Divorciados católicos: voltem a comungar já!

O sacerdote jesuíta chileno Jorge Costadoat, uma referência para a Igreja na América Latina, acaba de lançar uma boa palavra para os católicos e católicas de toda a região Latina: divorciados e divorciadas em segunda união, voltem a comungar já! Ao mesmo tempo, ele apresentou um questionamento profético aos bispos da região: qual a razão de seu silêncio?

Ele escreveu um artigo precioso no site Religion Digital (aqui) e indica: diante da inaceitável ausência de orientação dos bispos da América Latina (e do Brasil, portanto), vamos nos permitir dialogar com os bispos-pastores-profetas da pequenina ilha de Malta!
Costadoat, doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana, é professor de Cristologia na Faculdade de Teologia da Universidade Católica do Chile, é membro da Comissão Teológica dos jesuítas para a América Latina e pertence à Comunidade Eclesial de Base Enrique Alvear, no Chile.

O jesuíta começou seu artigo questionando: “Porque os bispos latino-americanos, nem como pastores de suas dioceses, nem nas conferências de seus países, deram até agora uma orientação particular às pessoas sobre a possibilidade aberta pela exortação apostólica Amoris Laetitia para que os divorciados que voltaram a casar possam comungar na missa? O Papa entregou a eles a tarefa de indicarem as especificações regionais de aplicação da exortação. Só podemos supor que haja uma razão poderosa para que até agora os bispos em sua quase totalidade não tenham se pronunciado sobre o tema.”
Neste espaço de silêncio, uma voz se fez ouvir. A dos dois bispos da pequena ilha de Malta que, segundo o sacerdote chileno, “redigiram um documento notável”.

Prosseguiu o padre Costadoat:

“Não entendo o porquê este silêncio. O Papa precisa de ajuda. Francisco tem uma oposição impressionante de parte de seus próprios colaboradores. Quatro cardeais, e outros católicos por trás dele, ameaçaram Francisco, sugerindo que com a Amoris Laetitia o Papa teria se afastado da ortodoxia. E os demais cardeais, o que pensam? O sínodo aprovou o documento base da exortação Amoris Laetitia por mais de dois terços dos votos. Porém, deixou em aberto explicar aos católicos como devem entender as aplicações do texto em suas respectivas regiões.

Posso entender que os bispos latino-americanos não entrem em polêmica com o cardeal Burke e os demais prelados (…) contra outras autoridades da cúria contrárias ao Papa. Porém, se há bispos de acordo com Francisco, por que não o apoiam na aplicação do documento, sobretudo quando o que está em jogo é orientar o Povo de Deus?”

O que seria preciso?

Volto ao sacerdote jesuíta: “Bastaria um documento como o da Igreja de Malta: ‘Critérios para a aplicação do capítulo VIII de Amoris Laetitia‘. No parágrafo decisivo está escrito:

Se, como resultado do processo de discernimento, empreendido com ‘humildade, reserva, amor à Igreja e a seu ensinamento, na busca sincera da vontade de Deus e com o desejo de alcançar uma resposta a ela mais perfeita” (AL 300), uma pessoa separada ou divorciada que vive uma relação consegue com clara e informada consciência, reconhecer e crer que ela ou ele estão em paz con Deus, ela ou ele não podem ser impedidos de participar dos sacramentos da reconciliação ou eucaristia (cf. AL, notas 336 y 351).

A conclusão de Costadoat é uma indicação para todos: “Enquanto não houver pronunciamentos dos bispos latino-americanos, este documento e este parágrafo podem servir para muitas igrejas da América Latina; e, quem sabe, para outras igrejas do mundo também.”

Outra mudança radical: Papa nomeia duas mulheres para a Congregação do Culto Divino

Neste sábado (14), batizou 13 bebês nascidos nas localidades do centro da Itália abaladas pelos terremotos dos meses passados. Apenas os familiares participaram da cerimônia, da qual foram divulgadas algumas fotos. A menor das crianças batizadas tem 5 dias de vida

O Papa Francisco está tomando medidas em diversas frentes e acelera a reforma da primavera da Igreja Católica. Neste sábado (14), além da nomeação do cardeal progressista Sean O’Malley para a Congregação para a Doutrina da Fé [aqui] ele ampliou sua intervenção na Congregação para o Culto Divino, chefiada pelo cardeal ganense ultraconservador Robert Sarah. Francisco nomeou nada menos que 17 assessores para o organismo, entre sacerdotes, leigos e –novidade das novidades- duas mulheres!

Passam a ser assessoras da Congregação mais misógina do Vaticano, responsável pela liturgia católica: Donna Lynn Orsuto, professora do Instituto de Espiritualidade da Universidade Gregoriana e Valeria Trapani, professora de liturgia na Faculdade de Teologia São João em Palermo.

É a segunda mudança contundente na Congregação em poucos meses. Em outubro, Francisco havia afastado 16 dos membros mais conservadores do organismo que regula o rito da missa, como os cardeais Raymond Burke (líder do quarteto ultraconservador rebelado contra o Papa) e George Pell (secretário de Economia do Vaticano envolvido em graves acusações em casos de pedofilia na Austrália), e nomeando prelados mais alinhados com o espírito do Vaticano II –leia aqui. Isso não quer dizer que a Congregação não tenha ainda um “núcleo duro” tradicionalista sob o comando de Sarah.

