Deus, amor e pecado -é tudo diferente do que dizem os conservadores

cunha-rezando
Eduardo Cunha, quando ainda era parlamentar e presidente da Câmara, rezando com outros deputados.

Neste 30º domingo do Tempo Comum (23), cristãos católicos escutam nas missas ou rezam na Liturgia da Palavra do dia mais um trecho do evangelho de Lucas. É um texto conhecido, a parábola do fariseu e do publicano rezando no templo de Jerusalém, contada por Jesus. É bem curta, vale a pena reproduzi-la para ajudar na meditação a seguir. Trata-se de Lucas 18,9-14:

Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: `Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.”

Nesta brevíssima parábola estão apresentados alguns dos temas cruciais do cristianismo e das relações humanas. Começo pelo que me parece o mais central.

O amor. O centro perdido e encontrado do cristianismo.

O que está mais próximo do que poderíamos chamar de uma definição de Deus em todas as Escrituras aparece duas vezes na primeira carta de João: “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16). Nada mais. Tudo está aí.

Deus é amor.

O quanto esta ideia, este conceito, este norte esteve perdido –e ainda hoje aparece apenas às margens, no “escondimento”, apesar dos esforços atuais do Papa e de alguns outros líderes religiosos do tempo presente de recolocá-lo sob a luz.

Continue lendo “Deus, amor e pecado -é tudo diferente do que dizem os conservadores”

A oração do pobre é sempre um clamor por justiça

Coretta King no dia do enterro do marido, Martin Luther King, em 9 de abril de 1968. Ao seu lado, a mãe e a irmão do pastor assassinado. A oração da viúva: “Justiça!”.

Neste domingo (16 de outubro), cristãos católicos celebram o 29º Domingo do Tempo Comum. Escutam, nas missas ou na leitura orante da Liturgia da Palavra, mais um trecho do evangelho de Lucas -tirado do capítulo 18, dos versículos 1 a 8 – se quiser, leia ao final.

É trecho breve. Nele, Jesus apresentou aos discípulos e discípulas a necessidade de “orar sempre, sem jamais esmorecer” (v.1). Essa ideia de rezar persistentemente não foi criação de Jesus, aparece já no primeiro dos salmos da Bíblia, reunidos num livro cerca de 400 anos antes de Cristo. O autor indicava que está no caminho do Senhor aquele que “murmura sua Lei (Torá)  dia e noite”. São Paulo, logo em sua primeira carta, escrita no ano 51 aos tessalonicenses, apresentou esta prescrição de maneira direta: “orai sem cessar” (1Ts 5,17).

O tema da oração é, de fato, central para os cristãos e para os crentes de todas as vertentes, pois a oração “constitui o núcleo mais profundo e íntimo da experiência religiosa, a ponto de se poder afirmar, com toda razão, que não há religião sem oração”[1].

Para explicitar o assunto aos seus amigos e amigas, Jesus contou-lhes então uma brevíssima parábola, sobre uma viúva que apresentava insistentemente seu pleito a um juiz insensível. A viúva, assim como o órfão e o estrangeiro eram enxergados como os grandes frágeis no Antigo Israel e, por isso, gozavam de proteção especial segundo a Torá, especialmente nos livros do Êxodo e Deuteronômio.

A viúva, personificação do pobre na história de Jesus, apresenta todo o tempo seu pleito: “faze-me justiça contra meu adversário! ” (v. 3). Ela age da maneira como resta aos pobres agirem: “A mulher não pode fazer outra coisa senão pressionar, mover-se continuamente para reivindicar seus direitos, sem resignar-se aos abusos de seu ‘adversário’. Toda sua vida transforma-se num grito: ‘Faze-me justiça’”.[2]

Continue lendo “A oração do pobre é sempre um clamor por justiça”

Quando cardeais prestam vassalagem aos poderosos e ricos e traem os pobres

Dom Odilo Pedro atrás de Temer no Alvorada. Foto: Beto Barata/PR
Dom Orani ao lado de Temer no Palácio da Alvorada. Foto: Beto Barata/PR
Bispos e cardeais em conversa animada com o presidente do golpe de Estado. Foto: Beto Barata/PR

O cardeal dom Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, e o cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, acompanhados de mais uma dúzia de integrantes da cúpula da Igreja no Brasil viajaram a Brasília na manhã desta segunda (10) para prestar vassalagem a Temer, aos golpistas e aos ricos do país.

Foram ao Palácio da Alvorada sob o pretexto de uma agenda sobre a Rede Vida, emissora de TV católica. Mas o que se viu foi uma cena que envergonha a Igreja de Francisco, a Igreja do Manso e Humilde.

