2016: um Natal cercado por sofrimento, dor e perseguição aos pobres

Sagrada Família – Marc Chagall

Há uma ideia corrente segundo a qual o cristianismo cultivaria ilusões quanto à vida e disseminaria uma visão enganadora sobre o caminho da alegria ou felicidade, com o objetivo de manter os mais pobres sob controle, auxiliando o sistema de dominação a manter-se incólume. O ensinamento original de Jesus, o assentamento bíblico da religião e a tradição das primeiras comunidades cristãs desautorizam tal interpretação.

No entanto, muitas concepções e ações  da Igreja institucional ao longo dos séculos, hoje representadas pelos segmentos conservadores do cristianismo, operaram e operam exatamente no sentido da crítica. Boa parte da hierarquia católica e de outras confissões cristãs aliou-se ao longo do tempo e alia-se hoje aos poderosos de plantão; tais segmentos buscam conferir legitimidade à dominação e exploração e assegurar aos ricos o conformismo dos pobres em relação ao status quo, admitindo no máximo a busca de soluções individualistas (a teologia da prosperidade). A religião transforma-se então num verdadeiro salve-se quem puder.

A liturgia da Palavra que será proclamada nas missas da noite de Natal em quase todo o planeta neste 24 de dezembro de 2016 afirma uma visão profundamente realista do cristianismo sobre a vida e assegura que seu projeto de esperança está imerso numa relação  amorosa-compassiva com cada ser humano e toda a humanidade.

Duas leituras constituem o centro da liturgia natalina.

A primeira, tomada de Isaías (Is 9,1-6), anuncia um novo tempo para o povo judeu, com a chegada do Messias. O texto é todo costurado com base na contraposição entre o tempo de opressão e a possibilidade de uma nova época de libertação: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (v.1); neste novo tempo, “o jugo que pesava sobre eles, o bastão posto sobre seus ombros, a vara do opressor, tu os despedaçaste como no dia de Madiã” (v.3); e então o “menino que nos nasceu” (v.5) irá assegurar “o estabelecimento de uma paz sem fim” (v.6), numa era apoiada “sobre o direito e a justiça” (v.6).

A alegria do novo tempo anunciada por Isaías está permeada por uma visão histórica dos anos de sofrimento do povo, com raízes de exploração e opressão muito concretas.

A leitura culminante da noite de Natal dialoga com o trecho de Isaías. É o relato, no Evangelho de Lucas (Lc 2,1-14) do nascimento do Menino anunciado pelo profeta. Relata o nascimento de um bebê nascido em pobreza e enorme fragilidade, pois sua mãe “deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (v.7) –a manjedoura é o tabuleiro onde come o gado nos estábulos. O paralelismo com Isaías é evidente (v.8): na escuridão da noite (como em Isaías), um grupo de pastores (o povo) foi envolvido de luz (viu uma grande luz) e apareceu-lhe um anjo: “Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo” (v.9).

Tanto em Isaías como em Lucas relata-se uma alegria nascida em meio a condições terríveis de opressão e sofrimento e revelada não aos ricos e poderosos, mas aos mais pobres –os pastores estavam à margem da vida social judaica de então, eram gente menosprezada e suspeita.

Trevas e luz, opressão e libertação, sofrimento e alegria –estes são os duplos que marcam o profetismo bíblico e sua culminância, a chegada do Esperado.

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Cesar Kuzma: Francisco incomoda; aparecerão mais divergências

O teólogo brasileiro Cesar Kuzma ao lado do teólogo protestante alemão Jürgen Moltmann

Cesar Kuzma é dos mais expressivos teólogos católicos brasileiros da novíssima geração. Ele concedeu entrevista ao Caminho pra Casa sobre o atual momento da Igreja: a marca do pontificado de Francisco, disse, é a abordagem dos problemas estruturais da Igreja, e isso causa enorme incômodo aos que estavam e ainda estão encastelados. Para o teólogo, equivoca-se quem pensa que polêmica em torno do Sínodo da Família prenda-se ao tema da família ou mesmo à exortação do Papa: “o que se discutiu ali foi o tema da Igreja. Explico: estava em relevo o modelo vigente, fechado em si mesmo e sem qualquer chance de diálogo com as novas realidades e também distante do Evangelho; agora, é o modelo de Francisco, disposto a ouvir e a dialogar com os novos problemas humanos.”