O cardeal Robert Sarah

Mas o espaço do atual Prefeito está cada vez menor.  Em julho, ele já havia sido publicamente repreendido por sinalizar uma orientação a que os sacerdotes passassem a celebrar as missas de costas para a assembleia dos fieis, costume medieval que foi abolido no Concílio Vaticano II – diz-se no Vaticano que os dias de Sarah à frente da congregação estão contados. A notícia, se confirmada nos próximos meses, será recebido com grande alívio nas bases da Igreja: a Congregação  para o Culto Divino congelou a liturgia da Igreja, contrariando o espírito do Vaticano II, espalha ameaças por todo o mundo católico há anos, e tenta impor retrocessos sobre retrocessos.

Os rigoristas, alinhados ao cardeal ganense, defendem a restauração do rito tridentino da missa, no qual:

  1. havia um único celebrante (depois do Concílio, todos os membros da assembleia reunida passaram a ser igualmente celebrantes e o padre apenas preside);
  2. o sacerdote rezava de costas para as pessoas, em latim, enquanto aos membros desta assembleia manietada restava entregar-se a suas devoções  ou a seus ensimesmamentos (era comum que as pessoas rezassem o terço durante as celebrações, pois a missa era “do padre”);
  3. a missa era um cerimonial de suposta “adoração eucarística” e a Liturgia da Palavra era praticamente irrelevante, posto que os textos bíblicos eram lidos igualmente em latim e, portanto, incompreensíveis para quase toda a assembleia.
Missa tridentina: como na Idade Média

Pode parecer incrível, mas os integristas querem mesmo que este “modelo” ritual seja restaurado (veja um dos sites deles aqui). De fato, existe hoje uma “forma extraordinária do Rito Romano” que é a missa tridentina, em referência ao Concilio de Trento (1545-1563) que foi readmitida a partir de 2007 por uma carta Apostólica do Papa Bento XVI.

Este é um tema sensibilíssimo aos conservadores, que estão reagindo com enorme irritação desde que, no início de dezembro veio,  à luz uma entrevista do Papa ao jesuíta Antonio Spadaro SJ, editor da revista La Civiltà Cattolica, no livro recém-publicado “Em teus olhos está minha palavra”. Ao falar sobre o rito tridentino, Francisco foi enérgico e irônico: “É apenas uma exceção. O Papa Bento realizou um próprio e generoso gesto para ir ao encontro de certa mentalidade de alguns grupos e pessoas que tinham nostalgia e que estavam distantes.”

[por Mauro Lopes]

 

Francisco nomeia cardeal progressista como membro pleno da Congregação para a Doutrina da Fé

O cardeal franciscano Sean O’Malley, alinhado ao Papa, muda o perfil da Congregação para a Doutrina da Fé
O PAPA NÃO PARA!

O site da revista  America, dos jesuítas americanos, anunciou no fim da tarde deste sábado (14) a nomeação do arcebispo de Boston, o cardeal franciscano Sean P. O’Malley, como membro pleno da Congregação para a Doutrina da Fé. O’Malley é um cardeal progressista, da confiança de Francisco. O Vaticano, segundo a revista, confirmou a notícia por volta de 12h deste sábado em Roma (15h em Brasília), mas não houve até o momento divulgação oficial da notícia pelos canais de comunicação da Santa Sé.

A nomeação é um estrondo. A Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora do Santo Ofício, sempre foi dominada pelos conservadores e promoveu nas últimas décadas perseguições a teólogos, teólogas, sacerdotes e leigos progressistas. O prefeito (chefe) da Congregação é o cardeal alemão conservador Gerhard Müller, que buscou aproximações com o Papa nos últimos meses e distanciou-se do grupo radical dos quatro cardeais das “dubia” que lideram uma mini rebelião a Francisco. Com a chegada de O’Malley à Congregação, o equilíbrio de forças sofre uma mudanças história -estará ele sendo preparado para a sucessão de Müller?

Há outro aspecto relevante na decisão, que foi destacado na reportagem de America: o cardeal O’Malley é também o presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores que Francisco instituiu em 2014. Com a nomeação, segundo o próprio Vaticano, passa a haver uma ligação direta entre a mais antiga e poderosa Congregação da Cúria e a comissão que cuida dos casos de pedofilia e abuso sexual, até agora muito ativa, mas sem poder real.

A decisão de Francisco indica claramente que ele não recuará nas reformas nem está intimidado pela estridência conservadora, que mobiliza mídias e dinheiro ao redor do mundo para combatê-lo. As reformas seguirão em frente.

