Uma carta aos bispos brasileiros: defendam os pobres e a democracia!

Um carta aberta do professor Robson Sávio Reis Souza aos bispos do Brasil, que se reúnem em Aparecida a partir de hoje (11) para mais uma assembleia da CNBB:  “tendo em vista sua história na luta pelas liberdades democráticas e pela justiça social” que a entidade posicione-se “claramente sobre a situação política atual do nosso país, a indicar à sociedade brasileira caminhos de superação da crise. Está em jogo, no atual momento, o futuro da nossa Nação.” Ao final da carta, uma indicação tomada da Exortação Apostólica Alegrai-vos e Exultai do Papa Francisco, que acaba de ser lançada: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo”.

Por Robson Sávio Reis Souza

Nesta quarta (11) começa em Aparecida a  56ª Assembleia Geral da CNBB (a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Ela acontece em meio a uma brutal crise do país e da própria Igreja Católica.

Tradicionalmente, a CNBB pronunciou-se em suas assembleias sobre o cenário nacional, como uma voz ao lado dos pobres, da democracia e da justiça. No entanto, sob pressão do clero e movimentos católicos integristas, a direção da entidade tem se mantido silenciosa e acuada nos últimos meses.

O professor Robson Sávio Reis Souza escreveu uma carta aos bispos brasileiros estimulando-os a saírem do silêncio e posicionarem-se claramente sobre o momento nacional, na perspectiva histórica da entidade, nascida “da inspiração de Dom Hélder, o ‘santo rebelde’.

Professor da PUC-MG e da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, Robson é coordenador da Comissão da Verdade em Minas Gerais e  integrante da Rede de Assessores do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (organismo da própria CNBB).

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Ao redor de Marielle, Lula e padre Amaro, uma Igreja dividida e que abandona os seus

Dom Angélico e Lula, na celebração ecumênica em São Bernardo

Vive-se uma situação paradoxal no Brasil. Lideranças populares com histórias profundamente ligadas à Igreja Católica foram mortas ou perseguidas sob o silêncio cúmplice da cúpula da Igreja, enquanto um segmento estridente de integristas aplaude os algozes. Marielle Franco foi martirizada numa execução brutal; Lula, vítima de uma perseguição sem tréguas até a prisão, assim como o padre José Amaro Lopes de Souza.

Em tornos deles, a Igreja brasileira dividiu-se entre uma postura de solidariedade e oração de segmentos vinculados à Teologia da Libertação; uma hostilidade agressiva dos tradicionalistas; e um distanciamento acovardado da cúpula. Incrivelmente, as mesmas reações foram observadas diante da prisão de um integrante do clero, o padre José Amaro Lopes de Souza, considerado sucessor de irmã Dorothy Stang em Anapu (PA), e detido desde 27 de março último numa articulação entre latifundiários e a polícia do Pará.

Como em raros momentos, a Igreja mostra sua fratura à sociedade à luz do dia e, mais grave, apresenta-se como instituição que não acolhe os seus.  Ao mesmo tempo, o Papa acaba de lançar uma Exortação Apostólica dizendo que o único caminho da santidade cristã é a vida com os pobres contra as injustiças.

Por Mauro Lopes

Marielle Franco foi catequista e participou da Pastoral da Juventude na favela da Maré, na adolescência; mesmo depois de adulta, quando se afastou da Igreja por ser lésbica e militante de esquerda numa Arquidiocese dominada por integristas, não abdicou da fé. Criada numa família católica, manteve-se às margens, aproximou-se da religiosidade de matriz afro-brasileira e continuou a frequentar igrejas, especialmente ao lado da irmã, Anielle.

Luis Inácio Lula da Silva também foi criado numa família católica. Sua mulher, Marisa Letícia, católica desde a infância –seu avô, Giovanni, ergueu uma capela em homenagem a Santo Antônio, no sítio da família, em São Bernardo do Campo, que está de pé até hoje. A aproximação maior de Lula com o catolicismo deu-se no processo das lutas sindicais no final dos anos 1970 e a seguir na fundação do PT, quando teve apoio das bases da Igreja, especialmente as Comunidades Eclesiais e Base teólogos e teólogas vinculados à Teologia da Libertação.

Padre Amaro e Dorothy Stang

Padre José Amaro é um homem da Igreja há décadas. Uma nota da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil) resume bem a trajetória do sacerdote: “Milhares de trilhas iniciadas por irmã Dorothy Stang, continuam abertas depois de seu martírio em 12 de fevereiro de 2005, no município de Anapu, Estado do Pará. Trilhas estas continuadas pelo padre Amaro Lopes, conhecido, amado e respeitado por sua incansável luta em defesa dos direitos humanos, especialmente dos camponeses, pequenos agricultores da região de Anapu. Gente simples e de grande valor na defesa da Amazônia e da ecologia integral. Dando continuidade ao trabalho de irmã Dorothy, padre Amaro atua no município de Anapu (PA), na Paróquia Santa Luzia, como líder comunitário e coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região.”

