A fé – caminho na incerteza

maua-jan-2008-140Cristãos católicos que vão às missas em todo mundo nesta quarta (28 de setembro) ou aqueles que rezam a liturgia do dia em suas casas, escolas, a caminho do trabalho deparam-se com o livro de Jó (temos lido o livro de Jó desde a segunda-feira e seguiremos com ele até a missa do sábado).

A história de Jó é a da jornada da fé em meio à vida, que para a quase totalidade da humanidade está longe de ser um conto de fadas. No início do livro somos apresentados a um homem rico, próspero, que terá sua fé testada depois de despojado de tudo -Jó.

A leitura de hoje é impactante. Pois é a apresentação da essência da fé.
Diz Jó no capítulo 9, num de seus discursos reflexivos sobre a relação com Deus em meio a enormes sofrimentos e desgraças:

“Passa perto de mim e não o vejo, vai embora e não o percebo” (v. 11) e, a seguir: “Se eu clamo e ele me responde, não creio que tenha escutado a minha voz” (v. 16).

Isso é a fé. Caminhar na escuridão. Como Deus me vê se eu nunca o vejo? Como saber se ele me escuta se ele é o grande silêncio? Como crer que ele de fato existe se estou cercado de aflições e dificuldades e sofrimentos e ele não se manifesta?

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MORTE E PURGATÓRIO – dá pra falar disso na pós-modernidade?

 

O rico e Lázaro, Leandro Bassano (1595)

Cristãos católicos reúnem-se em missas ao redor do mundo neste domingo (25 de setembro, o 26º do Tempo Comum)  para escutar-rezar mais um trecho do capítulo 16 do Evangelho de Lucas, os versículos 19 a 31. No domingo passado, lemos-rezamos a primeira parte deste capítulo, quando Jesus apresenta a escolha entre Deus (o outro) e o Dinheiro (o ensimesmamento).

Resumo do trecho: um homem rico, apresentado sem nome, vivia de maneira nababesca entre banquetes e festas, enquanto do lado de fora de sua casa estava Lázaro (o nome significa “Deus ajuda”), miserável, a quem restava uma ou outra sobra do banquete e a companhia dos cachorros. Os dois morrem e, enquanto Lázaro é levado para junto de Abraão (o paraíso judaico), o rico fica aprisionado no Xeol (algo próximo do inferno), em meio a tormentos. O rico “negocia” com Abraão, tenta fazer com que ele mande Lázaro ao Xeol levar água e aliviar seus sofrimentos; depois, diante do insucesso da primeira investida, pede que Abrão mande o pobre de volta para avisar seus irmãos do que os aguarda. Abrão repele o segundo pedido: “Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”.

Uma advertência: escrevo para aqueles que creem, mas igualmente para tantos amigos e amigas (talvez a maioria) que não acreditam em Deus, são ateus. Para eles, a morte é o ponto final definitivo. Não quero convencer ninguém de nada, apenas apresentar uma perspectiva particular, em diálogo e, de fato, sem qualquer comprovação científica ou prova de qualquer natureza.

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Uma escolha crucial

Poor People, Andre Collin, 1916

Cristãos católicos de todo o planeta rezam/escutam nas missas deste 18 de setembro, o 25º Domingo do Tempo Comum (uma contagem litúrgica da passagem do tempo) uma das afirmações mais peremptórias de Jesus em todos os Evangelhos: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16, 13b).

Todos os estudiosos que se dobraram sobre os Evangelhos concordam quanto à autenticidade desta sentença. Ela está presente em Lucas e Mateus (Mt 6,24). O dito de Jesus está em linha com o melhor da tradição profética de Israel –de Isaías e Jeremias a Amós e Miqueias, até o último deles, João, o Batista. Para os profetas, é crucial a escolha entre as riquezas, a exploração dos pobres e o ensimesmamento versus o caminho com Deus, de renúncia à acumulação e ao lado e com os pobres.

O profeta Amós é representativo dessa corrente, e é lido na Primeira Leitura na missa de hoje, numa dura passagem de condenação aos ricos:

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Jesus e o “Dia dos Pais”

img_1678Os cristãos celebram hoje (14 de agosto) o 20º Domingo do Tempo Comum. Rezam, nos domingos deste ano, o Evangelho de Lucas. O texto lucano é conhecido como “o evangelho dos pobres”. Também é conhecido como “o evangelho da subida”, pois o  centro dele trata da caminhada de Jesus da periferia (a Galileia) até o centro (Jerusalém), onde o aguardava a entrega total a seu projeto de uma humanidade restaurada. Nessa subida até o monte onde está a Cidade Santa, conspurcada e estuprada pelo sistema, Jesus vai ensinando seus amigos e o povo, demolindo pedra por pedra o edifício do estabelecido, da riqueza, da dominação; para se tornar a “pedra angular” (na expressão dos evangelhos) de um novo tempo, de paz, partilha, amizade.

O trecho tomado de Lucas para hoje é um dos mais agressivos e, neste ano, refletimos sobre ele exatamente no “Dia dos Pais”. Diz Jesus, a partir do versículo 51 e até o 53 do capítulo 12:

“Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.”