Aguarda-se para as próximas horas uma reação furibunda dos “contras”, que já haviam ficado perplexos com o que consideram uma “traição” de Müller, que numa entrevista a uma TV italiana há uma semana censurou as iniciativas dos cardeais rebelados (leia a reportagem deste blog sobre o assunto: “Os conservadores perdem o chão: Müller apoia o Papa e condena os quatro cardeais“). Há dois dias, os conservadores ficaram novamente indignados com a decisão dos bispos de Malta de apoiar a Amoris Laetitia e permitir a comunhão de divorciados em segunda união. A pequena Malta tem pouquíssima relevância no contexto do catolicismo global, mas ganhou destaque com a rebelião da Ordem de Malta contra o Papa, estimulada por seu patrono, exatamente o cardeal líder da marcha ultraconservadora, Raymond Burke.

Os próximos dias serão agitados.

[por Mauro Lopes]

Você pode ler a versão em espanhol da reportagem, publicada no blog Camino a Casa, em Religion Digital – clique aqui.

Um Cordeiro que denuncia a ideia da “expiação”, centro da teologia de controle, medo e submissão

Neste domingo, são dados os primeiros passos da caminhada litúrgica católica do Tempo Comum, na qual se reza, na Liturgia da Palavra nas missas, o tempo da missão de Jesus antes de sua paixão e morte. Esta jornada litúrgica prossegue até o fim de fevereiro, quando será interrompida pela Quaresma, a Semana Santa e o Tempo da Páscoa, até a retomada do Tempo Comum em junho.

Este é o 2º Domingo do Tempo Comum e a leitura do Evangelho de João (Jo 1,29-34),  apresenta trecho de uma peça fundamental do cristianismo, aquele que é conhecido como o testemunho de João, o Batista, sobre Jesus. O profeta havia sofrido um duro interrogatório de representantes da elite religiosa judaica, preocupados em saber se ele era o Esperado –o que ele negara; no dia seguinte, houve encontro entre o Anunciador e o Anunciado, Batista e Cristo, e sobre ele proclamou João: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v.29).

A interpretação desta frase está no centro de uma grande divisão dentro do cristianismo, que percorre os séculos. Pois nela apresenta-se quem é Jesus, sua missão e o significado de sua morte.

O edifício teológico conservador, que estrutura o pensamento hegemônico da hierarquia católica ao longo dos tempos, está em parte construído a partir desta pequena frase.

O que diz este pensamento?

Que Jesus, em sua morte na cruz, foi condenado pelo “mundo”; em seu sacrifício, foi o cordeiro imolado, que expiou todo o pecado da humanidade. A palavra central aqui é expiação. Significa que, com seu sofrimento e morte, Jesus purificou, compensou todas as culpas dos homens (e mulheres –mas, para os conservadores elas são apenas peças acessórias), resgatando a humanidade do “pecado original”.

É uma lógica binária sobre a qual irá se estruturar o governo da Igreja pelos conservadores: pecado/perdão; pureza/impureza.  Por esta lógica, a hierarquia teria se tornado “sucessora de Cristo” e se configuraria como polo da pureza e perdão na equação, enquanto o resto da humanidade carregaria sobre si o ônus do pecado e da impureza. É relevante mencionar que este ônus iria pesar, ao longo da história, especialmente sobre os pobres, os marginalizados, mulheres, homossexuais, todos os “diferentes”, pois a hierarquia tornou-se fiadora das monarquias e, depois, num processo complexo e não isento de contradições, da riqueza e do poder no mundo –e, com isso, teria “transferido” parcialmente sua “pureza” para os monarcas e os ricos.

O pensamento divergente sobreviveu às margens da Igreja depois dos primeiros tempos, costurado por teólogos e teólogas perseguidos pela hierarquia, até ser consagrado no Concílio Vaticano II (1962-65) em meio a uma grande crise da Igreja -para ser, logo depois, sufocado pela cúpula da Igreja (a  Cúria Romana), especialmente com as eleições de João Paulo II (1979-2005) e Bento XVI (2005-2013).

O pensamento divergente da teologia institucional sobreviveu igualmente em comunidades que seriam designadas, séculos depois daquelas dos primeiros cristãos, de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), consagradas pela  Conferência de Medellín, em 1968 (a 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, realizada naquela cidade da Colômbia). O encontro dos bispos latino-americanos respirou o sopro do Vaticano II e tornou-se, na definição do teólogo belga-brasileiro José Comblin, locus capaz “de expressar o que o Concílio não tinha tido a capacidade de dizer. Foi uma novidade mundial significativa para a Igreja universal. Medellín trouxe algo novo que vai além dos textos conciliares e dos documentos da Igreja, embora tenha sido durante séculos a aspiração de inúmeros santos e profetas, começando com São Francisco de Assis.”[1] As decisões da conferência foram combatidas ato contínuo pela Cúria romana e os bispos, sacerdotes e teólogos conservadores de todo o mundo, especialmente da América Latina, até que suas decisões fossem estraçalhadas ao longo dos papados de João Paulo II e Bento XVI.