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Uma hora decisiva: confronto ou guerra de desgaste?

A sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, na manhã desta sexta (6)

Ao fim e ao cabo, há uma única hora decisiva da qual ninguém escapa, a morte. Antes dela, porém, a vida nos apresenta muitas horas decisivas. Esta é uma delas, depois do julgamento do STF, da decisão de Sérgio Moro de atropelar tudo e mandar prender Lula e da mobilização ao redor do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, o berço das greves de 1979, a casa de Luis Inácio, o nascedouro do PT. A hora é de confronto ou de partir para uma “guerra de desgaste”? Que forças tem o campo popular-democrático?

Por Mauro Lopes

É muito simbólico que Lula tenha ido para sua casa (o útero),  o Sindicato em São Bernardo do Campo, e que toda a mobilização de resistência à última e mais grave ofensiva do golpe depois da deposição de Dilma em 2016 tenha se dirigido na noite de ontem,  quinta (5). Caravanas partiram na noite-madrugada de diversas cidades do Estado de São Paulo e de outros estados para São Bernardo.

O que fazer agora?

Creio que a resposta está no quanto o simbólico representado pela concentração em São Bernardo do Campo corresponde neste momento ao fio da história viva da luta operária, sindical e popular do fim dos últimos 40 anos -de 1970 para cá.

Lula escolheu estar entre os seus. Não há ninguém que seja mais “de Lula” que os metalúrgicos do ABC. Pois bem. Eles irão mobilizar-se? Haverá greve ao menos nas fábricas mais icônicas do movimento operário que marcou o país -na Ford, GM, Volks?

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Alberto Maggi, um biblista que incomoda e ilumina

Alberto Maggi, frade da congregação dos Servos de Maria (servitas) é um dos maiores biblistas católicos da atualidade.

Seus livros questionam, incomodam, abrem horizontes. No Brasil, foram publicados dois livro estupendos dele, “A loucura de de Deus – o Cristo de João” e “Jesus e Belzebu, Satanás e Demônios”. Ele escreveu mais 18.

Na Sexta-Feira da Paixão publiquei no Caminho Pra Casa um artigo inédito dele: “Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema”. Até agora, 120 mil pessoas já leram. Dezenas de integristas escreveram comentários xingando-o de todas as maneiras, acusando-o de “heresia”.

Por Mauro Lopes

Leia uma entrevista luminosa deste frade que já se acostumou com o xingamento dos fundamentalistas e a hostilidade dos hierarcas, mas que segue fiel ao Mestre.

Quem quiser ter uma boa escuta dos Evangelhos, precisa ler Maggi.

Escutei seu nome pela primeira vez uns três anos atrás, quando dele me falou entusiasmado o padre Julio Lancellotti. O padre Francisco Cornelio é amigo de Maggi e seu maior divulgador no Brasil -atualmente, em Roma, está mais perto do amigo, que mora num convento em Montefano, na região dos Marche, 250 km a noroeste de Roma.

Leia a seguir entrevista de Maggi concedida ao jornalista Antonio Gnoli, publicada no La Repubblica em 01 de abril e traduzida por Moisés Sbardelotto para o IHU.

Leia a seguir:

Em certo ponto, Alberto Maggi interrompe a conversa: “São quase 7 horas da noite, é hora da missa”, diz ele apressadamente. Penso na singularidade desse homem que a Igreja muitas vezes definiu como herético. Onde está a fronteira entre obediência e pensamento próprio ou alheio?

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1 milhão!

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A Via Sacra dos invisíveis

Nas ruas do centro histórico de São Paulo, onde vivem 80% dos 16 mil moradores de rua da cidade mais rica do país, a Via Sacra do Povo da Rua pediu o fim da violência e políticas públicas.  “Chega de violência contra o povo! Chega de bala de borracha e de gás de pimenta! Chega de maldade e de opressão”, disse o padre Júlio Lancellotti, vigário do Povo da Rua, ao entregar flores para os policiais, enquanto os participantes da procissão cantavam:  “Recebemos bombas, entregamos flores”. 

