Os conservadores perdem o chão: Müller apoia o Papa e condena os quatro cardeais

Cardeal Muller: divulgação da carta dos quatro cardeais foi um erro; não há o que corrigir no Papa; Francisco e Bento estão unidos

Em entrevista à TV italiana na noite deste domingo (8), o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé*, o cardeal alemão Gerhard Müller, que os conservadores aguardavam como um “trunfo final” contra o Papa, jogou uma pá de cal em suas pretensões. Apoiou Francisco e a Encíclica Amoris Laetitia sobre a família e enterrou a estratégia de contrapor o Papa ao emérito Bento XVI, reafirmando unidade entre eles e dizendo que a iniciativa opera “contra a fé católica”. [Se quiser, veja a íntegra da entrevista em italiano aqui]

Ele descartou por completo a ideia do cardeal americano Raymond Burke e seus três aliados (Walter Brandmüller, Carlo Caffarra e Joachim Meisner) de aplicar uma “correção formal” contra o Papa. “Não haverá nenhuma correção contra o Papa”, afirmou, completando: “Neste momento não é possível um correção ao Papa porque não há nenhum perigo para a fé” –veja aqui a escalada dos conservadores contra Francisco, agora fragilizada com a entrevista do cardeal alemão.

A entrevista foi concedida ao jornalista Fabio Ragona no programa Stanze Vaticane (Aposentos do Vaticano), do canal Tgcom24. O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fez um duro ataque à publicidade que os cardeais deram à sua carta ao Papa com as “dúbia”: “Qualquer um, sobretudo os cardeais da Igreja Romana, têm direito de escrever uma carta ao Papa. Mas, com efeito, me surpreendi porque ela se tornou pública, quase obrigando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não’. Isto não me agrada.”

O jornalista perguntou sobre a estratégia conservadora de opor Francisco e Bento e qual seria a razão da iniciativa persistente. Müller explicou que os dois “são pessoas diversas, com histórias muito diferentes, experiências distintas, pessoas de duas culturas diversas, a cultura latino-americana e a cultura europeia, mas eu penso que é contra a fé católica fazer este contraste entre o papa emérito e o papa atual”, pois ambos são igualmente “dons de Deus para a Igreja”.  ]

O cardeal encerrou a entrevista manifestando seu apoio à Amoris Laetitia: “O Papa pede um discernimento sobre a situação destas pessoas que vivem uma união não regular segundo a doutrina da Igreja sobre o matrimônio, o pede ajuda a estas pessoas para encontrarem um caminho para uma nova integração à Igreja segundo as condições dos sacramento, da mensagem cristã do matrimônio. Porém eu não vejo nenhuma contraposição: or um lado temos a doutrina clara sobre o matrimônio e de outro a obrigação da Igreja de se preocupar com estas pessoas em dificuldades”.

A reação da mídia conservadora ao redor do mundo, na manhã desta segunda, oscila entre o silêncio, ao contrário das fanfarras que estavam desfilando quase diariamente, reportagens discretas que tentam amenizar a contundência do golpe contra a ideia de uma rebelião até a exasperação aberta –um padre escreveu num site ultraconservador brasileiro que a entrevista de Müller é “ABSOLUTAMENTE INACREDITÁVEL!”.

[por Mauro Lopes]

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* A Congregação para a Doutrina da Fé é a sucessora da Santa Inquisição Romana e Universal, ou Santo Ofício, a mais antiga das congregações do Vaticano, instituída em 1542 pelo Papa Paulo II. Originalmente era exclusivamente um de Tribunal para causas de heresia e cisma e, nessa condição, conduziu a Inquisição. Mais adiante, passou a ser responsável pela elaboração do Index dos Livros Proibidos. Com o tempo, passo a ser a responsável pela difusão e defesa da fé católica. O papa emérito Bento XVI foi prefeito desta Congregação e, nessa condição, aplicou punições variadas a dezenas de teólogos que não comungassem da visão conservadora do catolicismo, entre eles Leonardo Boff,  Juan A. Estrada, José María Castillo, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Andrés Torres Queiruga, José Antonio Pagola, Ivone Gebara, Margaret Farley… Com Francisco, a congregação está deixando de ter caráter policialesco-persecutório, mesmo com um conservador como Müller na condição de prefeito.

 

Epifania: Jesus atemoriza os poderosos e desinstala os que se dispõem a ouvi-lo

Papa beija bebê em visita à favela Varginha no Complexo de Manguinhos, no Rio, em 2013. Como os magos, Francisco convoca para irmos ao Cristo onde ele está: na estrebaria, nas favelas, nos campos de refugiados, nas periferias.

No último domingo do Tempo do Natal celebra-se no Brasil e em outros países a solenidade da Epifania[1]. A data tradicional no ocidente acontece em 6 de janeiro; no Brasil, apesar do calendário oficial da Igreja, que a deslocou para o domingo, o povo ainda a mantém no dia original ou ao redor dele, conhecidos como Reisado, Folia de Reis ou Festa dos Santos Reis. No passado e ainda hoje em muitos países e comunidades dava-se o dá-se presentes de Natal em 6 de janeiro.