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Pastoral Carcerária: “se colocassem cães e gatos nos presídios, tratados como as pessoas o são, teríamos milhões nas ruas”

Padre Valdir em visita a um presídio – foto de arquivo pessoal

O padre Valdir Silveira, coordenador da Pastoral Carcerária no Brasil, é uma das pessoas que mais conhecem o sistema prisional do país. São anos de escuta aos presos, presas, seus familiares, funcionários e autoridades. Ele não tem dúvida: “O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.” E completa: “se colocassem cães e gatos nos presídios brasileiros, tratados como as pessoas são tratadas atualmente, teríamos milhões nas ruas e mobilização mundial contra o Brasil.” Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa na tarde desta segunda (10) pouco antes de embarcar para a região Norte.

Desde 2012 a autoridades carcerárias e os governos estaduais e federal são informados pela Pastoral sobre o barril de pólvora que são as prisões, em todo o país, com relatórios específicos sobre a região Norte, sem qualquer ação. “Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.“ Para ele, a declaração do ex-secretário nacional da Juventude (“Tinha que fazer uma chacina por semana”) foi a mais “autêntica” e “sincera”: “É o que o governo deseja, de fato. Ele caiu, mas foi o porta-voz do governo”.

Padre Valdir contesta a estatística oficial que posiciona o Brasil com a 4ª maior população carcerária; diz que ela está defasada e que o país já passou a Rússia. Dos quatro países com maior população aprisionada –EUA e China, além do Brasil e Rússia- apenas em um o número de presos cresce, exatamente o Brasil; nos demais, há diminuição ano a ano.

São mais de 6.500 agentes da Pastoral em todo o Brasil, atuando diuturnamente nos presídios e delegacias e testemunhando situações desde a violência física até a ausência de sabonete, papel higiênico –e absorvente íntimo para as mulheres. O que faz a Pastoral? “Nossa missão é em primeiro lugar evangelizar: uma ação na qual o anúncio de Cristo só existe se estamos implicados na vida digna das pessoas encarceradas. (…) Não podemos esquecer que nosso Mestre foi também um preso, e um preso torturado.“ Para ele, o Papa Francisco “é um profeta” também no tema carcerário.

Caminho pra Casa –  Como a Pastoral Carcerária avalia os massacres do início de 2017, com 64 mortos em Manaus (AM), entre 1 e 8 de janeiro e mais 33 mortes em Boa Vista (RR) , no dia 6?

Padre Valdir Silveira – Os massacres não foram uma surpresa. Desde 2012 a Pastoral Carcerária faz relatórios, encaminhados às autoridades, sobre a situação limite dos presídios no país, com destaque para os do Norte, tanto no Amazonas [aqui] como em Roraima [aqui]. O governo sabia do que podia acontecer. Há rebeliões em todo o país. Vimos o massacre de Pedrinhas (PI), que aconteceu em três ondas sucessivas, entre 2010 e 2013, com 97 mortes no total.

Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.  Mesmo nestes casos, do massacre continuado em aparente pequena escala, que sequer é notícia, os números quando consolidados são terríveis. E olhe que os levantamentos são todos precários, sempre subestimados. Aos presos pobres não é dado o direito nem mesmo de figurar em estatísticas.

Veja estes números, são chocantes: só no primeiro semestre de 2014, o Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça (Depen) informou 565 mortes no sistema prisional, sendo mais ou menos metade delas classificada como intencionais, violentas –portanto, algo como 280. Isso apenas no primeiro semestre de 2014! E quer saber mais? Sem que os estados de São Paulo e Rio apresentassem seus dados! O governo de São Paulo, que tem um terço da população carcerária nacional, ignorou o levantamento federal! Em 2016 o governo Alckmin informou mais de 400 mortos no sistema penitenciário no Estado –e garantiu que apenas 17 teriam sido mortes violentas. Dá pra acreditar?

O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.

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Os conservadores perdem o chão: Müller apoia o Papa e condena os quatro cardeais

Cardeal Muller: divulgação da carta dos quatro cardeais foi um erro; não há o que corrigir no Papa; Francisco e Bento estão unidos

Em entrevista à TV italiana na noite deste domingo (8), o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé*, o cardeal alemão Gerhard Müller, que os conservadores aguardavam como um “trunfo final” contra o Papa, jogou uma pá de cal em suas pretensões. Apoiou Francisco e a Encíclica Amoris Laetitia sobre a família e enterrou a estratégia de contrapor o Papa ao emérito Bento XVI, reafirmando unidade entre eles e dizendo que a iniciativa opera “contra a fé católica”. [Se quiser, veja a íntegra da entrevista em italiano aqui]

Ele descartou por completo a ideia do cardeal americano Raymond Burke e seus três aliados (Walter Brandmüller, Carlo Caffarra e Joachim Meisner) de aplicar uma “correção formal” contra o Papa. “Não haverá nenhuma correção contra o Papa”, afirmou, completando: “Neste momento não é possível um correção ao Papa porque não há nenhum perigo para a fé” –veja aqui a escalada dos conservadores contra Francisco, agora fragilizada com a entrevista do cardeal alemão.

A entrevista foi concedida ao jornalista Fabio Ragona no programa Stanze Vaticane (Aposentos do Vaticano), do canal Tgcom24. O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fez um duro ataque à publicidade que os cardeais deram à sua carta ao Papa com as “dúbia”: “Qualquer um, sobretudo os cardeais da Igreja Romana, têm direito de escrever uma carta ao Papa. Mas, com efeito, me surpreendi porque ela se tornou pública, quase obrigando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não’. Isto não me agrada.”

