Dilma foi eleita de novo. E agora?

Dilma e a generosa oferta dos pobres. Foto: Lula Marques

Você está vendo a foto de uma oferta de posse. Em 30 de março de 2016, os movimentos sociais foram a Brasilia dizer a Dilma: governe com os que a elegeram

O que o país viveu nos últimos dias foi uma campanha presidencial. E Dilma foi eleita de novo. Não por seus méritos. Não por seu governo. Não pela trajetória recente do PT. Não.

Dilma foi eleita de novo porque aqueles que a haviam elegido pela segunda vez em 2014 e muitos dos que sequer haviam votado nela entenderam que está em marcha um golpe de Estado jurídico-parlamentar (apoiado pelas PMs de todo o país).

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Dois Brasis

O país das elites que resolveram ir às ruas: um país branco, rico, que odeia, que vive no Brasil mas sonha com os Estados Unidos.

O país dos pobres que também resolveram ir às ruas: misturado, lascado, que sofre mas tem esperança, que vive no Brasil e sonha com o Brasil.

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Do ofício de esmagar os pobres

Grupo de sem terra no ato pela democracia de 18 de março de 2016 na Paulista, em São Paulo. (registro feito por mim)

Não basta vivermos num dos países mais desiguais do mundo -e assim o é, mesmo depois dos governos do PT. 1% da população adulta do país concentra quase 30% da renda nacional. 5% dos mais ricos ficam com quase metade de tudo o que o país produz. Um milésimo dos brasileiros acumula mais renda que toda a metade mais pobre do país (saiba mais aqui).

Não, isso não basta. É preciso destruir com o Bolsa Família, é preciso impedir que os pobres se organizem e protestem (a PM existe para isso), é preciso que uma parte considerável do país considere a desigualdade “natural”, acredite que os mais pobres são “vagabundos”. É imprescindível denunciar os pobres quando se organizam, é crucial desmoralizá-los. Para isso existe a Globo e seu império de comunicação. Para isso existem as outras TVs, rádios, jornais e revistas.

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Semana Santa – rezar e lutar para que o servo não volte à senzala

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Significativo que esta semana decisiva para o país aconteça em meio à Semana Santa de 2016 de católicos e outras denominações cristãs. A partir de hoje começamos a rezar os cantos do Servo Sofredor do profeta Isaías. A Igreja leu ao longo dos séculos o Servo como a profecia mais acabada da chegada do Cristo. O povo pobre é o servo sofredor ao longo da história, pois é nele que nasce o Manso e Humilde cotidianamente. Hoje (21 de março) também ouviremos nas missas o salmo 27 (26). Num de seus versículos cantamos:

“Se um exército me vier cercar, o meu coração não temerá.
Se contra mim travarem batalha,
mesmo assim terei confiança.”

Esta é a palavra de confiança para os que acreditam e lutam pela vida e enfrentam as forças da morte. Esta é palavra de ânimo para o combate ao fascismo e ao desejo do grande capital de devolver os pobres à senzala.

[por Mauro Lopes]

Beto, filhos, triste partida e Bolsa Família

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A única foto de Beto criança. Aos pobres, nem a memória era permitida durante a ditadura

Conheci Beto Martins em dezembro de 2014. Seu filho fora violentamente surrado no Metrô de São Paulo. Seu crime? Ser um jovem gay. Eram os primórdios da escalada fascista-machista-homofóbica-racista. Na verdade, conheci o filho antes do pai. Escrevi a ele em solidariedade usando o Facebook. Logo depois, Beto procurou-me. Tudo pela rede. Não conheço nem pai nem filho pessoalmente até hoje. Beto e eu viramos amigos virtuais, sempre por perto e, agora, com o terror às portas do país, ficamos mais próximos ainda. Também tenho um filho gay.