Kuzma é doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde é professor e pesquisador, e presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião). Assessor da Comissão do Laicato da CNBB e do Departamento de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal da América Latina (CELAM). Autor, entre outros, de O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica (2014), um estudo sobre a obra do “teólogo da esperança”, o protestante Jürgen Moltmann, e Leigos e Leigas –força e esperança da Igreja no mundo (2009).

Leia a entrevista:

Caminho pra Casa: Como você vê o cenário na Igreja hoje, com o Papa aparentemente acelerando suas reformas ao mesmo tempo em que aparecem as primeiras divergências explícitas com segmentos da hierarquia?

Cesar Kuzma: O avançar do Pontificado de Francisco tem evidenciado cada vez mais que ele é um Papa de reformas. A sua eleição surge por esta necessidade de mudanças e a renúncia de Bento XVI, que provocou esta eleição, evidenciou que a Igreja enquanto instituição tem problemas estruturais que devem ser tocados e transformados. Francisco assume este papel. Na sua primeira exortação, a Evangelii Gaudium, em 2013, ele diz de início que uma reforma seria inadiável. Ali isto já ficou bem claro. Poderíamos dizer também quanto ao seu nome, Francisco, é um projeto que deve ser buscado por toda a Igreja e que a coloca de modo mais coerente na prática do Evangelho.

Nós já vamos para quatro anos de Pontificado e, desde o início, houve certa inquietação. No início, muito pautada pelo seu modo de ser e de se comportar, depois, na sequência dos fatos, pelas mudanças que vem propondo. O que sinto e observo é que Francisco tem uma visão ampla e faz um bom discernimento de cada situação. Ele não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo. Mas quer lançar pistas e apontar caminhos.

As divergências são normais e vão aparecer cada vez mais. Devemos olhar que elas até nos fortalecem, pois nos fazem ver com mais propriedade a proposta que seguimos e alimentar a nossa esperança em uma aceleração de reformas que Francisco propõe: uma Igreja mais aberta e disposta a acolher a todos na misericórdia, que ninguém seja indiferente a ela e ao amor de Deus; uma Igreja onde se possa falar livremente e com seriedade, com respeito; uma Igreja mais aberta a novas realidades estruturais, tanto da sociedade quanto dela mesma; e, por fim, uma Igreja mais pobre, mais simples e despojada dos poderes do mundo e mais alinhada com o Cristo que segue, um Cristo pobre e sofredor que se faz ver e perceber nos limites da história. Isso recupera uma eclesiologia presente no Concílio Vaticano II e em Medellín, onde ressalto que Francisco é um papa da Igreja latinoamericana.
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Um Deus que só pode ser humano; a humanidade como natureza intrínseca de Deus

Neste 4º Domingo do Advento, às portas do Natal, cristãos católicos escutam na Liturgia da Palavra das missas em todo o planeta uma breve descrição sobre o que o evangelista Mateus chama de “a origem de Jesus Cristo” (Mt 1,18-24):