O jornalista perguntou sobre a estratégia conservadora de opor Francisco e Bento e qual seria a razão da iniciativa persistente. Müller explicou que os dois “são pessoas diversas, com histórias muito diferentes, experiências distintas, pessoas de duas culturas diversas, a cultura latino-americana e a cultura europeia, mas eu penso que é contra a fé católica fazer este contraste entre o papa emérito e o papa atual”, pois ambos são igualmente “dons de Deus para a Igreja”.  ]

O cardeal encerrou a entrevista manifestando seu apoio à Amoris Laetitia: “O Papa pede um discernimento sobre a situação destas pessoas que vivem uma união não regular segundo a doutrina da Igreja sobre o matrimônio, o pede ajuda a estas pessoas para encontrarem um caminho para uma nova integração à Igreja segundo as condições dos sacramento, da mensagem cristã do matrimônio. Porém eu não vejo nenhuma contraposição: or um lado temos a doutrina clara sobre o matrimônio e de outro a obrigação da Igreja de se preocupar com estas pessoas em dificuldades”.

A reação da mídia conservadora ao redor do mundo, na manhã desta segunda, oscila entre o silêncio, ao contrário das fanfarras que estavam desfilando quase diariamente, reportagens discretas que tentam amenizar a contundência do golpe contra a ideia de uma rebelião até a exasperação aberta –um padre escreveu num site ultraconservador brasileiro que a entrevista de Müller é “ABSOLUTAMENTE INACREDITÁVEL!”.

[por Mauro Lopes]

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* A Congregação para a Doutrina da Fé é a sucessora da Santa Inquisição Romana e Universal, ou Santo Ofício, a mais antiga das congregações do Vaticano, instituída em 1542 pelo Papa Paulo II. Originalmente era exclusivamente um de Tribunal para causas de heresia e cisma e, nessa condição, conduziu a Inquisição. Mais adiante, passou a ser responsável pela elaboração do Index dos Livros Proibidos. Com o tempo, passo a ser a responsável pela difusão e defesa da fé católica. O papa emérito Bento XVI foi prefeito desta Congregação e, nessa condição, aplicou punições variadas a dezenas de teólogos que não comungassem da visão conservadora do catolicismo, entre eles Leonardo Boff,  Juan A. Estrada, José María Castillo, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Andrés Torres Queiruga, José Antonio Pagola, Ivone Gebara, Margaret Farley… Com Francisco, a congregação está deixando de ter caráter policialesco-persecutório, mesmo com um conservador como Müller na condição de prefeito.

 

Epifania: Jesus atemoriza os poderosos e desinstala os que se dispõem a ouvi-lo

Papa beija bebê em visita à favela Varginha no Complexo de Manguinhos, no Rio, em 2013. Como os magos, Francisco convoca para irmos ao Cristo onde ele está: na estrebaria, nas favelas, nos campos de refugiados, nas periferias.

No último domingo do Tempo do Natal celebra-se no Brasil e em outros países a solenidade da Epifania[1]. A data tradicional no ocidente acontece em 6 de janeiro; no Brasil, apesar do calendário oficial da Igreja, que a deslocou para o domingo, o povo ainda a mantém no dia original ou ao redor dele, conhecidos como Reisado, Folia de Reis ou Festa dos Santos Reis. No passado e ainda hoje em muitos países e comunidades dava-se o dá-se presentes de Natal em 6 de janeiro.

O Evangelho que é proclamado nas missas relata exatamente a viagem-visita dos Reis Magos (Mt 2,1-12). É sintomático que a descrição do encontro dos peregrinos com Jesus não tome mais que quatro versículos do texto; nos demais oito versículos (2/3) a cena é dominada pelo rei Herodes.

Os magos foram a Jerusalém, para visitar o “rei dos judeus recém-nascido” (v.2) do qual tinham recebido notícia. Foram recebidos por Herodes e sua corte: “Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém.” (v.3).

A expressão “toda a cidade de Jerusalém” referia-se aos judeus da elite que eram, como os ricos atualmente, considerados os únicos cidadãos de pleno direito e, portanto, “a cidade”. Vemos isso em centros urbanos governados por neoliberais como o prefeito João Doria, de São Paulo; quando eles falam da “cidade”, dirigem-se às pessoas que moram nos bolsões de riqueza protegidos da massa de pobres por seguranças privados e pela polícia do Estado. Para Doria e a elite brasileira, a oposição à “cidade” (as “pessoas de bem”, ricas) é o “lixo”, os moradores de rua e a população empobrecida.

Tal elite –Herodes e sua corte, na Israel do tempo de Jesus- é que ficou perturbada com a notícia de que um “rei” havia nascido na periferia (Belém) e não no centro rico; numa estrebaria e não no Hospital Albert Einstein, o mais elitista de São Paulo. O verbo usado por Mateus para explicitar a reação de Herodes foi ἐταράχθη (etarachthē), condição de alguém perturbado, alarmado ou atemorizado.

