Waackismo: racismo camuflado à brasileira

Leia o artigo do Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê neste Dia da Consciência Negra. Ele é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Membro do grupo Fé e Politica pe. João Cribbin, doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP. Negro, vive numa região comunidades de descendentes dos escravos que serviram aos donos do Rio de Janeiro de 1550 até 1888 (mais de 300 anos) e, depois, como escravos libertos sem direitos -situação que se prolonga até hoje.

A íntegra do artigo:

Padre Gegê

“Não caçamos pretos no meio da rua, a pauladas… Mas fazemos o que talvez seja pior”. (Nelson Rodrigues)

 

 

 

Inicio a reflexão sobre racismo/waackismo com a sincera e corajosa análise de Nelson Rodrigues, que, de algum modo, sumariza todo o texto. Escreve o branco dramaturgo. Repito: branco: “A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco do Brasil um dos mais racistas do mundo”.

Na linha da obra de Gabriel Garcia Marques, pergunto: Seria a vida do negro no Brasil, Crônica de uma morte anunciada?

Crio o termo “waackismo” (termo alusivo ao jornalista da Globo, William Waack) como expressão adequada para a caracterização do racismo à brasileira que é, a despeito do seu sinistro mascaramento, real e global. Waackismo, em nossa reflexão, é a engenhosa produção patenteada da ideologia colonial-escravista. Reitero, waackismo é tradução fidedigna e reeditada do racismo à brasileira. Maior prova de sua eficácia é quando um cidadão comete um crime de racismo e, pelo simples fato dele negar o ato, a sua palavra valer mais que a evidência do fato. Como uma sociedade com mentalidade escravocrata poderia contradizer a palavra de um branco? Faz parte de todo sistema de dominação condenar a vítima e condecorar carrascos; crucificar Jesus e soltar Barrabás. Nessa perspectiva, não me surpreenderia se o jornalista Wiliam Waack pedisse indenização a cada negro existente no mundo por um, supostamente, negro, ter perturbado a “paz” branca. Também não me surpreenderia se obtivesse um número significativo de veneráveis cúmplices e aguerridos defensores.

À guisa de introdução, deixo uma questão de ordem filosófica, isto é, do pensamento e da reflexão: o racismo/waackismo no Brasil tipifica a “banalidade do mal”, segundo acepção da pensadora Hannah Arendit ou a maldade produzida e justificada a partir do naturalizado e banalizado? Se a segunda posição estiver mais próxima da verdade (e é essa formulação que sustento) o racismo/waackismo constitui o modus operandi da maldade/violência colonial-escravista de ontem e de hoje. Dizendo de outro modo, no Brasil se inventou, historicamente, uma forma engenhosa, sutil e camuflada de subalternizar, violentar, ferir, enxotar, segregar e inferiorizar a população negra.

Essa sofisticada e macabra forma de violentar dispensa quase sempre, “pauladas em praça pública”, como escreveu o dramaturgo Nelson Rodrigues, ou pelourinhos, mas isso não a faz menos perversa, menos traumática e menos dolorosa. Desse modo, independente da forma, no Brasil de ontem e de hoje, no que se refere ao negro/negra, se mata com a intenção de matar — física, moral, social ou psicologicamente. Entender, pois o racismo/waackismo no Brasil e suas escabrosas e nefastas consequências (inclusive à saúde da população negra) implica entender que uma agressão psicológica ou moral pode produzir mais e irreversíveis danos a uma pessoa ou coletividade que um homicídio ou chacina.

Singular atenção merece, a meu juízo, as pesquisas sobre o trauma (sofrimento) da população negra em virtude da escravidão que há quatro séculos alimentou a sociedade brasileira, inclusive a Igreja. Não é possível a uma sociedade que se mostra sensível ao bullying de seus filhos e filhas, não se permitir pensar nas consequências históricas e nos sofrimentos morais e psicológicos dos descendentes de milhões e milhões de seres humanos, que durante quatro séculos foram tratados como animais ou peças no projeto escravista. Waackismo é sim forma de genocídio (mais simbólico que físico), forma sinistra e, por vezes cordial, mas com poder destrutivo. Waackismo é o sapato branco que, desde a escravidão, foi treinado a pisar pele e alma negras, na surdina e no silêncio, como se fossem baratas…

O waackismo tem um potencial sádico capaz de (sofisticadamente) triturar, desqualificar, inferiorizar, invisibilizar e segregar; e o faz, em geral, não às gargalhadas, mas mediante sorriso contido… Às escondidas! Ele não se manifesta apenas nos “deslizes pessoais” (conforme o caso do jornalista em questão); o waackismo está nas mentes, nas praças, nos clubes, nos bancos, nos livros didáticos (ou não), nas igrejas, nas escolas, nas mídias, nas redes, nas praias etc… Quando ligamos a TV e não vemos negros, quando entramos numa universidade e não vemos negros, quando contemplamos os altos cargos de nossos país e não encontramos a população negra, lá está o waackismo sorridente.