Por Thiago Fuschini * | Fotos: Daniel Arroyo

O período da Páscoa é um convite aos cristãos a orarem e refletirem sobre a Paixão e a Ressurreição de Jesus, e, ao mesmo tempo, compreenderem o real significado de sua vida e missão. Desde o século XVI, uma das formas mais tradicionais de se refletir sobre estes temas é a participação na Via Sacra, que relembra o caminho de Cristo ao Gólgota, onde ocorreu sua crucifixão, na primeira Sexta-Feira Santa.

Há mais de 30 anos, a Pastoral do Povo de Rua de SP realiza a Via Sacra do Povo de Rua de São Paulo, que ocorre tradicionalmente nas ruas do centro da capital, onde, segundo o Censo de População de Rua, de 2015, vivem 80% das cerca de 16 mil pessoas que perambulam pelas ruas da cidade mais rica do país.

A procissão fez um trajeto pela Rua Líbero Badaró, no centro histórico da cidade, onde parou em frente a cada prédio de órgãos da Prefeitura, como as secretarias de Habitação e de Assistência e Desenvolvimento Social, passando pela Prefeitura e terminando na Catedral da Praça da Sé.

Violência

A Via Sacra do Povo da Rua, ontem (30), exigiu a criação de políticas públicas para esta população, com ênfase em suas principais necessidades, ou seja, moradia e trabalho, e pediu o fim da violência contra quem vive nas e das ruas, que, normalmente, é praticada por agentes de segurança pública (da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana – CGM). Continue lendo “A Via Sacra dos invisíveis”

Ruralistas do Pará lançam ataque sem precedentes contra Igreja Católica

Padre Amaro e Dorothy Stang: quando a Igreja questiona os poderosos

A Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará), entidade dos latifundiários e ruralistas do Pará lançou na tarde desta quinta (29), um ataque sem precedentes à Igreja Católica no Brasil. Em nota assinada por seu presidente, Carlos Fernandes Xavier, foram atacados de maneira violenta e difamatória: 1) a memória da freira Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 a mando de latifundiários do Pará; 2) o bispo emérito do Xingu, dom Erwin Kräutler, um dos nomes mais respeitados da Igreja em todo o mundo; 3) o padre José Amaro Lopes da Silva, pároco de Santa Luzia em Anapu e preso vítima de uma armação dos mesmos ruralistas; 4) a Comissão Pastoral da Terra (CPT); 5) o desembargador Gercino José da Silva Filho, ex-Ouvidor Agrário Nacional e ex-presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, ligado à Igreja, chamando de “embusteiro”;  e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), denominada na nota de “Sindicato dos Bispos”. Nem mesmo no período da ditadura militar a Igreja Católica sofreu um ataque tão virulento.

Por Mauro Lopes

A nota é vazada em termos tão grosseiros e ofensivos que, por si só, denuncia o caráter do ataque dos ruralistas e latifundiários do Para (leia a íntegra da nota ao final). Toda ela é “costurada” numa linguagem que evoca a Guerra Fria dos anos 1960/80. Padre Amaro é qualificado de “subversivo que se traveste de religioso”; a CNBB, o “Sindicato dos Bispos”, dominada por uma “ala esquerdista”, pretenderia “implantar no solo cristão deste país os espúrios credos marxistas”.

O assassinato de Dorothy Stang com seis tiros em 2005, na mesma Anapu onde foi preso padre Amaro, teve intensa repercussão mundial e ela  hoje é considerada uma das muitas mulheres santas mártires no seguimento de Jesus, ainda que não tenha sido por enquanto beatificada pela Igreja Católica. Mas ela já integra o calendário de santos e santas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil como “Mártir da Caridade na Amazônia”.  Para os latifundiários do Pará em sua nota, entretanto, a freira assassinada era “persona non grata em Anapu”, “incitava a violência”, ao lado de dom Erwin, e ambos seriam suspeitos de “tráfico de armas”.

O alvo maior dos ataques é o padre Amaro, preso na última terça (27), alvo de um amontoado de acusações, reunidas com o objetivo de “engrossar” o processo: “associação criminosa, com o fim de cometer diversos crimes, tais como, ameaça à pessoa, esbulho possessório, extorsão, assédio sexual, importuna ofensa ao pudor, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro”. A nota dos latifundiários do Pará, entretanto, acaba por explicitar a razão do ódio e perseguição ao religioso: desde 2015, a Faepa buscava a prisão do padre Amaro por ser ele “o maior incentivador dos conflitos fundiários existentes”.

Conforme denunciou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em nota divulgada no dia seguinte à prisão, trata-se de “é uma medida que vem satisfazer a sanha dos latifundiários da região que pretendem de toda forma destruir o trabalho realizado pela CPT, e desmoralizar os que lutam ao lado dos pequenos para ver garantidos os seus direitos. E se enquadra no contexto do cenário nacional em que os ruralistas ditam os rumos da política brasileira.”