Mas não há desculpa que dê jeito. As fotos são esclarecedoras. Dom Odilo andando atrás de Temer, dom Orani ao lado de Temer, os bispos e cardeais sentados confraternizando com o líder do golpe de Estado contra os pobres do país.

E ainda por cima no dia da votação da PEC 241, que congelou por 20 anos todos os gastos públicos, especialmente os da saúde e educação -o único gasto não congelado foi o pagamento dos juros aos ricos.

A declaração de dom Orani a O Globo é um acinte aos cristãos católicos da Igreja pobre com os pobres: “Ele (Michel Temer) expôs que está preocupado com o dia de hoje, com a votação de hoje. Ele tem necessidade de colocar o Brasil nos trilhos”. Se quiser, leia aqui a reportagem.

Que trilhos? Do que fala o cardeal? Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo de Campos e referencial nacional dos católicos para a Pastoral da Saúde escreveu um artigo sobre a PEC 241 sob o título “Uma PEC devastadora e brutal, a 241” (leia aqui). Mais uma vez: o que a PEC 241 tem a ver com “colocar o país nos trilhos”? São os trilhos dos que esmagam os pobres com sua locomotiva.

Um dia triste para os católicos.

Continue lendo “Quando cardeais prestam vassalagem aos poderosos e ricos e traem os pobres”

Bela, recatada e do lar: um projeto

Marcela Temer no lançamento do “Criança Feliz”. Foto Lula Marques

O episódio do discurso de Marcela Temer no lançamento de um programa denominado “Criança Feliz, num eco evidente do “McLanche Feliz”, em 5 de outubro, ainda merece atenção. Porque evoca o desenho de país que os golpistas pretendem. É mais que tomar o pré-sal e deixar o Estado a serviço dos rentistas.

Há, para além da esfera econômica, uma construção cultural-ideológica que pretende assegurar a dominação.

Assim, eles vão “organizando” o lugar de cada um na sociedade. Para as elites, é essencial enfiar as mulheres numa caixinha que arrebente seu protagonismo, um dos principais vetores da renovação do país. O desejo da direita é relegá-la a papéis subalternos num arranjo que sequer existe mais no século 21 (bela, recatada e do lar). O primeiro-damismo cheira a mofo, mas eles pretendem soprar a poeira e passar um lustrinho.

Continue lendo “Bela, recatada e do lar: um projeto”

Eleições: a vitória dos ricos

Pierre-Auguste Renoir, O baile no moulin de la galette, 1876 (detalhe)

O resultado das eleições municipais de 02 de outubro é desastroso para os pobres. A vitória de João Doria no principal centro do país é o símbolo do que aconteceu neste domingo.

Os ricos venceram e não apenas pelo conteúdo dos projetos, mas venceram sendo eleitos eles próprios em grandes, médias e pequenas cidades.

O projeto das elites, urdido desde sempre, mas a partir de 2013 como um processo articulado de tomada de poder, está vitorioso: arrasou-se com o PT, prevaleceu o discurso do ódio, disseminou-se entre as classes médias e os pobres o “crack” do sonho de riqueza individual, tão ilusório quanto as viagens da pedra viciante.

Continue lendo “Eleições: a vitória dos ricos”

Habacuc e o voto dos cristãos e cristãs nesta eleição

mtst-manifestacao-repressao
Repressão a manifestação por moradia em São Paulo (2016). Foto MTST

Cristãos católicos vão às missas neste domingo (2 de outubro), 27º do Tempo Comum –período que antecede do Tempo do Advento e depois o Natal. Continuamos a rezar o Evangelho de Lucas. Na Primeira Leitura, é dia de escutar, ler e mastigar um profeta do povo, Habacuc (Hab 1,2-3.2,2-4).

Ele viveu cerca de 600 anos antes de Cristo, período de intensa exploração do povo pela potência estrangeira, a Assíria, e pelas classes dominantes da sociedade judaica. Um dos grandes teólogos contemporâneos no Brasil, o luterano Milton Schwantes, morto há quatro anos, escreveu que o centro da atividade profética de Habacuc foi exatamente “sua crítica social aos espoliadores internos e internacionais” (em “Sofrimento e esperança no exílio”, Paulinas).

De Habacuc ecoa o grito desesperado dos oprimidos de todos os séculos, dos pobres explorados e espezinhados que escutamos hoje: “Até quando, Senhor, pedirei socorro e não ouvirás, e gritarei a ti: ‘Violência!’ e não me salvarás?” (1,2).

