Crianças podem sonhar diferente?

Peça infantil convida a rever arquétipos ao propor, provocadora porém terna, novos papéis para príncipe e princesa

Por Maurício Ayer


A Princesa Errante e o Príncipe Errado
De 20 de agosto a 24 de setembro, aos domingos, 11h
Teatro do Centro da Terra
Rua Piracuama, 19,
Vila Pompeia, São Paulo (mapa)

Aqui terá, aqui terá / tudo aquilo que a gente sonhar”

Sonhar é da criança, e também do teatro. A criança, quando sonha, modela a própria massinha do viver. Ninguém sonha sem se sonhar. É muito sério ser criança, principalmente quando é brincadeira.

Modelando a massinha, A Princesa Errante e o Príncipe Errado traz ao palco – do Teatro do Centro da Terra, em São Paulo – uma pergunta um pouco mais complicada: e se o sonho de um/a não combinar com o sonho da/o outra/o? Pode sonhar diferente? Será que somos livres o bastante para sonhar e deixar sonhar?

E se a gente inverter os pontos de vista de figuras típicas com a princesa e o príncipe? A peça faz isso. A princesa – apesar do desejo de sua mãe de que ela fique trancafiada numa torre e espere por um príncipe que a redima – quer mais é rodar mundo, viajar, viver aventuras e conhecer reinos distantes. Já o príncipe – apesar do desejo de seu pai de que seja um másculo guerreiro, monte em seu cavalo e saia por aí a vencer dragões e libertar princesasvibra mesmo é com as posturas e movimentos do balé.

Aí dá nó. Pois inverter estruturas arquetípicas bagunça todo o sistema. Como fica o rei – e o reino, todos os seus súditos – no meio disso tudo? O que faz o rei com um príncipe que não cabe na armadura que já vem moldada antes dele nascer?

Acredito que uma das coisas mais delicadas dessa peça é que ela reconhece a confusão do rei, que ele vive um impasse, uma dor. Como personificação da justiça e da estabilidade, o rei é refém da rigidez de seu trono. Porém, como homem sábio e amoroso, talvez seja capaz de curar-se e, na reescrita de seu papel, ajudar a curar o seu reino. Será? 

Assisti a essa peça em São Carlos, interior de São Paulo, em abril deste ano, e fiquei encantado. Convenci-me de que alguns temas podem ser difíceis de lidar entre adultos, pois logo sacam suas armas, prontos para o duelo; mas, quando propostos às crianças, de maneira direta e respeitosa, esses mesmos temas reconquistam a sua simplicidade original. O que tem de ser, será.

Na perspectiva da criança, diferenças são jeitos de ser, maneiras distintas de sonhar e sonhar-se. Quando a aceitação do outro não é mais possível, será que não é a hora de voltar a ser capaz de se inventar? Humanamente, contar uma história onde as suas dores encontrem paz?

O espetáculo é, pois, terno – cheio de humor, músicas e trocas com o público. Cenário, luz e objetos cênicos são simples e sugestivos, deixam livre espaço para a imaginação das crianças. E o elenco – com a autora do texto, Ana Roxo, o diretor musical, Cristiano Meireles e a atriz e instrumentista Nina Blauth – tem que ser muito versátil, para cantar, tocar, narrar, atuar e conversar.

Sonhei que sim: aqui terá tudo o que a gente sonhar.