O medo de Herodes é o medo dos ricos diante da interpelação de Jesus. Em sua homilia na solenidade da Epifania, no Vaticano, na manhã do dia 6, o Papa Francisco foi assertivo:

“E ficou perturbado; teve medo. É aquela perturbação que leva a pessoa, à vista da novidade que revoluciona a história, a fechar-se em si mesma, nos seus resultados, nos seus conhecimentos, nos seus sucessos. A perturbação de quem repousa na sua riqueza, incapaz de ver mais além. É a perturbação que nasce no coração de quem quer controlar tudo e todos; uma perturbação própria de quem vive imerso na cultura que impõe vencer a todo o custo, na cultura onde só há espaço para os “vencedores” e a qualquer preço.

Uma perturbação que nasce do medo e do temor face àquilo que nos interpela, pondo em risco as nossas seguranças e verdades, o nosso modo de nos apegarmos ao mundo e à vida. E Herodes teve medo, e aquele medo levou-o a procurar segurança no crime: ‘Necas parvulos corpore, quia te necat timor in corde – matas o corpo das crianças, porque o temor te matou o coração’ (São Quodvultdeus, Sermo 2 de Symbolo: PL 40, 655).”

O medo de Herodes diante de um bebê que revolucionasse a ordem estabelecida foi a mola propulsora de seu ato seguinte, conforme Francisco: o massacre dos bebês de Belém (“matas o corpo das crianças”), do qual Jesus só escapou porque seu pai levou-o e à mãe ao exílio no Egito (Mt 2,13-18).

Escreveu o teólogo José Antonio Pagola sobre o medo-pânico do rei assentado no trono pela potência da época, Roma: “Herodes e a sua corte representam o mundo dos poderosos. Vale tudo, nesse mundo, desde que assegure o próprio poder; o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale, inclusive, a crueldade, o terror, o desprezo do ser humano e a destruição dos inocentes. Parece um mundo grande e poderoso, apresenta-se como defensor da ordem e da justiça, mas é débil e mesquinho, pois termina sempre procurando o menino ‘para matar’”.[2]

Por mais que se divirtam em festas faustosas, viagens “de sonho”, mansões, iates e banquetes, os ricos e poderosos nunca têm paz. Temem o Menino, temem a Menina, temem que os pobres descubram o Reino prometido por Jesus, um projeto de vida em plenitude já.

Há um paralelismo entre o episódio de Herodes e a morte de Jesus –e o momento que vivemos no Brasil e no mundo, hoje.

O rei, nomeado pelo império romano, e a elite da época apavoraram-se com a novidade do Bebê, libertador e massacraram os bebês de Belém; Jesus salvou-se indo para o exílio e retornou a Israel para sua missão.

Anos depois, a elite judaica e os invasores romanos, apavorados diante de um Homem libertador, mataram-no e ordenaram o massacre não mais dos bebês, mas dos homens e mulheres que ouviram sua Palavra e O seguiram; mas ele retornou dos mortos, para tornar-se o Vivente libertador.

Séculos depois, as elites do império e de seus satélites como o Brasil, inclusive a elite religiosa, sentindo-se ameaçada pelo Vivente libertador anunciado por Francisco e tantos franciscos e franciscas de todos os quadrantes promovem massacres de toda sorte: bebês, mulheres, indígenas, negros, gays, refugiados, encarcerados, moradores das ruas, pobres mobilizados na defesa de seus direitos e seus amigos e amigas.

O Bebê não foi apenas acusação dirigida aos poderosos e adoradores da cultura do “vencer a todo custo” a qual se referiu o Papa. Foi também uma interrogação, um convite à desinstalação daqueles e daquelas que decidem colocar-se a caminho. É o que disse Francisco na mesma homilia:

“Como justamente reconheceu um Pai da Igreja, os Magos não se puseram a caminho porque tinham visto a estrela, mas viram a estrela porque se tinham posto a caminho (cf. João Crisóstomo). Mantinham o coração fixo no horizonte, podendo assim ver aquilo que lhes mostrava o céu, porque havia neles um desejo que a tal os impelia: estavam abertos a uma novidade.

Os Magos nos dão, assim, o retrato da pessoa que acredita, da pessoa que tem nostalgia de Deus; o retrato de quem sente a falta da sua casa: a pátria celeste. Refletem a imagem de todos os seres humanos que não deixaram, na sua vida, anestesiar o próprio coração.

Esta nostalgia santa de Deus brota no coração que acredita, porque sabe que o Evangelho não é um acontecimento do passado, mas do presente. A nostalgia santa de Deus permite-nos manter os olhos abertos contra todas as tentativas de restringir e empobrecer a vida. A nostalgia santa de Deus é a memória fiel que se rebela contra tantos profetas de desgraça. É esta nostalgia que mantém viva a esperança da comunidade fiel que implora, semana após semana, com estas palavras: ‘Vinde, Senhor Jesus!’.”

