispos e bispos que se manifestaram e, ao final, vários dos vídeos espalhados nas redes sociais –é uma lista parcial do que foi possível levantar a partir da “garimpagem” e partilha de muitas pessoas.

[Mauro Lopes]

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Um ano depois do golpe, 10 fatos provam: a vida dos pobres virou um inferno

Mulheres indígenas lideram marcha da Mobilização Nacional Indígena ao Congresso Nacional nesta terça. Carregavam 200 caixões, simbolizando o genocídio que o golpe está aprofundando. Foto: Mobilização Nacional Indígena/Mídia Ninja

Um ano depois do golpe de Estado perpetrado pelas elites do país que tomaram de assalto os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, é possível identificar claramente:

1) o objetivo único da operação: promover a maior reconcentração da renda nacional da história, em proporções que superam em muito aquela promovida pela ditadura militar;

2) o método da operação: construção do consenso a partir da maior mobilização de mídias da história brasileira, com o esmagamento do direito à informação –depois do golpe, com o controle total do aparelho de Estado pelas elites, tal método passou a ser acompanhado pela restrição/supressão dos direitos civis para sufocar a oposição à apropriação da renda nacional pelos ricos.

O rompimento dos pactos firmados pela “Constituição cidadã” de 1988 e pelos governos de Lula e Dilma, que previam uma desconcentração da renda nacional ainda que em pequena escala, fez com que, em um ano, a vida dos pobres no Brasil se tornasse um verdadeiro inferno.

Leia a seguir 10 fatos que demonstram como o objetivo do golpe, a concentração da renda nacional na mão dos ricos, e seu método, a restrição/supressão dos direitos civis tornaram a dos pobres, que nunca foi fácil, chegasse ao inferno.  Os cinco primeiros fatos elencados prendem-se mais ao método dos golpistas, mas em si mesmo carregam o objetivo das elites; os cinco últimos escancaram algumas das principais medidas de concentração da renda nacional.

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Para o país que os ricos estão desenhando não haverá muros suficientes

O muro que separa os ricos do Morumbi dos pobres da favela de Paraisópolis, em São Paulo. O país que o governo Temer está desenhando. Foto: Tuca Vieira

Eduardo Fagnani é um professor dos bons. Ilumina o que está à frente, a partir da experiência passada; ensina que é preciso escolher um lado, e escolheu o dele -o dos pobres lascados; é rigoroso com o estudo, a necessidade de profundidade; sabe que conhecer é um caminho de humanidade e poesia.Tornou-se o maior especialista na malfadada reforma da Previdência Social pretendida pelo governo golpista.

Concordo com ele: as elites brasileiras são predadoras, tacanhas, não têm compromisso com o país. O tripé composto pela emenda constitucional de restrição dos gastos públicos, pela terceirização e demais medidas da reforma trabalhista e pela reforma da Previdência é o sonho (pesadelo) de páis dos ricos escravocratas, que nunca renunciaram à volta da senzala para os pobres.

Fagnani garante:  “O cenário é catastrófico” se não houver reação vigorosa dos pobres. Haverá miséria e muito sofrimento neste país os ricos que vivem de costas para o Brasil e com os olhos postos em Miami. Leia a entrevista/conversa que tivemos, publicada originalmente no site Previdência, Mitos e Verdades.

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O professor Eduardo Fagnani é hoje um dos mais profundos conhecedores dos temas vinculados à Previdência Social –foi ele o coordenador do estudo mais abrangente sobre a “reforma” do governo Temer, Previdência: reformar para excluir?. Ele diz que a combinação da emenda constitucional que limita os gastos públicos, a terceirização irrestrita das relações de trabalho de demais medidas na reforma trabalhista e a “reforma” da Previdência tem uma consequência dramática: “eles estão matando o futuro do país”.

“O cenário é catastrófico, um desastre sem precedentes” –afirmou. Fagnani diz que a melhor imagem para o projeto do governo de Temer e associados é a “cidade linda” do prefeito de São Paulo, João Dória: “O que eles estão fazendo é ampliar para o país o ’cidade linda’ do Dória; linda para menos de 20%, um inferno para mais de 80%. São Paulo vai virar uma cidade de muros para impedir que os pobres reajam. É o que acontecerá com o Brasil, o país do muro a separar os ricos dos pobres. Mas eles precisarão de muito muro, muito mesmo”.

Ele explicou que hoje quase a metade (49%) dos trabalhadores e trabalhadoras já estão na informalidade –a soma dos que trabalham no setor privado e domésticas sem carteira assinada, o trabalhador por conta própria e os “ empreendedores individuais”, onde se concentram os trabalhadores PJ (Pessoa Jurídica). “Não é exagero supor que em pouco tempo esse percentual de trabalhadores informais chegará a 70% do total”, projetou Fagnani.