***

Texto: Ana Roxo

Direção: Ana Roxo e Cristiano Meireles

Direção musical: Cristiano Meireles

Figurinos: Éder Lopes

Iluminação: Carol Autran e Vânio Jaconis

Elenco: Ana Roxo, Cristiano Meireles e Nina Blauth (stand in Alexandre Maldonado)

Técnico de som: André Teles

Produção: Aymberê Produções Artísticas e Cia Auspiciosa

Queda em veredas de Minas Gerais

De como uma pedalada em falso, nas fendas de um mata-burro, mergulhou o ciclista nos sentidos do corpo, no sotaque mineiro e num conto bovino de Guimarãres Rosa

Crônica de viagem de Maurício Ayer (texto e fotos)

Nem tudo são leveduras felizes com aromas florais em minha gira cachaciclística pela Estrada Real. Tem sempre o dia em que a casa, digo, a bicicleta cai, e o ciclista vai amargar escoriações – na pele e na vaidade. Assim que, depois de degustar cachaça em Engenheiro Passos e Aiuruoca, depois de me deliciar com queijos em Cruzília, fui beijar a terra para os lados de Carrancas.

O mata-burro matou um burro

Há dois tipos de mata-burros. O mais comum tem as barras perpendiculares à via. Mas há o que contraria essa regra, com barras no sentido da pista, que é perigosíssimo, e é fácil imaginar por quê: o pneu passa na fenda qual moeda no porquinho e a bicicleta some debaixo do ciclista.

Um mata-burro “errado”, verdadeira armadilha para os ciclistas.

O primeiro mata-burro “errado” que topei me deu um susto, freei um pouco em cima, pois jamais esperaria perigo dali. Desmontei da bicicleta e empurrei com cuidado. Fiz isso muitas vezes, a cada vez perguntando a mim mesmo: “será que todo ciclista faz assim?”. Até que tive uma luz: se eu passar em diagonal…

Deu certo! E virou um jogo. Como bom principiante, o corpo guiou e eu acertei. Deixei fluir pelos primeiros mata-burros. Mas, passado o primeiro momento, o jogador quer entender seus acertos, aprimorar sua habilidade; chega a etapa da consciência, que também é feita de dúvida. E a dúvida não é do corpo, é um ruído que nele se introduz. Vamos lá: a sequência consiste em reduzir a velocidade, embicar em um dos cantos do mata-burro e, ao entrar, quebrar o guidão para a diagonal.

Mata-burro à vista, embiquei pela esquerda, hmm, será que pela direita era melhor… ops! Lapso! Baita frio na espinha! Esfumaçou o cristal de minha autoconfiança, senti que ia falhar, mas passei. O alerta devia ter bastado. Pois o sentimento de insegurança também gera um perigo real. Mas não. No mata-burro seguinte, entrei pela direita, uma das barras estava torta, com o vão mais largo na entrada, o bastante para o pneu da frente escorregar e se perder no vazio.

– Caaaaaraaaaaaaalhoooooooo!!!! – infinitos milissegundos até a terra parar de girar no meu ombro, sinistro.

Aconteceu: caí. Ah, que bela constatação! Pera lá, isso é tudo menos banal, ninguém acha que vai cair até que já está com a cara no chão. Mas por que especular agora? Qual meu estado real?

Respiração forte, olhos redondos, susto. Qual o seu estado, Maurício? Comecei a varredura. Cabeça e pescoço? Intactos. Beleza. Respira. Nada de importante nos joelhos e pés, nada no lado direito do corpo. O que dói? Não sei bem… Ralei um pouco o cotovelo, arde, mas não há sangue visível.

– Porra! – berrei – Porra! – mais para liberar a nhuaca do que por causa da dor.

Outros caíram no caminho, como esses eucaliptos que vão virar lenha.

Na primeira tentativa de me erguer, o braço esquerdo faltou. Muita dor. Notícia pior, senti forte estalo no ombro, um tranco por dentro, como se o braço já não encontrasse encaixe, como se estivesse solto…

Acabou a viagem! Pronunciei esta verdade três vezes, habituando a boca antes de me convencer da ideia. Maurício, presta atenção, seu ombro é mais importante que a viagem. Pode ser uma lesão grave, com sequelas. A cabeça bateu, de leve, mas e se foi num ângulo errado? E se te der um treco mais tarde?

