O Papa contra o império

O Papa Francisco em Ciudad Juarez, na fronteira com os EUA; abençoando as cruzes que simbolizam os milhares de mexicanos e mexicanas mortos na travessia.

A viagem de Francisco ao México encerrada em 17 de fevereiro é um marco em seu papado.

Foi a visita com maior carga afetiva-emocional e aquela na qual ele mais explicitou, com palavras e gestos, o desejo de retorno da Igreja à originalidade dos primeiros tempos -uma Igreja pobre com os pobres.

O ato final da visita talvez não tenha sido compreendido em sua verdadeira dimensão: o Papa escolheu  Ciudad Juarez, na fronteira entre o México e o Império e, num gesto profético de denúncia e desafio, abençoou as cruzes que simbolizam os milhares de mexicanos e mexicanas mortos durante o que parecia ser uma travessia para uma vida melhor.

O Papa, como o Cordeiro do livro do Apocalipse, o último da Bíblia, confronta-se com a Babilônia, a Roma dos tempos que escorrem. Não é à toa que fez, no México, a mais dura condenação aos ricos em seu tempo como Papa, ao dizer que eles prestarão contas sobre as fortunas construídas sobre o sangue e o suor e as lágrimas das pessoas; e, no avião de volta ao Vaticano, deixou claro que, para ele, Donald Trump não pode ser qualificado de cristão, por ser alguém que só tem projetos para construir muros a separar (como o muro entre os EUA e o México en Ciudad Juarez), muros de concreto e de ódio.

[Mauro Lopes]

No México, um discurso duro à hierarquia católica

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O Papa no México: qual Igreja?

O discurso do Papa para os bispos mexicanos neste sábado foi surpreendente -mas Francisco não se cansa de surpreender. A chave de leitura para compreender o que ele disse ao episcopado mexicano é  o seu duríssimo discurso à Cúria romana no fim de dezembro de 2014 quando denunciou as 15 doenças curiais (mexericos, carreirismo, oportunismo, acúmulo de riquezas, indiferença em relação às pessoas, perda do “primeiro amor” pelo seguimento do Cristo, Alzheimer espiritual e outras). Se quiser lembrar ou conhecer um discurso histórico e inédito de um Papa à burocracia vaticana, clique no link clicando aqui.

Um leitura combinada das duas manifestações do Papa indica claramente seu antagonismo com a hierarquia da Igreja, a partir da cúria romana, insurgiu-se contra o espírito do Vaticano II desde o primeiro momento, ainda nos anos 60. Tal espirito foi contido por Paulo VI -João Paulo I acompanhava o passo de João XXIII e Paulo VI mas sua morte 33 dias depois de sua eleição, em agosto de 1978 interrompeu o caminho do espírito conciliar.

O conservadorismo prevalecente na cúpula da Igreja no Vaticano e, de uma maneira geral, ao redor do planeta, com exceções que confirmam a regra (como a Alemanha e, agora, a Espanha) não foi obra do acaso ou apenas do “espírito da época”.  Durante mais de 30 anos, as nomeações de bispos e cardeais obedeceram a três lógicas: 1) rigorismo (seguimento às regras e normas e não ao espírito do Evangelho); 2) conservadorismo político e social (afastamento dos pobres); e 3) visão institucional da Igreja (olhar para dentro e submissão à burocracia eclesial). A atual cúpula da Igreja é obra de construção metódica e obstinada, feita por corações e mentes alinhados com uma visão particular do cristianismo.

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O Papa e o Patriarca: esperança acesa

Francisco e Kirill assinam a declaração histórica. À direita, Raúl Castro, o comunista presidente de Cuba, anfitrião, a abençoar o momento.

Escrevi uma breve meditação à “queima roupa”, logo depois de divulgada a declaração conjunta entre o Papa Francisco e o Patriarca Russo em, no começo da noite de 12 de fevereiro de 2016. Outras Palavras publicou-o. Se quiser, veja clicando aqui ou leia abaixo.

