E era tudo ódio a Lula e aos pobres

O ódio dos ricos e de amplos segmentos da classe média não se volta aos corruptos: os pobres e Lula são seus alvos

A implosão do governo golpista de Temer revela com transparência o caráter do que aconteceu no país nos últimos três anos, especialmente depois que Aécio Neves convocou as elites à derrubada de Dilma, ainda na noite do segundo turno, em 26 de outubro de 2014. Nesse tempo, as mídias conservadoras em aliança com os representantes das elites incrustados no aparelho de Estado instrumentalizaram o nojo de boa parte da população aos políticos e construíram uma narrativa segundo a qual o PT seria o autor de toda a corrupção no país. Mas a rejeição à corrupção era apenas a couraça, a carapaça legitimadora. O vetor decisivo das mobilizações verde/amarelas foi um sentimento que está na gênese da elite e de boa parte da classe média do país: o medo/ódio aos pobres e àquele que é visto como seu grande representante, Lula –como no passado devotaram ódio a Getúlio Vargas.

Os pobres são vistos pela elite do país e por vastos segmentos por ela ideologizados como usurpadores que querem assaltar “o que nos pertence por direito”. São assaltantes, vagabundos, feios, cheiram mal e, crime supremo, consideram-se pessoas com direitos. Não importa que este outro seja, em realidade, alguém frágil, desvalido –ele é sempre ameaçador. Aos ricos é um escândalo que os pobres invadam seus ambientes, de aeroportos a universidades e, sobretudo, que tomem para si receitas do Estado que sempre foram reservadas às elites. Uma economista que se tornou a queridinha da elite, Mônica de Bolle, recentemente formulou com clareza esta concepção: os pobres entendem por direitos o que “na verdade se tratam de benefícios” (esmolas, atos de caridade). Se tiver um dinheirinho na carteira (no Tesouro), que sobrou da farra (o pagamento dos juros aos bancos e rentistas), a gente dá pros pobres, se não sobrar… danem-se.

Se corrupção fosse o fio condutor do processo de derrubada de Dilma, porque os ricos e a classe média estão em casa, quietos, silentes?

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Três textos para entender o agora, pensar o amanhã e projetar um novo mundo

Grafite em rua de Santiago, Chile

Há uma velocidade alucinante que desnorteia. O que exatamente está acontecendo agora? Como chegamos aqui? Para onde vamos? Como resistir ao golpe? É possível derrotar e derrubar o governo dos ricos? Qual o programa para enfrentar a crise que se abate sobre o país? E qual o projeto para a (r)evolução que derrote a torrente de ódio, o governo brutal dos ricos, a lógica da morte e da imposição da dor e da miséria que orienta os poderosos em todo o mundo? Qual o território da utopia?

Separei três textos que, creio, podem ajudar a orientar nessa hora de desesperança e resistência, pensando numa dinâmica do agora-já, no programa para superar o governo dos ricos no país e na recuperação da utopia da revolução planetária que instale um tempo de paz e vida em abundância.

Vale ler cada um deles com cuidado.

 

O AGORA – duas avaliações sobre a situação do país e os desdobramentos imediatos possíveis.

Leia com vagar a reportagem sobre as palestras-debate entre João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que aconteceu na sexta-feira (12) à noite em PortoAlgre, num encontro promovido pela Associação Juízes para a Democracia (AJD). A íntegra está aqui e foi publicada originalmente no Sul21

Stédile e Boulos no debate em Porto Alegre

Os dois líderes apresentaram uma caracterização sobre a natureza das crises econômicas e política, identificando os seus protagonistas e setores sociais envolvidos. E desenharam cenários possíveis e hipóteses acerca do desdobramento dessas crises, apontando os desafios que o campo de esquerda e democrático tem hoje para evitar um gigantesco retrocesso que pode mergulhar o Brasil em um ambiente de convulsão social e de maior fechamento político que poderá levar décadas para ser revertido.

 

UM PROGRAMA PARA A CRISE – o economista José Luís Fevereiro apresentou um primeiro esboço de um programa para a esquerda em 2018 –o artigo foi publicado originalmente na revista Socialismo e Liberdade, do PSOL, e você pode ler aqui, às páginas 8-11.

Não é um texto muito extenso e nem para iniciados –eu, que não sou economista, consegui entender e apreender a complexidade do desafio à frente. “De uma forma geral o programa da esquerda para 2018 deve reafirmar a necessidade de um Estado nacional capaz de garantir a universalização de direitos, de assegurar transferências de renda das camadas mais ricas para as parcelas da população mais pobres, garantir condições de crescimento econômico com significativa melhoria nos índices de distribuição de renda”, escreveu Fevereiro, à guisa de introdução. A seguir, detalhou como implementar o programa, com propostas articuladas para uma reforma tributária, controle dos juros e do câmbio e redesenho do papel dos bancos públicos. É claro que um programa de governo é muito mais que isso, mas Fevereiro apresentar linhas mestras para a política econômica alternativa ao programa do golpe e à política implementada no segundo governo Dilma.