Maria estava noiva e ficou grávida sem que José e ela tivessem feito sexo. Seu futuro esposo, que era justo (seguidor da Torá-Lei) e compassivo, não fez o que a Lei lhe permitia: denunciar a noiva adúltera publicamente, o que poderia levar a jovem a ser apedrejada; ele decidiu abandonar Maria em segredo. Antes de fazê-lo, entretanto, teve um sonho no qual um anjo lhe disse que ela não o havia traído com outro homem, mas que estava grávida do Espírito Santo, que iria nascer um menino ao qual José poria o nome de Jesus (“Deus salva”, em hebraico); na Israel antiga, era prerrogativa do pai dar o nome aos filhos; o anjo disse ainda que a gravidez de Maria cumpria uma profecia de Isaías (Is 7,14), segundo a qual uma jovem daria à luz um filho com o nome Emanuel (“Deus está conosco”) e que José deveria acolher o menino. José acordou e cumpriu a orientação (em Israel, no Egito, Babilônia, entre os gregos e romanos na Antiguidade os sonhos eram tido como absolutamente prescritivos –séculos adiante, Freud compreenderia que eles são a manifestação de nossos desejos escondidos). José recebeu Maria como esposa, mas se absteve de ter relações sexuais com ela até o parto.

Este relato é a passagem que antecede imediatamente a cena do nascimento de Jesus. Tornou-se tão corriqueiro que não nos damos conta. É, na verdade surpreendente. Durante séculos e séculos os cristãos e mesmo as pessoas que não o são, mas nascidas em sociedades culturalmente marcadas pelo cristianismo, acostumaram-se com a imagem de um “Deus onipotente todo-poderoso vingador e punitivo, um pai com requintes de crueldade, um monarca distante e o Cristo-Rei como sua “representação” na terra.

E quem veio? Que Deus nasceu?

Um bebê.

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“Como Deus comanda” – o impressionante documentário sobre Francisco

O Papa numa tomada da webserie “Como Deus comanda”

Surpreenda-se: “Como Deus comanda”. Um webdocumentário vertical realizado pela produtora italiana 42º Parallelo e que foi ao ar na noite de 11 de dezembro (domingo) na Itália na Sky Atlantic. Abaixo, você poderá assistir a pré-visualização em cinco partes que foi ao ar no site do jornal italiano La Repubblica. 

Há dois trailers disponíveis do documentário. Um deles, tocante, feito com apenas com imagens e fundo musical da visita de Francisco às Filipinas, em janeiro de 2015, quando uma multidão estimada entre 6 e 7 milhões de pessoas participou de uma missa dominical presidida por ele -algo sem precedente. É marvilhoso: assista aqui

O segundo trailer é energia pura.  As imagens do Brasil são quase todas tomadas do Rio de Janeiro da visita papal de 2013 e a trilha musical é o funk Morro do Dendê, interpretado por Menor do Chapa: “Parapapapapapapapapa / Paparapaparapaparaclackbum / Morro do Dendê é ruim de invadir / Nós com os Alemão vamô se divertir / Porque no Dendê, eu vou dizer como é que é / Aqui não tem mole, nem pra DRE / Pra subir aqui no morro até a B.O.P.E. treme / Não tem mole pro exército civil nem pra PM / Eu dou o maior conceito, para os amigos meus / Mas morro do Dendê também é terra de Deus / Fé em Deus, Dj”   É eletrizante, veja aqui. Se quiser, conheça a música na íntegra aqui.

Na maior parte do documentário, utilizam-se trechos de entrevistas do Papa, que se torna, assim narrador das imagens. Mesmo que você não saiba italiano poderá entender o sentido das palavras de Francisco. Há muitas imagens nunca vistas, exceto pela na rede social das pessoas que as gravaram em seus brevíssimos encontros o Papa durante suas viagens ou em Roma. .

As cinco partes levadas ao ar pelo La Repubblica e que você pode ver a seguir são temáticas tanto nas imagens como na locução do Papa: 1) Porque me chamo Francisco, com cenas do anúncio de sua eleição na noite de 13 de maço de 2013 ao povo reunido na Praça São Pedro. Nele, o Papa ressalta a importância do cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes na escolha de seu nome papal; 2) O pároco – com cenas de uma saída sua em Roma, Francisco fala sobre sentir-se como um “papa-pároco”, com proximidade e ligação de intimidade com as pessoas; 3) A raiz do mal – é a única seção em que não há imagens do Papa. Ele fala sobre a guerra, enquanto vemos imagens da Síria; 4) Periferia existencial – imagens dos encontros do Papa com os pobres em suas viagens, enquanto ele fala na locução sobre este tema central no seu papado, a saída da Igreja para as “periferias existenciais”; 5) Não muros, pontes – os refugiados são o tema aqui. Muitas imagens de refugiados, a visita do Papa a Lesbos e, no fim a frase famosa sobre Trump, quando o Papa disse que uma pessoa que constrói muros (o então candidato á Presidência dos EUA defendeu na campanha erguer um muro fechando toda a fronteira entre seu país e o México) e não pontes não pode ser chamada de cristão.)