O Evangelho que é proclamado nas missas relata exatamente a viagem-visita dos Reis Magos (Mt 2,1-12). É sintomático que a descrição do encontro dos peregrinos com Jesus não tome mais que quatro versículos do texto; nos demais oito versículos (2/3) a cena é dominada pelo rei Herodes.

Os magos foram a Jerusalém, para visitar o “rei dos judeus recém-nascido” (v.2) do qual tinham recebido notícia. Foram recebidos por Herodes e sua corte: “Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém.” (v.3).

A expressão “toda a cidade de Jerusalém” referia-se aos judeus da elite que eram, como os ricos atualmente, considerados os únicos cidadãos de pleno direito e, portanto, “a cidade”. Vemos isso em centros urbanos governados por neoliberais como o prefeito João Doria, de São Paulo; quando eles falam da “cidade”, dirigem-se às pessoas que moram nos bolsões de riqueza protegidos da massa de pobres por seguranças privados e pela polícia do Estado. Para Doria e a elite brasileira, a oposição à “cidade” (as “pessoas de bem”, ricas) é o “lixo”, os moradores de rua e a população empobrecida.

Tal elite –Herodes e sua corte, na Israel do tempo de Jesus- é que ficou perturbada com a notícia de que um “rei” havia nascido na periferia (Belém) e não no centro rico; numa estrebaria e não no Hospital Albert Einstein, o mais elitista de São Paulo. O verbo usado por Mateus para explicitar a reação de Herodes foi ἐταράχθη (etarachthē), condição de alguém perturbado, alarmado ou atemorizado.

O medo de Herodes é o medo dos ricos diante da interpelação de Jesus. Em sua homilia na solenidade da Epifania, no Vaticano, na manhã do dia 6, o Papa Francisco foi assertivo:

“E ficou perturbado; teve medo. É aquela perturbação que leva a pessoa, à vista da novidade que revoluciona a história, a fechar-se em si mesma, nos seus resultados, nos seus conhecimentos, nos seus sucessos. A perturbação de quem repousa na sua riqueza, incapaz de ver mais além. É a perturbação que nasce no coração de quem quer controlar tudo e todos; uma perturbação própria de quem vive imerso na cultura que impõe vencer a todo o custo, na cultura onde só há espaço para os “vencedores” e a qualquer preço.

Uma perturbação que nasce do medo e do temor face àquilo que nos interpela, pondo em risco as nossas seguranças e verdades, o nosso modo de nos apegarmos ao mundo e à vida. E Herodes teve medo, e aquele medo levou-o a procurar segurança no crime: ‘Necas parvulos corpore, quia te necat timor in corde – matas o corpo das crianças, porque o temor te matou o coração’ (São Quodvultdeus, Sermo 2 de Symbolo: PL 40, 655).”

O medo de Herodes diante de um bebê que revolucionasse a ordem estabelecida foi a mola propulsora de seu ato seguinte, conforme Francisco: o massacre dos bebês de Belém (“matas o corpo das crianças”), do qual Jesus só escapou porque seu pai levou-o e à mãe ao exílio no Egito (Mt 2,13-18).

Escreveu o teólogo José Antonio Pagola sobre o medo-pânico do rei assentado no trono pela potência da época, Roma: “Herodes e a sua corte representam o mundo dos poderosos. Vale tudo, nesse mundo, desde que assegure o próprio poder; o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale, inclusive, a crueldade, o terror, o desprezo do ser humano e a destruição dos inocentes. Parece um mundo grande e poderoso, apresenta-se como defensor da ordem e da justiça, mas é débil e mesquinho, pois termina sempre procurando o menino ‘para matar’”.[2]

Por mais que se divirtam em festas faustosas, viagens “de sonho”, mansões, iates e banquetes, os ricos e poderosos nunca têm paz. Temem o Menino, temem a Menina, temem que os pobres descubram o Reino prometido por Jesus, um projeto de vida em plenitude já.

Há um paralelismo entre o episódio de Herodes e a morte de Jesus –e o momento que vivemos no Brasil e no mundo, hoje.

O rei, nomeado pelo império romano, e a elite da época apavoraram-se com a novidade do Bebê, libertador e massacraram os bebês de Belém; Jesus salvou-se indo para o exílio e retornou a Israel para sua missão.

Anos depois, a elite judaica e os invasores romanos, apavorados diante de um Homem libertador, mataram-no e ordenaram o massacre não mais dos bebês, mas dos homens e mulheres que ouviram sua Palavra e O seguiram; mas ele retornou dos mortos, para tornar-se o Vivente libertador.

Séculos depois, as elites do império e de seus satélites como o Brasil, inclusive a elite religiosa, sentindo-se ameaçada pelo Vivente libertador anunciado por Francisco e tantos franciscos e franciscas de todos os quadrantes promovem massacres de toda sorte: bebês, mulheres, indígenas, negros, gays, refugiados, encarcerados, moradores das ruas, pobres mobilizados na defesa de seus direitos e seus amigos e amigas.