Reorganizei meus exércitos. O braço direito me dará sustentação. Levantei a cabeça, depois o tronco. Retirei a mochila, usando apenas a mão direita, mas suprimir o peso pareceu liberar a dor – talvez a mochila sobre ombro produzisse alguma estabilidade, não sei dizer.

Praguejei, xinguei. Nem um único ser vivo se moveu na paisagem. Mundo estranho. Olhei em volta. Silêncio. Nem vento.

Só então mirei a bicicleta. Aí está você, espalhada na pista, na abominável diagonal do mata-burro. Talvez seja ela a mais machucada. Sem catastrofismo: parece inteira, mesmo os sacos estanques continuam bem amarrados, tudo no lugar. Eu ia bem devagar quando caí, pode não ter quebrado nada. Sim, mas uma única peça danificada pode lhe causar transtorno – no câmbio ou no freio, por exemplo.

Foco, Maurício: o principal é sua condição ortopédica. Melhor testar a gravidade da lesão. Erga o braço. Dói. Braço para frente. Dói. Girando devagar. Dói. Dói muito e estala. Tem o protocolo: a gente dá nota para a dor comparando com as piores que já sentiu na vida. A dor atual não chega nem perto daquela torção que destruiu meus ligamentos do joelho sete anos atrás.

Melhor tranquilizar a tropa, será o que tiver de ser. Tira essa bicicleta daí, daqui a pouco passa alguém. Sempre com o braço direito, como uma escavadeira hidráulica, draguei a bicicleta pela mesa (o suporte que prende o guidão ao quadro) e arrastei-a até a beira da estrada.

Respira. Que fazer? Seria bom ter uma avaliação médica… mas vai ter algum médico nesses povoadinhos próximos? Talvez um enfermeiro em um posto de saúde?

Vamos comer, melhor para pensar. Também posso tomar um Dorflex, está à mão, no compartimento externo da mochila. Só com uma mão, abri a mochila e peguei o sanduíche. Xepa arrumada, olhei ao redor. O silêncio está lá, me cerca, está por toda parte, como um bando de tocaia.

Veja lá, a meio horizonte, dá para ver um braço da represa. É de onde sai a balsa para Caquende, mas vão ainda uns bons cinco quilômetros até Capela do Saco. Nenhum carro, nenhuma moto. Que fazer?

A dor aguda está mais nítida, tem a forma de uma tira de bacon apensa à parte anterior do meu ombro. Lateja. Por baixo da omoplata há outra dor, mais irradiada. Uma placa rija e fria atravessa minhas costas por dentro. Nada posso afirmar sobre a clavícula.

Cada ação requer um projeto. Antevejo o movimento. O braço esquerdo serve como apoio fraco, toda iniciativa é delegada ao direito. Dá para seguir? Tem que dar, parado aqui é que você não vai ficar. É meio-dia. Se estiver muito mal, vou a um quilômetro por hora, chego em Capela do Saco ainda com luz. Ali encontro pouso. Em último caso, me hospedo para me recuperar um pouco e decidir uma solução.

Trecho de asfalto, na saída de Carrancas.

Acho que estou recuperando o discernimento. A dor, ao contrário, só aumenta. Agora tenho que provar a mim mesmo que sou um homem de moral, que reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Não há movimento sem dor

Foi você que inventou de viajar sozinho, agora aguenta a dor, sem reclamar. Ai, mais um estalo. Hora de seguir.

Braço esquerdo na alça da mochila, depois o direito, consegui prender as fivelas da cintura e do peito. Para ajustar as tiras ao corpo, só pude contar com o braço direito, o braço esquerdo, além de doer, perdeu toda a força. Novamente, a sensação de que a mochila dá estrutura às costas, de que o peso recoloca o ombro no lugar. Mas será? Não parece crível, a dor deveria aumentar.

Uma seriema gemeu na beira da estrada, seria um sinal bem triste que eu não soube interpretar?

