O Papa errou no caso dos abusos no Chile; volta a errar ao falar de família

Tenho tanta identidade, carinho e admiração pelo Papa Francisco que nossa relação não pode ter outro caminho que não seja o da sinceridade. Nunca estive com Bergoglio, nem ele nunca ouviu falar de mim. Mas há um laço profundo que nos une. Por isso, volto a escrever, com o coração partido, como o fiz em janeiro último: Francisco errou. [O que escrevi em janeiro está aqui e aqui]:

Errou em janeiro em sua visita ao Chile, quando esteve ao lado da apodrecida hierarquia da Igreja chilena que, modelada por João Paulo II, foi servil a Pinochet e encobriu por décadas os padres criminosos, abusadores de crianças.  Francisco errou e teve a grandeza de reconhecer seu erro e, com isso, cresceu em estima e admiração em todo o mundo.

No mesmo espírito, volto a escrever. O Papa errou mais uma vez. Ao fazer um discurso (improvisado, o que serve como atenuante) para o Fórum Italiano das Associações familiares, em 16 de junho, Francisco apresentou uma definição de família que em nada fica a dever ao pensamento conservador mais atrasado no catolicismo em particular e no cristianismo em geral. Uma definição que des-humaniza o sentido da família. O que disse o Papa:

“Hoje — dói dizê-lo — fala-se de famílias ‘diversificadas’: diferentes tipos de família. Sim, é verdade que o termo ‘família’ é uma palavra analógica, porque se fala da ‘família’ das estrelas, das ‘famílias’ das árvores, das ‘famílias’ dos animais… é uma palavra analógica. Mas a família humana como imagem de Deus, homem e mulher, é uma só. Única.” [aqui a íntegra do discurso]

As palavras do Papa feriram profundamente milhões e milhões de pessoas que em todo o planeta integram famílias que fogem do padrão “homem e mulher”. A frase é terrível, porque, como fazem os fundamentalistas, atribui tal conformação familiar a uma projeção exata da “imagem de Deus”, como se o Eterno pudesse ser reduzido a uma dimensão particular, momentânea e parcial do fenômeno humano.

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Frei Betto: ao contrário do que dizem, Igreja já admitiu o aborto

A campanha das mulheres argentinas a favor da legalização do aborto

Uma das maiores referências da Igreja brasileira e latino-americana, o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto, escreve sobre o aborto de maneira aberta e sensível e desmonta o universo de mentiras, preconceito e desumanização ao redor do tema.

Ele explica que, ao contrário do que afirmam os católicos conservadores, “a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez”.

Ele desmascara a falsidade que se esconde na campanha agressiva da direita política e religiosa contra o direito ao aborto: “Por que alguns se opõem de maneira tão violenta ao debate sobre a descriminalização do aborto? Não se trata dos mesmos setores que proíbem a educação sexual nas escolas, defendem a ‘escola sem partido’ e a pena capital, e aplaudem a eliminação sumária de supostos bandidos e traficantes? Ora, para tais setores, a descriminalização do aborto poderia trazer à tona o que se passa entre executivos e secretárias, entre patrões e empregadas, além do risco de ter que dividir a herança com o filho bastardo. A morte clandestina no ventre elimina qualquer risco à propriedade e à imagem pública do proprietário. Para este, aliás, não há ilegalidade nesta matéria. Basta embarcar a gestante para um país que não criminaliza o aborto, e tudo estará resolvido de acordo com a lei”.

Sua proposta é uma abordagem humanizada sobre o assunto, que considere com equilíbrio os direitos da mulher e do embrião:

Enxergar com generosidade que “o feto é uma espécie de subproletário biológico. Tão reduzido à sua impotência, que não tem como protestar ou rebelar-se”.  

E, ao mesmo tempo, um olhar humanizado à mulher: “É a defesa do sagrado dom da vida que levanta a pergunta se é lícito manter o aborto à margem da lei, pondo em risco também a vida de inúmeras mulheres pobres que, na falta de recursos, tentam provocá-lo com chás, venenos, agulhas ou a ajuda de curiosas, em precárias condições higiênicas e terapêuticas”.

A legalização do aborto deve ser vista num contexto social de solidariedade no qual “deve-se assegurar o direito à vida do embrião e amparo moral, psicológico e econômico à gestante, bem como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário”.