[por Mauro Lopes]

VEJA OS CINCO EPISÓDIOS veiculados nas redes do jornal italiano La Repubblica:

Episódio 1 – Porque me chamo Francisco

Episódio 2 – O pároco

Episódio 3 – A raiz do mal

Episódio 4 – Periferia existencial

Episódio 5 – Não muros, pontes

Morre dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-profeta do Brasil, “para ver melhor”

Dom Helder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns, profetas da Igreja no Brasil

Morreu no final da manhã desta quarta-feira (28) em São Paulo, cardeal arcebispo emérito de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos. Ele estava internado desde 28 de novembro com uma broncopneumonia. Foi um dos líderes da renovação teológica do Brasil e da América Latina dos anos 1960/70 que levou à criação da Teologia da Libertação. “Morreu um profeta e pastor”, disse o padre Júlio Lancelotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, criada por dom Paulo. O funeral ocorrerá na catedral da Sé, no centro de São Paulo. O teólogo Leonardo Boff, franciscano como dom Paulo, disse que o cardeal “foi ao encontro do Senhor a quem sempre serviu nos pobres e torturados. Foi meu mestre inesquecível. Disse um poeta latino-americano ‘Morrer é fechar os olhos para ver melhor’. É o que ocorreu com o cardeal Arns. Agora vê Deus face a face.” Não é possível olhar para a história do Brasil na segunda metade do século XX sem ver dom Paulo Evaristo Arns. [ao final, 14 fotos marcantes da trajetória de dom Paulo]

Ao lado de dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, dom Antônio Batista Fragoso, dom José Maria Pires e outros, dom Paulo compôs a linha de frente de uma Igreja popular, comprometida com os pobres, os direitos humanos e a luta contra o regime militar brasileiro instalado com o golpe de 1964. Os teólogos formuladores da Teologia da Libertação no Brasil eram interlocutores frequentes de dom Paulo e os demais bispos e cardeais, alguns deles leigos e outros sacerdotes ou religiosos: Carlos Mesters, frei Betto, Leonardo Boff, Ivone Gebara, José Comblin, entre outros.

Em maio de 1966, foi nomeado bispo auxiliar do então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Agnelo Rossi, e a partir de então sua ligação com a maior cidade do Brasil tornou-se profunda. Estimulava a criação de centenas de núcleos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), visitava com frequência os presos da Casa de Detenção e, em 1969, foi designado por dom Agnelo Rossi para acompanhar os frades dominicanos e outros religiosos na prisão. Ao visitá-los e a outros presos, constatou que todos eram torturados –a experiência marcou dom Paulo.

Um ano depois, em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o arcebispo de São Paulo –os dois tiveram uma amizade sólida, que foi decisiva anos depois na defesa de dom Pedro Casaldáliga, perseguido e odiado pelo regime militar brasileiro e pela cúpula conservadora da Cúria romana. Dom Paulo procurou o Papa para interceder por dom Pedro e a resposta de Paulo VI tornou-se famosa: “Mexer com Pedro é mexer com o papa”.

Os militares não gostaram nada da nomeação de dom Paulo, menos ainda quando ele tornou-se cardeal, em 1973, no auge da repressão governamental. Ato contínuo à sua nomeação como cardeal, ele criou Comissão de Justiça e Paz, que funcionava na Cúria Metropolitana e tornou-se o polo de resistência, refúgio, solidariedade e ações legais em defesa de prisioneiros e desaparecidos políticos, seus familiares.