 

RECUPERAR A UTOPIA – o sociólogo e filósofo Michael Lowy,  numa entrevista antológica, apresenta caminho do ecossocialismo como aquele que poderá recuperar a utopia, deixando para trás as experiências traumáticas do socialismo de Estado  e mudando de maneira radical a maneira de enxergar a economia, as relações entre as pessoas e delas com o planeta. Leia aqui, publicado no Outras Palavras. É um movimento necessário para avançar sobre o olhar fixado no hoje-agora conjuntural e dar um norte aos que desejam um novo mundo –a entrevista de Lowi guarda íntima relação com a encíclica Laudato Sii, Sobre o Cuidado da Casa Comum, do Papa Francisco, um documento crucial para entender a agonia planetária causada pelo capitalismo e meditar sobre sua superação.

Michel Lowy

Alguns trechos da entrevista:

“O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, brincar, amar. Para tanto, Marx proporciona as armas para uma crítica radical do produtivismo e, particularmente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota não só as forças do trabalhador, como também as próprias forças da terra, esgotando as riquezas naturais. Assim, essa perspectiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx. No entanto, não foi suficientemente desenvolvida.

(…)

Mas não basta transformar o aparato produtivo e os modelos de propriedade, é necessário transformar também o padrão de consumo, todo o modo de vida em torno do consumo, que é o padrão de capitalismo baseado na produção maciça de objetos artificiais, inúteis e perigosos. Por isso trata-se de criar um novo modo de consumo e um novo modo de vida, baseado na satisfação das verdadeiras necessidades sociais, algo completamente diferente das supostas e falsas necessidades produzidas artificialmente pela publicidade capitalista. Dele se depreende pensar a revolução ecossocialista como uma revolução da vida cotidiana, como uma revolução pela abolição da cultura do dinheiro e da mercadoria imposta pelo capitalismo.

O ecossocialismo não é só a perspectiva de uma nova civilização, uma civilização da solidariedade – no sentido profundo da palavra, solidariedade entre os humanos, mas também com a natureza –, é também uma estratégia de luta, desde já, aqui e agora. Não se trata de esperar até o dia em que o mundo se transforme, mas de começar desde já, agora, a lutar por esses objetivos. Trata-se de promover a convergência, a articulação entre lutas sociais e lutas ecológicas, as quais têm o mesmo inimigo: o sistema capitalista, as classes dominantes, o neoliberalismo, as multinacionais, o FMI, a OMC. Os indígenas da América Latina, desde as comunidades andinas do Peru até as montanhas de Chiapas, estão na primeira linha de combate em defesa da Mãe Terra, da Pachamama, contra o sistema.

(…)

Não há nenhum mecanismo automático que leve a um colapso capitalista. Haverá crises terríveis, mas o sistema encontrará alguma saída, em forma de guerras, ditaduras, movimentos fascistas etc. Assim foi nos anos 1930 e assim pode ocorrer no futuro. Como dizia Walter Benjamin: ‘o capitalismo nunca vai morrer de morte natural’. Se queremos por um fim no sistema capitalista, isso só será possível por um processo revolucionário, uma ação histórica coletiva anticapitalista. O capitalismo só desaparecerá quando suas vítimas se levantarem contra ele e o eliminarem.”

 

Boas leituras para iluminar o caminho!

[por Mauro Lopes]

Na peregrinação a Fátima, Papa rompeu com o culto retrógrado

O Papa Francisco na celebração da Bênção das Velas em Fátima, na noite de sexta, 12 de maio

Vale a pena ler a avaliação de José Manuel Vidal, diretor do site católico Religión Digital, que acompanhou a peregrinação do Papa a Fátima: a visita marca um rompimento radical com a apropriação da imagem de Nossa Senhora de Fátima pelo que há de pior no conservadorismo católico.

“Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como verdadeiro flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.  (…) Francisco buscou,  com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima ‘não é um santinha de graças baratas’ e que Deus nunca se cansa de perdoar, por maiores e graves pecados que se cometam”.

 

Leia em Religión Digital ou abaixo, em tardução livre do espanhol feita generosamente por Lula Ramires:

“Veni, vidi, vici.” (*) O Papa Francisco passou menos de 24 horas em Fátima, mas alcançou, com abundância, todos os objetivos a que se propôs para esta visita a um santuário ancorado na mentalidade popular e na história recente do papado romano. Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.

Mas Francisco, tal como Creso, tudo o que toca converte em outro. Com a força única do retorno às fontes do Evangelho e seu próprio testemunho de peregrino que tem fé de um catolicismo, religião do amor, e uma Igreja ‘hospital de campanha’. Uma Igreja que – voltou a repetir – ela a quer “missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica de amor”.

Só uma Igreja assim pode deixar de ser fortaleza assediada e tornar-se líder da esperança e da paz para a humanidade. E esse era o objetivo primordial de Francisco em Fátima: lançar ao mundo um grito pela paz, que ele a vê ameaçada seriamente por uma possível (e provável) conflagração mundial devastadora. Uma guerra que poderia ser infinitamente pior que a “guerra em pedaços” em diversas partes do planeta ou a guerra cibernética, que, precisamente, ontem se desencadeava no mundo.

Um chamamento papal à paz que, dito a partir de Fátima, tem uma ressonância especial. Porque Fátima é o epicentro dos anseios de paz dos católicos, mas também dos muçulmanos, que se sentem atraídos por este santuário de uma Virgem que evoca o nome da filha do profeta Maomé. “Dos braços da Virgem virá a paz que suplico para a humanidade”, proclamou Francisco. Amém.