(Mauro Lopes)

Por Frei Betto

Ao contrário do psicanalista ou da psicóloga que se depara com o drama de mulheres que abortaram, como religioso tenho sido solicitado por aquelas que, diante de uma gravidez indesejada, sofrem a atroz angústia da dúvida. E raramente elas chegam acompanhadas por seus parceiros – o que não deixa de ser um preocupante sintoma.
É espantoso que, às portas do século XXI, haja questões tão sérias, como o aborto, que ainda são consideradas tabus indiscutíveis. O capitalismo erotiza a cultura, através da reificação das relações humanas subjugadas aos imperativos do consumo, e por isso mesmo mantém a censura em torno do tema da sexualidade.
Para o sistema, que depende da exacerbação do imaginário coletivo, só é real o que não é racional. Seria inquietante se, por exemplo, os movimentos feministas começassem a questionar o uso da mulher na publicidade. Pelo mesmo motivo, impede-se que nas escolas se trate de questões de gênero e de educação sexual (quando muito, há aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis).
Devo acrescentar que lamento as dificuldades que a Igreja impõe à discussão em torno do aborto. Se a Teologia é o esforço de apreensão racional das verdades de fé, o teólogo tem, por dever de ofício, de se manter aberto a todos os temas que dizem respeito à condição humana, mormente quando encerram implicações morais. Aquilo sobre o qual ninguém fala ou escreve, não existe – diz um personagem de Érico Veríssimo em Incidente em Antares.
Por isso mesmo, as instituições autoritárias preferem cobrir de silêncio questões polêmicas que refletem incomensuráveis dramas humanos. A própria Constituinte evitou o tema, preferindo adiá-lo para as leis complementares. Embora eu seja contra o aborto, admito a sua descriminalização e sou plenamente a favor da mais ampla discussão sobre o assunto, pois se trata de um problema real, grave, que afeta a vida de milhares de pessoas. Desconfio, entretanto, que há algo de verdade neste provérbio feminista: Se os homens parissem, o aborto seria um sacramento.

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O Papa e seu afeto por Lula – a Igreja do Brasil e a mídia conservadora

Em espanhol, a mensagem manuscrita do Papa diz: “A Luiz Inácio Lula da Silva com a minha bênção, pedindo-lhe para orar por mim, Francisco”.

O Papa repete seu gesto de preocupação e afeto por Lula, maior líder político católico da história brasileira; mas a CNBB e a mídia conservadora ignoram. Esta, porque é a porta-voz dos ricos que odeiam Lula; aquela, por covardia

Por Mauro Lopes

Nem o serviço brasileiro do Vaticano (Vatican News) nem o site da CNBB registraram a visita de Celso Amorim ao Papa, o fato de ele ter recebido o livro de Lula e as declarações de Francisco, preocupado Lula e com o que chamou de “golpes de luvas brancas” na América Latina.
Por sinal, até agora, o Papa fez dois gestos concretos na direção de Lula: mandou-lhe um terço e uma mensagem pessoal através de Juan Grabois e agora recebeu Celso Amorim e manifestou sua preocupação.
O Vatican News, controlado pelos conservadores, mentiu escandalosamente no primeiro episódio e ficou quieto no segundo.
E a Igreja brasileira? Nenhuma delegação da CNBB ou bispo visitaram Lula, que é declaradamente católico -o maior líder político católico da história brasileira.

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A derrota dos que apostaram no colapso do lulismo – como fizeram com o getulismo

 

A direita e segmentos da esquerda apostaram nos últimos anos que o lulismo agonizava e que Lula estaria condenado ao isolamento e ao ostracismo. Por isso, a direita investiu contra ele com campanhas, processos, a prisão e a inelegibilidade. Setores da esquerda consideraram que havia chegado a hora de superar o lulismo: a candidatura de Ciro Gomes é a maior representante dessa tendência.  O mesmo arranjo de forças que decretou a morte do lulismo agora é similar ao que decretara a morte do getulismo na segunda metade dos anos 1940.  Foram todos derrotados. O lulismo é o sucessor direto do getulismo e a relação de Lula com o povo brasileiro é tão profunda como foi a de Getúlio.

