Dilma, Cameron e Hillary: há grande identidade nas três derrotas

Dilma, Cameron e Hillary: rejeição tem motivo comum entre parcelas dos pobres

Escrevo uma interpretação a quente, quando Trump acaba de ser eleito: a derrota de Hillary Clinton, a de Cameron no Brexit e a derrubada de Dilma foram manifestações de um mesmo movimento global que mobiliza milhões de pessoas, que se sentem profundamente atingidas pela financeirização da economia, pela corrupção na política e por um sentimento raivoso de rejeição ao establishment.

A identidade entre os casos do Brexit e de Trump são mais evidentes. Uma fatia expressiva de trabalhadores empobrecidos pela falência do estado do bem-estar social associou seu empobrecimento (corretamente, diga-se) à farra financeira em que se transformou o capitalismo com a hegemonia neoliberal. E responsabilizaram (corretamente, diga-se) os líderes de seus países, os casais Obama e o Clinton, assim como o trabalhista Tony Blair e o conservador David Cameron como protagonistas desta orgia e seus favorecidos diretos, inclusive com a construção de fortunas pessoais invejáveis por sua associação com o sistema financeiro, no caso patente de Blair e Clinton, além de agentes/cúmplices em processos de corrupção no setor público.

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Jesus e seu programa subversivo –as bem-aventuranças

A caminhada do povo que sofre – foto MST

Neste domingo (6), cristãos católicos celebram a solenidade de Todos os Santos –a data original é 1 de novembro, mas há países, entre os quais o Brasil, nos quais ela é deslocada para o domingo seguinte. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que toma os capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil):

“Naquele tempo:
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.”

1.  O que fala Jesus

Uma leitura colada ao texto e ao contexto indicará claramente: a interpretação açucarada que fazem do discurso os segmentos integristas da Igreja Católica, das denominações protestantes e os neopentecostais é em todo falsa e enganadora.

Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto-programa àqueles com os quais desejou caminhar e caminhou efetivamente.

Há um problema relevante nas traduções que são oferecidas nas diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação desta versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema a seguir.

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A íntegra do discurso do Papa no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares

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A íntegra do discurso do Papa no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares
Vaticano, 5 de novembro de 2016

 

“Irmãs e irmãs, boa tarde!

Neste nosso terceiro encontro expressamos a mesma sede, a sede de justiça, o mesmo grito: terra, casa e trabalho para todos.

Agradeço os delegados que vieram das periferias urbanas, rurais e industriais dos cinco continentes, mais de 60 países, que vieram para discutir mais uma vez sobre como defender estes direitos que nos convocam. Obrigado aos Bispos que vieram para vos acompanhar. Obrigado aos milhares de italianos e europeus que se uniram hoje ao final deste encontro. Obrigado aos observadores e aos jovens comprometidos na vida pública que vieram com humildade escutar e aprender. Quanta esperança tenho nos jovens! Agradeço também ao Senhor Cardeal Turkson, pelo trabalho que fez no Dicastério; e gostaria também de recordar a contribuição do ex-Presidente José Mujica, que está presente.

No último encontro, na Bolívia, com maioria de latino-americanos, falamos da necessidade de uma mudança para que a vida seja digna, uma mudança de estruturas; além disto, de como vocês, os movimentos populares, são semeadores desta mudança, promotores de um processo em que convergem milhares de pequenas e grandes ações concatenadas em modo criativo, como em uma poesia; por isto quis vos chamar “poetas sociais”; e temos também elencado algumas tarefas imprescindíveis para caminhar em direção a uma alternativa humana diante da globalização da indiferença: 1. Colocar a economia à serviço dos povos; 2. Construir a paz e a justiça; 3. Defender a Mãe Terra.