Em se tratando de Brasil, o waackismo tem o “dom” da ubiquidade; é produto da dissimulação nacional — 100% Global! Em resumo, o racismo/waackismo no Brasil é mais invisível que visível, mais silencioso que audível; é mais nas entrelinhas que nos textos, porém, quando o latente se torna patente (como o caso do jornalista Willian Waack) toda sociedade (negros e brancos) deve se engajar para que se puna, segundo a Lei, a fim de que direitos inalienáveis sejam garantidos e o Brasil cresça rumo a uma verdadeira e efetiva democracia racial. No caso concreto do jornalista, não está em discussão o conjunto de sua vida, tampouco se massacra negro diuturnamente. Estamos diante de um fato ou um ato público de racismo, e é sobre ele que nos debruçamos, sabedores que ele (o ato) esconde/revela um sistema e uma cultura vincada e estruturalmente racista.

Abdias Nascimento, objeto de minha tese de doutorado na PUC-SP, é figura icônica no que se refere ao desmascaramento do “mito da democracia racial no Brasil”, mito segundo o qual o Brasil seria a terra do respeito e da igualdade — um paraíso racial. Abdias Nascimento, assim como qualquer negro no Brasil, desde cedo sentiu em sua pele a dor de pertencer a uma sociedade ambígua, dissimulada e perversa com a população negra. Para Abdias racismo é o arame farpado” da sociedade.

No ano de 2016 foi relançada pela Editora Perspectivas sua obra atualíssima intitulada sugestiva e acertadamente “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”. Florestan Fernandes prefaciando a edição brasileira afirmou a contribuição que o livro deu por usar o conceito de genocídio aplicado a situação de matança física e simbólica do negro no Brasil. Segundo Florestan, “trata-se de uma palavra terrível e chocante para a hipocrisia conservadora”. E pergunta: “O que se fez e se continua a fazer com o negro e com os seus descendentes merece outro qualitativo”?

No prefácio da edição nigeriana, Wole Soyinka advertiu, sem evasiva, que “a expressão ‘genocídio’ chocará, e o faz porque demole o tabu ou mito intocável da ideologia do paraíso racial”.

Sublinhou Abdias: “Devo observar que este assunto de ‘democracia racial’ está dotado, para o oficialismo brasileiro, das características intocáveis de verdadeiro tabu. Estamos tratando com uma questão fechada, terreno proibido sumamente perigoso”. E ainda: “Ai daqueles que desafiam as leis deste segredo!”. Desse modo, qualquer pessoa, sobretudo, negro, que denunciar o racismo brasileiro está condenado a ser acusado de fazer racismo às avessas ou de negro recalcado. Contudo, enfatizou Abdias: “As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar sobre a realidade social do país”.

Desse modo, o caso do jornalista ajuda a compreender o racismo no Brasil, o debate ajuda na construção de novas mentalidades e a punição na forma da Lei ajuda ao Brasil a curar suas patologias mascaradas. Minimizar e não punir o ato significaria legitimar o sistema, o que nos levaria a concluir que no Brasil os brancos gozam de uma espécie de “imunidade racial” — o que seria desastroso, não apenas para os negros, mas para o processo democrático e civilizatório, uma vez que tratar do racismo (e de quaisquer outras violações dos Direitos Humanos) diz respeito a toda sociedade. Escreve Hannah Arendt: “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter Direitos”.

A tua raça de aventura quis ter o céu, a terra, o mar / Na minha há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar… / A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar / A minha não quer ir nem vir / A minha raça quer passar!”. (Cecília Meireles)

Engajada, Feliz e Esperançosa Semana Preta da Consciência Negra!

 

Francisco segue os passos de Jesus e escolhe os mesmos interlocutores

Um dos traços definidores da mensagem de Jesus é a escolha de seus interlocutores. Ele não escolheu dialogar com reis, príncipes, chefes de governo, com os ricos. Sua escolha foi a da interlocução com os pobres, os marginalizados. O Sermão da Montanha é um momento culminante dessa escolha (Mt 5-7). Jesus subiu ao monte para falar à “multidão” de gente sem nada. Assim foi durante toda sua jornada de três anos. Examine-se a agenda de Francisco. É a essa mesma “multidão” que ele fala, com ela encontra-se, senta-se para partilhar o pão e a esperança.