Por Mauro Lopes

A dinâmica da vida política nacional desde 2014 esteve pautada por uma suposição-chave: a de que o lulismo caminhava para o ocaso e Lula para o ostracismo.

Tal pressuposto alimentou a estratégia do grande capital, especialmente o financeiro, da direita política, da mídia conservadora conservadora e da elite do Judiciário. Este pressuposto animou-os para o golpe de 2016. Com base nele, moveram a campanha contra Lula nesses anos. Milhares de páginas, bites, memes, tempo de TV e rádio foram despejados sobre a cabeça do ex-presidente. Moveram-se os processos contra ele, a condenação e o golpe final, quando imaginaram que estaria nas cordas: a inelegibilidade. Foi um roteiro minucioso e não um desenrolar acidental.

Imaginando que o lulismo estava em seus estertores, os que patrocinaram e executaram o golpe confiaram que estava aberto o caminho para um novo ciclo, do neoliberalismo mais radical, com estabilidade suficiente para prolongar-se por anos a fio.

Da mesma forma, segmentos da esquerda pautaram sua ação nos últimos anos alicerçados nessa  pressuposição. Com o diagnóstico da agonia do lulismo , cabia encontrar alternativas, novos caminhos, novos arranjos partidários e de articulação social. Expoentes dessa visão foram Ciro Gomes, setores do PSOL e mesmo alguns (poucos) líderes do PT. 

Pois bem.

Todos esses foram derrotados. A base desta derrota está numa subestimação da relevância de Lula na história do país e de seu povo.

O lulismo está vivo, passa bem e toda a vida política do país gira em torno dele, a partir de uma pequena cela em Curitiba.

Uma das críticas mais persistentes ao lulismo é a de que os governos do PT teriam sido quase um engodo, com sua plataforma de elevação dos níveis de consumo dos mais pobres, no fenômeno que ficou conhecido como a nova classe C a partir do início do governo Lula, que incorporou quase 40 milhões de pessoas à chamada classe média.

À direita, tal feito foi subalternizado, considero um feito “menor” em função do que seria o “grande tema nacional”, o “combate à corrupção”, a partir da virada da primeira década e especialmente depois do início da Lava Jato, em 2014. Para agravar, com a crise econômica aberta em 2015, a direita política e midiática responsabilizaram o PT pela volta desse contingente às camadas D e E.

À esquerda, a crítica assentou-se numa visão segundo a qual a centralidade deste feito nos governos do PT seria uma redução das reformas pretendidas com as eleições de Lula e Dilma ao “consumismo”. Os pobres, não apenas à base da ascensão para a classe C, mas igualmente à custa do Bolsa Família, que beneficiou outros 40 milhões de pessoas, teria sido meramente “seduzidos” pelo consumo sem que os governos petistas cuidassem de sua “formação política”, ao mesmo tempo em que as estruturas partidárias, sindicais e nos movimentos sociais teriam se burocratizado, afastando o PT do povo.

Tanto a direita como setores da esquerda imaginaram que esta massa de cerca de 80 milhões de pessoas no universo total de 207 milhões de habitantes do país, teria “roído a corda” e abandonado o PT. A tese encontrou respaldo nas pesquisas sobre o apoio à Lava Jato e à derrubada de Dilma -ao fim do primeiro semestre de 2016, o índice de apoio à operação liderada por Moro chegou a 80% e ao impeachment a 70% nas pesquisas de opinião, com milhões de pessoas nas ruas contra a presidenta, uma fatia ponderável das classes médias, em especial de seus extratos superiores.

Foi de fato um abalo na relação, mas esteve longe de um rompimento. Os analistas de direita e de esquerda, quase todos dos estratos de classe média alta ou, no caso da direita, boa parte deles dos segmentos mais ricos do país, não entenderam o que Lula afirmou ao longo dos anos. Não se tratava de “consumismo”, mas de dignidade. Não se tratava de “benefício”, mas de direito.

Havia e há um vínculo muito mais profundo e forte entre os mais pobres, os trabalhadores e a nova classe média com Lula, uma identidade e reconhecimento visceral -como tem apontado o cientista social André Singer em seus estudos sobre o lulismo.

Depois do golpe, com o correr dos meses, esta identidade foi retomada à luz do dia. Por um lado, houve uma indignação crescente com as medidas ultraliberais como o fim da CLT, a liquidação da Petrobras, as tentativas malsucedidas de demolir a Previdência Social, o desemprego em massa e as promessas fraudadas de retomada da economia.Por outro, foi ficando patente que a Operação Lava Jato não é um movimento de efetivo combate à corrupção, mas de perseguição a Lula e ao PT. As elites não se deram conta disso mas, quanto mais Moro e os tribunais acirraram sua ofensiva contra Lula, mais ele encontrou solidariedade entre o povo.    

Lula, maior que Getúlio

Outra alegação para os que subestimaram a relevância do lulismo foi a afirmação recorrente segundo a qual se Lula fez, Getúlio Vargas fez muito mais. Que as mudanças que Getúlio implementou no país foram muito mais  perenes e significativas do ponto de vista do projeto nacional, especialmente pela infraestrutura que permitiu o desenvolvimento industrial do país (Petrobras e CSN) e pela criação da CLT e seu efeito sobre as relações no mundo do trabalho, que perdurou até o governo do golpe de 2016.

Getúlio fez tudo isso e muito mais. Os que alegam que ele tem mais relevo para o país afirmam que ele mexeu nas “profundezas” da nação, enquanto Lula teria se bastado a mudanças que estão sendo todas revertidas pelo golpe, sem deixar as mesmas marcas profundas no Brasil.

É uma visão míope.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que Getúlio governou o país por quase 19 anos, mais de dez deles quase com plenos poderes, enquanto Lula foi presidente por oito anos, no contexto de um país infinitamente mais complexo e nos marcos do período mais democrático da história, submetido a todo tipo de pressões e contrapressões. É claro que há o período Dilma, o que completa 13 anos de PT no poder, mas não é preciso levar em conta que não se considera a eleição de Dutra em 1945 como parte do getulismo, nem a de Juscelino, em 1955. É claro que são condições muito distintas, mas a referência é digna de nota.

A relação de Lula com o PT, fundado por ele em 1980 talvez seja mais orgânica do que foi a de Getúlio com o PTB, fundado por ele em 1945 -neste sentido, a figura de Lula agiganta-se ainda mais, porque sua liderança no partido sempre foi mais “negociada” e dialogada que a de Getúlio. Ambos os partidos assentados no movimento sindical, com feições diferentes, de um operariado também muito diferente, com histórias particulares e relações muito diferentes na sociedade e vida política de suas épocas. Mas há algo em comum: o lulismo e o getulismo sempre foram maiores que o PT ou o PTB. Os dois, Getúlio e Lula, líderes carismáticos no exato espírito weberiano, foram -no caso de Lula, ainda é- capazes de relacionar-se com o povo brasileiro ultrapassando qualquer dimensão institucional.

Se Lula teve até agora muito menos tempo que Getúlio, é um equívoco dizer que sua gestão teve menor impacto sobre a infraestrutura do país. Se Getúlio fundou a Petrobras, Lula refundou-a com o pré-sal -com a oposição das elites nacionais. Se Getúlio lançou as bases da indústria brasileira, Lula deu a ela uma dimensão sem precedentes ao tornar o Brasil uma potência exportadora global.

Se Getúlio deixou sua marca na superestrutura nacional, ao criar o Ministério da Educação, Lula promoveu uma revolução no ensino superior, abrindo o as portas da Universidade aos filhos do pobres, depois de décadas de veto. Se Getúlio mudou as relações no país e a cultura nacional ao instituir os sindicatos, voto secreto, o ensino primário obrigatório, o voto feminino, Lula inseriu os pretos e os pobres com as políticas de cotas, mudou a relação das pessoas LGTBs com o Estado e, ao contrário do que se disseminou, em seu governo (e no de Dilma), em vez de acomodação, o movimento sindical brasileiro teve um dos períodos mais vigorosos de mobilização da história -a partir de 2004 o número de greves no país começou a crescer “até atingir a quantidade impressionante – para o Brasil – de 2050 greves em 2013” (leia aqui artigo precioso de Patrícia Valim sobre o lulismo).

Mas há algo que Getúlio jamais sonhou em fazer -nem havia condições concretas para tanto. Lula retirou o Brasil da condição de país subalterno e desimportante na geopolítica e transformou-o num protagonista influente e admirado. A partir do boom das commodities e das exportações, Lula tornou o Brasil de um país irrelevante no contexto das relações comerciais da China no 9º maior parceiro comercial do país que desponta para assumir a liderança do planeta. Mais que isso: sob sua liderança, o Brasil deixou a sombra dos EUA – veja a seguir trecho antológico e exemplar do discurso de Lula na 4ª Cúpula das Américas em 2005:

Ainda mais: sob Lula, o Brasil foi um dos vetores da formação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o bloco que tem alterado o estatuto das relações geopolíticas globais -sem qualquer protagonismo brasileiro desde o golpe de 2016.

Em 1945, a elite brasileira decretou o fim do getulismo. Poucos meses depois, o apoio de Getúlio garantiu a vitória de Dutra na eleição presidencial contra o candidato da direita, Eduardo Gomes. Mais ainda: em 3 de outubro de 1950, o próprio Getúlio derrotou diretamente o candidato da UDN, o mesmo Eduardo Gomes, retornando à Presidência -com 49% dos votos. .

Sobre Getúlio e sua volta à Presidência, um dos principais porta-vozes da direita à época, Carlos Lacerda, escreveu em uma manchete do jornal Tribuna da Imprensa, em 1 de junho de 1950, um pequeno conjunto de frases que passou à história e cabe como uma luva à situação atual, em relação a Lula. Escreveu Lacerda: “O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

O ódio das elites a Lula é o ódio a Getúlio.

A relação do povo com Lula é em tudo parecida com a relação com Getúlio.

Os inimigos de até aliados de Getúlio cansaram de decretar o fim do getulismo nos anos 1940-50. Os inimigos e até aliados de Lula têm decretado nos últimos três anos o fim do lulismo.

Como aconteceu no passado, aqueles foram derrotados e esses estão sendo.

Lula é tão grande quanto Getúlio -talvez maior- e o lulismo é o sucessor direto do getulismo -como, aliás, acabou por reconhecer outro gigante, Leonel Brizola, nos últimos anos de vida.

Povão atropela o golpe e os “estrategistas” e só quer saber de Lula

É um estrondo. A pesquisa CNT/MDA enterra de vez todos os falsos profetas que alardearam que Lula iria para o ostracismo político na cadeia. O golpe fracassou em seu projeto de uma nova hegemonia e os estrategistas do “realismo” no campo progressista estão sendo atropelados pelo povo.   O homem é amado pelo povão, que só quer saber dele e de mais ninguém

Por Mauro Lopes

A pesquisa CNT/MDA divulgada nesta segunda (14) é um rolo compressor. O povo quer Lula e mais ninguém. O golpe fracassou em seu projeto de uma nova hegemonia e os estrategistas do “realismo” no campo progressista estão sendo atropelados pelo povo. Os números desmentem todas as projeções que se fizeram sobre a queda de Lula nas preferências de voto depois de sua prisão. Disseram que ele estaria liquidado como líder político quando foi acusado no caso do apartamento; depois, quando foi condenado por Moro; mais uma vez quando o TRF-4 confirmou e ampliou a sentença; quando foi preso, comemoraram sua “morte” política; declararam-no fora do páreo depois que o STF recusou dos recursos de sua defesa. Foram mais de dois anos de linchamento nas mídias de massa sem direito a defesa. Nada. O homem é amado pelo povo.

Lula tem quase o dobro de Bolsonaro, o segundo colocado: 32,4% a 16,7%. Todos os demais candidatos comem poeira; nenhum deles chega perto de 10% das intenções de voto.

No campo da direita, Marina tem 7,6%, Alckmin despencou de 6,4 para 4%, Álvaro Dias está com 2,5% e os demais sequer chegam a 1% -Temer, o odiado, tem 0,95. Apenas juntando todo o rebotalho da direita, de Marina para baixo, eles conseguem um pouco mais que meio Lula.

No campo progressista, Lula ocupa todo o espaço. Ciro tem 5,4%, Boulos e Manuela têm 0,5% cada um.

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No fim, Jesus não mandou olhar pro céu, erguer palácios ou promover guerras

Um peregrino segura uma folha para receber o darsham matinal (a oferenda de comida), no Templo de Ouro dos Sikhs, Amritsar, Índia, foto de Abbas Attar (1944-2018), Magnum Photos, Irã. Publicada em Matersol, Manos da Terna Solidão (http://matersol.blogspot.com.br/)

Neste domingo (13) já no finzinho do Tempo da Páscoa, cristãos de diversas denominações, como os católicos, celebram a solenidade  conhecida como Ascensão do Senhor. Ela refere-se à conclusão da missão de Jesus, que “passa o bastão” para seus amigos e amigas. Jesus enviou-os a mudar o mundo e a si próprios, a disseminar a Boa Nova de um tempo-lugar chamado “Reino de Deus”. Não mandou ninguém ficar olhando para os céus, orar piedosamente, erguer palácios ou promover campanhas de ódio. 

Por Mauro Lopes

O texto sobre o qual se medita nas missas deste dia é extraído do Evangelho de Marcos (Mc 16,15-20), exatamente a passagem da ascensão. Como observou o excelente biblista da novíssima geração no Brasil, padre Francisco Cornélio, depois dos estudos bíblicos dos últimos 100 anos já se dá como certo que este trecho não estava no texto original do Evangelho e foi acrescentado décadas depois.

O episódio da ascensão de Jesus aparece em Marcos (como adendo posterior) e em Lucas (Lc 24, 50-53)  e há referência a ele no início do texto que relata a missão e vida das primeiras comunidades cristãs, o Atos dos Apóstolos (At 1, 9-11), cuja redação usualmente atribui-se ao mesmo Lucas. Não há qualquer referência ao episódio em Mateus ou João.

Há consenso também de que as passagens de Marcos, Lucas e dos Atos dos Apóstolos sobre a ascensão não são relatos jornalísticos, mas teológicos, voltados à animação das comunidades nascentes que sobreviviam debaixo de perseguição, divisões e ondas de desânimo.

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A carcereira da pena de morte

A juíza-carcereira, a milionária Carolina Lebbos, leniente quando a causa envolve o universo dos ricos (dinheiro), decidiu que Lula merece uma pena ainda mais injusta e cruel que a de Moro e a dos outros juízes-ricos, os do TRF-4. Mesmo contra uma lei da ditadura militar, que garante o direito a visitas, ela proibiu-as, até mesmo a de um médico. Com isso, imagina cortar o ar que Lula respira: a trama de relações com as pessoas. Pretende condená-lo à morte.

Por Mauro Lopes

O Poder Judiciário, que um dia foi denominado Justiça, tornou-se no Brasil uma reserva de mercado para jovens filhos de famílias ricas. O mesmo aconteceu com o Ministério Público. Seus concursos são disputadíssimos e só filhinhos de mamãe e de papai que não precisam trabalhar podem dedicar tempo aos estudos. O fato de as vagas serem preenchidas por concurso pode dar a impressão de ser um Poder republicano –do que se vangloriam muitos juízes e juízas e membros do MP. Mas é fachada.

Juízes e membros do MP afirmam que tudo se resolve pela “competência”, pelo “mérito”; na verdade, tudo se resolve pela vida mansa garantia pelo dinheiro do papai e da mamãe. Quase todos entram nas carreiras no Judiciário e no MP já ricos e as cotas estabelecidas em 2015 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estão longe de surtir efeito. Com o assalto que realizaram ao dinheiro que os pobres depositam nos cofres do Estado, enriquecem ainda mais, com salários acima dos R$ 30 mil mensais, sem contar o “empurrãozinho” da farra do auxílio moradia e do auxílio refeição que são na verdade um extra, uma gorjeta chique para todo mundo, garantindo quase R$ 5 mil a mais todo mês. Há caso de juízes que embolsam com alegria mais de R$ 40 mil, R$ 50 mil num mês –há casos de juízes que receberam mais de R$ 100 mil e até R$ 500 mil.

Uma vez ingressando nas carreiras, os jovens que pertencem às dinastias do Judiciário e do MP, que têm sobrenomes conhecidos nos corredores da ex-Justiça, têm garantido que vovô, vovó, papai, mamãe, titio, titia cuidem de arrumar-lhes rapidamente vaguinhas em tribunais superiores. E assim, la nave va.