“A Previdência vai quebrar”, afirmou categoricamente. Com a brutal redução de recursos no INSS por conta da terceirização combinada à informalização selvagem será “uma implosão”: “O estoque de contribuintes sofrerá uma redução drástica, com o processo de demissões em massa dos trabalhadores com carteira assinada e sua recontratação como terceirizados; os trabalhadores rurais não irão mais aportar com a obrigação de contribuição mensal; os jovens entrantes no mercado de trabalho não serão mais contribuintes da Previdência, pois ingressarão já no contexto da terceirização; e como a percepção da crise do sistema logo se espalhará, haverá uma debandada dos contribuintes de renda mais alta para os planos de previdência privada”. Qual o prazo para desastre final? “A Previdência vai quebrar em 10 a 15 anos, se tudo continuar na batida atual”.

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Pastoral Carcerária: “se colocassem cães e gatos nos presídios, tratados como as pessoas o são, teríamos milhões nas ruas”

Padre Valdir em visita a um presídio – foto de arquivo pessoal

O padre Valdir Silveira, coordenador da Pastoral Carcerária no Brasil, é uma das pessoas que mais conhecem o sistema prisional do país. São anos de escuta aos presos, presas, seus familiares, funcionários e autoridades. Ele não tem dúvida: “O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.” E completa: “se colocassem cães e gatos nos presídios brasileiros, tratados como as pessoas são tratadas atualmente, teríamos milhões nas ruas e mobilização mundial contra o Brasil.” Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa na tarde desta segunda (10) pouco antes de embarcar para a região Norte.

Desde 2012 a autoridades carcerárias e os governos estaduais e federal são informados pela Pastoral sobre o barril de pólvora que são as prisões, em todo o país, com relatórios específicos sobre a região Norte, sem qualquer ação. “Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.“ Para ele, a declaração do ex-secretário nacional da Juventude (“Tinha que fazer uma chacina por semana”) foi a mais “autêntica” e “sincera”: “É o que o governo deseja, de fato. Ele caiu, mas foi o porta-voz do governo”.

Padre Valdir contesta a estatística oficial que posiciona o Brasil com a 4ª maior população carcerária; diz que ela está defasada e que o país já passou a Rússia. Dos quatro países com maior população aprisionada –EUA e China, além do Brasil e Rússia- apenas em um o número de presos cresce, exatamente o Brasil; nos demais, há diminuição ano a ano.

São mais de 6.500 agentes da Pastoral em todo o Brasil, atuando diuturnamente nos presídios e delegacias e testemunhando situações desde a violência física até a ausência de sabonete, papel higiênico –e absorvente íntimo para as mulheres. O que faz a Pastoral? “Nossa missão é em primeiro lugar evangelizar: uma ação na qual o anúncio de Cristo só existe se estamos implicados na vida digna das pessoas encarceradas. (…) Não podemos esquecer que nosso Mestre foi também um preso, e um preso torturado.“ Para ele, o Papa Francisco “é um profeta” também no tema carcerário.

Caminho pra Casa –  Como a Pastoral Carcerária avalia os massacres do início de 2017, com 64 mortos em Manaus (AM), entre 1 e 8 de janeiro e mais 33 mortes em Boa Vista (RR) , no dia 6?

Padre Valdir Silveira – Os massacres não foram uma surpresa. Desde 2012 a Pastoral Carcerária faz relatórios, encaminhados às autoridades, sobre a situação limite dos presídios no país, com destaque para os do Norte, tanto no Amazonas [aqui] como em Roraima [aqui]. O governo sabia do que podia acontecer. Há rebeliões em todo o país. Vimos o massacre de Pedrinhas (PI), que aconteceu em três ondas sucessivas, entre 2010 e 2013, com 97 mortes no total.

Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.  Mesmo nestes casos, do massacre continuado em aparente pequena escala, que sequer é notícia, os números quando consolidados são terríveis. E olhe que os levantamentos são todos precários, sempre subestimados. Aos presos pobres não é dado o direito nem mesmo de figurar em estatísticas.

Veja estes números, são chocantes: só no primeiro semestre de 2014, o Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça (Depen) informou 565 mortes no sistema prisional, sendo mais ou menos metade delas classificada como intencionais, violentas –portanto, algo como 280. Isso apenas no primeiro semestre de 2014! E quer saber mais? Sem que os estados de São Paulo e Rio apresentassem seus dados! O governo de São Paulo, que tem um terço da população carcerária nacional, ignorou o levantamento federal! Em 2016 o governo Alckmin informou mais de 400 mortos no sistema penitenciário no Estado –e garantiu que apenas 17 teriam sido mortes violentas. Dá pra acreditar?

O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.

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