Três encontros próximos são especialmente eloquentes quanto a essa escolha do Papa. No domingo (19), quando será celebrado o 1º Dia Mundial dos Pobres, instituído por ele, Francisco rezará a Missa com 4 mil deles, e almoçará com 1.500 em plena Sala Paulo VI (sacrilégio, gritarão os católicos conservadores, como o fizeram quando o Papa almoçou com um grupo de pessoas pobres na basílica de São Petrônio em Bolonha, em setembro).

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Sinais de uma Igreja em saída: grávida de um mundo (tempo) novo

 

Romaria dos Mártires da Caminhada em São Felix do Araguaia (MT), 2016

Um artigo especial de Eduardo Brasileiro, educador popular, sociólogo e membro da equipe de articulação e coordenação do coletivo IPDM (Igreja – Povo de Deus – em Movimento):

As Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) atravessam os quase 30 anos de democratização do Brasil. Por isso, seus membros em especial nas cidades, são símbolos do que há de mais valioso na luta contra a ditadura civil militar e a dominação do capitalismo neoliberal: a resistência mística por outros mundos possíveis. Todavia, os rostos atravessados de tempo não escondem o desamparo político sentido por toda a militância social que o engloba. A forte análise que elaboram seus quadros também não escondem o maior desafio desses pequenos grupos espalhados pelo Brasil: a renovação de seus membros.

A igreja do Brasil perdeu o trem. Em todas as reuniões de grupos que ouvimos o povo falar, o trabalho de educação popular precisa ser retomado desde o início. A dimensão sociopolítica do Cristo tem de ser saboreada em banquete semanal e reafirmar o papel do cristão de oposição à sociedade capitalista, é a tarefa pedagógica inicial. Por isso, reunidos em pequenas comunidades e até mesmo fora de comunidades – dado que foram expulsos após avanços conservadores nas dioceses do Brasil inteiro -, a mística dos mártires beberá das idiossincrasias de um Brasil de autoritarismo nas periferias onde morrem milhares de jovens negros e pobres e de um feminicídio velado, sobretudo pelas igrejas que fazem campanha contra a diversidade de gênero.

Num movimento internacional, os donos do poder, nunca estiveram em momento tão favorável. Segundo relatório da OXFAM/2017 sobre as desigualdades brasileiras[1], seis pessoas possuem riquezas equivalentes ao patrimônio de 100 milhões de brasileiros. Esse disparate além de criminoso é um convite para o povo desobedecer qualquer lei até que seja julgada e punido todo esse acumulo de dinheiro nas mãos de um grupo de homens brancos. Afinal, segundo a mesma organização a diferença salarial entre mulheres e homens acabará somente em 2047, enquanto a de brancos e negros, somente em 2089. O Brasil é um país de dimensões desiguais continentais. E, por isso mesmo, é um país onde precisa-se ser aprofundado uma reinvenção de lutas do mundo urbano que resistam a litigância da desigualdade social.

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Papa Francisco vai aos “índios”

Líderes da tribo Shipibo, da Amazônia peruana

Um artigo de Roberto Malvezzi (Gogó), membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica) e da Comissão Pastoral da Terra do São Francisco. Sobre um encontro especial do Papa Francisco em Puerto Maldonaldo em janeiro de 2018, com os povos originários da Amazônia.

“Esperamos que Francisco retome o melhor do Conselho Missionário Indigenista, o CIMI, que não foi aos indígenas para fazer prosélitos e nem os converter ao cristianismo, mas para colaborar para que sobrevivam e mantenham seus territórios e seus modos de vida. Com esses missionários a Igreja Católica deu vários passos à frente na relação com a alteridade das populações originárias, seguindo a melhor tradição de Bartolomeu de Las Casas.

Não se obriga um muçulmano a ser católico, não se obriga um pai de santo a ser evangélico, não se obriga um Cariri ou Guarani a ser cristão. Eles têm sua própria religião e suas opções tem que ser respeitadas. O evangelho é apenas um anúncio e adere livremente quem quiser.”