Ergo a bicicleta. Não há movimento sem dor. Mas cada etapa vencida é um ganho de confiança, vou cumprir o plano mínimo: empurrar a mim e à bicicleta, com dor e com tudo, até o pouso mais próximo. A vaidade também está ferida e mostra suas dores: depois de fazer tanta festa e contar tanto causo, o que vou dizer aos amigos e amigas que acompanham minha viagem? Que não fui capaz de chegar ao final? Concentre-se, a vaidade agora não lhe serve para absolutamente nada.

Será que consigo montar na bicicleta? Dói – sem novidade. Mas a dor é suportável, pelo menos por alguns quilômetros.

Pelo menos – “pelo menos” é a expressão do momento. Modalizado pelo mínimo, destaco-me de mim mesmo – paro, ouço, observo – tento assumir a regência dessa polifonia de sensações desconexas – dores, fraquezas, forças – que me constituem neste momento. Difícil produzir unidade, minha harmonia é complexa.

Conselho fenomenológico nos cruzamentos com linhas férreas.

À primeira pedalada, isso fica mais evidente. O equilíbrio inicial é resultado de um trabalho minucioso do corpo inteiro, um sem número de esforços e compensações, vetores voluntários, mas subconscientes, que se harmonizam no eficaz fluir do movimento geral. A dor polvilha toda a área esquerda das costas, e é difícil de me equilibrar, não entendo bem por quê. Seu braço esquerdo está sem força, é isso. Desisti. Por ora. Quando desmontei, estalo forte no ombro ao soltar a mão esquerda da manopla. Voltei a empurrar a bicicleta, lenta e pacientemente.

Fomos até o topo de uma subidinha. Há solidariedade entre mim e a bicicleta – ela nada faria sem minhas pernas, eu dependo da sustentação e da rolagem dela. Lá no alto, arrisquei mais uma tentativa de pedalar. Montei, agora já conheço as dores, seus pontos de origem e suas vias de irradiação. Ao deixar a bicicleta ir, me senti estável. Assim segui, mesmo depois, quando a estrada ficou plana.

No baixo, avistei uma boiada. A procissão das vacas ocupa toda a largura da via. Faz bem esperar. Projetei os movimentos, saquei da câmera. Cada ação é um teste, ensejo de auto-observação. Não podia contar com a mão esquerda como apoio, cliquei como deu. Depois baixei o grande olho, me fiz de mourão, para ver e ouvir.

As vacas paroleavam uma ladainha de bois.

Conversa de vacas (jogral rosiano[1])

– …na mesma canga, prenderam o boi Rodapião… Chegou e quis espiar tudo, farejar e conhecer… Era tão esperto e tão estúrdio, que ninguém não podia com ele… Acho que tinha vivido muito tempo perto dos homens, longe de nós, outros bois…

As vacas e um boi, em jogral de Guimarães Rosa.

– Só falava artes compridas, ideia de homem, coisas que boi nunca conversou.

– Disse logo: “Vocês não sabem o que é importante… Se vocês puserem atenção no que eu faço e no que eu falo, vocês vão aprendendo o que é que é importante…”

– Mas, por essas palavras mesmas, nós já começamos a ver que ele tinha ficado quase como um homem, meio maluco, pois não…

Mooooouuuuuuuughmmm

– Cada dia o boi Rodapião falava uma coisa mais difícil p’ra nós bois.

– Desse jeito: “Todo boi é bicho. Nós todos somos bois. Então nós todos somos bichos!…”

– Estúrdio…

Muuuuoooóoo

– Então, boi Rodapião ainda ficou mais engraçado de-todo.

– Falava: “A gente deve de pensar tudo certo, antes de fazer qualquer coisa.”

– Mas o boi Rodapião ia ficando sempre mais favorecido com suas artes; e era em longe o mais bonito e o mais gordo de nós todos. Até que chegou um dia…

Mmmmmmmm

– Chegou um dia, nós reparamos, que já estava trecho demais sem chover. Quase que nem capim seco não tinha mais…

– