Arcebispo anuncia: decisão do Papa sobre aborto muda Código de Direito Canônico

 

Arcebispo Rino Fisichella:  “a misericórdia de Deus não conhece limites”

O arcebispo Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização no Vaticano e responsável pelo Jubileu da Misericórdia encerrado domingo, anunciou que a decisão do Papa de autorizar todos os padres a concederem o perdão nos casos de aborto implica modificações no Código de Direito Canônico. Ele concedeu entrevista na segunda (21), veiculada pelo Vatican Insider, portal do jornal italiano La Stampa para cobertura do Papa, do Vaticano e da Igreja Católica. Se quiser, leia a íntegra em espanhol aqui (se você clicar pode escolher outra língua de sua preferência). Na mesma entrevista, ele revelou que 21,9 milhões de peregrinos estiveram em Roma durante o Ano Santo.

O Papa oficializou mudança da posição da Igreja sobre o tema do aborto na Carta Apostólica Misericordia et Misera, que ele assinou no domingo e foi divulgada ontem, segunda. Francisco tornou permanente a excepcionalidade concedida aos padres durante o ano do Jubileu da Misericórdia: todos podem conceder o perdão ao pecado do aborto. Logo depois da divulgação da decisão papal, segmentos conservadores da Igreja saíram a público para anunciar que nada mudava.

O arcebispo Fisichella esclareceu, entretanto, que a decisão irá ter impactos diretos sobre o Código de Direito Canônico.

O primeiro e maior deles: deixará de existir no Código o cânone 1398  de “excomunhão latae sententiae” (automática, sem necessidade sequer de comunicação direta aos afetados) para os casos de aborto. “Não existirá mais a excomunhão latae setentiae”, disse o arcebispo, acrescentando que com isso deixa de pesar a pena gravíssima contra a mulher que pratica o aborto, assim como aos médicos, enfermeiras, pai, mãe, marido e todos os eventualmente envolvidos no caso. “O pecado nos toca a todos, então o perdão deve ser abrangente, para todos os atores”. A pena da excomunhão transformava especialmente a mulher numa pária nas comunidades católicas, pois aos excomungados ficam bloqueados os acessos a quaisquer dos sacramentos da Igreja (como a comunhão e o casamento).

Serão realizadas mudanças também nos cânones 1354 a 1357; eles estabelecem que a absolvição nesse caso só poderia ser concedida pelo próprio papa, pelo bispo da diocese ou por um padre expressamente autorizado por um deles.

Segundo Fisichella, o Papa concedeu e incentivou os sacerdotes a “absolver este pecado como sinal concreto de que a misericórdia de Deus não conhece limites, não conhece obstáculos”. Na Carta Apostólica, Francisco foi enfático. Escreveu que a decisão foi adotada para que “nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus” e que o perdão deve ser concedido “não obstante qualquer disposição em contrário”. Portanto, mesmo antes de realizadas formalmente as modificações nos cânones indicados do Código de Direito Canônico, eles já estão revogados.

A relação da Igreja com a mulher e demais envolvidos nos casos de aborto sofre uma mudança radical: foco deixa de ser na condenação dos pecadores e passa a ser no seu perdão e acolhimento.

[por Mauro Lopes]

 

 

 

 

O Papa surpreende de novo e muda posição da Igreja quanto ao aborto

 

O Papa Francisco assinando a Carta Apostólica “Misericordia et Misera”, durante o encerramento do Jubileu da Misericórdia neste domingo (20) na Praça São Pedro, no Vaticano.

Foi divulgada na manhã desta segunda (21) a Carta apostólica Misericordia et Misera, assinada ontem pelo Papa Francisco, no encerramento do Jubileu da Misericórdia. Ele surpreendeu de novo, ao mudar a relação da Igreja com o tema do aborto. O Papa estendeu aos sacerdotes de maneira ilimitada o direito que havia concedido temporariamente durante o Jubileu, de absolver as mulheres que os procurarem, nas confissões, angustiadas por terem feito aborto. A absolvição abrange “a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto”, o que alcança  homens e profissionais de saúde envolvidos com um caso concreto. [Você pode ler a íntegra da Carta aqui ou no fim desta reportagem]