Aquele dia, com a voz de uma “papeleira” e de um agricultor, foram leitos, na conclusão, os dez pontos de Santa Cruz de la Sierra, onde a palavra ‘mudança’ era repleta de grande conteúdo, era ligada às coisas fundamentais que vocês reivindicam: trabalho digno para aqueles que são excluídos do mercado de trabalho; terra para os agricultores e as populações indígenas; moradia para as famílias sem-teto; integração humana para os bairros populares; eliminação da discriminação, da violência contra as mulheres e das novas formas de escravidão; o fim de todas as guerras, do crime organizado e da repressão; liberdade de expressão e de comunicação democrática; ciência e tecnologia a serviço dos povos. Ouvimos também como vocês se comprometeram em abraçar um projeto de vida que rejeite o consumismo e recupere a solidariedade, o amor entre nós e o respeito pela natureza como valores essenciais. É a felicidade de “viver bem” aquilo que vocês reclamam, a “vida boa”, e não aquele ideal egoísta que enganosamente inverte as palavras e propõe a “bela vida”.

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Papa condena “internacional do dinheiro”; para ele há o “projeto-ponte dos povos” e o “projeto-muro do dinheiro”

O Papa e discursa no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares

No encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na tarde deste sábado (5) na sala Paulo VI, no Vaticano, o Papa Francisco fez um ataque assertivo ao capitalismo, e disse que o mundo está dividido entre dois projetos: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro.” Leia a íntegra do discurso de Francisco aqui.

Ele defendeu “a destinação universal dos bens” e convocou os movimentos sociais para um projeto de “refundar as democracias” e a não se conformarem a serem “atores secundários, ou pior, a meros administradores da miséria existente”.

Francisco denunciou a “internacional do dinheiro”, usando uma expressão de 1931 de Pio XI, afirmou que os ricos governam o mundo com “o chicote do medo” e que existe um “terrorismo de base que deriva do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade”, acrescentando que “o sistema é terrorista”.

O Papa comparou o tratamento que o sistema capitalista destina aos bancos daquele que é dispensado aos refugiados, que são uma emergência planetária: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo transformou-se em um cemitério e não somente o Mediterrâneo…muitos cemitérios próximos aos muros, muros manchados de sangue inocente.”

Francisco retomou uma formulação de sua Exortação Apostólica Evangelii gaudium (Alegria do Evangelho), de 2013, e afirmou que “enquanto não se resolverem radicalmente os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da iniquidade, não se resolverão os problemas do mundo e definitivamente, nenhum problema. A iniquidade é a raiz dos males sociais”.

Ao final do discurso, Francisco advertiu os movimentos sociais quanto aos riscos da corrupção, mas não tratou do tema de acordo com a lógica conservadora da mídia, do sistema judiciário, empresarial e político brasileiro. Ao contrário, chamou a atenção para a instrumentalização das notícias em torno da corrupção. O Papa afirmou que “como a política não é uma questão dos “políticos”, a corrupção não é um vício exclusivo da política. Existe corrupção na política, existe corrupção nas empresas, existe corrupção nos meios de comunicação, existe corrupção nas Igrejas e existe corrupção também nas organizações sociais e nos movimentos populares. É justo dizer que existe uma corrupção radicada em alguns âmbitos da vida econômica, em particular na atividade financeira, e que é menos notícia do que a corrupção diretamente e ligada ao âmbito político e social. É justo dizer que muito vezes se utilizam os casos de corrupção com más intenções.”

Além disso, o Papa indicou a obrigação dos que “escolheram uma vida de serviço” quanto à necessidade de “viver a vocação de servir com um forte sentido de austeridade e a humildade. Isto vale para os políticos, mas vale também para os dirigentes sociais e para nós pastores.” Francisco apontou que a necessidade de uma vida austera para os líderes dos movimentos sociais não pode se confundir nunca com as políticas de supressão de direitos sociais, como acontece no Brasil hoje: “Disse ‘austeridade’. Gostaria de esclarecer a que me refiro com a palavra austeridade. Pode ser uma palavra equivocada. Austeridade moral, austeridade no modo de viver, austeridade em como levo em frente a minha vida, minha família. Austeridade moral e humana. Porque no campo mais científico, científico-econômico se quiserem, ou das ciências do mercado, austeridade é sinônimo de ajuste. E não é a isto que me refiro. Não estou falando disto.”