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A teimosa esperança do povo – para Boff e Esquivel

 

Uma poesia do professor Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães, da PUC-MG para Leonardo Boff e Adolfo Pérez Esquivel. É para Lula também. E para os profetas e todos os perseguidos por terem sede de justiça. Mas é sobretudo sobre a primavera e a teimosa e corajosa esperança do povo.

Por Edward Neves Monteiro De Barros Guimarães

Neste tempo atroz em que vivemos
Há tiranos que se julgam onipotentes
Tentam impedir o novo, a primavera
Parar a fé militante e a luta do povo
Mas não é suficiente!

Primeiro tentam destruir o nome
Difamar a trajetória do líder
Aquele em quem o povo se reconhece
E que alimenta o fio tênue da esperança
Mas não é suficiente!

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Dia decisivo na assembleia da CNBB

Celebração eucarística durante a Assembleia da CNBB em Aparecida

Assembleia da CNBB irá se manifestar sobre as eleições e o momento nacional. Na quarta (18), falaram três bispos que são o rosto da Igreja que, no Brasil, caminha com o Papa: dom Claudio Hummes,  dom Roque Paloschi e dom Guilherme Werlang. Dom Paloshi foi contundente sobre a criminalização dos movimentos sociais e daqueles que atuam ao lado dos mais pobres: “Temos consciência de que se a Igreja não falar, as pedras vão falar”.

Por Mauro Lopes, com informações da CNBB

Nesta quinta (19), a 56ª Assembleia Geral da CNBB, reunida em Aparecida, divulgará duas manifestações importantes, sobre as eleições e o momento nacional. Elas darão o norte da Igreja Católica no país nos próximos tempos: haverá profetismo ou será mantida a linha de concessões aos integristas com uma posição dúbia e silente diante dos atentados às democracia, aos assassinatos e prisões injustas?

Ontem falaram à assembleia três bispos que são o rosto da Igreja que, no Brasil, caminha ao lado do Papa. Eles participaram da entrevista coletiva diária organizada pela CNBB (se quiser, você pode clicar no link abaixo e assistir).

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Igrejas na Síria confrontam EUA; Papa age pela paz; Rússia desmonta a farsa

Enquanto as igrejas cristãs na Síria condenam em tom enérgico os ataques da coalizão liderada pelos EUA ao país, o Papa atua pela paz e a Rússia desmonta de maneira cabal a farsa das “armas químicas”

Por Mauro Lopes

Num mundo submetido ao poder imperial do capitalismo em sua etapa mais brutal, tudo é guerra, luta, confronto ideológico. É assim no Brasil na campanha dos ricos contra Lula; assim é em escala global ao redor da guerra na Síria. Provavelmente você não ficou sabendo, porque as mídias controladas pela lógica do sistema esconderam, mas:

1) todas as igrejas cristãs na Síria condenaram de maneira veemente o ataque dos EUA, Inglaterra e França ao país, na noite de sexta-feira (13);

2) O Papa atua pela paz, em articulação com o  Patriarca Ortodoxo Russo Kirill; uma delegação  multirreligiosa síria chegou ao Vaticano no domingo para, nas palavra do líder da comitiva, Nasr Al Hariri, dialogar com “a autoridade moral mundial que pode nos ajudar”;

3) o governo russo apresentou provas irrefutáveis de que a versão ocidental sobre uso de armas químicas pelo governo sírio é falsa.

Patriarcas sírios e os franciscanos em Damasco

Numa declaração conjunta, os três patriarcas sírios afirmaram que “condenam e denunciam a agressão brutal que ocorreu esta manhã (no sábado) na Síria, nosso precioso país, pelos EUA, França e Reino Unido, alegando que o governo sírio usou armas químicas”. A declaração foi assinada por John X, Patriarca Grego-Ortodoxo de Antioquia e todo o Oriente; Ignatius Aphrem II, Patriarca Ortodoxo de Antioquia e todo o Oriente, e Joseph Absi, Patriarca Católico Greco-Melquita de Antioquia, Alexandria e Jerusalém, conforme reportagem de Inés San Martin veiculada no Crux. (a seguir, trechos da reportagem).

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