Até antes do Jubileu, de acordo com  o Código Canônico, a mulher que abortasse voluntariamente estava automaticamente excomungada (cânone 1398), “sem sequer que a autoridade competente precise pronunciar-se”, conforme o Catecismo da Igreja (2272, nota explicativa). Isso equivalia a transformá-la numa pária nas comunidades católicas, pois aos excomungados ficam bloqueados os acessos a quaisquer dos sacramentos da Igreja (como a comunhão e o casamento).  A decisão estendia-se a todos os participantes do processo, como médicos, enfermeiras ou parteiras, além do marido, namorado, amante, pai ou mãe da mulher em tela. A absolvição, conforme o Código, só poderia ser concedida pelo próprio papa, pelo bispo da diocese ou por um padre expressamente autorizado por um deles. Conforme a decisão de Francisco, todos os sacerdotes passam a ter liberdade de perdoar, sem necessidade de autorização do bispo ou do próprio papa e passam a desconsiderar “qualquer disposição em contrário”.

O Jubileu da Misericórdia foi decretado pelo papa e prolongou-se entre 8 de dezembro de 2015, na Solenidade da Imaculada Conceição, até ontem na solenidade de Cristo, Rei do Universo, que encerra o Ano Litúrgico da Igreja. .

Além do tema do aborto, o Papa voltou a tocar na questão da família, objeto de um choque violente entre Francisco e um grupo de cardeais conservadores, que contestam a autorização para que casais divorciados em segunda união voltem a comungar. Segundo o Papa, a Igreja “não pode perder de vista a complexidade da realidade familiar atual.” Mesmo sem tocar diretamente no assunto da comunhão dos divorciados, Francisco mais uma vez apontou nesta direção ao escrever que os sacerdotes devem estar atentos para que “toda a pessoa sem exceção, em qualquer situação que viva, possa sentir-se concretamente acolhida por Deus, participar ativamente na vida da comunidade e estar inserida naquele Povo de Deus que incansavelmente caminha para a plenitude do reino de Deus, reino de justiça, de amor, de perdão e de misericórdia”.

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O Papa reage aos conservadores e acusa: há críticas desonestas; querem dividir a Igreja

O Papa enfrenta a Cúria romana durante audiência de Natal em dezembro de 2014 -os confrontos com conservadores agravam-se

O Papa Francisco reagiu com vigor à ofensiva dos cardeais conservadores numa entrevista ao jornal Avvenire  e acusou-os de fazerem críticas desonestas para fomentar a divisão na Igreja e de apegarem-se a um “legalismo” de fundo ideológico. Ela foi concedida ontem, quinta (17) à jornalista Stefania Falasca e veiculada hoje, o que dá a dimensão do sentido de urgência; e foi publicada num “jornal interno” (o Avvenire pertence ao episcopado italiano) o que indica o desejo de aprofundar o debate dentro da Igreja. [Leia a íntegra da entrevista aqui. Traduzi alguns trechos dela ao longo desta reportagem].

Na missa matinal de hoje, na casa na Casa Santa Marta, o Papa continuou a dar o tom na luta que divide a Igreja; a missa foi concelebrada com os secretários dos núncios apostólicos, que são os representantes diretos do Papa nos países ao redor do planeta. Ele questionou-os e, na figura deles, a toda a hierarquia: “Como é a atitude de vocês em relação ao dinheiro? São apegados ao dinheiro?”. E completou: “O coração apegado ao dinheiro é um coração idolatra”. O dinheiro – afirmou o Papa – é “o anti-Senhor”. Este é um tema central para os católicos hoje, pois os conservadores rejeitam a opção da Igreja pelos pobres, definida por Jesus Cristo nos Evangelhos e reafirmada no Concílio Vaticano II (nos anos 1960). O Papa colocou o dedo na ferida, afirmando que as pessoas comuns, os cristãos na comunidade não perdoam um sacerdote “interessado, apegado ao dinheiro”. [Veja a cobertura da Rádio Vaticano à homilia do Papa clicando aqui.]