O Bebê não foi apenas acusação dirigida aos poderosos e adoradores da cultura do “vencer a todo custo” a qual se referiu o Papa. Foi também uma interrogação, um convite à desinstalação daqueles e daquelas que decidem colocar-se a caminho. É o que disse Francisco na mesma homilia:

“Como justamente reconheceu um Pai da Igreja, os Magos não se puseram a caminho porque tinham visto a estrela, mas viram a estrela porque se tinham posto a caminho (cf. João Crisóstomo). Mantinham o coração fixo no horizonte, podendo assim ver aquilo que lhes mostrava o céu, porque havia neles um desejo que a tal os impelia: estavam abertos a uma novidade.

Os Magos nos dão, assim, o retrato da pessoa que acredita, da pessoa que tem nostalgia de Deus; o retrato de quem sente a falta da sua casa: a pátria celeste. Refletem a imagem de todos os seres humanos que não deixaram, na sua vida, anestesiar o próprio coração.

Esta nostalgia santa de Deus brota no coração que acredita, porque sabe que o Evangelho não é um acontecimento do passado, mas do presente. A nostalgia santa de Deus permite-nos manter os olhos abertos contra todas as tentativas de restringir e empobrecer a vida. A nostalgia santa de Deus é a memória fiel que se rebela contra tantos profetas de desgraça. É esta nostalgia que mantém viva a esperança da comunidade fiel que implora, semana após semana, com estas palavras: ‘Vinde, Senhor Jesus!’.”

O Bebê inaugurou um novo reino, um novo tempo na terra. Aderir ao Reino significa segundo Boff em seu “Jesus Cristo libertador” uma dupla desinstalação, uma dupla revolução: 1) “Reino de Deus atinge primeiro as pessoas. Delas se exige conversão. Conversão significa: mudar o modo de pensar e agir no sentido de Deus, portanto revolucionar-se interiormente”; 2) “A pregação de Jesus sobre o Reino de Deus (…) atinge também o mundo das pessoas como libertação do legalismo, das conversões sem fundamento, do autoritarismo e das forças e potentados que subjugam o homem”.[3]

A Epifania é um bom teste de critério sobre sua espiritualidade, sua religião e Igreja: se o Bebê atemorizar os ricos e poderosos e desinstalá-lo de seu conforto, é Jesus Cristo. Se for condescendente com os ricos, deixá-lo anestesiado em relação ao sofrimento dos pobres e sustentar suas seguranças, sinto muito, mas você caiu no conto do vigário, do pastor, do padre, do bispo ou de si próprio: não é Jesus.

[por Mauro Lopes]

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[1] Epifania ou Teofania é um momento manifestação de Deus aos homens. No cristianismo ocidental, a visita e adoração dos Reis Magos a Jesus bebê é interpretada como manifestação primeira da Presença de Deus entre os homens; no oriente a Epifania tem como referência o Batismo de Jesus por João Batista (Lc 3,15-22)  que o cristianismo ocidental também considera como momento epifânico, assim como a transformação da água em vinho nas bodas de Caná (Jo 2,1-11). Uma Epifania no judaísmo é a aparição de Deus a Moisés no episódio da sarça ardente (Ex 3, 1-10). Fora do contexto religioso, uma epifania é o momento exato em que alguém sente que descobriu algo ou finalmente entendeu o significado de alguma coisa que lhe era oculto ou lhe escapava. Um momento clássico de epifania é a expressão “Eureka!” que a tradição atribuiu a Arquimedes: “A palavra ‘eureka’ foi supostamente pronunciada pelo cientista grego Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C.), quando descobriu como resolver um complexo dilema apresentado pelo rei Hierão. O rei queria saber se uma coroa encomendada ao ourives era de ouro puro ou se haveria algum outro material de qualidade inferior na sua composição. Arquimedes sabia que para isso deveria determinar a densidade da coroa e comparar com a densidade do ouro. O problema complicado era como medir o volume da coroa sem a derreter. Arquimedes descobriu a solução quando entrou numa banheira com água e observou que o nível da água subia quando ele entrava. Concluiu então que para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa em água e calcular o volume de água deslocado, que deveria ser equivalente. Conta-se que ele saiu nu, correndo pelas ruas e gritando eufórico: ‘Eureka! Eureka!’ (Achei! Achei!). O Princípio de Arquimedes  foi como ficou conhecida a descoberta do grande cientista grego.” [na Wikipedia]

[2] Pagola, José Antonio, O caminho aberto por Jesus – Mateus, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 2010, p. 20-21
[3] Boff, Leonardo, Jesus Cristo libertador, Editora Vozes, Petrópolis, 21ª edição, 2012, p. 64 e 72

Uma entrevista histórica de Leonardo Boff

O teólogo brasileiro Leonardo Boff: um novo tempo na Igreja

Leonardo Boff concedeu uma entrevista histórica ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger, publicada em 25 de dezembro de 2016. Segue-se a tradução que recolhi do site católico espanhol Religion Digital, em espanhol, e traduzi livremente.

É preciso lê-la completa. Alguns pontos que destaco: o bastidor da colaboração entre ele e o Papa na redação da encíclica Laudato Sii; a reabilitação da Teologia da Libertação; uma concepção renovada (e ao mesmo tempo ortodoxa) da encarnação de Cristo; a história do encontro frustrado com Francisco; o isolamento dos cardeais rebelados contra o Papa; a possibilidade concreta do diaconato das mulheres e do retorno dos padres casados ​​ao ministério -no caso dos padres, Boff antevê uma experiência exatamente no Brasil, a partir de um pedido dos bispos. Por fim, uma revelação bonita: com autorização e apoio dos bispos, Boff continua a presidir a missa quando está em comunidades sem padres, mesmo casado. Depois de anos e anos de perseguição da Cúria romana e dos conservadores no Brasil, Leonardo Boff continua fiel à Igreja.