Leia o artigo na íntegra: 

Dia 18 de janeiro de 2018 o Papa Francisco irá a Puerto Maldonado, Peru, encontrar-se exclusivamente com povos originários da Amazônia. Tudo indica que sequer haverá reuniões particulares com autoridades, sejam elas políticas ou mesmo eclesiásticas.

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Um país chamado Canudos, 120 anos depois

Mulheres e crianças aprisionadas em Canudos; homens foram todos mortos

Artigo especial[1] do cientista social Ruben Siqueira, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), recorda e atualiza a luta de Canudos, que até hoje é a maior mobilização do exército brasileiro: contra o povo. Nem mesmo a Guerra do Paraguai ou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra superaram o envolvimento de tropas como no combate à rebelião liderada por Antônio Conselheiro. A violência, pública e privada, continua uma marca da vida nacional, multiplicam-se as mortes nas cidades e nos campos, o Brasil sendo hoje o mais violento país do mundo sem guerra declarada, uma guerra contra os pobres.

“A mensagem de Canudos fica cada dia mais atual e necessária. Atravessa os tempos e faz seguidores a ousadia dos conselheiristas, de recriar, nas entranhas do latifúndio respaldado pela República, a comunidade dos primeiros cristãos, onde a única lei era a do amor, pela qual — ainda que entre eles houvesse comerciantes bem-sucedidos — os bens eram partilhados em benefício de todos. A bandeira fincada para sempre no coração do Brasil continua a atrair os pobres e desvalidos. Porque lhes ensina a única lição possível: a eles só resta resistir e insistir na vida, contra os poderes da terra, porque — dizia Antônio Conselheiro — ‘só Deus é grande’. É essa fé, de um povo que não separa religião e vida, crença e luta, que move ainda hoje centenas, milhares, milhões de brasileiros pelos vastos sertões deste latifúndio chamado Brasil, a lutar pela terra e pelo direito à vida digna na terra.”

Leia o artigo na íntegra:

Canudos virou moda há 20 anos, em seu centenário. Houve enorme expectativa à época com o lançamento do filme de Sérgio Rezende, Guerra de Canudos (assista aqui), que foi, rodado na região. Teses, livros, reportagens e seminários foram feitos para a celebração dos 100 anos e continuaram a ser produzidos, trazendo releituras do episódio, discutindo aspectos novos, alimentando a infindável polêmica. O governo da Bahia criou no cenário da guerra o Parque Estadual de Canudos, onde uma equipe da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) realizou estudos de arqueologia histórica. Neste outubro de 2017, vários eventos, sobretudo promovidos por movimentos e entidades sociais, estão acontecendo na pequena cidade herdeira da Canudos conselheirista.

A atualidade de Canudos

120 anos é data por si mesma expressiva, seja do que for. Mas, em Canudos, o quê exatamente se está comemorando? O que tem esse episódio, o que ele encerra — esconde e revela — que atrai tantas atenções?

É que em Canudos, ontem e hoje, o Brasil se vê face a face consigo mesmo, encontra seu desencontro. Canudos não está na memória nacional apenas como uma chaga, a mais ignominiosa das lembranças do passado, onde e quando se detonou toda a carga de violência que mal se esconde sob o manto roto da decantada cordialidade brasileira, praga ideológica que sedimenta a assimetria das relações sociais. Está também como repetição, reincidência, contínuo revisitar. Está como matriz da identidade brasileira e chave de explicação do País e de seu infortúnio como nação moderna, que nunca alcançou de fato a modernidade. Está, pois, como atualidade, contemporaneidade.

Uma primeira prova disso? Ao implantar-se o Parque Estadual de Canudos, por ocasião do centenário, famílias de agricultores residentes na área, muitas delas descendentes dos antigos canudenses, tiveram que resistir à implantação das cercas divisórias do parque porque estas inviabilizavam o criatório de cabras, sua principal fonte de subsistência… Talvez até quisesse o governo da Bahia que se retirassem de vez, para não estragar a composição nostálgica e folclórica do quadro… Ainda bem que os cientistas da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) não embarcaram nessa…

Canudos levanta questões que incomodam a má consciência nacional. Por que mais da metade do efetivo e todo o aparato militar do exército à época foi mobilizada em cinco expedições contra pobres e frágeis camponeses, armados de poucas espingardas e muita fé? Por que ali, numa das regiões mais secas do País, uma multidão de 25 mil destes deserdados encontrou um lugar e construiu, sob a liderança do beato Antônio Conselheiro, a maior cidade do interior do Brasil à época?