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Parece o fim dos tempos; mas é possível viver com esperança

Foto de acampamento de sem-teto na noite de 5 de novembro de 2016, na periferia sul de São Paulo. A imagem evoca o Êxodo dos judeus na saída do Egito. Foto: Jornalistas Livres

Há uma sensação que tem se espalhado entre as pessoas, especialmente os pobres, de que “não dá mais”, de que chegamos ao limite. Um travo na boca e um amarrado no estômago de que é o fim dos tempos: concentração de riqueza e espraiamento da pobreza sem precedentes; a brutal crise dos refugiados; os golpes de Estado que sepultam avanços sociais; a violência policial que massacra os jovens, especialmente negros, árabes e refugiados em todo o Ocidente; a agressividade dos ricos que se apropriam de tudo para si, dinheiro, terras, casas, o planeta. Há angústia e, muitas vezes desespero.

É este o tema sobre o qual meditam cristãos católicos no 33º Domingo do Tempo Comum (13 de novembro). Em todo este Tempo, entrecortado pela Quaresma e a Páscoa, rezou-se nas missas o terceiro Evangelho, o de Lucas. É um texto conhecido como o Evangelho dos Pobres e o Papa Francisco chamou a atenção para a sua centralidade neste Jubileu da Misericórdia, ano santo que ele proclamou em dezembro passado e irá encerrar-se na próxima semana. Em todas esses domingos acompanhamos o percurso do profeta Jesus, que os cristãos reconhecem como Deus feito Homem-Compaixão. O Evangelho de Lucas é também conhecido como o Evangelho da Subida a Jerusalém; toda a atividade profética de Jesus transcorre enquanto ele está a caminho a partir das periferias pra o centro religioso, político e econômico de Israel, onde seria preso, torturado e assassinado como um subversivo.

Este domingo é praticamente o fim do Tempo Comum. Depois dele, virá o Tempo do Advento, espera/preparação do Natal, e as leituras nas missas deixam de seguir o roteiro de Lucas. No outro domingo (20), há uma solenidade, Cristo Rei, que marca o encerramento oficial deste ciclo, mas que na verdade é como uma “dobradiça”, que fecha/abre a porta entre os tempos.

Ao encerrarmos o Tempo Comum, Jesus, no roteiro lucano, já chegou a Jerusalém. Rezamos um trecho do capítulo 21 de Lucas, dos versículos 5 a 19; mas na verdade todo ele merece ser meditado. Veja a íntegra do capítulo aqui, que usei da Bíblia na versão dos franciscanos capuchinhos de Portugal ou então no fim deste texto.

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Dilma, Cameron e Hillary: há grande identidade nas três derrotas

Dilma, Cameron e Hillary: rejeição tem motivo comum entre parcelas dos pobres

Escrevo uma interpretação a quente, quando Trump acaba de ser eleito: a derrota de Hillary Clinton, a de Cameron no Brexit e a derrubada de Dilma foram manifestações de um mesmo movimento global que mobiliza milhões de pessoas, que se sentem profundamente atingidas pela financeirização da economia, pela corrupção na política e por um sentimento raivoso de rejeição ao establishment.

A identidade entre os casos do Brexit e de Trump são mais evidentes. Uma fatia expressiva de trabalhadores empobrecidos pela falência do estado do bem-estar social associou seu empobrecimento (corretamente, diga-se) à farra financeira em que se transformou o capitalismo com a hegemonia neoliberal. E responsabilizaram (corretamente, diga-se) os líderes de seus países, os casais Obama e o Clinton, assim como o trabalhista Tony Blair e o conservador David Cameron como protagonistas desta orgia e seus favorecidos diretos, inclusive com a construção de fortunas pessoais invejáveis por sua associação com o sistema financeiro, no caso patente de Blair e Clinton, além de agentes/cúmplices em processos de corrupção no setor público.

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Jesus e seu programa subversivo –as bem-aventuranças

A caminhada do povo que sofre – foto MST

Neste domingo (6), cristãos católicos celebram a solenidade de Todos os Santos –a data original é 1 de novembro, mas há países, entre os quais o Brasil, nos quais ela é deslocada para o domingo seguinte. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que toma os capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil):

“Naquele tempo:
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.”

1.  O que fala Jesus

Uma leitura colada ao texto e ao contexto indicará claramente: a interpretação açucarada que fazem do discurso os segmentos integristas da Igreja Católica, das denominações protestantes e os neopentecostais é em todo falsa e enganadora.

Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto-programa àqueles com os quais desejou caminhar e caminhou efetivamente.

Há um problema relevante nas traduções que são oferecidas nas diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação desta versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema a seguir.

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A íntegra do discurso do Papa no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares

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A íntegra do discurso do Papa no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares
Vaticano, 5 de novembro de 2016

 

“Irmãs e irmãs, boa tarde!

Neste nosso terceiro encontro expressamos a mesma sede, a sede de justiça, o mesmo grito: terra, casa e trabalho para todos.

Agradeço os delegados que vieram das periferias urbanas, rurais e industriais dos cinco continentes, mais de 60 países, que vieram para discutir mais uma vez sobre como defender estes direitos que nos convocam. Obrigado aos Bispos que vieram para vos acompanhar. Obrigado aos milhares de italianos e europeus que se uniram hoje ao final deste encontro. Obrigado aos observadores e aos jovens comprometidos na vida pública que vieram com humildade escutar e aprender. Quanta esperança tenho nos jovens! Agradeço também ao Senhor Cardeal Turkson, pelo trabalho que fez no Dicastério; e gostaria também de recordar a contribuição do ex-Presidente José Mujica, que está presente.

No último encontro, na Bolívia, com maioria de latino-americanos, falamos da necessidade de uma mudança para que a vida seja digna, uma mudança de estruturas; além disto, de como vocês, os movimentos populares, são semeadores desta mudança, promotores de um processo em que convergem milhares de pequenas e grandes ações concatenadas em modo criativo, como em uma poesia; por isto quis vos chamar “poetas sociais”; e temos também elencado algumas tarefas imprescindíveis para caminhar em direção a uma alternativa humana diante da globalização da indiferença: 1. Colocar a economia à serviço dos povos; 2. Construir a paz e a justiça; 3. Defender a Mãe Terra.

Aquele dia, com a voz de uma “papeleira” e de um agricultor, foram leitos, na conclusão, os dez pontos de Santa Cruz de la Sierra, onde a palavra ‘mudança’ era repleta de grande conteúdo, era ligada às coisas fundamentais que vocês reivindicam: trabalho digno para aqueles que são excluídos do mercado de trabalho; terra para os agricultores e as populações indígenas; moradia para as famílias sem-teto; integração humana para os bairros populares; eliminação da discriminação, da violência contra as mulheres e das novas formas de escravidão; o fim de todas as guerras, do crime organizado e da repressão; liberdade de expressão e de comunicação democrática; ciência e tecnologia a serviço dos povos. Ouvimos também como vocês se comprometeram em abraçar um projeto de vida que rejeite o consumismo e recupere a solidariedade, o amor entre nós e o respeito pela natureza como valores essenciais. É a felicidade de “viver bem” aquilo que vocês reclamam, a “vida boa”, e não aquele ideal egoísta que enganosamente inverte as palavras e propõe a “bela vida”.

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Papa condena “internacional do dinheiro”; para ele há o “projeto-ponte dos povos” e o “projeto-muro do dinheiro”

O Papa e discursa no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares

No encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na tarde deste sábado (5) na sala Paulo VI, no Vaticano, o Papa Francisco fez um ataque assertivo ao capitalismo, e disse que o mundo está dividido entre dois projetos: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro.” Leia a íntegra do discurso de Francisco aqui.

Ele defendeu “a destinação universal dos bens” e convocou os movimentos sociais para um projeto de “refundar as democracias” e a não se conformarem a serem “atores secundários, ou pior, a meros administradores da miséria existente”.

Francisco denunciou a “internacional do dinheiro”, usando uma expressão de 1931 de Pio XI, afirmou que os ricos governam o mundo com “o chicote do medo” e que existe um “terrorismo de base que deriva do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade”, acrescentando que “o sistema é terrorista”.

O Papa comparou o tratamento que o sistema capitalista destina aos bancos daquele que é dispensado aos refugiados, que são uma emergência planetária: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo transformou-se em um cemitério e não somente o Mediterrâneo…muitos cemitérios próximos aos muros, muros manchados de sangue inocente.”