Como é a fé em um “Deus da paz” de que nos fala o Natal, em meio à discórdia que experimentamos em toda parte?

A maior parte da fé é promessa. Ernst Bloch diz: “O verdadeiro Gênesis não acontece no início, mas no final, e seu começo é quando a sociedade e a existência são radicais.” A alegria do Natal é esta promessa: a terra e as pessoas não estão condenadas eternamente a viver como nós vemos agora – todas as guerras, a violência, o fundamentalismo. A fé nos promete que, ao final, tudo vai ficar bem: que, apesar de todos os erros e contratempos teremos um bom final. O verdadeiro significado do Natal não é que “Deus se fez homem”, mas que Ele veio para nos dizer. “Você, seres humanos, pertencem a mim e quando vier a morte vocês voltarão para casa” [a mim, editor deste Caminho pra Casa, este é um trecho que causou funda emoção, pois é este mesmo o espírito que levou ao nome deste blog]

O Natal significa então que Deus vem nos buscar?

Sim. A encarnação significa que algo em nós é divino e imortal. O Divino está dentro de nós. Em Jesus, isso demonstrou-se mais claramente. Mas está em todos os homens. Em uma perspectiva evolutiva Jesus não veio do exterior ao mundo, mas cresce a partir dele. Jesus é a manifestação do divino em evolução – mas ele não é o único. O Divino também aparece em Buda, Mahatma Gandhi e outras grandes figuras religiosas.

Isso não soa muito católico.

Não diga isso. Toda a teologia franciscana da Idade Média compreendia Cristo como parte da criação, não apenas como o redentor da culpa e do pecado, que vem de fora do mundo. Encarnação é redenção, sim. Mas, acima de tudo, é uma celebração, uma divinização da criação. E outra coisa é importante no Natal: Deus aparece sob a forma de uma criança. Não como um velho de cabelos brancos e barba branca longa …

Então, como você? …

Nada disso, eu me pareço mais com Karl Marx. No que me concerne: quando nós terminamos nossas vidas e devemos responder ao juiz divino, então estamos diante de uma criança. Uma criança não condena ninguém. Uma criança que quer brincar e estar com os outros. Precisamos voltar a sublinhar este aspecto da fé.

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No feminino repousa a esperança para 2017

O assassinato de Luiz Carlos Ruas e as três Marias: no alto, Raíssa, a travesti que escapou da morte e Maria Souza, a esposa; abaixo, Maria de Fátima, a irmã

A Igreja Católica celebra em todo primeiro dia do ano a solenidade de Maria, mãe de Deus -e é um paradoxo que numa instituição ainda hoje tão misógina (que tem aversão ao feminino) uma mulher ocupe o centro da liturgia que abre um novo tempo; nas missas, o Evangelho de Lucas descreve a cena da visita dos pastores à mãe, ao pai e ao Bebê e o relato que fizeram da aparição do anjo, que lhes proclamou haver nascido o Esperado (Lc 2,16-21).

Eles, os pastores, eram figuras marginais na sociedade judaica, desprezados, alguém como os vendedores ambulantes de hoje; eram tidos como impuros, pois passavam o tempo nos campos em meio a animais imundos, assim com os vendedores ambulantes de hoje que passam o dia em meio à fuligem e à brutalidade das ruas; eram os moradores do campo, assim como hoje há os moradores das ruas.

Talvez houvesse no grupo que visitou a pequena família há mais de dois mil anos um pastor de nome Luiz Carlos Ruas, o pastor-ambulante assassinado a pancadas na estação do metrô em São Paulo em 25 de dezembro de 2016. Um pastor-ambulante que ousou defender uma travesti moradora de rua, esta a última dentre últimas da sociedade.

Há um centro silencioso na cena do Evangelho: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19).

Há igualmente um centro silencioso na cena da morte de Luiz Carlos Ruas: três Marias, como a mãe do Bebê. Maria Souza Santos, que foi casada com Luiz por 33 anos; Maria de Fátima Ruas, sua irmã; e Raíssa, a travesti perseguida pelos assassinos, que teria sido morta se não fosse a coragem do pastor-ambulante.

O feminino guarda todos estes fatos, medita sobre a violência e contempla a esperança em seu no coração.

O menino nasceu, o homem morreu; os braços que os acolheram, os olhos que contemplaram e choraram são femininos. Maria, a de Jesus, como as Marias de Luiz Carlos Ruas, iria dobrar-se, anos depois do nascimento em Belém, sobre o corpo do filho igualmente assassinado, ambos –Jesus e Luiz- com uma coroa de pancadas cravada na cabeça.

2016 encerra-se sob o signo da violência de um sistema machista, misógino, homofóbico.