Para dentro de sua própria casa, Francisco buscava, com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima “não é uma santinha de graças baratas” e que Deus nunca se cansa de perdoar, por mais graves e grandes que sejam os pecados cometidos.

Uma operação de limpeza em toda a régua. Com tino, com elegância, mas com firmeza. Sem alusão alguma aos três famosos segredos de Fátima, sem ameaçar com o inferno (tão presente em alguns dos relatos das visões dos pastorzinhos), a não ser para assegurar que o inferno consiste em esquecer e descartar os deserdados. Nem Maria é a quem detém “o braço justiceiro de Deus” nem Cristo é “o juiz implacável” que alguns seguem pregando. Porque, é preciso sempre “antepor a misericórdia ao julgamento”. Fátima, porta e farol da misericórdia, que é a luz de Deus.

Que a Virgem de Fátima volte a ser a Senhora do Magníficat, que “derruba do trono os poderosos e enaltece os humildes”. Aquela que sempre socorre a seus filhos quem gemem e choram “neste vale de lágrimas”. A mãe, sempre mãe, que mostra Jesus, “bendito fruto bendito de seu ventre”.

Por esse motivo, o Papa gritou em várias ocasiões: “Temos mãe, temos mãe!”. Uma conversão eclesial no estilo mariano. Também nisto Francisco é revolucionário e retorna ao que é essencial: ao Evangelho da boa notícia, da misericórdia e do perdão. Fátima por sua mão revive. Nota-se que também aqui chegou a primavera.

(*) Frase em latim, atribuída ao general Caio Júlio Cesar, após uma vitória militar, que significa: “vim, vi e venci”.

 

Mal de Huntington: mobilização mundial para encontro com o Papa

Comunidades, famílias, doentes e ativistas mobilizam-se em todo o mundo para o encontro com o Papa em 18 de maio

Milhares de pessoas vítimas da doença de Huntington, familiares e ativistas em todo o mundo estão se preparando para um encontro histórico com o Papa Francisco em 18 de maio no Vaticano. A doença atinge uma em cada 10 mil pessoas, estimando-se haver um milhão de doentes no mundo hoje. É praticamente desconhecida fora do círculo familiar e relacional dos doentes. É uma mutação hereditária rara, neurodegenerativa, que afeta o sistema nervoso central, causando alterações dos movimentos, do comportamento e da capacidade cognitiva –saiba mais no site da Associação Brasil Huntington.

O encontro é uma enorme esperança para que a doença deixe de ser objeto de vergonha e discriminação dos afetados e seus familiares e seja vista à luz do dia em todo o planeta. Por isso, o encontro acontecerá sob o título HDdennomore, que é pronunciado em inglês Hidden No More, ou Esconder Nunca Mais, com a união da abreviação da doença (HD -Huntington’s Disease) que ecoa a palavra esconder (hidden) –veja o site mundial que reúne informações sobre a reunião com o Papa: http://hddennomore.com/.  Veja também a página no YouTube, com vídeos breves e clicando aqui.

Assista a um vídeo belo e tocante sobre a doença e o encontro com o Papa, feito pelo movimento HDdennomore:

“Queremos mostrar a doença ao mundo todo e, especialmente, termos uma bênção especial do Papa para os doentes, seus familiares e amigos”, afirma Vita Aguiar de Oliveira, presidenta da Associação Brasil Huntington e familiar de um doente. Do Brasil irão mais de 30 pessoas, sendo que duas delas, de Coronel Fabriciano (MG) foram sorteadas para terem a viagem paga –veja reportagem aqui. Nesta outra reportagem você pode conhecer outra família que se prepara para a viagem a Roma: aqui.

A doença é quase equivalente a uma sentença mortal que se abate sobre famílias inteiras. Uma vez que um membro da família tenha o gene defeituoso de Huntington (nome do médico que descreveu a síndrome, o norte-americano George Huntington, em 1872) seus descendentes terão 50% de probabilidade de sofrer do mesmo problema.  Os portadores da mutação desenvolvem a doença em geral entre 35 e 55 anos de idade.

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Kátia Martins, líder rural, assassinada com cinco tiros no Pará; o massacre não acaba

Kátia Martins, assassinada aos 43 anos, no Pará

Um assassinato atrás do outro no campo, depois do golpe. Um massacre sem fim. A trabalhadora e líder rural Kátia Martins, 43 anos, foi assassinada com cinco tiros numa emboscada ocorrida na noite desta quinta-feira (4) diante de sua casa, no Assentamento 1º de Janeiro, quase na divisa dos municípios de Castanhal e São Domingos do Capim, no nordeste do Pará, a 130 quilômetros de Belém.

Kátia era presidente da Associação de Agricultores Familiares do assentamento e foi assassinada por volta das 20 horas na frente do neto de apenas oito anos. Segundo Pablo Esquerdo, do Sindicato dos Assalariados Rurais de Castanhal, o crime tem todas as características de uma execução. Os dois assassinos estavam numa moto. No momento em que ela chegava em casa após uma reunião, atiraram para matar. De acordo com testemunhas, Kátia chegou a correr e pediu para que o neto fosse poupado.

O Assentamento 1º de Janeiro está localizado no quilômetro 20 da PA-127 onde, há cinco anos, vivem 94 famílias. Kátia sempre se destacou como liderança na área. Pablo Esquerdo observou que o local é uma área de conflito e que a Kátia Martins já tinha sofrido ameaças: “Existem grupos rivais da associação que queriam a terra para vender”.

Kátia lutava para garantir uma vida de qualidade para as famílias assentadas. Pela manhã, ela havia participado de uma reunião para conseguir alguns recursos para projetos do assentamento no Banco da Amazônia (Basa).

O corpo dela será velado por assentamento e depois seguirá nesta sexta para ser sepultado em Capanema, município também do nordeste paraense, onde moram seus familiares.

A morte de Kátia Martins é mais uma a engrossar a estatística de mortes do massacre no campo do Pará. A violência vem recrudescendo nos últimos. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, em 2014 ocorreram 36 mortes, subindo para 50 em 2015, enquanto que no ano passado foram registradas 61.

[com informações de Fátima Gonçalves, da CUT-PA, no site da Comissão Pastoral da Terra da CNBB]

Assembleia da CNBB: governo Temer defende os capitalistas contra os trabalhadores

Sessão da Assembleia da CNBB que aprovou a nota sobre a conjuntura nacional, na tarde de 3 de maio – foto: CNBB

Em sua última manifestação antes do encerramento da 55ª Assembleia Geral da CNBB, que acaba nesta sexta (5) em Aparecida, os bispos brasileiros divulgaram uma nota intitulada “O grave momento atual” a qual, sem mencionar o nome de Michel Temer, representa a mais dura condenação ao governo nascido do golpe: “não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista.” Segundo os bispos, a gestão da economia sob a lógica da globalização, “tem sido tem sido um verdadeiro suplício para a  maioria da população brasileira, vez que dá primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana e ao capital em detrimento do trabalho, quando deveria ser o contrário.”

A nota foi apresentada durante a última entrevista coletiva da Assembleia, à qual compareceram Dom Sergio da Rocha, presidente da CNBB; Dom Murilo Krieger, vice-presidente; e Dom Leonardo Steiner, secretário-geral –este leu a íntegra da manifestação episcopal.

A epígrafe sob a qual foi apresentada a nota é uma passagem do Evangelho de Mateus, no contexto do conhecido Sermão da Montanha de Jesus: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33). Ao final do texto, como que em resposta à epígrafe, os bispos assinalaram que está “nas mãos” do povo brasileiro “defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.”

A manifestação desta quinta-feira é como que o ponto culminante de uma sequência iniciada em outubro passado. Foi uma inflexão da CNBB, que manteve uma postura ausente do cenário nacional, sem sequer emitir uma manifestação em condenação ao golpe de Estado. Em 27 de outubro de 2016, rompendo com a inércia, a Conferência lançou uma dura condenação à emenda constitucional que aplicou uma brutal redução nos gastos públicos direcionados aos mais pobres –conhecida como PEC 241. Na ocasião, os bispos qualificaram a medida de “injusta e seletiva” ao eleger “para pagar a conta do descontrole dos gastos, os trabalhadores e os pobres, ou seja, aqueles que mais precisam do Estado para que seus direitos constitucionais sejam garantidos. Além disso, beneficia os detentores do capital financeiro, quando não coloca teto para o pagamento de juros, não taxa grandes fortunas e não propõe auditar a dívida pública” –a íntegra está aqui. Foram sucessivas manifestações contra as medidas do governo –terceirização, reforma trabalhista, liquidação da Previdência Social-, de protesto contra a violência que tem vitimado os mais pobres, até o apoio explícito à greve geral de 20 de abril último, quando mais de 100 bispos, 1/3 do episcopado brasileiro, convocou a adesão do povo à mobilização (aqui).

Logo no início da nota divulgada hoje, os bispos perguntaram: “O que está acontecendo com o Brasil?” E apresentaram um questionamento à crise ética que perpassa o país: “O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção.” A degradação do ambiente político-institucional está no horizonte de preocupação dos bispos, que consideram que “o Estado democrático de direito, reconquistado com intensa participação popular após o regime de exceção, corre riscos” e advertiram que “desconsiderar os partidos e desinteressar-se da política favorece a ascensão de ‘salvadores da pátria’ e o surgimento de regimes autocráticos”.

Os bispos condenaram o massacre de trabalhadores rurais no município de Colniza, no Mato Grosso (20 de abril), e o ataque ao povo indígena Gamela, em Viana, no Maranhão (30 de abril), como “barbáries que vitimaram os mais pobres”.

A CNBB também fez críticas ao Poder Judiciário, afirmando que “espera-se atuação independente e autônoma, no estrito cumprimento da lei” e aos veículos de comunicação de massa, ao afirmar que “da Mídia espera-se que seja livre, plural e independente, para que se coloque a serviço da verdade.”

 

Leia a seguir a íntegra da nota:

O GRAVE MOMENTO NACIONAL

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil–CNBB, por ocasião de sua 55ª Assembleia Geral, reunida em Aparecida-SP, de 26 de abril a 5 de maio de 2017, sente-se no dever de, mais uma vez, apresentar à sociedade brasileira suas reflexões e apreensões diante da delicada conjuntura política, econômica e social pela qual vem passando o Brasil. Não compete à Igreja apresentar soluções técnicas para os graves problemas vividos pelo País, mas oferecer ao povo brasileiro a luz do Evangelho para a edificação de “uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (Bento XVI – Caritas in Veritate, 9).

O que está acontecendo com o Brasil? Um País perplexo diante de agentes públicos e privados que ignoram a ética e abrem mão dos princípios morais, base indispensável de uma nação que se queira justa e fraterna. O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção. Urge, portanto, retomar o caminho da ética como condição indispensável para que o Brasil reconstrua seu tecido social. Só assim a sociedade terá condições de lutar contra seus males mais evidentes: violência contra a pessoa e a vida, contra a família, tráfico de drogas e outros negócios ilícitos, excessos no uso da força policial, corrupção, sonegação fiscal, malversação dos bens públicos, abuso do poder econômico e político, poder discricionário dos meios de comunicação social, crimes ambientais (cf. Documentos da CNBB 50– Ética, Pessoa e Sociedade – n. 130)

O Estado democrático de direito, reconquistado com intensa participação popular após o regime de exceção, corre riscos na medida em que crescem o descrédito e o desencanto com a política e com os Poderes da República cuja prática tem demonstrado enorme distanciamento das aspirações de grande parte da população. É preciso construir uma democracia verdadeiramente participativa. Dessa forma se poderá superar o fisiologismo político que leva a barganhas sem escrúpulos, com graves consequências para o bem do povo brasileiro.

É sempre mais necessária uma profunda reforma do sistema político brasileiro. Com o exercício desfigurado e desacreditado da política, vem a tentação de ignorar os políticos e os governantes, permitindo-lhes decidir os destinos do Brasil a seu bel prazer. Desconsiderar os partidos e desinteressar-se da política favorece a ascensão de “salvadores da pátria” e o surgimento de regimes autocráticos. Aos políticos não é lícito exercer a política de outra forma que não seja para a construção do bem comum. Daí, a necessidade de se abandonar a velha prática do “toma lá, dá cá” como moeda de troca para atender a interesses privados em prejuízo dos interesses públicos.

Intimamente unida à política, a economia globalizada tem sido um verdadeiro suplício para a  maioria da população brasileira, uma vez que dá primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana e ao capital em detrimento do trabalho, quando deveria ser o contrário. Essa economia mata e revela que a raiz da crise é antropológica, por negar a primazia do ser humano sobre o capital (cf. Evangelii Gaudium, 53-57). Em nome da retomada do desenvolvimento, não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista. Recorde-se, com o Papa Francisco, que “o dinheiro é para servir e não para governar” (Evangelii Gaudium 58).

O desenvolvimento social, critério de legitimação de políticas econômicas, requer políticas públicas que atendam à população, especialmente a que se encontra em situação vulnerável. A insuficiência dessas políticas está entre as causas da exclusão e da violência, que atingem milhões de brasileiros. São catalisadores de violência: a impunidade; os crescentes conflitos na cidade e no campo; o desemprego; a desigualdade social; a desconstrução dos direitos de comunidades tradicionais; a falta de reconhecimento e demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; a degradação ambiental; a criminalização de movimentos sociais e populares; a situação deplorável do sistema carcerário. É preocupante, também, a falta de perspectivas de futuro para os jovens. Igualmente desafiador é o crime organizado, presente em diversos âmbitos da sociedade.

Nas cidades, atos de violência espalham terror, vitimam as pessoas e causam danos ao patrimônio público e privado. Ocorridos recentemente, o massacre de trabalhadores rurais no município de Colniza, no Mato Grosso, e o ataque ao povo indígena Gamela, em Viana, no Maranhão, são barbáries que vitimaram os mais pobres. Essas ocorrências exigem imediatas providências das autoridades competentes na apuração e punição dos responsáveis.

No esforço de superação do grave momento atual, são necessárias reformas, que se legitimam quando obedecem à lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum. Do Judiciário, a quem compete garantir o direito e a justiça para todos, espera-se atuação independente e autônoma, no estrito cumprimento da lei.   Da Mídia espera-se que seja livre, plural e independente, para que se coloque a serviço da verdade.

Não há futuro para uma sociedade na qual se dissolve a verdadeira fraternidade. Por isso, urge a construção de um projeto viável de nação justa, solidária e fraterna. “É necessário procurar uma saída para a sufocante disputa entre a tese neoliberal e a neoestatista (…). A mera atualização de velhas categorias de pensamentos, ou o recurso a sofisticadas técnicas de decisões coletivas, não é suficiente. É necessário buscar caminhos novos inspirados na mensagem de Cristo” (Papa Francisco – Sessão Plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais – 24 de abril de 2017).

O povo brasileiro tem coragem, fé e esperança. Está em suas mãos defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.

A CNBB está sempre à disposição para colaborar na busca de soluções para o grave momento que vivemos e conclama os católicos e as pessoas de boa vontade a participarem, consciente e ativamente, na construção do Brasil que queremos.

No Ano Nacional Mariano, confiamos o povo brasileiro, com suas angústias, anseios e esperanças, ao coração de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Deus nos abençoe!

 

CNBB denuncia: PM desarmou indígenas Gamela e em seguida permitiu ataque dos fazendeiros e jagunços

Um dos Gamela feridos que tiveram o primeiro atendimento na na cidade de Vitória do Mearim. Foto: Ana Mendes/Cimi

O bispo de Viana (MA), dom Sebastião Lima Duarte, município onde ocorreu o brutal ataque aos indígenas Gamela na tarde de domingo (30) denunciou na tarde desta segunda, ao falar em nome da CNBB em entrevista coletiva: “A polícia desarmou os indígenas e em seguida  permitiu o ataque dos fazendeiros e jagunços”. A entrevista aconteceu durante a Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida.

São 13 feridos, dois em estado muito grave, cinco baleados; dois tiveram as mãos decepadas por golpes de facão.

Leia a seguir  ou aqui o relato da situação no Povoado das Bahias, no município de Viana, feito pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) da CNBB:

Depois de uma madrugada de tensão pelo receio de novos atos de violência contra as aldeias Gamela, além da angústia sobre o estado de saúde dos feridos no ataque deste domingo, 30, contra a retomada dos indígenas no Povoado das Bahias, município de Viana (MA), informações consolidadas dão conta do massacre envolvendo a amputação de membros do corpo de dois indígenas: cinco baleados, sendo que dois tiveram também as mãos decepadas, e chega a 13 o número de feridos a golpes de facão e pauladas. Não há, até o momento, a confirmação de mortes.

Os dados seguem sendo parciais, os números de baleados e feridos podem aumentar, e isso se deve ao fato de que os Gamela se espalharam após a investida dos fazendeiros e seus capangas, entre 16h30 e 17 horas. Os criminosos estavam reunidos para atacar os indígenas ao menos desde o início da tarde, nas proximidades do Povoado da Bahias, numa área chamada de Santero, conforme convocação realizada pelas redes sociais e em programas de rádio locais – inclusive com falas de apoio do deputado federal Aluisio Guimarães Mendes Filho (PTN/MA).

Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Viana (MA), município onde ocorreu o ataque dos fazendeiros e jagunços, durante entrevista na Assembleia da CNBB

Cinco indígenas foram transferidos durante a noite de ontem e madrugada de hoje para o Hospital Socorrão 2, Cidade Operária, na capital São Luís. Todos baleados em várias partes do corpo e dois chegaram à unidade com membros decepados: um teve as mãos retiradas a golpes de facão, na altura do punho (foto ao lado); outro, além das mãos, teve os joelhos cortados nas articulações.

Na manhã desta segunda-feira, 1o de maio, Dia dos Trabalhadores, dois Gamela receberam alta: um levou um tiro de raspão na cabeça e teve apenas uma das mãos machucadas e o segundo levou um tiro no rosto e outro no ombro, mas sem prejuízos para os órgãos vitais. Os demais seguem internados: dois  em estado grave, correndo risco de morte, e sem alternativa passaram por intervenções cirúrgicas.

“Um deles levou dois tiros, uma bala está alojada na coluna e a outra na costela, teve as mãos decepadas e joelho cortados. O irmão dele levou um tiro no peito. Outro teve as mãos decepadas”, relata integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) que esteve com os Gamela hospitalizados em São Luís. Carros de apoiadores dos Gamela, inclusive, tiveram que cuidar de algumas locomoções de feridos pela falta de ambulâncias.

Em Viana e nos municípios do entorno, os feridos receberam atendimento médico com cortes de facão pelo corpo e lesões diversas. Relatos de áudio, ao menos de três moradores e moradoras da cidade, circulam trazendo informações de que boatos correram ainda à noite, horas após a ofensiva contra os Gamela, sobre ataques a serem realizados contra os indígenas na unidade de pronto-atendimento, fazendo com que muitos saíssem do local após os primeiros socorros.

“Tememos novos ataques a qualquer momento. A concentração de jagunços segue estimulada e organizada no Santero, o mesmo lugar de onde saíram ontem pra fazer essa desgraça com o povo da gente. A polícia tá dizendo que não foi ataque, mas confronto. Não é verdade, fomos pegos de tocaia enquanto a gente saía da retomada. Mal podemos nos defender, olha aí o que aconteceu”, diz um Gamela que não identificamos por razões de segurança.

O Governo do Estado do Maranhão, por intermédio das secretarias de Segurança Pública e Direitos Humanos, está informado dos fatos. A Fundação Nacional do Índio (Funai) também foi notificada e a intenção é envolver o governo federal na garantia dos direitos humanos e de proteção aos Gamela – sobretudo porque a avaliação dos indígenas é de que as polícias Militar e Civil são próximas dos principais opositores da pauta do povo, que na região sobre com racismo e preconceito sendo constantemente taxados de falsos índios.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e a 6a Câmara de Coordenação e Revisão, que cuida dos assuntos ligados aos povos indígenas e quilombolas na Procuradoria-Geral da República (PGR), estão analisando formas de intervenção na situação. A Relatora da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, será comunicada nas próximas horas sobre o ataque contra os Gamela. Em Nova York (EUA), o Fórum Permanente de Assuntos Indígenas das Nações Unidas está reunido desde a semana passada e conta com uma delegação do Brasil de indígenas Munduruku, Yanomami, Baré e Kanamary, além da Repam, Cimi e Fian.