Francisco retomou uma formulação de sua Exortação Apostólica Evangelii gaudium (Alegria do Evangelho), de 2013, e afirmou que “enquanto não se resolverem radicalmente os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da iniquidade, não se resolverão os problemas do mundo e definitivamente, nenhum problema. A iniquidade é a raiz dos males sociais”.

Ao final do discurso, Francisco advertiu os movimentos sociais quanto aos riscos da corrupção, mas não tratou do tema de acordo com a lógica conservadora da mídia, do sistema judiciário, empresarial e político brasileiro. Ao contrário, chamou a atenção para a instrumentalização das notícias em torno da corrupção. O Papa afirmou que “como a política não é uma questão dos “políticos”, a corrupção não é um vício exclusivo da política. Existe corrupção na política, existe corrupção nas empresas, existe corrupção nos meios de comunicação, existe corrupção nas Igrejas e existe corrupção também nas organizações sociais e nos movimentos populares. É justo dizer que existe uma corrupção radicada em alguns âmbitos da vida econômica, em particular na atividade financeira, e que é menos notícia do que a corrupção diretamente e ligada ao âmbito político e social. É justo dizer que muito vezes se utilizam os casos de corrupção com más intenções.”

Além disso, o Papa indicou a obrigação dos que “escolheram uma vida de serviço” quanto à necessidade de “viver a vocação de servir com um forte sentido de austeridade e a humildade. Isto vale para os políticos, mas vale também para os dirigentes sociais e para nós pastores.” Francisco apontou que a necessidade de uma vida austera para os líderes dos movimentos sociais não pode se confundir nunca com as políticas de supressão de direitos sociais, como acontece no Brasil hoje: “Disse ‘austeridade’. Gostaria de esclarecer a que me refiro com a palavra austeridade. Pode ser uma palavra equivocada. Austeridade moral, austeridade no modo de viver, austeridade em como levo em frente a minha vida, minha família. Austeridade moral e humana. Porque no campo mais científico, científico-econômico se quiserem, ou das ciências do mercado, austeridade é sinônimo de ajuste. E não é a isto que me refiro. Não estou falando disto.”

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Quer entender 2016? Talvez valha a pena olhar para 1970 e 1972

Foi uma derrota; não uma hecatombe.

A manutenção dos sistemas de dominação depende de renovações sistemáticas do “definitivo”. É da sua própria lógica: para as classes dominantes, é sempre um risco permitir que a história seja lida e interpretada pelos pobres.

Um dos momentos mais emblemáticos dessa tentativa reiterada dos ricos e seus agentes de construção de consensos foi a tese do “fim da história”. Em artigo publicado em 1989 com o título de “O fim da história”, Francis Fukuyama causou furor nas mídias conservadoras ao redor do planeta ao afirmar que o capitalismo e a democracia burguesa constituiriam o coroamento da história da humanidade e que nada haveria depois disso.

Era o momento culminante do neoliberalismo. Reagan estava encerrando seus mandatos (1981-89) e preparando-se para passar o bastão para o “falcão” George Bush; Margareth Tatcher reinava na Inglaterra (1979-90). Enriquecer, liquidar com os sindicatos, promover o capital financeiro… Tudo isso parece novidade criada pela atual onda dos conservadores, mas era o grito da moda de então.

A previsão de Fukuyama  deu certo –para ele. Enriqueceu, mora numa mansão milionária em Palo Alto na Califórnia, mas ninguém dá dois tostões pela tese dele. A história não acabou, como mostraram a crise cambial europeia de 1992/93, a quebra do México (1994), a crise asiática, seguida da crise russa (1997-98), o estouro da bolha da Internet (2000), a crise argentina (2001) e, finalmente, a grande crise no centro do império, em 2008. Como sabemos, há outra vindo, ali na esquina.

Mas as elites insistiam à época que a “prosperidade” neoliberal não teria fim –na verdade, era um colossal processo de concentração de riqueza e alastramento da pobreza e da miséria ao redor do planeta.