Ano em que homens com ódio e medo do feminino, em sua fixação por poder/dinheiro, destruíram a democracia (palavra feminina) com um golpe de Estado no Brasil para depor uma mulher; e liquidaram sociedades tradicionais em vários cantos do planeta, obrigando milhões a abandonarem suas casas para migrarem, numa política deliberada de extermínio que atingiu homens fragilizados e, sobretudo, mulheres, crianças e homossexuais.

A morte de Luiz Carlos Ruas é a expressão cruel e individual do drama de um país e um planeta aterrorizado pela violência do macho. Em sua vida/morte, estão condensados de maneira concreta/profética todos aqueles e aquelas que são as vítimas: negro, conhecido como Índio, com a sensibilidade e o abraço típicos do feminino, cidadão e amigo das pessoas das Ruas, respeitoso e solidário com gays, travestis, trans, crianças, doentes. Todas as gentes de Jesus.

Neste ano houve uma pequena luz: o despertar de um novo protagonismo do feminino. Marias e Raíssas assumiram a liderança nas Ruas do Brasil, da Polônia, nos Estados Unidos, Argentina, Palestina, em todo canto onde conseguiram confrontar o machismo-poder.

Marias e Raíssa. Com Luiz Carlos Ruas e todos os homens capazes do feminino: é para elas que se volta a esperança de 2017.

[por Mauro Lopes]

CNBB: tema da Igreja é anúncio do Evangelho e não estatísticas ou marketing

Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB

Uma entrevista excepcional de dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB, à Folha, a pretexto da tal pesquisa que constatou uma queda de 9 milhões de pessoas que de declaram católicas no Brasil.

É muito interessante observar como há duas maneiras radicalmente distintas de olhar o mundo e a vida: a da repórter, representante do jornal, que vaza todas as perguntas de dentro  dos parâmetros do status quo de sucesso/fracasso, competição, perdas/ganhos estatísticos; e as respostas de dom Leonardo, assentadas na lógica do cristianismo, que opera a partir das condicionantes do amor, caminhada com os pobres, compaixão. Vale a pena ler e contemplar esses “dois mundos” em paralelo.

A entrevista é relevante igualmente pela denúncia à vigência dos valores do capitalismo neoliberal em largos segmentos do catolicismo brasileiro. É digno de nota perceber que há mais identidade entre o discurso da jornalista e o de tais segmentos do que deles com o de dom Leonardo, sacerdote franciscano e bispo auxiliar de Brasília.

Alguns pontos que sugiro à reflexão:

1.  A “onda” das estratégias de espírito capitalista – dom Leonardo deixa claro que a “moda” de incorporar conceitos tomados do capitalismo para os planos pastorais é um equívoco: “A Igreja cuida da evangelização, do anúncio dos valores do Evangelho, e não se ocupa com estratégias para melhorar estatísticas.”

É uma condenação à febre capitalista dos últimos anos, nos quais a invasão dos valores neoliberais em segmentos da Igreja fez com que os planos pastorais passassem a se tornar cópias malfeitas de planejamentos empresariais. Planos com metas para arrecadação de dinheiro e outras, como “captação de fiéis”, prêmios (e punições), estatísticas etc.

Pulularam pretensas “agências de marketing” católicas, feiras de “produtos” católicos, “eventos comerciais” católicos. Existe até um Instituto Brasileiro de Marketing Católico (IBMC), presidido pelo arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, que tem se colocado como líder do conservadorismo católico no país e responsável pela inserção dos conteúdos capitalistas neoliberais na Arquidiocese do Rio e em sua área de influência em outros recantos. Vale a pena visitar no site da entidade a página Estatuto do IBMC. É um “recorta e cola” de qualquer associação de marketing empresarial. Não há nada que aproxime o texto do cristianismo, exceto pelo uso das expressões “Igreja Católica” e “católico” –como se a inserção simples desses vocábulos mudasse o caráter e o espírito da associação.

Marketing é um conceito, processo(s) e ferramenta típica do capitalismo. Segundo o “guru do marketing”, o norte-americano Philip Kotler, ele é uma “função empresarial que identifica necessidades e desejos insatisfeitos, define e mede sua magnitude e seu potencial de rentabilidade, especifica que mercados-alvo serão mais bem atendidos pela empresa, decide sobre produtos, serviços e programas adequados para servir a esses mercados selecionados”. Imaginar que é possível “integrar” esta disciplina capitalista à atividade da Igreja colocando-a a serviço do cristianismo é uma ilusão (ou, mais propriamente, conversa fiada): o que se viu ao longo dos anos foi a submissão dos segmentos cristãos que se renderam ao canto da sereia do marketing aos princípios do capitalismo. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,3) disse Jesus. Se o marketing é a “ciência” maior do capitalismo, ferramenta para dotar as empresas de capacidade de arrancarem o máximo de dinheiro dos seus clientes/consumidores, uma atualização cabível da frase é: “Não podeis servir a Deus e ao marketing”.

Vale a pena cotejar o que disse dom Leonardo na entrevista sobre as “cinco urgências pastorais” da Igreja e as definições dos planos elaborados por segmentos da Igreja a partir dos conceitos de “eficiência e resultados” com uso de estratégias de marketing. O que é prioritário para a Igreja, segundo o secretário-geral da CNBB:

  • “permanecer em constante estado de missão, ou, como diz o papa Francisco, sermos uma ‘Igreja em saída’;
  • cuidado com a iniciação à vida cristã;
  • assumir, sempre mais, a animação bíblico-catequética das comunidades;
  • reconhecer e vivenciar a Igreja como comunidade de comunidades;
  • e, por fim, ser cada vez com maior vigor e coragem uma Igreja a serviço da vida plena para todas as pessoas.”