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Quer entender 2016? Talvez valha a pena olhar para 1970 e 1972

Foi uma derrota; não uma hecatombe.

A manutenção dos sistemas de dominação depende de renovações sistemáticas do “definitivo”. É da sua própria lógica: para as classes dominantes, é sempre um risco permitir que a história seja lida e interpretada pelos pobres.

Um dos momentos mais emblemáticos dessa tentativa reiterada dos ricos e seus agentes de construção de consensos foi a tese do “fim da história”. Em artigo publicado em 1989 com o título de “O fim da história”, Francis Fukuyama causou furor nas mídias conservadoras ao redor do planeta ao afirmar que o capitalismo e a democracia burguesa constituiriam o coroamento da história da humanidade e que nada haveria depois disso.

Era o momento culminante do neoliberalismo. Reagan estava encerrando seus mandatos (1981-89) e preparando-se para passar o bastão para o “falcão” George Bush; Margareth Tatcher reinava na Inglaterra (1979-90). Enriquecer, liquidar com os sindicatos, promover o capital financeiro… Tudo isso parece novidade criada pela atual onda dos conservadores, mas era o grito da moda de então.

A previsão de Fukuyama  deu certo –para ele. Enriqueceu, mora numa mansão milionária em Palo Alto na Califórnia, mas ninguém dá dois tostões pela tese dele. A história não acabou, como mostraram a crise cambial europeia de 1992/93, a quebra do México (1994), a crise asiática, seguida da crise russa (1997-98), o estouro da bolha da Internet (2000), a crise argentina (2001) e, finalmente, a grande crise no centro do império, em 2008. Como sabemos, há outra vindo, ali na esquina.

Mas as elites insistiam à época que a “prosperidade” neoliberal não teria fim –na verdade, era um colossal processo de concentração de riqueza e alastramento da pobreza e da miséria ao redor do planeta.

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Quando um rico adere a Jesus – os cristãos, os pobres e os ricos

São Francisco de Assis abraça o leproso; como Zaqueu, caminho de empobrecimento

Cristãos católicos aproximam-se do final de seu Ano Litúrgico neste 31° domingo do Tempo Comum –logo mais virá o Advento, tempo de espera da celebração do nascimento do Senhor. A Igreja nos propõe hoje à reflexão a história da relação de Jesus com um dos mais emblemáticos personagens dos evangelhos: Zaqueu (Lc 19, 1-10)

E tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos e muito rico. Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era muito baixo. Então ele correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.” Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria. Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais.” Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.”

Para entender o percurso de Zaqueu, a proposta de Jesus e meditar um pouco sobre a Igreja e o tema da pobreza e da concentração de riqueza, escrevi esta semana um pouco mais longamente e dividindo o assunto em quatros breves “capítulos”.

1. A caminhada do empobrecimento; estar pobre com os pobres – servir a Deus

A Igreja apresenta-nos o relato sobre a conversão de Zaqueu neste 31º domingo num contexto de intensa reflexão sobre os ensinamentos de Jesus a respeito da relação das pessoas com o dinheiro: renúncia dos bens (23º domingo), fraternidade e partilha (24º), a escolha entre Deus e o dinheiro (25º), o rico e o pobre Lázaro (26º), a viúva e o juiz (29º), o fariseu e o cobrador de impostos (30º). Este era um tema central na sociedade judaica, como de resto em todas as sociedades (mais adiante discutirei isso), na vida das pessoas e na espiritualidade ao longo da história do judaísmo e do cristianismo. Toda e qualquer ideia de que esta relação não seria crucial, com um discurso sobre o caráter “espiritual” da religião é mistificadora. A insistência de Jesus em sua pregação e da Igreja em nos apresentar o tema à reflexão-oração de maneira recorrente patenteiam a relevância do assunto -e, no tópico 4 deste artigo restarão evidente as razões de tantas reticências ao redor da conversa aberta sobre dinheiro.