Há uma razão oculta sob o volume da campanha de ódio dos latifundiários paraenses, que esteve na origem do assassinato de Dorothy Stang e agora da prisão de padre Amaro: um bilionário esquema fraudulento de que privatizou e devastou extensas áreas da Amazônia. O ódio devotado a irmão Dorothy e agora a padre Amaro deve-se à ação de ambos para exigir do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a retomada das terras públicas roubadas pelos latifundiários, com “a criação de assentamentos coletivos, com grandes áreas de florestas nativas, capaz de sustentar o manejo florestal comunitário e a produção agrícola de forma sustentável” -leia logo abaixo um esclarecedor artigo de Tarcísio Feitosa da Silva, da CPT, que desnuda toda a trama dos ruralistas.

Em meio à onda fascista que buscou amedrontar o país nos últimos 15 dias, os ruralistas, que estiveram à frente de várias agressões à caravana de Lula no sul do Brasil, atacaram agora no norte, de maneira brutal, a Igreja Católica e os que lutam contra o latifúndio no Pará.

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Leia a seguir o artigo de  Tarcísio Feitosa da Silva

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Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema

Cruz (detalhe), Arcabas (Jean-Marie Pirot), Igreja do Espírito Santo e de S. Alessandro Mártir, Arquidiocese de Portoviejo, Equador

Nesta Sexta-Feira da Paixão, Caminho Pra Casa publica artigo exclusivo de um dos maiores biblistas vivos, o frade italiano Alberto Maggi. A tradução é do biblista brasileiro padre Francisco Cornélio. No texto, Maggi demole duas ideias que estão na base do cristianismo falsificado que os integristas sustentam há séculos:  1) Jesus teria sido morto “pelos nossos pecados”;  2) essa seria “a  vontade de Deus”. A versão é insustentável com um exame realista e honesto dos textos bíblicos.  Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres de Israel. Jesus não inaugurou o tempo da culpa, mas o da misericórdia e o da vida plena para os pobres. A íntegra do artigo a seguir.

Por Alberto Maggi   | Tradução: Francisco Cornélio

Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios. Continue lendo “Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema”

Uma marcha com Júlio Lancellotti e os moradores de rua

Em apoio ao padre Júlio Lancellotti, ameaçado de morte, e aos moradores de rua, que vivem sob terror permanente em São Paulo, centenas saíram às ruas numa passeata-procissão

Por Thiago Fuschini

Cerca de duzentas pessoas marcharam no último domingo (25) em São Paulo em repúdio às ameaças à vida do padre Julio Lancellotti, vigário episcopal do Povo de Rua de SP, e contra a crescente violência contra os moradores de rua. A marcha (uma passeata-procissão) aconteceu na Mooca, Zona Leste de SP, Capital, e foi convocada pela comunidade de fiéis da Paróquia São Miguel Arcanjo, também na Mooca, onde Lancellotti serve como pároco e por ativistas de Direitos Humanos.

Realizada em conjunto com a Procissão de Ramos, a manifestação ocorreu em resposta à uma série de ameaças postadas na rede social Facebook à vida de Lancellotti, que há mais de 30 anos atua na defesa dos direitos e da dignidade dos moradores de rua, os mais pobres entre os pobres, e em um contexto do aumento da violência e de ações higienistas contra as pessoas que vivem nas e das ruas de SP, com remoções forçadas, confisco de roupas, alimentos, documentos e instrumentos de trabalho, além do uso de jatos d’água para remover estas pessoas. Todas estas ações vêm sendo denunciadas pela Pastoral do Povo de Rua de SP e também pela imprensa.

“As pessoas estão mostrando seu compromisso de posicionar-se contra a violência contra os irmãos de rua”, disse Lancellotti que, um pouco mais tarde, em sua homilia na missa na Capela da Universidade São Judas Tadeu, onde foi encerrada a marcha, exortou os fiéis a se aproximarem dos moradores de rua e a conhecê-los. “Abraçar o pobre e chamá-lo pelo nome é um ato revolucionário”, concluiu.

O vereador Eduardo Suplicy (PT), que deixará o cargo para concorrer a uma vaga no Senado, afirmou que “não queremos que o padre Julio seja um mártir. Queremos ele vivo, atuando na defesa das pessoas em situação de rua”, ao mesmo tempo em que defendeu que a Prefeitura e o governo estadual tomem medidas efetivas para investigar as ameaças e proteger a integridade física do sacerdote e de pessoas que trabalhem com ele.