Nos últimos dias trocamos por vezes preocupações, aflições. Pais e mães de filhos gays andam com o coração na mão na noite das matilhas de fascistas que andam pelas ruas ou em seus carrões sedentos de sangue. Mas não apenas pais e mães de filhos gays. Pais e mães de jovens lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros andam de coração apertado. Mas não apenas eles. Pais e mães de meninas, outro alvo preferencial dos agressores, filhxs negrxs, que gostam de colorido, que saem em grupos alegres, também estes estão aos sobressaltos. Pães e mães pobres de filhxs pobres que incomodam e provocam ódio apenas por serem pobres. Pais e mães de filhxs que amam a vida andam amassados pela invasão dos bandos que se entusiasmam com o sofrimento e a morte.

Nem era esse o mote deste texto. Mas nossas conversas, Beto e eu, são assim. Passeiam por lugares que não esperávamos inicialmente.

Beto é o Brasil.    Beto do Brasil.

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O neofascimo encontra sua estética

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O projeto neofascista no Brasil possui:
1. um objetivo político: esmagar os inimigos moral e fisicamente, pela via midiática-judicial até o golpe de Estado.
2. um objetivo econômico: entregar o país nas mãos do grande capital internacional, como ficou patente na votação do pré-sal.
3. um objetivo social: colocar em marcha uma massa de pessoas das classes médias mobilizando seus medos e ódios.
Estes objetivos têm agora algo fundamental: uma diretriz estético-artística; com ela, há possibilidade de uma sinergia tal que viabilize o projeto com força incontrastável.
Esta diretriz está posta. E é aterradora.

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O Papa contra o império

O Papa Francisco em Ciudad Juarez, na fronteira com os EUA; abençoando as cruzes que simbolizam os milhares de mexicanos e mexicanas mortos na travessia.

A viagem de Francisco ao México encerrada em 17 de fevereiro é um marco em seu papado.

Foi a visita com maior carga afetiva-emocional e aquela na qual ele mais explicitou, com palavras e gestos, o desejo de retorno da Igreja à originalidade dos primeiros tempos -uma Igreja pobre com os pobres.

O ato final da visita talvez não tenha sido compreendido em sua verdadeira dimensão: o Papa escolheu  Ciudad Juarez, na fronteira entre o México e o Império e, num gesto profético de denúncia e desafio, abençoou as cruzes que simbolizam os milhares de mexicanos e mexicanas mortos durante o que parecia ser uma travessia para uma vida melhor.

O Papa, como o Cordeiro do livro do Apocalipse, o último da Bíblia, confronta-se com a Babilônia, a Roma dos tempos que escorrem. Não é à toa que fez, no México, a mais dura condenação aos ricos em seu tempo como Papa, ao dizer que eles prestarão contas sobre as fortunas construídas sobre o sangue e o suor e as lágrimas das pessoas; e, no avião de volta ao Vaticano, deixou claro que, para ele, Donald Trump não pode ser qualificado de cristão, por ser alguém que só tem projetos para construir muros a separar (como o muro entre os EUA e o México en Ciudad Juarez), muros de concreto e de ódio.

[Mauro Lopes]

No México, um discurso duro à hierarquia católica

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O Papa no México: qual Igreja?

O discurso do Papa para os bispos mexicanos neste sábado foi surpreendente -mas Francisco não se cansa de surpreender. A chave de leitura para compreender o que ele disse ao episcopado mexicano é  o seu duríssimo discurso à Cúria romana no fim de dezembro de 2014 quando denunciou as 15 doenças curiais (mexericos, carreirismo, oportunismo, acúmulo de riquezas, indiferença em relação às pessoas, perda do “primeiro amor” pelo seguimento do Cristo, Alzheimer espiritual e outras). Se quiser lembrar ou conhecer um discurso histórico e inédito de um Papa à burocracia vaticana, clique no link clicando aqui.

Um leitura combinada das duas manifestações do Papa indica claramente seu antagonismo com a hierarquia da Igreja, a partir da cúria romana, insurgiu-se contra o espírito do Vaticano II desde o primeiro momento, ainda nos anos 60. Tal espirito foi contido por Paulo VI -João Paulo I acompanhava o passo de João XXIII e Paulo VI mas sua morte 33 dias depois de sua eleição, em agosto de 1978 interrompeu o caminho do espírito conciliar.