A história de Zaqueu é maravilhosa e plena de complexidades –ao mesmo tempo, direta.

Ele era um cobrador de impostos, rico. Provavelmente tinha ouvido falar daquele profeta famoso no seu tempo e corre a vê-lo quando passa em sua cidade, Jericó. Quando o olhar do cobrador de impostos e o do profeta cruzam-se, numa cena divertida –Zaqueu trepado sobre uma árvore–, a empatia é imediata. Jesus diz-lhe para fazer o que toda pessoa precisa na vida: descer. E convida-se para entrar no coração do pequeno homem, que se converte, na presença do Manso e Humilde num gesto carregado de simbolismo: ergue-se sobre suas contradições. O discurso de conversão (mudança de rumo) e adesão a Jesus não fala de “pecados” de fundo pretensamente moralista nem de “encontros espirituais”. Não: a conversão, a adesão a Jesus é a decisão de radical empobrecimento e seguimento.

O empobrecimento de Zaqueu é o centro da história e é crucial. Setores conservadores da Igreja, seduzidos ao dinheiro (será o tema da quarta parte deste texto) afirmam que Zaqueu não teria empobrecido, porque teria doado aos pobres “apenas” metade de sua fortuna –como se encontrássemos ricos às pencas dispostos a abrir mão de metade de seus bens e renda. Mas ele foi muito mais adiante: “e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (v.8). Ele lança mão de uma prescrição do livro do Êxodo: “Se alguém roubar um boi ou uma ovelha e o abater ou vender, restituirá cinco bois por um boi e quatro ovelhas por uma ovelha.” (Ex 21,37) Era uma pena duríssima a quem não apenas roubasse mas se desfizesse do bem roubado de tal forma a não poder restituí-lo à vítima: quem roubou, por exemplo, 100 reais, deveria devolver 400. Ora, o cobrador de impostos era tido como um ladrão na sociedade judaica, especialmente entre os pobres. Arrancava-lhes o pouco que tinham para sustentar o sistema jurídico-político de Israel e os invasores romanos. Portanto, toda atividade de Zaqueu era um roubo.  Se ele devolveu quatro vezes mais o que roubou, e toda sua fortuna, como de resto, todas as fortunas, era fruto de roubo, a conclusão é obrigatória: ele tornou-se um pobre com os pobres. Jesus acolheu com entusiasmo o gesto raro de um rico: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.” (v. 10).

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Dez passos para entender didaticamente como os bancos nos empurraram abismo abaixo

 

O Casamento Desigual (1525-1530), atribuída a um seguidor do artista flamengo Quentin Metsys,

Em apenas dez passos você poderá entender claramente como os grandes bancos globais, os verdadeiros detentores do poder no capitalismo, empurraram o planeta e 99% de sua população abismo abaixo. Eu achava que era coisa para economista com muitos anos de estudo, para experts. Mas, não -ainda bem! A leitura combinada de um entrevista e um artigo veiculados no Outras Palavras esclarece tudo.

1. Comece pela entrevista do economista norte-americano Michael Hudson clicando aqui -não se apavore, é curta. Ele é especialista em sistema financeiro e consultor de governos como os da Grécia, Islândia e China. Ao lê-la, você entenderá o processo de submissão da economia mundial ao sistema financeiro explicado de maneira simples, direta. O dilema brasileiro atinge todo o capitalismo neste momento: “Quando se diz ‘pagar os bancos’, o que eles realmente querem dizer é pagar os detentores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório [do FMI, nota minha], neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo”.

2. Lendo a entrevista você compreenderá (se eu compreendi todos podem!): é ilusão pensarmos que a PEC 241, que liquida com gastos públicos no país, e a reforma da Previdência são “invenções” dos golpistas brasileiros; descobrimos com Hudson que as duas políticas (redução brutal dos gastos públicos e reforma de sistemas previdenciários) são globais, ditadas pelo processo de financeirização do capitalismo.