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A religião matou Jesus e ameaça Francisco

Daniel Bonell, A Crucificação 2 (2000/2005)

O teólogo espanhol José Maria Castillo escreve artigo (publicado na manhã deste domingo no site Religión Digital) no qual desnuda a oposição entre a religião e o ensinamento de Jesus: “(…) se lemos e analisamos os evangelhos com atenção e detidamente, o que neles encontramos é algo que não apenas nos surpreende, mas nos desconcerta. Trata-se do desconcerto que nos produz o fato de que o conjunto de relatos sobre a vida e ensinamentos de Jesus deixa patente que a religião, como conjunto de leis e rituais, templos, altares e sacerdotes, não aguenta o Evangelho (Boa Nova) e, por isso mesmo, é incompatível com o Evangelho.”

Ele denuncia: os que mataram Jesus são os mesmos que odeiam o Papa Francisco. “A estes, a religião é ótima.”

Leia a íntegra a seguir (a tradução é de minha autoria – Mauro Lopes):

É curioso (e chama a atenção) o fato de que a palavra religião (thrêskeia), em seu significado óbvio de “serviço sagrado a Deus”, não é mencionada no Novo Testamento. A palavra “religião” aparece na carta de São Tiago (Ti 1,26-27), mas para dizer que “a religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisso: socorrer os órfãos e as viúvas em suas tribulações”.

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Salve Negra de Aparecida em seus 300 anos

Salve Negra de Aparecida cheia de graça e coragem.

Salve Mãe de Jesus e de Tiago, José, Simão e Judas. E de João e Sebastiana e tantas Marias, de Paulo, Pedro, Irene, Sandra, Madalena, Severina…

Salve Maria de Aparecida, que desatou as amarras dos altares ricos.

Salve Mulher de Aparecida, que se instalou nas favelas, nos cortiços, nas periferias, nas ruas.

Salve Presença de Aparecida, que acolhe seus filhos e filhas, homens, mulheres, gays, lésbicas, trans, queer, bissexuais, assexuais, celibatários e celibatárias, gentes de todos os caminhos.

Salve Consoladora de Aparecida, que dorme nas prisões, bordéis, bares, biqueiras e bocas.

Salve Alegria de Aparecida, que desfila no carnaval, que joga o congo, que dança a roda, que bate o pé no toré e no kuarup e se esbalda no maracatu, no frevo, no fandango, no carimbo, no bumba meu boi, no forró, no rap, no rock e no samba.

Salve Força de Aparecida, que navegou acorrentada nos porões dos navios negreiros, que foi arrancada de sua terra-mãe por bandeirantes cruéis, que sofreu com a chibata nas plantações, que sufocou nas senzalas, que foi amarrada no tronco.

Salve Santa de Aparecida nas igrejas, nos terreiros, nas  mesas, nas estantes, nos cantos, nas janelas, nos nichos e na zona.

Salve Beleza de Aparecida estuprada, agredida, humilhada, abandonada.

Salve Guerreira de Aparecida, que ensina as mulheres do seu povo a lutar e viver de cabeça erguida e olhos abertos.

Salve Nossa Senhora de Aparecida, que não se rendeu nesses 300 anos, não se deixou comprar por mantos luxuosos, joias e coroas e continua na estrada com os pobres do Brasil.

[Mauro Lopes]

 

Salve Mariama, que o pequeno santo Hélder Câmara cantou um dia assim:

Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens!

Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.

Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavra, não fique em aplauso.

Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.

Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama.

Claro que seremos intolerados.

Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grande problemas humanos.

Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é Paz.

Basta de injustiça!

Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de alguns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e o pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico.

Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama.

 

Maria de Aparecida: negra e sexuada, afronta o catolicismo conservador romano

A imagem original, de 1717, antes do atentado de 1978

Vamos despir Maria, a Nossa Senhora Aparecida, de seu manto azul? Examinemos a imagem original, encontrada no Rio Paraíba há 300 anos, antes do atentado de 1978, que espatifou sua cabeça e partiu-lhe o corpo em pedaços. Que imagem revela-se a nós? Uma mulher negra, cheia de curvas, toda enfeitada, com um olhar sem culpas, uma boca que se entreabre num sorriso nada “angelical”.

A imagem de Aparecida é como a de outras representações de Maria na América Latina, uma figura apropriada pelo povo, pela religiosidade popular, que afronta e confronta o catolicismo romano marcado pela rigidez e distanciamento.  A imagem original, portuguesa barroca, ao ficar na lama do rio agregou às ousadias do escultor (as formas e o riso) a negritude, que se acentuou com a fuligem das velas ao redor ao longo do anos.