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Combate ao clericalismo é um dos eixos do papado de Francisco

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Criança beija Francisco na Praça São Pedro, no Vaticano

O Papa atacou o clericalismo com contundência nada menos que três vezes nos últimos dias. Na missa da manhã de terça (13) na capela da Santa Marta, no Vaticano, Francisco comparou clérigos católicos (padres, bispos, cardeais) e leigos poderosos nas estruturas eclesiais aos chefes religiosos que perseguiram Jesus até sua morte. A vítima do espírito clerical, assim como foi Jesus, disse o Papa, é o “povo humilde e pobre que confia no Senhor”, “aqueles que são descartados”. São “condenados” e “abusados”, pelo poderoso da Igreja que é sempre “presunçoso, orgulhoso, soberbo”. Francisco ataca o espírito clerical com uma agressividade que reverbera as condenações de Jesus ao clericalismo judaico. Talvez não tenhamos nos dado conta, mas combate ao clericalismo está na origem do atual papado: foi o centro do discurso do então cardeal Bergoglio no colégio de cardeais reunidos para a sucessão de Bento XVI, em 7 de março de 2013, seis dias antes de ser escolhido, e é considerado decisivo para sua eleição. A contundência de Francisco é resultante de um mandato que recebeu de seus eleitores.

No último domingo (11), durante encontro com 180 seminaristas do Pontifício Seminário Regional Pio XI, da Puglia (Itália), o Papa advertiu os futuros sacerdotes: “se tens medo da pobreza, a tua vocação está em perigo!” E voltou ao tema da opção da Igreja pelos pobres, à qual se opõe o clericalismo: “Um sacerdote que se separa do povo não é capaz de dar a mensagem de Jesus. Não é capaz de dar o carinho de Jesus às pessoas”. [a íntegra do discurso foi distribuída pelo Vaticano apenas em italiano, aqui]

Antes, na missa matinal do dia 9 (sexta-feira), Francisco havia advertido os sacerdotes a serem “mediadores do amor” de Deus e não “intermediários que pensam somente no próprio interesse”. O Papa vinculou o clericalismo ao conservadorismo rigorista e ao afastamento do povo: “Mas para fazerem-se importantes, os sacerdotes intermediários seguem pelo caminho da rigidez: tantas vezes, separados das pessoas, não sabem o que é a dor humana;  perdem aquilo que haviam aprendido em suas casas, com o trabalho do pai, da mãe, do avô, da avó, dos irmãos… Perdem estas coisas. São rígidos, aqueles rígidos que largam sobre os fieis tantas coisas que eles não carregam, como dizia Jesus aos intermediários de seu tempo. A rigidez. Chicote em mãos com o povo de Deus: ‘Isto não pode, isto não pode…’. E tantas pessoas que se aproximam buscando um pouco de consolação, um pouco de compreensão, acabam expulsas com esta rigidez”. [veja aqui a cobertura da Rádio Vaticano]

Clericalismo é a doutrina e maneira como se organiza em boa medida a Igreja Católica, segundo a qual os membros da hierarquia (cardeais, bispos, padres e uma elite de leigos, em geral ricos) como o centro da vida do catolicismo. É a doutrina que informa o pensamento conservador na Igreja. Na base da Igreja vive-se esta distorção apontada pelo Papa como uma relação de reverência e temor dos fiéis pelo padre (relação que se reproduz hierarquia acima), que passa a ser o “proprietário” da paróquia.

O combate ao clericalismo é um dos centros do pontificado de Francisco e o principal tema de seu embate com a hierarquia católica (leia reportagem recente sobre isso aqui no blog clicando aqui). Na missa da manhã de terça, o Papa disse que há um “espírito do clericalismo”, segundo o qual  “os clérigos se sentem superiores, se afastam das pessoas, não têm tempo para escutar os pobres, os que sofrem, os presos, os doentes”. O afastamento dos pobres e da vida pobre assim como a fascinação pela riqueza e a aparente rigidez moral são as característica que marcam o clericalismo, segundo as diversas manifestações de Francisco.