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O documento assinado pelo Papa e o Patriarca russo supera qualquer expectativa. Difícil avaliar sua dimensão assim numa primeira leitura, mas vale destacar (leia a íntegra ao final):
1. Uma visão sobre Cuba que é absolutamente profética. Francisco e Kiril colocam a pequena ilha como um farol para o mundo: “O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo” e dosacontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes.”
2. O reconhecimento aberto do passado de separação numa linguagem que foge ao “não dizer” diplomático e fala ao coração com um sincero desejo de reunião -depois deste encontro, com suas identidades respeitadas, católicos e ortodoxos andarão lado a lado, sem desejos mal escondidos de supremacia de um sobre o outro.
3. A carta mexe com o cenário político mundial. Além da centralidade de Cuba, há um convite claro a um protagonismo da Rússia no cenário do Oriente Médio.
4. Os dois credenciam-se como líderes de um momento global de aproximação multirreligiosa muito além das fronteiras do cristianismo.
5. Uma clara opção conjunta pelos pobres e pelo caráter primordial do tema dos refugiados: “O nosso olhar volta-se para as pessoas que se encontram em situações de grande dificuldade, em condições de extrema necessidade e pobreza, enquanto crescem as riquezas materiais da humanidade. Não podemos ficar indiferentes à sorte de milhões de migrantes e refugiados que batem à porta dos países ricos. O consumo desenfreado, como se vê em alguns países mais desenvolvidos, está gradualmente esgotando os recursos do nosso planeta. A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu.”
Fantástico!
A nota dissonante do texto fica por conta de uma visão conservadora e desumana do sentido da família -mas este parece ser o tema crucial à frente para ambas as igrejas.

[Mauro Lopes]

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A turma, os sinais e o foco de Jesus

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Neste domingo (7 de fevereiro de 2016), cristãos católicos celebram o 5º domingo do Tempo Comum, o último antes do Tempo da Quaresma, 40 dias de caminhada até a Páscoa. A cena do Evangelho de Lucas proclamado nas missas acontece à beira do lago de Genesaré, na Galileia. Uma multidão acorre para ouvir Jesus. Quando acaba de falar, ao notar que Pedro e seus sócios pescadores não haviam conseguido um peixe sequer na noite de trabalho, manda-os voltar às águas profundas do lago e lançar as redes novamente; eles voltam com os dois pequenos barcos abarrotados. Pedro, profundamente abalado, reconhece em Jesus o Kyrios (o Senhor) e, envergonhado, de joelhos, confessa-se um pecador. Jesus manda ele se levantar e o convoca a segui-lo, pois ele e seus amigos, que se tornariam discípulos, seriam a partir de então “pescadores de homens”. (Lc 5,1-11)

Três notas breves sobre o Evangelho que contemplamos neste dia:

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Uma pergunta irrespondível e um caminho

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Cristãos católicos celebram em todo o mundo neste 31 de janeiro o 4º domingo do Tempo Comum, no qual contemplamos a missão de Jesus. Começamos a meditar a cena, tomada pela Igreja do Evangelho de Lucas, no domingo passado: Jesus, que havia começado sua missão na Galileia, foi rezar num sábado na sinagoga da aldeia onde fora criado, Nazaré. Entrou e escolheu um trecho do rolo do profeta Isaías, onde leu que havia sido enviado pelo Espírito do Pai para evangelizar os pobres, libertar os cativos e oprimidos, abrir os olhos dos cegos e proclamar a bondade de Deus sobre a terra.

Na Liturgia da Palavra nas missas de hoje, rezamos a continuidade dessa história: Jesus fechou o rolo do profeta, entregou-o ao ministro da sinagoga, sentou-se e anunciou que aquela profecia de Isaías referia-se a ele, afirmando que o Pai o enviara para estar com os pobres e não com seu grupinho social de origem.

No contexto judaico, as palavras de Jesus soaram muito agressivas, pois ele afrontou os presentes ao dizer que seu envio era para favorecer os não judeus, uma blasfêmia terrível –algo como dizer na sociedade capitalista de agora que ele veio para cuidar dos pobres, que eles são os mais importantes para Deus, e não para favorecer os que têm dinheiro ou prestígio ou influência.