Não é o primeiro ataque sofrido pelo povo Gamela, que luta para que a Funai instale um Grupo de Trabalho para a identificação e demarcação do território tradicional. Devido a morosidade quanto a quaisquer encaminhamentos pelo órgão indigenista, os Gamela decidiram recuperar áreas tradicionais reivindicadas. Em 2015, um ataque a tiros foi realizado contra uma destas áreas. Em 26 de agosto de 2016, três homens armados e trajando coletes à prova de bala invadiram outra área e foram expulsos pelos Gamela, que mesmo sob a mira de armas de fogo os afastaram da comunidade.

 

CNBB: nunca houve tamanha retirada de direitos; Igreja de Jesus trabalhador quer “sociedade que espelhe o Reino definitivo”

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz, ao falar sobre o 1º de Maio em nome da CNBB, em entrevista coletiva realizada na tarde deste Dia do Trabalhador, afirmou que “nunca se assistiu no Brasil tamanha retirada de direitos”. O bispo que é também presidente da Pastoral da Saúde, falou em Aparecida (SP), onde acontece a 55ª Assembleia Geral da CNBB: “Este 1º de Maio no Brasil é celebrado no contexto de um recuo sem precedentes nos direitos, de retirada dos direitos; o Estado esqueceu sua tarefa de mediador dos conflitos entre capital e trabalho para voltar-se contra os trabalhadores”; para ele o governo Temer “segue à risca a agenda neoliberal e, ao impor as ‘reformas’, usou uma palavra -reforma- que dá impressão de avanço, mas é uma ação para recuar ao capitalismo selvagem”.

O pronunciamento de dom Ferrería Paz foi extremamente contundente. Ele disse que “ao longo da história do Brasil os trabalhadores sempre estiveram na vanguarda das lutas democráticas” a garantiu que “os trabalhadores podem contar sempre com a Igreja Católica como companhia de caminho rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna que espelhe o Reino definitivo”.  Ele explicou que essa opção da Igreja prende-se à sua origem: “Estamos com a classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, pois Jesus foi um trabalhador”.

O bispo de Campos mencionou três iniciativas do governo Temer que concretizam a agressão aos trabalhadores: a terceirização das relações de trabalho, a reforma trabalhista e a PEC 287, “que praticamente elimina o sistema de Previdência Social no país”; dom Ferrería Paz . Ele reafirmou o apoio e incentivo da CNBB às mobilizações contra a reforma, afirmando que “diante da precarização das leis trabalhistas, nossa palavra é de encorajamento e de estímulo às mobilizações justas, democráticas e pacíficas para gerar uma cultura do trabalho decente, justo e solidário”.

No espírito do ensinamento do Papa Francisco, dom Ferrería Paz convocou os católicos e os democratas do país: “Temos que responder à globalização do descarte, da exclusão e da indiferença com a globalização da solidariedade, da comunhão e da justiça”

[Mauro Lopes]

Papa quer renovação da Igreja no Brasil baseada no fim do clericalismo

O Papa recebe o padre Vilson Groh no Vaticano. Foto: L’Osservatore Romano

O Papa Francisco quer que os leigos sejam os grandes protagonistas da Igreja no Brasil, avalia que no país e na América Latina há um clericalismo crônico e aponta a dinâmica surgida nos três encontros mundiais dos movimentos populares convocados por ele como caminho para a “Igreja em saída” da qual ele fala recorrentemente.  Um tema de grande preocupação para o Papa: o desafio ambiental, a pobreza e a exclusão na Amazônia.

Essas foram as ideias-chave que ele expressou ao padre Vilson Groh numa longa audiência privada no Vaticano em 16 de fevereiro último. “O Papa disse que Igreja em saída é Verbo que se faz carne no ser humano”, disse Groh, em entrevista ao Caminho Pra Casa. Ele foi ao Papa para apresentar o trabalho do IVG (Instituto Pe. Vilson Groh), que atua há três décadas na periferia de Florianópolis, especialmente com crianças, adolescentes e jovens.

Quem articulou o encontro foi Paolo Rufini, diretor da TV Vaticano e um apoiador entusiasmado dos projetos do Instituto –“ele sempre vem a Florianópolis para ficar com a comunidade no morro”, disse o padre Groh. O encontro foi marcado por forte emoção. Groh levou cartas das crianças ao papa: “As cartas diziam ‘o senhor é uma esperança para nós, que vivemos na periferia’. Elas pediram que orasse por eles, e contaram que havia muito sofrimento na periferia.”. Em resposta, o Papa gravou, no próprio celular de Groh, uma mensagem para as crianças (veja ao fim desta reportagem).

“O Papa disse que a Igreja no Brasil e na América Latina é muito clericalizada [nota: o clericalismo é a substituição da centralidade de Cristo pela da hierarquia da Igreja] e que é preciso romper com isso e abrir um tempo de protagonismo leigo”, afirmou o padre de Florianópolis. Segundo ele, Francisco disse ainda mais sobre o tema: “É preciso se pensar, no Brasil, nas celebrações presididas por leigos formados, e não apenas por padres. O Papa disse que é fundamental ter em mente a formação de comunidades e que as Comunidades Eclesiais de Base são uma alternativa para a Igreja em saída”.