O conservadorismo prevalecente na cúpula da Igreja no Vaticano e, de uma maneira geral, ao redor do planeta, com exceções que confirmam a regra (como a Alemanha e, agora, a Espanha) não foi obra do acaso ou apenas do “espírito da época”.  Durante mais de 30 anos, as nomeações de bispos e cardeais obedeceram a três lógicas: 1) rigorismo (seguimento às regras e normas e não ao espírito do Evangelho); 2) conservadorismo político e social (afastamento dos pobres); e 3) visão institucional da Igreja (olhar para dentro e submissão à burocracia eclesial). A atual cúpula da Igreja é obra de construção metódica e obstinada, feita por corações e mentes alinhados com uma visão particular do cristianismo.

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O Papa e o Patriarca: esperança acesa

Francisco e Kirill assinam a declaração histórica. À direita, Raúl Castro, o comunista presidente de Cuba, anfitrião, a abençoar o momento.

Escrevi uma breve meditação à “queima roupa”, logo depois de divulgada a declaração conjunta entre o Papa Francisco e o Patriarca Russo em, no começo da noite de 12 de fevereiro de 2016. Outras Palavras publicou-o. Se quiser, veja clicando aqui ou leia abaixo.

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O documento assinado pelo Papa e o Patriarca russo supera qualquer expectativa. Difícil avaliar sua dimensão assim numa primeira leitura, mas vale destacar (leia a íntegra ao final):
1. Uma visão sobre Cuba que é absolutamente profética. Francisco e Kiril colocam a pequena ilha como um farol para o mundo: “O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo” e dosacontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes.”
2. O reconhecimento aberto do passado de separação numa linguagem que foge ao “não dizer” diplomático e fala ao coração com um sincero desejo de reunião -depois deste encontro, com suas identidades respeitadas, católicos e ortodoxos andarão lado a lado, sem desejos mal escondidos de supremacia de um sobre o outro.
3. A carta mexe com o cenário político mundial. Além da centralidade de Cuba, há um convite claro a um protagonismo da Rússia no cenário do Oriente Médio.
4. Os dois credenciam-se como líderes de um momento global de aproximação multirreligiosa muito além das fronteiras do cristianismo.
5. Uma clara opção conjunta pelos pobres e pelo caráter primordial do tema dos refugiados: “O nosso olhar volta-se para as pessoas que se encontram em situações de grande dificuldade, em condições de extrema necessidade e pobreza, enquanto crescem as riquezas materiais da humanidade. Não podemos ficar indiferentes à sorte de milhões de migrantes e refugiados que batem à porta dos países ricos. O consumo desenfreado, como se vê em alguns países mais desenvolvidos, está gradualmente esgotando os recursos do nosso planeta. A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu.”
Fantástico!
A nota dissonante do texto fica por conta de uma visão conservadora e desumana do sentido da família -mas este parece ser o tema crucial à frente para ambas as igrejas.

[Mauro Lopes]

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A turma, os sinais e o foco de Jesus

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Neste domingo (7 de fevereiro de 2016), cristãos católicos celebram o 5º domingo do Tempo Comum, o último antes do Tempo da Quaresma, 40 dias de caminhada até a Páscoa. A cena do Evangelho de Lucas proclamado nas missas acontece à beira do lago de Genesaré, na Galileia. Uma multidão acorre para ouvir Jesus. Quando acaba de falar, ao notar que Pedro e seus sócios pescadores não haviam conseguido um peixe sequer na noite de trabalho, manda-os voltar às águas profundas do lago e lançar as redes novamente; eles voltam com os dois pequenos barcos abarrotados. Pedro, profundamente abalado, reconhece em Jesus o Kyrios (o Senhor) e, envergonhado, de joelhos, confessa-se um pecador. Jesus manda ele se levantar e o convoca a segui-lo, pois ele e seus amigos, que se tornariam discípulos, seriam a partir de então “pescadores de homens”. (Lc 5,1-11)

Três notas breves sobre o Evangelho que contemplamos neste dia:

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