 

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O seu palpite sobre a mãe de Ítalo é um lixo

Cíntia Ferreira Francelino, mãe de ìtalo, executado aos 10 anos de idade pela PM de São Paulo

“Meu Deus, ele só queria cantar, o negócio dele era cantar. Ele só queria atenção, meu Deus, por que fizeram isso com ele, moço, me ajuda. Me ajuda pelo amor de Deus, gente. Ô gente, pelo amor de Deus, meu filho só tem 10 aninhos” – palavras de Cíntia Ferreira Francelino, mãe de Ítalo, no IML, na manhã seguinte ao assassinato de seu filho pela PM de São Paulo, em 2 de junho de 2016.

Ítalo não roubou apenas um carro. Roubou uma SUV, veículo-símbolo dos que são bem sucedidos e dirigem pelas ruas sentindo-se imunes e intocados pela miséria e a violência ao redor. Por seu crime contra a propriedade e, sobretudo, por sua afronta a um símbolo sagrado do capitalismo xinfrim brasileiro, foi assassinado pela PM de São Paulo.

Tinha 10 anos. Não bastou a Ítalo ser assassinado. Não bastou à mãe perder o filho. Não bastou a eles a vida miserável. Não bastou a dor. Não bastou a morte. Nada disso foi suficiente aos olhos da “sociedade brasileira”.

Não, Cíntia. Perder seu filho não bastou.

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A ocupação na zona sul de SP – um teste para sua humanidade

No Valo Velho, extremo sul de São Paulo, uma pergunta-chave. Foto Mídia Ninja

Mais de 3 mil pessoas ocuparam na madrugada de sábado (9 de abril de 2016) um terreno de 1 milhão de metros quadrados no Valo Velho, extremo sul de São Paulo, e que há 30 anos encontra-se abandonado sem função social. Prevê-se que em poucos dias este número deverá dobrar.

A posição de cada pessoa na cidade de São Paulo em relação a esta ocupação define a maneira como cada qual enxerga a humanidade e sua própria humanidade. É um verdadeiro teste para sua humanidade.

Como é isso?

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Dilma foi eleita de novo. E agora?

Dilma e a generosa oferta dos pobres. Foto: Lula Marques

Você está vendo a foto de uma oferta de posse. Em 30 de março de 2016, os movimentos sociais foram a Brasilia dizer a Dilma: governe com os que a elegeram

O que o país viveu nos últimos dias foi uma campanha presidencial. E Dilma foi eleita de novo. Não por seus méritos. Não por seu governo. Não pela trajetória recente do PT. Não.

Dilma foi eleita de novo porque aqueles que a haviam elegido pela segunda vez em 2014 e muitos dos que sequer haviam votado nela entenderam que está em marcha um golpe de Estado jurídico-parlamentar (apoiado pelas PMs de todo o país).

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Dois Brasis

O país das elites que resolveram ir às ruas: um país branco, rico, que odeia, que vive no Brasil mas sonha com os Estados Unidos.

O país dos pobres que também resolveram ir às ruas: misturado, lascado, que sofre mas tem esperança, que vive no Brasil e sonha com o Brasil.

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Do ofício de esmagar os pobres

Grupo de sem terra no ato pela democracia de 18 de março de 2016 na Paulista, em São Paulo. (registro feito por mim)

Não basta vivermos num dos países mais desiguais do mundo -e assim o é, mesmo depois dos governos do PT. 1% da população adulta do país concentra quase 30% da renda nacional. 5% dos mais ricos ficam com quase metade de tudo o que o país produz. Um milésimo dos brasileiros acumula mais renda que toda a metade mais pobre do país (saiba mais aqui).

Não, isso não basta. É preciso destruir com o Bolsa Família, é preciso impedir que os pobres se organizem e protestem (a PM existe para isso), é preciso que uma parte considerável do país considere a desigualdade “natural”, acredite que os mais pobres são “vagabundos”. É imprescindível denunciar os pobres quando se organizam, é crucial desmoralizá-los. Para isso existe a Globo e seu império de comunicação. Para isso existem as outras TVs, rádios, jornais e revistas.

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Semana Santa – rezar e lutar para que o servo não volte à senzala

senzala

Significativo que esta semana decisiva para o país aconteça em meio à Semana Santa de 2016 de católicos e outras denominações cristãs. A partir de hoje começamos a rezar os cantos do Servo Sofredor do profeta Isaías. A Igreja leu ao longo dos séculos o Servo como a profecia mais acabada da chegada do Cristo. O povo pobre é o servo sofredor ao longo da história, pois é nele que nasce o Manso e Humilde cotidianamente. Hoje (21 de março) também ouviremos nas missas o salmo 27 (26). Num de seus versículos cantamos:

“Se um exército me vier cercar, o meu coração não temerá.
Se contra mim travarem batalha,
mesmo assim terei confiança.”

Esta é a palavra de confiança para os que acreditam e lutam pela vida e enfrentam as forças da morte. Esta é palavra de ânimo para o combate ao fascismo e ao desejo do grande capital de devolver os pobres à senzala.

[por Mauro Lopes]