O tema do protagonismo dos leigos é um dos eixos da 55ª Assembleia Geral da CNBB que está acontecendo até 5 de maio em Aparecida (SP). Dois dias antes do encontro do Papa com Groh, o bispo emérito de Jales, Dom Demétrio Valentini, fez uma forte homilia exatamente no Santuário Nacional de Aparecida na qual apresentou a proposta de, a CNBB assumir a figura dos presbíteros de comunidade, leigos, que passem a assumir a presidência da Eucaristia. Ele lembrou, ao lançar a ideia, que o Papa tem instado a CNBB a apresentar um projeto para um novo protagonismo dos leigos –por isso o tema entrou na agenda da Assembleia Geral (aqui o link para a homilia).

O Papa tem seguidamente criticado o clericalismo como a grande doença da Igreja. Por isso, acolheu com visível entusiasmo a proposta que lhe fizeram os superiores dos quatro ramos principais dos franciscanos, em encontro no dia 10 de abril no Vaticano: que seja alteradas as normas para que leigos possam assumir cargos de lideranças em suas comunidades. “O Papa Francisco estuda as possibilidades de fazer avançar este projeto”, disse Frei Michael Perry, Ministro Geral dos Frades Menores, e acrescentou: “Deixamos uma carta com um pedido formal para uma dispensa dos requisitos da lei canônica que, na maioria das ordens religiosas,  apenas um padre pode ser eleito para os cargos de liderança” -leia aqui.

Até agora, os sinais emitidos pela Assembleia da CNBB no tema do protagonismo dos leigos são tímidos e podem frustrar o desejo do Papa. Numa entrevista coletiva na tarde de sexta (28), o coordenador do tema, dom Geremias Steinmetz, bispo de Paranavaí (PR), fez afirmações genéricas e sem qualquer indício de uma inovação relevante. Como o assunto está submetido à plenária de todos os bispos, pode haver novidades nos próximos dias.

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Em nota para o 1º de Maio, CNBB acusa governo e Congresso e diz que reformas são inaceitáveis

Na Zona Leste de São Paulo, o clamor do povo na Greve Geral. Foto: Mídia Ninja

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou na noite de quarta (27), véspera da greve geral, uma nota endereçada aos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Os bispos brasileiros, reunidos em Assembleia Geral em Aparecida (SP) encorajam a organização e mobilização do povo e acusam “os Poderes Executivo e Legislativo”, governo Temer e Congresso, de atuarem segundo a “lógica perversa do mercado”.

A CNBB atacou a terceirização, e as mudanças pretendidas pelo governo nas relações trabalhista e na Previdência, considerando “inaceitável” que “decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.”

Na nota, os bispos conclamam: “nenhum trabalhador sem direitos!” e mencionam o discurso do Papa Francisco no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em julho de 2015: “Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar.”

Na manhã desta sexta, 28, IBGE anunciou que o desemprego atinge agora mais de 14 milhões de pessoas no país, algo sem precedentes (aqui).

Veja a íntegra da nota aqui ou abaixo:

AOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO BRASIL

MENSAGEM DA CNBB

“Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho” (Jo 5,17)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunida, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – SP, em sua 55ª Assembleia Geral Ordinária, se une aos trabalhadores e às trabalhadoras, da cidade e do campo, por ocasião do dia 1º de maio. Brota do nosso coração de pastores um grito de solidariedade em defesa de seus direitos, particularmente dos 13 milhões de desempregados.

O trabalho é fundamental para a dignidade da pessoa, constitui uma dimensão da existência humana sobre a terra. Pelo trabalho, a pessoa participa da obra da criação, contribui para a construção de uma sociedade justa, tornando-se, assim, semelhante a Deus que trabalha sempre. O trabalhador não é mercadoria, por isso, não pode ser coisificado. Ele é sujeito e tem direito à justa remuneração, que não se mede apenas pelo custo da força de trabalho, mas também pelo direito à qualidade de vida digna.

Ao longo da nossa história, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras pela conquista de direitos contribuíram para a construção de uma nação com ideais republicanos e democráticos. O dia do trabalhador e da trabalhadora é celebrado, neste ano de 2017, em meio a um ataque sistemático e ostensivo aos direitos conquistados, precarizando as condições de vida, enfraquecendo o Estado e absolutizando o Mercado. Diante disso, dizemos não ao “conceito economicista da sociedade, que procura o lucro egoísta, fora dos parâmetros da justiça social” (Papa Francisco, Audiência Geral, 1º. de maio de 2013).

Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são os Projetos de Lei 4302/98 (Lei das Terceirizações) e 6787/16 (Reforma Trabalhista), bem como a Proposta de Emenda à Constituição 287/16 (Reforma da Previdência). É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.

Irmãos e irmãs, trabalhadores e trabalhadoras, diante da precarização, flexibilização das leis do trabalho e demais perdas oriundas das “reformas”, nossa palavra é de esperança e de fé: nenhum trabalhador sem direitos! Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar (Cf. Papa Francisco, Discurso aos Movimentos Populares, 9 de julho de 2015).

Encorajamos a organização democrática e mobilizações pacíficas, em defesa da dignidade e dos direitos de todos os trabalhadores e trabalhadoras, com especial atenção aos mais pobres.

Por intercessão de São José Operário, invocamos a benção de Deus para cada trabalhador e trabalhadora e suas famílias.

Aparecida, 27 de abril de 2017.