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Quando um rico adere a Jesus – os cristãos, os pobres e os ricos

São Francisco de Assis abraça o leproso; como Zaqueu, caminho de empobrecimento

Cristãos católicos aproximam-se do final de seu Ano Litúrgico neste 31° domingo do Tempo Comum –logo mais virá o Advento, tempo de espera da celebração do nascimento do Senhor. A Igreja nos propõe hoje à reflexão a história da relação de Jesus com um dos mais emblemáticos personagens dos evangelhos: Zaqueu (Lc 19, 1-10)

E tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos e muito rico. Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era muito baixo. Então ele correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.” Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria. Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais.” Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.”

Para entender o percurso de Zaqueu, a proposta de Jesus e meditar um pouco sobre a Igreja e o tema da pobreza e da concentração de riqueza, escrevi esta semana um pouco mais longamente e dividindo o assunto em quatros breves “capítulos”.

1. A caminhada do empobrecimento; estar pobre com os pobres – servir a Deus

A Igreja apresenta-nos o relato sobre a conversão de Zaqueu neste 31º domingo num contexto de intensa reflexão sobre os ensinamentos de Jesus a respeito da relação das pessoas com o dinheiro: renúncia dos bens (23º domingo), fraternidade e partilha (24º), a escolha entre Deus e o dinheiro (25º), o rico e o pobre Lázaro (26º), a viúva e o juiz (29º), o fariseu e o cobrador de impostos (30º). Este era um tema central na sociedade judaica, como de resto em todas as sociedades (mais adiante discutirei isso), na vida das pessoas e na espiritualidade ao longo da história do judaísmo e do cristianismo. Toda e qualquer ideia de que esta relação não seria crucial, com um discurso sobre o caráter “espiritual” da religião é mistificadora. A insistência de Jesus em sua pregação e da Igreja em nos apresentar o tema à reflexão-oração de maneira recorrente patenteiam a relevância do assunto -e, no tópico 4 deste artigo restarão evidente as razões de tantas reticências ao redor da conversa aberta sobre dinheiro.

A história de Zaqueu é maravilhosa e plena de complexidades –ao mesmo tempo, direta.

Ele era um cobrador de impostos, rico. Provavelmente tinha ouvido falar daquele profeta famoso no seu tempo e corre a vê-lo quando passa em sua cidade, Jericó. Quando o olhar do cobrador de impostos e o do profeta cruzam-se, numa cena divertida –Zaqueu trepado sobre uma árvore–, a empatia é imediata. Jesus diz-lhe para fazer o que toda pessoa precisa na vida: descer. E convida-se para entrar no coração do pequeno homem, que se converte, na presença do Manso e Humilde num gesto carregado de simbolismo: ergue-se sobre suas contradições. O discurso de conversão (mudança de rumo) e adesão a Jesus não fala de “pecados” de fundo pretensamente moralista nem de “encontros espirituais”. Não: a conversão, a adesão a Jesus é a decisão de radical empobrecimento e seguimento.

O empobrecimento de Zaqueu é o centro da história e é crucial. Setores conservadores da Igreja, seduzidos ao dinheiro (será o tema da quarta parte deste texto) afirmam que Zaqueu não teria empobrecido, porque teria doado aos pobres “apenas” metade de sua fortuna –como se encontrássemos ricos às pencas dispostos a abrir mão de metade de seus bens e renda. Mas ele foi muito mais adiante: “e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (v.8). Ele lança mão de uma prescrição do livro do Êxodo: “Se alguém roubar um boi ou uma ovelha e o abater ou vender, restituirá cinco bois por um boi e quatro ovelhas por uma ovelha.” (Ex 21,37) Era uma pena duríssima a quem não apenas roubasse mas se desfizesse do bem roubado de tal forma a não poder restituí-lo à vítima: quem roubou, por exemplo, 100 reais, deveria devolver 400. Ora, o cobrador de impostos era tido como um ladrão na sociedade judaica, especialmente entre os pobres. Arrancava-lhes o pouco que tinham para sustentar o sistema jurídico-político de Israel e os invasores romanos. Portanto, toda atividade de Zaqueu era um roubo.  Se ele devolveu quatro vezes mais o que roubou, e toda sua fortuna, como de resto, todas as fortunas, era fruto de roubo, a conclusão é obrigatória: ele tornou-se um pobre com os pobres. Jesus acolheu com entusiasmo o gesto raro de um rico: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.” (v. 10).

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