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O Papa com seminaristas em 11 de dezembro: ““se tens medo da pobreza, a tua vocação está em perigo!”

Francisco chegou a endereçar aos “seduzidos pelo clericalismo” a mesma advertência que Jesus, no Evangelho do dia (Mt 21,28-32), dirigiu aos sacerdotes judeus: “’Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (v.31). Disse o Papa: “O mal do clericalismo é uma coisa muito feia! É uma nova edição desta gente. E a vítima é a mesma: o povo pobre e humilde, que tem esperança no Senhor. O Pai sempre procurou se aproximar de nós: enviou seu Filho. Estamos esperando, uma espera alegre e exultante. Mas o Filho não entrou no jogo desta gente: o Filho foi com os doentes, os pobres, os descartados, os publicanos, os pecadores – é escandaloso isso… – as prostitutas. Também hoje Jesus diz a todos nós e também a quem está seduzido pelo clericalismo: ‘Os pecadores e as prostitutas entrarão primeiro no Reino dos Céus’”. [se quiser, leia aqui a cobertura da Rádio Vaticano]

COMO COMEÇOU E EVOLUIU COMBATE DO PAPA AO CLERICALISMO

O Papa começou a tratar do tema do clericalismo antes mesmo de sua eleição. Houve um famoso discurso de pouco mais de 3 minutos aos cardeais durante o processo eleitoral, na congregação geral de 7 de março de 2013 (ele seria eleito em 13 de março), que foi considerado crucial para que ele fosse escolhido. Parte deste discurso acabou vindo a público a partir das anotações do cardeal arcebispo de Havana, Jaime Lucas Ortega y Alamino –que se tornaria uma peça-chave no papado de Francisco na evolução da relações entre a Igreja e o governo cubano e nas negociações para o fim do bloqueio americano (a divulgação foi autorizada por Francisco, o que lhe conferiu ainda mais veracidade).

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Nossa Senhora de Guadalupe: Papa condena ‘sociedade da desconfiança’, exclusão e violência contra mulheres

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O Papa Francisco durante a missa na festa de Nossa Senhora de Guadalupe nesta segunda-feira, no Vaticano

O Papa presidiu missa na Basílica Vaticana na tarde desta segunda (12), na festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do México e das Américas. Em sua homilia, Francisco condenou a dinâmica de exclusão que marca da vida dos pobres no continente americano, e a “sociedade da desconfiança”. [ao final, está a íntegra da homilia, em espanhol]

Ele foi especialmente enfático na denúncia da violência contra as mulheres na região, utilizando-se de um trecho do Documento de Aparecida, aprovado na conferência dos bispos da América Latina e Caribe, em 2007: apontou “a situação precária que afeta a dignidade de muitas mulheres. Algumas delas, desde crianças e adolescentes, são submetidas a múltiplas formas de violência dentro e fora de casa”.

A devoção da Nossa Senhora de Guadalupe é extremamente popular no México e disseminada na América Latina e entre os hispânicos nos Estados Unidos. A história de suas aparições em 1531 exatamente a um indígena, Juan Diego Cuauhtlatoatzin, da tribo Nahua, simboliza esta conexão com os povos originários, dizimados em todos os países do continente e com as populações pobres da região.

Este foi o espírito com o qual Francisco “costurou” sua homilia, chamando a atenção para os moradores de rua, para os superexplorados em trabalhos clandestinos ou nas esquinas do continente: “Como é difícil exaltar a sociedade do bem-estar quando vemos que o nosso querido continente americano se acostumou a ver milhares e milhares de crianças e jovens de rua mendigar e dormir em estações de trem e metrô, ou em qualquer lugar que encontram. Crianças e jovens explorados em trabalhos clandestinos ou obrigados a procurar trocados nas esquinas, limpando vidros dos carros e sentindo que não há lugar para eles no ‘trem da vida’”.