Os que estavam na sinagoga foram tomados de fúria –algo como a direita no Brasil em relação aos poucos benefícios sociais que favoreceram os pobres nos últimos anos, algo como a repulsa das pessoas “de bem” diante de moradores de rua- e expulsaram-no da sinagoga e da cidade, levando-o até o alto do pequeno morro onde Nazaré está construída para precipitá-lo morro abaixo, matando-o. A cena, carregada de tensão, termina de maneira surpreendente: “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.” (v. 30)

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Dos 10 mais ricos do mundo, 9 atentam gravemente contra a dignidade das pessoas

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Teve grande repercussão o estudo divulgado pela OXFAM segundo o qual 1% das pessoas mais ricas do mundo detêm mais riqueza que as demais 99%. No mesmo estudo, indicou-se que apenas 62 multimilionários têm riqueza equivalente à da metade da população do planeta. Veja aqui a íntegra do estudo em português.  Agora, um conselheiro da entidade, que reúne 17 organizações não-governamentais, o russo Mikhail Maslennikov demonstrou como essa concentração é fruto de ação meticulosa das elites globais – veja a entrevista em português, veiculada pelo Outras Palavras clicando aqui.

A BBC Brasil apresentou em reportagem quem são os 62 multimilionários que controlam metade da riqueza mundial – leia aqui se quiser. Na reportagem da BBC há algo que é uma febre nas redes: listas. Apresentou na reportagem os “Top Ten”, os 10 mais ricos. É uma lista reveladora do caráter do capitalismo. Dos 10 listados, 9 são conhecidos por práticas que vão do uso de mão de obra escrava a abusos na relação com trabalhadores de suas empresa, submetidos a regimes de superexploração e espionagem a serviço da agência americana de segurança (NSA).

O sistema ideológico do capitalismo enfia na cabeça e coração das pessoas histórias de “heróis” que fizeram fortuna com base em sua criatividade, genialidade, perseverança, intuição… É o que nos é vendido na mídia tradicional, pelo sistema escolar e acadêmico dominante, consultorias, publicidade… Mas os pés de barro desses “gigantes” ficam ocultos.

Vejamos a lista dos “10 mais”:

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Um manifesto urgente

Missa celebrada na Praça da Sé, em São Paulo, pela Pastoral do Povo da Rua (24.01.2016)

Cristãos católicos ao redor do planeta celebram hoje o 3º domingo do Tempo Comum – período que em meditamos sobre a missão de Jesus. No primeiro, o tema foi seu batizado; no segundo, o início de sua missão com um milagre em tudo “profano”, transformando água em vinho numa festa de casamento. Hoje, Jesus apresenta o programa de sua missão (a passagem está no Evangelho de Lucas –toda a leitura do dia é Lc 1,1-4; 4,14-21).

A cena acontece em numa sinagoga em Nazaré, cidade onde ele passou a infância. Num sábado, ele foi à sinagoga e, no momento culminante do culto, a leitura das Escrituras, levantou-se, recebeu o rolo do profeta Isaías e escolheu o seguinte trecho que proclamou:

 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”

A seguir, ele sentou-se e disse: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura”.

A partir deste episódio, no Evangelho de Lucas, Jesus lançou-se à sua missão.

Na leitura da sinagoga, Jesus apresentou seu programa. “Na intenção de Lucas, este episódio é verdadeiramente o ‘manifesto’ de Jesus”. [1]

E do que trata este manifesto, tomado emprestado por Jesus do profeta Isaías, tão central no cristianismo que alguns chamam seu livro como o 5º Evangelho”?

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Um casamento na roça

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Cristãos católicos de todo o mundo celebram hoje o segundo domingo do Tempo Comum, período litúrgico fronteiriço de um lado com o Natal e de outro com a Quaresma. É o tempo por excelência de contemplação da missão de Jesus. Este segundo domingo segue-se ao domingo do batismo de Jesus, no qual ele lança-se à sua caminhada. Hoje, portanto, o que rezaremos nas missas e meditaremos, é aquele evento que a Igreja escolheu no período dominical para marcar o primeiro ato concreto de Jesus na missão (nas missas  dos dias da semana rezamos passagens tiradas do evangelho de Marcos).