Nada a ver com “resultados”, “performance”, “metas”…

2. A participação na política – o secretário-geral da CNBB afirmou a presença dos católicos na política como necessária e sempre integrada à opção de uma Igreja pobre com os pobres, e não a partir de temas “moralizadores” e vinculados às noções de “meritocracia” defendidas por segmentos católicos submetidos aos poderosos de plantão. As declarações de dom Leonardo referenciaram-se no Papa Francisco: “O Papa Francisco, no esforço que tem feito para que os jovens conheçam a Doutrina Social da Igreja, considera que ‘o mundo só mudará quando homens com Jesus se entregarem por ele, com Ele forem para as periferias e para o meio da miséria’”. E ainda: “O Papa desafia todos os jovens a irem para a política e a lutar pela justiça e pela dignidade humana, sobretudo dos mais pobres”.

É um estrondo a escolha por dom Leonardo de uma frase da apresentação DOCAT, um catecismo para jovens sobre a Doutrina Social da Igreja lançado por Francisco na Jornada Mundial da Juventude 2016: “Um cristão que não seja revolucionário neste tempo, não é cristão”.

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2017 começará com agravamento do confronto na Igreja

A verdadeira guerra que quatro cardeais e segmentos ultraconservadores movem contra o Papa deixou definitivamente os bastidores, acontece à luz do dia e deve agravar-se no início de 2017. A sucessão de confrontos entre o grupo apoiado por uma agressiva mídia católica conservadoras e Francisco mudou de qualidade em novembro e tornou-se uma crise aguda.

Apesar de o primeiro movimento público ter sido assumido por cardeais quatro cardeais conservadores, os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner e mais Carlo Caffarra (italiano) e Raymond Burke (norte-americano), a liderança pública das afrontas ao Papa têm sido lideradas por este último, que se apresenta como um porta-voz dos conservadores da Igreja.

As ações dos conservadores acontecem em torno da exortação Amoris Laetitia (Alegria do Amor) lançada pelo Papa depois do Sínodo da Família e especialmente a questão do direito à comunhão de casais divorciados casados pela segunda vez. Mas a disputa verdadeira acontece em torno da decisão de Francisco de de retomar a opção preferencial pelos pobres e retomar as diretrizes do Concílio Vaticano II.

A sequência e velocidade da crise a partir de meados de novembro é de fato impressionante:

  • 14 de novembro – os quatro cardeais vazaram ao vaticanista conservador Sandor Magister uma carta privada que haviam endereçado a Francisco em setembro apresentando as agora famosas “dubia” (dúvidas); o objetivo foi decretar que a indissolubilidade do casamento seria uma “norma moral absoluta” para os católicos -o que carece de amparo histórico.
  • 16 de novembro – apenas dois dias depois do vazamento a Magister, o site conservador Infovaticana veiculou entrevista de Burke na qual ele afirmou que seu grupo poderá decretar  “um ato formal de correção de um erro grave” contra o Papa, se ele não ceder às ameaças (aqui).
  • 18 de novembro – o Avvenire jornal dos bispos italianos publicou entrevista com Francisco na qual ele reagiu com vigor à ofensiva dos cardeais conservadores, acusando-os de fazerem críticas desonestas para fomentar a divisão na Igreja e de apegarem-se a um “legalismo” de fundo ideológico (aqui).
  • 20 de novembro – o bispo Fragkiskos Papamanolis, presidente da Conferência Episcopal da Grécia saiu na defesa de Francisco e divulgou uma carta aberta aos quatro cardeais, dizendo que eles deveriam, por dever de honestidade, renunciar às suas cadeiras no Colégio Cardinalício.
  • 26 de novembro – o Papa enviou carta a 800 gestores das organizações religiosas participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, contendo dura advertência quanto à “hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Este é um tema que confronta Francisco diretamente com os conservadores.
  • 30 de novembro – divulgado texto de um dos mais destacados teólogos da Igreja, o italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, em defesa do Sínodo da Família e da Amoris Latetitia, colocando-os em linha direta com o Vaticano II. Foi no prólogo do livro do também teólogo e sacerdote Jesús Martínez Gordo, da diocese de Bilbao, intitulado Estive divorciado e me acolhestes –leia aqui.
  • 8 de dezembro –  numa ação coordenada por Raymond Burke, patrono da Ordem de Malta, a direção da organização destituiu seu grão-chanceler, Albrecht von Boeselager, cargo de nomeação direta do Papa. Burke foi colocado à frente da Ordem por Francisco em 2014, que o removeu do poderoso  Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica do Vaticano -apesar da inexpressividade da Ordem de Malta, Burke encontrou mais um meio de confrontar Francisco e conseguir repercussão, mobilizando apoios entre os conservadores.
  • 19 de dezembro – em entrevistas a veículos conservadores dos EUA, Burke apresentou como que dois “ultimatos” ao Papa. Ao LifeSite, assegurou que se o Papa não responder às “dubia” seu grupo irá divulgar a anunciada “correção formal” a Francisco logo depois da solenidade da Epifania, que será celebrada em 8 de janeiro de 2017 (aqui); ao portal Catholic World Report Burke foi ainda mais longe e insinuou que o Papa é herege, ameaçando com a destituição: “Se o Papa professar uma heresia formalmente deixaria, por esse ato, de ser Papa. É automático.” Espertamente, para evitar uma punição direta, disse a seguir que “não estou dizendo que o Papa Francisco está em heresia” (aqui).
  • 22 dezembro – o Papa nomeou uma comissão para investigar a destituição do grão-chaceler da Ordem de Malta.
  • 22 de dezembro – depois de ter abalado a Cúria romana no discurso de Natal em 2014 quando atacou o que qualificou de “15 doenças curiais”, Francisco voltou à carga este ano numa duríssima advertência contra as “resistências maliciosa” de “mentes distorcidas” contra as reformas da Igreja (aqui).
  • 24 dezembro – a cúpula da Ordem de Malta reagiu de maneira sem precedentes a um Papa e contesta a comissão nomeada por Francisco, qualificando o gesto de “inaceitável” (leia aqui a reportagem de Religion Digital sobre o assunto).

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2016: um Natal cercado por sofrimento, dor e perseguição aos pobres

Sagrada Família – Marc Chagall

Há uma ideia corrente segundo a qual o cristianismo cultivaria ilusões quanto à vida e disseminaria uma visão enganadora sobre o caminho da alegria ou felicidade, com o objetivo de manter os mais pobres sob controle, auxiliando o sistema de dominação a manter-se incólume. O ensinamento original de Jesus, o assentamento bíblico da religião e a tradição das primeiras comunidades cristãs desautorizam tal interpretação.

No entanto, muitas concepções e ações  da Igreja institucional ao longo dos séculos, hoje representadas pelos segmentos conservadores do cristianismo, operaram e operam exatamente no sentido da crítica. Boa parte da hierarquia católica e de outras confissões cristãs aliou-se ao longo do tempo e alia-se hoje aos poderosos de plantão; tais segmentos buscam conferir legitimidade à dominação e exploração e assegurar aos ricos o conformismo dos pobres em relação ao status quo, admitindo no máximo a busca de soluções individualistas (a teologia da prosperidade). A religião transforma-se então num verdadeiro salve-se quem puder.

A liturgia da Palavra que será proclamada nas missas da noite de Natal em quase todo o planeta neste 24 de dezembro de 2016 afirma uma visão profundamente realista do cristianismo sobre a vida e assegura que seu projeto de esperança está imerso numa relação  amorosa-compassiva com cada ser humano e toda a humanidade.

Duas leituras constituem o centro da liturgia natalina.

A primeira, tomada de Isaías (Is 9,1-6), anuncia um novo tempo para o povo judeu, com a chegada do Messias. O texto é todo costurado com base na contraposição entre o tempo de opressão e a possibilidade de uma nova época de libertação: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (v.1); neste novo tempo, “o jugo que pesava sobre eles, o bastão posto sobre seus ombros, a vara do opressor, tu os despedaçaste como no dia de Madiã” (v.3); e então o “menino que nos nasceu” (v.5) irá assegurar “o estabelecimento de uma paz sem fim” (v.6), numa era apoiada “sobre o direito e a justiça” (v.6).

A alegria do novo tempo anunciada por Isaías está permeada por uma visão histórica dos anos de sofrimento do povo, com raízes de exploração e opressão muito concretas.

A leitura culminante da noite de Natal dialoga com o trecho de Isaías. É o relato, no Evangelho de Lucas (Lc 2,1-14) do nascimento do Menino anunciado pelo profeta. Relata o nascimento de um bebê nascido em pobreza e enorme fragilidade, pois sua mãe “deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (v.7) –a manjedoura é o tabuleiro onde come o gado nos estábulos. O paralelismo com Isaías é evidente (v.8): na escuridão da noite (como em Isaías), um grupo de pastores (o povo) foi envolvido de luz (viu uma grande luz) e apareceu-lhe um anjo: “Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo” (v.9).

Tanto em Isaías como em Lucas relata-se uma alegria nascida em meio a condições terríveis de opressão e sofrimento e revelada não aos ricos e poderosos, mas aos mais pobres –os pastores estavam à margem da vida social judaica de então, eram gente menosprezada e suspeita.

Trevas e luz, opressão e libertação, sofrimento e alegria –estes são os duplos que marcam o profetismo bíblico e sua culminância, a chegada do Esperado.

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Cesar Kuzma: Francisco incomoda; aparecerão mais divergências

O teólogo brasileiro Cesar Kuzma ao lado do teólogo protestante alemão Jürgen Moltmann

Cesar Kuzma é dos mais expressivos teólogos católicos brasileiros da novíssima geração. Ele concedeu entrevista ao Caminho pra Casa sobre o atual momento da Igreja: a marca do pontificado de Francisco, disse, é a abordagem dos problemas estruturais da Igreja, e isso causa enorme incômodo aos que estavam e ainda estão encastelados. Para o teólogo, equivoca-se quem pensa que polêmica em torno do Sínodo da Família prenda-se ao tema da família ou mesmo à exortação do Papa: “o que se discutiu ali foi o tema da Igreja. Explico: estava em relevo o modelo vigente, fechado em si mesmo e sem qualquer chance de diálogo com as novas realidades e também distante do Evangelho; agora, é o modelo de Francisco, disposto a ouvir e a dialogar com os novos problemas humanos.”