Para o Papa, a “sociedade da desconfiança” está marcada “pelos símbolos da divisão e da fragmentação” deixando de lado “especialmente aqueles a quem se faz difícil de alcançar o mínimo para conseguir levar adiante sua vida com dignidade”.

A polarização entre o consumismo e a fascinação das elites americanas com os avanços tecnológicos (basta ver o frenesi em torno de cada nova geração de smartphones) enquanto prossegue insensível ao sofrimento foi tema de Francisco: “Uma sociedade que se vangloria de seus progressos científicos e tecnológicos, mas que é cega e insensível excluídos, frente aos rostos dos que caem pelo caminho, excluídos pelo orgulho que cega uns poucos”.

O Papa voltou a mencionar o Documento de Aparecida para apontar a esperança como caminho diante das duríssimas condições de vida no continente: “Celebrar a memória de Maria é afirmar, contra qualquer previsão, que ‘no coração e na vida de nossos povos bate um forte sentido de esperança, não obstante as condições de vida, que parecem ofuscá-la’”.

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Jesus revela-se por suas ações amorosas e não por dogmas ou condenações

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Jesus toca o olho do cego e o cura – ícone grego

Quem somos? Como somos? Qual a expressão de nosso ser? São estas questões cruciais para cada pessoa e toda a humanidade ao longo da história que Jesus responde no 3º Domingo do Tempo Comum ao ser questionado pelos discípulos de João, o Batista.

O trecho do Evangelho que os cristãos católicos escutarão nas missas (Mt 11,2-11)  refere-se ao encontro de Jesus com alguns seguidores de João. O profeta havia sido preso por ordem de Herodes e, da prisão, ao saber tudo o que Jesus fazia, enviou alguns do seu círculo com uma pergunta: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?”. A resposta de Jesus: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.” (v. 5-6).

A resposta é fenomenal.

Diante da pergunta dos discípulos de João sobre quem era ele, se era o Messias, Jesus revela-se afirmando que: 1) estava curando e  2) anunciando a boa notícia aos pobres (a expressão que os pobres “são evangelizados” é tradução direta do grego euangelizontai, εὐαγγελίζονται, e significa que aos pobres estava sendo anunciada a boa nova, a boa notícia -evangelho).

Antes de examinar o que Jesus disse, vale a pena indicar o que ele não disse –tão importante quanto ou ate mais o que ele não expressou.

À luz do que fizeram com sua Palavra ao longo dos séculos, seria possível pensar em duas respostas:

  1. “Ide contar a João que eu sou o Filho de Deus, que sou uma das Pessoas da Trindade, que vim ao mundo para expressar a glória de Deus e fundar sua Igreja, assentar os alicerces de uma nova religião.” – mas ele não disse isso.
  2. “Ide contar a João o que estais vendo e ouvindo: estou condenando os pecadores, maldizendo os gays, excomungando as mulheres que abortam, impedindo os divorciados de se aproximarem de mim (comungarem).” – mas ele não disse isso.

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Ultraconservadores abrem campanha contra arcebispo de BH

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte, sob ataque dos conservadores

As diretrizes sobre a família contidas no Projeto de Evangelização Proclamar a Palavra – Diretrizes da Ação Evangelizadora da Arquidiocese de Belo Horizonte 2017-2020, lançadas nesta quinta (8) durante a solenidade da Imaculada Conceição, despertaram a fúria de setores ultraconservadores do catolicismo, que iniciaram uma campanha contra o arcebispo dom Walmor Oliveira de Azevedo, acusando-o de “disseminar a ideologia de gênero”.