É um domingo paradoxal. O primeiro evento da missão de Jesus no Evangelho de João, selecionado para hoje, não é um grande milagre, não é um ato estrondoso. Jesus não cura nenhum cego, não interrompe uma tempestade, não se apresenta transfigurado ou radiante. Nada disso. É um evento discreto, silencioso: “um conto ingênuo a respeito de um prodígio feito num casamento na roça”.[1] Está no Evangelho de João, no capítulo 2, 1-11 (se quiser, leia no final).

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O batismo de Jesus e o caráter do cristianismo

O batismo de Jesus – Cláudio Pastro

Cristãos e cristãs católicos de todo o mundo celebram hoje o domingo do Batismo do Senhor. É um dos momentos culminantes na vida dos católicos. Neste domingo encerra-se o Tempo do Natal –começa a ficar para trás a contemplação da espera/nascimento de Jesus e da sua vinda no fim dos tempos. Começa o Tempo Comum, onde contemplaremos a missão de Jesus.  Faremos isso por cinco semanas, até o início da Quaresma, sempre na dinâmica do tempo litúrgico, da vida litúrgica que encharca (ou deveria encharcar) o cotidiano dos membros da Igreja –milhões e milhões de pessoas mundo adentro. Segundo afirmou o Papa Francisco na manhã deste domingo àqueles que são batizados, como Cristo o foi têm “a responsabilidade de seguir Jesus” –se quiser, leia aqui reportagem sobre o discurso do papa.

A Liturgia da Palavra proclamada nas missas de hoje indica exatamente o caráter da missão de Jesus. Portanto, os cristãos –e, creio, as pessoas de bem em geral- precisam (precisamos) conhecer e apreender qual é o caráter, o conteúdo, a centralidade desta missão. São três as leituras das missas de hoje. A cena do batismo de Jesus, tirada do Evangelho de Lucas, um dos cantos do Servo Sofredor, do livro do profeta Isaías, e um trecho crucial dos Atos dos Apóstolos (ao final, reproduzo as três leituras). Concentro-me nos três pontos que são cruciais para entender a missão de Jesus:

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O capitalismo, sistema de morte (2) – a indústria da moda

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Trabalho escravo na cadeia da moda em pleno centro de São Paulo

Escrevo duas breves meditações sobre o capitalismo a partir do ensinamento da Igreja e do Papa Francisco, que no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015, qualificou o sistema de “ditadura sutil”. Para o Papa, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” Antes, em abril, um dos líderes da reforma da Igreja , o cardeal de Tegucigalpa, Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga, ex-presidente da Cáritas mundial e coordenador do grupo encarregado da reforma da Cúria romana havia afirmado que o capitalismo é “um sistema econômico que mata”. Não são ensaios nem artigos, apenas breves meditações que buscam colocar-se a serviço da Igreja, que busca retomar o caminho original dos ensinamentos de Jesus -a anterior foi sobre os bancos.

Este artigo foi republicado  no site de comunicação independente Outras Palavras em 11.01.2016 -se quiser, leia aqui; e na agência de notícias do Instituto Humanitas Unisinos em 12.01.2016 – está aqui.

2. A indústria da moda

Tempos atrás, quando o dólar ainda estava ao preço “me engana que eu gosto” e a classe média se esbaldava na Flórida e pelo mundo afora, minha mulher e eu fomos a NY. Conhecemos algo novo. Roupa a preço de banana. Numa tal Forever 21 compramos um vestido a US$ 7 dólares (R$ algo como $ 15 à época); numa outra H&M, preços inacreditáveis também. Numa japonesa, Uniqlo, igual. Ressoava em nossos ouvidos a cantilena da direita: é mais barato porque o mercado é imenso e porque eles não têm a quantidade de impostos daqui do Brasil! Mas eis que a Forever 21 abriu quase 30 lojas no Brasil e… praticam os mesmos preços!

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