Quantas vezes gritos como esses foram ouvidos em Israel e ao redor do planeta? Quantas vezes esta clamor urgente não subiu aos céus dos porões dos navios negreiros, das senzalas, das favelas, das trincheiras das guerras, das cadeias?

Continue lendo “Habacuc e o voto dos cristãos e cristãs nesta eleição”

A fé – caminho na incerteza

maua-jan-2008-140Cristãos católicos que vão às missas em todo mundo nesta quarta (28 de setembro) ou aqueles que rezam a liturgia do dia em suas casas, escolas, a caminho do trabalho deparam-se com o livro de Jó (temos lido o livro de Jó desde a segunda-feira e seguiremos com ele até a missa do sábado).

A história de Jó é a da jornada da fé em meio à vida, que para a quase totalidade da humanidade está longe de ser um conto de fadas. No início do livro somos apresentados a um homem rico, próspero, que terá sua fé testada depois de despojado de tudo -Jó.

A leitura de hoje é impactante. Pois é a apresentação da essência da fé.
Diz Jó no capítulo 9, num de seus discursos reflexivos sobre a relação com Deus em meio a enormes sofrimentos e desgraças:

“Passa perto de mim e não o vejo, vai embora e não o percebo” (v. 11) e, a seguir: “Se eu clamo e ele me responde, não creio que tenha escutado a minha voz” (v. 16).

Isso é a fé. Caminhar na escuridão. Como Deus me vê se eu nunca o vejo? Como saber se ele me escuta se ele é o grande silêncio? Como crer que ele de fato existe se estou cercado de aflições e dificuldades e sofrimentos e ele não se manifesta?

Continue lendo “A fé – caminho na incerteza”

MORTE E PURGATÓRIO – dá pra falar disso na pós-modernidade?

 

O rico e Lázaro, Leandro Bassano (1595)

Cristãos católicos reúnem-se em missas ao redor do mundo neste domingo (25 de setembro, o 26º do Tempo Comum)  para escutar-rezar mais um trecho do capítulo 16 do Evangelho de Lucas, os versículos 19 a 31. No domingo passado, lemos-rezamos a primeira parte deste capítulo, quando Jesus apresenta a escolha entre Deus (o outro) e o Dinheiro (o ensimesmamento).

Resumo do trecho: um homem rico, apresentado sem nome, vivia de maneira nababesca entre banquetes e festas, enquanto do lado de fora de sua casa estava Lázaro (o nome significa “Deus ajuda”), miserável, a quem restava uma ou outra sobra do banquete e a companhia dos cachorros. Os dois morrem e, enquanto Lázaro é levado para junto de Abraão (o paraíso judaico), o rico fica aprisionado no Xeol (algo próximo do inferno), em meio a tormentos. O rico “negocia” com Abraão, tenta fazer com que ele mande Lázaro ao Xeol levar água e aliviar seus sofrimentos; depois, diante do insucesso da primeira investida, pede que Abrão mande o pobre de volta para avisar seus irmãos do que os aguarda. Abrão repele o segundo pedido: “Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”.

Uma advertência: escrevo para aqueles que creem, mas igualmente para tantos amigos e amigas (talvez a maioria) que não acreditam em Deus, são ateus. Para eles, a morte é o ponto final definitivo. Não quero convencer ninguém de nada, apenas apresentar uma perspectiva particular, em diálogo e, de fato, sem qualquer comprovação científica ou prova de qualquer natureza.

Continue lendo “MORTE E PURGATÓRIO – dá pra falar disso na pós-modernidade?”

Uma escolha crucial

Poor People, Andre Collin, 1916

Cristãos católicos de todo o planeta rezam/escutam nas missas deste 18 de setembro, o 25º Domingo do Tempo Comum (uma contagem litúrgica da passagem do tempo) uma das afirmações mais peremptórias de Jesus em todos os Evangelhos: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16, 13b).

Todos os estudiosos que se dobraram sobre os Evangelhos concordam quanto à autenticidade desta sentença. Ela está presente em Lucas e Mateus (Mt 6,24). O dito de Jesus está em linha com o melhor da tradição profética de Israel –de Isaías e Jeremias a Amós e Miqueias, até o último deles, João, o Batista. Para os profetas, é crucial a escolha entre as riquezas, a exploração dos pobres e o ensimesmamento versus o caminho com Deus, de renúncia à acumulação e ao lado e com os pobres.

O profeta Amós é representativo dessa corrente, e é lido na Primeira Leitura na missa de hoje, numa dura passagem de condenação aos ricos:

Continue lendo “Uma escolha crucial”