O texto da Arquidiocese é uma expressão avançada sobre a família a partir do Sínodo de 2014/2015 e claramente inspirada na exortação pós-sinodal Amoris Latetitia (A Alegria do Amor), do Papa Francisco. Os trechos estão mobilizando os ultraconservadores, a partir de reportagens dos sites InfoCatolica (espanhol) e Fratres in Unum (brasileiro) são:

O Matrimônio, no qual mulher e homem procuram, segundo a graça de Deus, corresponder ao mais profundo de sua vocação, tem valor para a Igreja e para a sociedade, e não restringe a compreensão da existência de outras configurações familiares, oriundas de situações sociais, culturais, econômicas e religiosas diversas. Compreende-se, então, que a família é a união das pessoas na consciência do amor “cuja força […] reside essencialmente na sua capacidade de amar e ensinar a amar” (cf. Papa Francisco, Amoris Laetitia, n.53), constituindo um núcleo fundamental das sociedades. Como Igreja doméstica, a família precisa ser, constantemente, valorizada nas suas particularidades e pluralidades, que enriquecem a Igreja. Por isso, devemos:

a) Valorizar, com empenho evangélico e pastoral, a potencialidade humana de formar e viver em família, percebendo a instituição familiar como o primeiro lugar para a experiência de evangelização e do despertar da fé;

b) Promover ações pastorais capazes de dialogar e de acolher todas as famílias, em suas mais diversas configurações, com respeito e zelo, a fim de que elas se sintam pertencentes, de fato, à comunidade que edificam com seu testemunho de amor. Cuide-se para que essa perspectiva inclua, também, os casais de novas uniões, os casais de não casados na Igreja, os divorciados, ofertando a todas essas famílias qualificado serviço de acolhimento. Atente-se para que, nesse mesmo horizonte, sejam acompanhadas as pessoas em suas diferentes identidades sexuais (gays, transexuais, lésbicas, travestis, transgêneros e bissexuais).

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Reforma da Previdência garante aposentadoria de R$ 250 mil mensais de Meirelles

Brasília- DF15-06- 2016 Ministro Henrique Meirelles durante coletiva depois da reunião de líderes no plnalto. Foto Lula Marques/Agência PT
Henrique Meirelles está satisfeito. Foto Lula Marques/Agência PT

Como sabem meus amigos, não sou economista. Ou as coisas complexas da economia podem ser explicadas em linguagem acessível aos mortais comuns ou eu não entendo nada. Por isso demorei a compreender, mas agora está bem claro para mim e creio que ficará para você também se, como eu, estava com dificuldade de se localizar nessa balbúrdia que o governo e a imprensa armaram: a reforma da Previdência está sendo feita unicamente para garantir que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, continue a receber sua aposentadoria de mais de R$ 250 mil mensais (isso mesmo, duzentos e cinquenta mil reais mensais) do Bank of America Merrill Lynch  –o valor foi revelado pelo senador Roberto Requião dias atrás .

Está bem, é um exagero. Não é para garantir apenas a aposentadoria de Meirelles. É para garantir a dele, a do Ilan Goldfajn, atual banqueiro-presidente do BC, a de altos executivos dos bancos e empresas em geral, a de Miriam Leitão, a do Carlos Alberto Sardenberg e de todos esses que defendem com ardor a reforma da Previdência Social. Eles fazem a maior cena de preocupação com o país, mas estão mesmo é defendendo o deles e, para isso, assaltando os milhões de pobres do Brasil, desta e das próximas gerações.

Esses todos, de Meirelles a Leitão, que têm seus fundos de pensão privados, estão aliados com Temer, que se aposentou aos 55 anos e ganha só dos cofres do Estado de São Paulo R$ 30 mil por mês e com todos os senadores, deputados, juízes, promotores, procuradores e altos funcionários do aparelho de Estado, que têm aposentadorias especiais equivalentes à de Temer –afinal eles são todos muito “especiais”, não é?

Mas o assunto deste breve artigo não é essa malta que com suas aposentadorias especiais sangra os cofres públicos diretamente em detrimento de milhões de brasileiros. Vamos falar sobre Meirelles –e os seus.

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