Kuzma é doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde é professor e pesquisador, e presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião). Assessor da Comissão do Laicato da CNBB e do Departamento de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal da América Latina (CELAM). Autor, entre outros, de O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica (2014), um estudo sobre a obra do “teólogo da esperança”, o protestante Jürgen Moltmann, e Leigos e Leigas –força e esperança da Igreja no mundo (2009).

Leia a entrevista:

Caminho pra Casa: Como você vê o cenário na Igreja hoje, com o Papa aparentemente acelerando suas reformas ao mesmo tempo em que aparecem as primeiras divergências explícitas com segmentos da hierarquia?

Cesar Kuzma: O avançar do Pontificado de Francisco tem evidenciado cada vez mais que ele é um Papa de reformas. A sua eleição surge por esta necessidade de mudanças e a renúncia de Bento XVI, que provocou esta eleição, evidenciou que a Igreja enquanto instituição tem problemas estruturais que devem ser tocados e transformados. Francisco assume este papel. Na sua primeira exortação, a Evangelii Gaudium, em 2013, ele diz de início que uma reforma seria inadiável. Ali isto já ficou bem claro. Poderíamos dizer também quanto ao seu nome, Francisco, é um projeto que deve ser buscado por toda a Igreja e que a coloca de modo mais coerente na prática do Evangelho.

Nós já vamos para quatro anos de Pontificado e, desde o início, houve certa inquietação. No início, muito pautada pelo seu modo de ser e de se comportar, depois, na sequência dos fatos, pelas mudanças que vem propondo. O que sinto e observo é que Francisco tem uma visão ampla e faz um bom discernimento de cada situação. Ele não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo. Mas quer lançar pistas e apontar caminhos.

As divergências são normais e vão aparecer cada vez mais. Devemos olhar que elas até nos fortalecem, pois nos fazem ver com mais propriedade a proposta que seguimos e alimentar a nossa esperança em uma aceleração de reformas que Francisco propõe: uma Igreja mais aberta e disposta a acolher a todos na misericórdia, que ninguém seja indiferente a ela e ao amor de Deus; uma Igreja onde se possa falar livremente e com seriedade, com respeito; uma Igreja mais aberta a novas realidades estruturais, tanto da sociedade quanto dela mesma; e, por fim, uma Igreja mais pobre, mais simples e despojada dos poderes do mundo e mais alinhada com o Cristo que segue, um Cristo pobre e sofredor que se faz ver e perceber nos limites da história. Isso recupera uma eclesiologia presente no Concílio Vaticano II e em Medellín, onde ressalto que Francisco é um papa da Igreja latinoamericana.
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Um Deus que só pode ser humano; a humanidade como natureza intrínseca de Deus

Neste 4º Domingo do Advento, às portas do Natal, cristãos católicos escutam na Liturgia da Palavra das missas em todo o planeta uma breve descrição sobre o que o evangelista Mateus chama de “a origem de Jesus Cristo” (Mt 1,18-24):

Maria estava noiva e ficou grávida sem que José e ela tivessem feito sexo. Seu futuro esposo, que era justo (seguidor da Torá-Lei) e compassivo, não fez o que a Lei lhe permitia: denunciar a noiva adúltera publicamente, o que poderia levar a jovem a ser apedrejada; ele decidiu abandonar Maria em segredo. Antes de fazê-lo, entretanto, teve um sonho no qual um anjo lhe disse que ela não o havia traído com outro homem, mas que estava grávida do Espírito Santo, que iria nascer um menino ao qual José poria o nome de Jesus (“Deus salva”, em hebraico); na Israel antiga, era prerrogativa do pai dar o nome aos filhos; o anjo disse ainda que a gravidez de Maria cumpria uma profecia de Isaías (Is 7,14), segundo a qual uma jovem daria à luz um filho com o nome Emanuel (“Deus está conosco”) e que José deveria acolher o menino. José acordou e cumpriu a orientação (em Israel, no Egito, Babilônia, entre os gregos e romanos na Antiguidade os sonhos eram tido como absolutamente prescritivos –séculos adiante, Freud compreenderia que eles são a manifestação de nossos desejos escondidos). José recebeu Maria como esposa, mas se absteve de ter relações sexuais com ela até o parto.

Este relato é a passagem que antecede imediatamente a cena do nascimento de Jesus. Tornou-se tão corriqueiro que não nos damos conta. É, na verdade surpreendente. Durante séculos e séculos os cristãos e mesmo as pessoas que não o são, mas nascidas em sociedades culturalmente marcadas pelo cristianismo, acostumaram-se com a imagem de um “Deus onipotente todo-poderoso vingador e punitivo, um pai com requintes de crueldade, um monarca distante e o Cristo-Rei como sua “representação” na terra.

E quem veio? Que Deus nasceu?

Um bebê.

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