“O objetivo deste ato é chamar a atenção da Cidade para a questão dos moradores de rua e, ao mesmo tempo, motivar as pessoas a mudarem seu pensamento sobre eles, de maneira que possamos criar estratégias mais acolhedoras e não de descriminação sistemática, como é o que vemos quase sempre”, analisou uma das organizadoras do evento, a educadora Maria Lucia Taiar Santos, que frequenta a paróquia São Miguel Arcanjo há mais três décadas.

Para Luiz Carlos Antunes, ativista do Tulipa Negra Direitos Humanos, ações como a ocorrida no domingo passado são importantes “para mostrar para a Mooca – e para a cidade de SP – que existem pessoas comprometidas com os moradores de rua, e que ameaças e violência serão sempre denunciadas”.

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Thiago Fuschini é jornalista e voluntário na Pastoral do Povo de Rua de SP

A cadela no cio do fascismo agora pariu: tempo de terror

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores da história e que combateu valentemente o nazismo dizia que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, pronta a dar filhotes. Pois ela acaba de parir no Brasil. Estamos presenciando uma escalada fascista sem precedentes na história. Os números, parciais, não revelam toda a dimensão da violência que se abate sobre o país, especialmente sobre os mais pobres. Em 15 dias, de 12 a 27 de março, foram pelo menos 25 ações de extrema violência com apoio a elas dos líderes políticos de direita: 26 execuções, várias detenções e prisões, dezenas de ataques, espancamentos e agressões com feridos sem conta, ameaças de morte e ações brutais das polícias. Três padres foram alvo da escalada: um ameaçado de morte, um preso e um espancado. A violência é protagonizada por milícias de adeptos de Bolsonaro, policiais e forças paramilitares. 

Toda a escalada tem a cobertura, apoio ativo ou silente dos poderes de Estado e das mídias. O presidente golpista saiu a público para defender outro golpe, o de 1964, que sufocou as liberdades, prendeu e torturou milhares de pessoas e assassinou quase 500. Geraldo Alckmin e João Doria justificaram e apoiaram os atentados contra a caravana de Lula no sul do país, um dos principais alvos dos fascistas. O que estamos assistindo nos últimos 15 dias lembra a violência que se abateu sobre vários países da América Central nos anos de 1980. Leia a seguir a lista parcial da escalada fascista. 

Por Mauro Lopes 

12 de março

1. Assassinado com quatro tiros Paulo Sérgio Almeida Nascimento, de 47 anos, foi morto com quatro tiros. Um dos diretores da Associação dos Caboclos, indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) que desde 2017 lutava em Barcarena (PA) contra o desastre ambiental causado pela  empresa norueguesa Hydro. Seguidamente ameaçado de morte, teve pedidos de proteção negado pelo governo de Simão Jatene (PSDB).

2. Cinco indígenas Guarani foram presos  ao regressar de uma incursão numa ilha formada pelo lago da Hidrelétrica de Itaipu, onde haviam ido cortar taquara, ou seja, o “bambu nativo”, para a confecção de artesanatos e construção de moradias. A ação ocorreu sobre um patrimônio privado, já que a área visitada pelos Guarani pertence oficialmente à Itaipu Binacional, mas foi retomada pela comunidade Guarani em janeiro de 2017, depois de 35 anos de expulsão. Na região de usina existiam ao menos 32 aldeias que desapareceram entre 1940 e 1982, período entre a criação do Parque Nacional do Iguaçu e o alagamento para formação do lago de Itaipu. Pelo menos nove dessas aldeias foram alagadas.

Ameaças ao padre Júlio Lancellotti

3. O Padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, divulgou pela primeira vez que vinha recebendo seguidas ameaças de morte pelas redes sociais. No dia 19, várias entidades exigiram providências do Ministério Público, mas nenhum responsável  pelas ameaças foi preso.

14 de março

4. A PM e a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo agrediram brutalmente professoras, servidoras e servidores públicos que protestavam na Câmara de Vereadores contra projeto de lei de reforma da previdência municipal, apresentado pelo governo Doria. O projeto visava congelar salários e aumenta a contribuição previdenciária de 11% para 19%. Depois de greve e intensa mobilização de milhares de servidoras e servidores, o projeto foi derrotado, em 27 de março.

Os tiros que mataram Marielle

5. A vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram executados no Rio de Janeiro, num crime que causou indignação mundial grandes manifestações de  protesto em todo o país. Apesar de todos os indícios apontarem para as milícias que, compostas por policiais e ex-policiais, controlam várias regiões do Rio, as investigação não havia resultado em nada.

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