3. O que deixa claro: o golpe não foi um evento nacional, “bananeiro”, mas parte de um processo global conduzido pelo sistema financeiro e os rentistas de todo o mundo. Há desmonte de políticas públicas e reformas dos sistemas previdenciários acontecendo em todo o planeta para, como no Brasil, destinar os recursos públicos para os bancos e o pagamento dos juros das dívidas públicas a eles e aos rentistas.

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Deus, amor e pecado -é tudo diferente do que dizem os conservadores

cunha-rezando
Eduardo Cunha, quando ainda era parlamentar e presidente da Câmara, rezando com outros deputados.

Neste 30º domingo do Tempo Comum (23), cristãos católicos escutam nas missas ou rezam na Liturgia da Palavra do dia mais um trecho do evangelho de Lucas. É um texto conhecido, a parábola do fariseu e do publicano rezando no templo de Jerusalém, contada por Jesus. É bem curta, vale a pena reproduzi-la para ajudar na meditação a seguir. Trata-se de Lucas 18,9-14:

Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: `Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.”

Nesta brevíssima parábola estão apresentados alguns dos temas cruciais do cristianismo e das relações humanas. Começo pelo que me parece o mais central.

O amor. O centro perdido e encontrado do cristianismo.

O que está mais próximo do que poderíamos chamar de uma definição de Deus em todas as Escrituras aparece duas vezes na primeira carta de João: “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16). Nada mais. Tudo está aí.

Deus é amor.

O quanto esta ideia, este conceito, este norte esteve perdido –e ainda hoje aparece apenas às margens, no “escondimento”, apesar dos esforços atuais do Papa e de alguns outros líderes religiosos do tempo presente de recolocá-lo sob a luz.

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A oração do pobre é sempre um clamor por justiça

Coretta King no dia do enterro do marido, Martin Luther King, em 9 de abril de 1968. Ao seu lado, a mãe e a irmão do pastor assassinado. A oração da viúva: “Justiça!”.

Neste domingo (16 de outubro), cristãos católicos celebram o 29º Domingo do Tempo Comum. Escutam, nas missas ou na leitura orante da Liturgia da Palavra, mais um trecho do evangelho de Lucas -tirado do capítulo 18, dos versículos 1 a 8 – se quiser, leia ao final.

É trecho breve. Nele, Jesus apresentou aos discípulos e discípulas a necessidade de “orar sempre, sem jamais esmorecer” (v.1). Essa ideia de rezar persistentemente não foi criação de Jesus, aparece já no primeiro dos salmos da Bíblia, reunidos num livro cerca de 400 anos antes de Cristo. O autor indicava que está no caminho do Senhor aquele que “murmura sua Lei (Torá)  dia e noite”. São Paulo, logo em sua primeira carta, escrita no ano 51 aos tessalonicenses, apresentou esta prescrição de maneira direta: “orai sem cessar” (1Ts 5,17).

O tema da oração é, de fato, central para os cristãos e para os crentes de todas as vertentes, pois a oração “constitui o núcleo mais profundo e íntimo da experiência religiosa, a ponto de se poder afirmar, com toda razão, que não há religião sem oração”[1].

Para explicitar o assunto aos seus amigos e amigas, Jesus contou-lhes então uma brevíssima parábola, sobre uma viúva que apresentava insistentemente seu pleito a um juiz insensível. A viúva, assim como o órfão e o estrangeiro eram enxergados como os grandes frágeis no Antigo Israel e, por isso, gozavam de proteção especial segundo a Torá, especialmente nos livros do Êxodo e Deuteronômio.

A viúva, personificação do pobre na história de Jesus, apresenta todo o tempo seu pleito: “faze-me justiça contra meu adversário! ” (v. 3). Ela age da maneira como resta aos pobres agirem: “A mulher não pode fazer outra coisa senão pressionar, mover-se continuamente para reivindicar seus direitos, sem resignar-se aos abusos de seu ‘adversário’. Toda sua vida transforma-se num grito: ‘Faze-me justiça’”.[2]

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