O Bebê inaugurou um novo reino, um novo tempo na terra. Aderir ao Reino significa segundo Boff em seu “Jesus Cristo libertador” uma dupla desinstalação, uma dupla revolução: 1) “Reino de Deus atinge primeiro as pessoas. Delas se exige conversão. Conversão significa: mudar o modo de pensar e agir no sentido de Deus, portanto revolucionar-se interiormente”; 2) “A pregação de Jesus sobre o Reino de Deus (…) atinge também o mundo das pessoas como libertação do legalismo, das conversões sem fundamento, do autoritarismo e das forças e potentados que subjugam o homem”.[3]

A Epifania é um bom teste de critério sobre sua espiritualidade, sua religião e Igreja: se o Bebê atemorizar os ricos e poderosos e desinstalá-lo de seu conforto, é Jesus Cristo. Se for condescendente com os ricos, deixá-lo anestesiado em relação ao sofrimento dos pobres e sustentar suas seguranças, sinto muito, mas você caiu no conto do vigário, do pastor, do padre, do bispo ou de si próprio: não é Jesus.

[por Mauro Lopes]

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[1] Epifania ou Teofania é um momento manifestação de Deus aos homens. No cristianismo ocidental, a visita e adoração dos Reis Magos a Jesus bebê é interpretada como manifestação primeira da Presença de Deus entre os homens; no oriente a Epifania tem como referência o Batismo de Jesus por João Batista (Lc 3,15-22)  que o cristianismo ocidental também considera como momento epifânico, assim como a transformação da água em vinho nas bodas de Caná (Jo 2,1-11). Uma Epifania no judaísmo é a aparição de Deus a Moisés no episódio da sarça ardente (Ex 3, 1-10). Fora do contexto religioso, uma epifania é o momento exato em que alguém sente que descobriu algo ou finalmente entendeu o significado de alguma coisa que lhe era oculto ou lhe escapava. Um momento clássico de epifania é a expressão “Eureka!” que a tradição atribuiu a Arquimedes: “A palavra ‘eureka’ foi supostamente pronunciada pelo cientista grego Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C.), quando descobriu como resolver um complexo dilema apresentado pelo rei Hierão. O rei queria saber se uma coroa encomendada ao ourives era de ouro puro ou se haveria algum outro material de qualidade inferior na sua composição. Arquimedes sabia que para isso deveria determinar a densidade da coroa e comparar com a densidade do ouro. O problema complicado era como medir o volume da coroa sem a derreter. Arquimedes descobriu a solução quando entrou numa banheira com água e observou que o nível da água subia quando ele entrava. Concluiu então que para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa em água e calcular o volume de água deslocado, que deveria ser equivalente. Conta-se que ele saiu nu, correndo pelas ruas e gritando eufórico: ‘Eureka! Eureka!’ (Achei! Achei!). O Princípio de Arquimedes  foi como ficou conhecida a descoberta do grande cientista grego.” [na Wikipedia]

[2] Pagola, José Antonio, O caminho aberto por Jesus – Mateus, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 2010, p. 20-21
[3] Boff, Leonardo, Jesus Cristo libertador, Editora Vozes, Petrópolis, 21ª edição, 2012, p. 64 e 72

Uma entrevista histórica de Leonardo Boff

O teólogo brasileiro Leonardo Boff: um novo tempo na Igreja

Leonardo Boff concedeu uma entrevista histórica ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger, publicada em 25 de dezembro de 2016. Segue-se a tradução que recolhi do site católico espanhol Religion Digital, em espanhol, e traduzi livremente.

É preciso lê-la completa. Alguns pontos que destaco: o bastidor da colaboração entre ele e o Papa na redação da encíclica Laudato Sii; a reabilitação da Teologia da Libertação; uma concepção renovada (e ao mesmo tempo ortodoxa) da encarnação de Cristo; a história do encontro frustrado com Francisco; o isolamento dos cardeais rebelados contra o Papa; a possibilidade concreta do diaconato das mulheres e do retorno dos padres casados ​​ao ministério -no caso dos padres, Boff antevê uma experiência exatamente no Brasil, a partir de um pedido dos bispos. Por fim, uma revelação bonita: com autorização e apoio dos bispos, Boff continua a presidir a missa quando está em comunidades sem padres, mesmo casado. Depois de anos e anos de perseguição da Cúria romana e dos conservadores no Brasil, Leonardo Boff continua fiel à Igreja.

Como é a fé em um “Deus da paz” de que nos fala o Natal, em meio à discórdia que experimentamos em toda parte?

A maior parte da fé é promessa. Ernst Bloch diz: “O verdadeiro Gênesis não acontece no início, mas no final, e seu começo é quando a sociedade e a existência são radicais.” A alegria do Natal é esta promessa: a terra e as pessoas não estão condenadas eternamente a viver como nós vemos agora – todas as guerras, a violência, o fundamentalismo. A fé nos promete que, ao final, tudo vai ficar bem: que, apesar de todos os erros e contratempos teremos um bom final. O verdadeiro significado do Natal não é que “Deus se fez homem”, mas que Ele veio para nos dizer. “Você, seres humanos, pertencem a mim e quando vier a morte vocês voltarão para casa” [a mim, editor deste Caminho pra Casa, este é um trecho que causou funda emoção, pois é este mesmo o espírito que levou ao nome deste blog]

O Natal significa então que Deus vem nos buscar?