Quem é Maria? Você não pode deixar de assistir o documentário Marias, a fé do feminino, de 2016, dirigido por Joana Mariani. Ela escavou fundo na devoção popular às padroeiras de quatro países da região, a Maria de Aparecida, de Guadalupe (México), das Mercês (Peru), do Cobre (Cuba) e La Puríssima (Nicarágua).

A resposta sobre Maria aparece no depoimento de uma mulher do povo, devota da Nessa Senhora Aparecida, logo na abertura do trailer do filme; com sua fala, ela derruba todo o império dogmático e esvaziado de sentido sobre a mãe de Jesus: “Maria somos todas nós. Maria é essa mulher que tá no morro, que tem seus filhos, o marido abandona e ela cria esses filhos. E ela vai buscar outro parceiro. E ela tem o sorriso”. Veja o trailer e se puder  todo o documentário, que está disponível no Netflix ou no YouTube (é baratinho, R$ 3,90 –aqui o link).

O que se aprendeu sobre Maria, a partir do pensamento conservador católico? Que ela é “pura” (branca), sempre virgem, entronizada nos altares (portanto, distante das pessoas), condescendente e recolhida em sua castidade, trancada em casa, absorta em seu silêncio e ensimesmamento.

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Papa: os pobres carregam a esperança e farão a revolução

O Papa com migrantes e refugiados na manhã desta quarta (27)

O Papa afirmou na manhã desta quarta (27) que “a esperança não é virtude para as pessoas com o estômago cheio”, que são  verdadeiros “inimigos da esperança”. Para Francisco, “os pobres são os primeiros portadores da esperança”, como José e Maria e os pastores de Belém. “Enquanto o mundo dormia recostado nas tantas certezas adquiridas, os humildes preparavam no silêncio a revolução da bondade. Eram pobres de tudo, mas eram ricos do bem mais precioso que existe no mundo, isto é, o desejo de mudança”.

As declarações de Francisco foram feitas na Praça São Pedro no lançamento da campana “Partilhar a viagem” da Caritas Internacionalis, voltada aos migrantes e ao tema do acolhimento aos refugiados.  Além da direção das Caritas, havia um sem número de migrantes e refugiados na praça, durante a Audiência Geral que marcou o início da campanha.

 Ao referir-se ao poeta francês Charles Péguy – “que deixou páginas estupendas sobre a esperança” –  o Papa observou que a imagem de um de seus textos evoca “os rostos de tanta gente que passou por este mundo – agricultores, pobres, operários, migrantes em busca de um futuro melhor e que lutaram tenazmente não obstante a amargura de um hoje difícil, cheio de tantas provações, animados porém pela confiança de que os filhos teriam uma vida mais justa e mais serena”.

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Caritas: nunca houve tantos muros no mundo – já são 66

Criança à sombra do muro na Cisjordânia

A Caritas Italiana divulgou nesta sexta (15) o dossiê À sombra do muro,  durante o seminário  “Além dos muros: comunidades que se encontram e nos contam”,  que aconteceu nos últimos dois dias em Roma, com uma atenção especial aos muro edificados por Israel contra os palestinos. O dossiê aponta: nunca houve tantos muros a separar países, a impedir migrantes de buscarem uma chance de vida, a manter os pobres longe dos ricos. São 66 muros contra migrantes, pobres e vítimas de guerra no mundo hoje. Para que se tenha uma ideia do modelo gerado pelo capitalismo, havia em 1989, quando caiu o Muro de Berlim, 16 muros em todo o planeta.

O projeto neoliberal, depois da vitória sobre o “socialismo real” do Leste europeu, revelou-se uma antiutopia. Em vez de oportunidades, progresso e riqueza, miséria , restrições cada vez maiores às liberdades e muros. Segundo o dossiê, ”a globalização, que deveria ter levado a uma eliminação progressiva das barreiras remanescentes,  foi na realidade a causa do renascimento dos temores sobre a segurança. Um terço dos países do mundo possui atualmente barreiras, de diversas tipologias, ao longo de suas fronteiras”.

Para além da divisão entre os que estão de cada lado dos muros, a separação em concreto e cercas remete a dois projetos, como afirmou o Papa Francisco no encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 5 de novembro de 2016, no Vaticano: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro”.

Os 66 muros estão assim divididos: 36 na Ásia e Oriente Médio; 16 na Europa; 12 na África; e dois na América (Estados Unidos/México e México/Guatemala). Veja no quadro abaixo:

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