Sim. A encarnação significa que algo em nós é divino e imortal. O Divino está dentro de nós. Em Jesus, isso demonstrou-se mais claramente. Mas está em todos os homens. Em uma perspectiva evolutiva Jesus não veio do exterior ao mundo, mas cresce a partir dele. Jesus é a manifestação do divino em evolução – mas ele não é o único. O Divino também aparece em Buda, Mahatma Gandhi e outras grandes figuras religiosas.

Isso não soa muito católico.

Não diga isso. Toda a teologia franciscana da Idade Média compreendia Cristo como parte da criação, não apenas como o redentor da culpa e do pecado, que vem de fora do mundo. Encarnação é redenção, sim. Mas, acima de tudo, é uma celebração, uma divinização da criação. E outra coisa é importante no Natal: Deus aparece sob a forma de uma criança. Não como um velho de cabelos brancos e barba branca longa …

Então, como você? …

Nada disso, eu me pareço mais com Karl Marx. No que me concerne: quando nós terminamos nossas vidas e devemos responder ao juiz divino, então estamos diante de uma criança. Uma criança não condena ninguém. Uma criança que quer brincar e estar com os outros. Precisamos voltar a sublinhar este aspecto da fé.

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No feminino repousa a esperança para 2017

O assassinato de Luiz Carlos Ruas e as três Marias: no alto, Raíssa, a travesti que escapou da morte e Maria Souza, a esposa; abaixo, Maria de Fátima, a irmã

A Igreja Católica celebra em todo primeiro dia do ano a solenidade de Maria, mãe de Deus -e é um paradoxo que numa instituição ainda hoje tão misógina (que tem aversão ao feminino) uma mulher ocupe o centro da liturgia que abre um novo tempo; nas missas, o Evangelho de Lucas descreve a cena da visita dos pastores à mãe, ao pai e ao Bebê e o relato que fizeram da aparição do anjo, que lhes proclamou haver nascido o Esperado (Lc 2,16-21).

Eles, os pastores, eram figuras marginais na sociedade judaica, desprezados, alguém como os vendedores ambulantes de hoje; eram tidos como impuros, pois passavam o tempo nos campos em meio a animais imundos, assim com os vendedores ambulantes de hoje que passam o dia em meio à fuligem e à brutalidade das ruas; eram os moradores do campo, assim como hoje há os moradores das ruas.

Talvez houvesse no grupo que visitou a pequena família há mais de dois mil anos um pastor de nome Luiz Carlos Ruas, o pastor-ambulante assassinado a pancadas na estação do metrô em São Paulo em 25 de dezembro de 2016. Um pastor-ambulante que ousou defender uma travesti moradora de rua, esta a última dentre últimas da sociedade.

Há um centro silencioso na cena do Evangelho: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19).

Há igualmente um centro silencioso na cena da morte de Luiz Carlos Ruas: três Marias, como a mãe do Bebê. Maria Souza Santos, que foi casada com Luiz por 33 anos; Maria de Fátima Ruas, sua irmã; e Raíssa, a travesti perseguida pelos assassinos, que teria sido morta se não fosse a coragem do pastor-ambulante.

O feminino guarda todos estes fatos, medita sobre a violência e contempla a esperança em seu no coração.

O menino nasceu, o homem morreu; os braços que os acolheram, os olhos que contemplaram e choraram são femininos. Maria, a de Jesus, como as Marias de Luiz Carlos Ruas, iria dobrar-se, anos depois do nascimento em Belém, sobre o corpo do filho igualmente assassinado, ambos –Jesus e Luiz- com uma coroa de pancadas cravada na cabeça.

2016 encerra-se sob o signo da violência de um sistema machista, misógino, homofóbico.

Ano em que homens com ódio e medo do feminino, em sua fixação por poder/dinheiro, destruíram a democracia (palavra feminina) com um golpe de Estado no Brasil para depor uma mulher; e liquidaram sociedades tradicionais em vários cantos do planeta, obrigando milhões a abandonarem suas casas para migrarem, numa política deliberada de extermínio que atingiu homens fragilizados e, sobretudo, mulheres, crianças e homossexuais.

A morte de Luiz Carlos Ruas é a expressão cruel e individual do drama de um país e um planeta aterrorizado pela violência do macho. Em sua vida/morte, estão condensados de maneira concreta/profética todos aqueles e aquelas que são as vítimas: negro, conhecido como Índio, com a sensibilidade e o abraço típicos do feminino, cidadão e amigo das pessoas das Ruas, respeitoso e solidário com gays, travestis, trans, crianças, doentes. Todas as gentes de Jesus.

Neste ano houve uma pequena luz: o despertar de um novo protagonismo do feminino. Marias e Raíssas assumiram a liderança nas Ruas do Brasil, da Polônia, nos Estados Unidos, Argentina, Palestina, em todo canto onde conseguiram confrontar o machismo-poder.

Marias e Raíssa. Com Luiz Carlos Ruas e todos os homens capazes do feminino: é para elas que se volta a esperança de 2017.

[por Mauro Lopes]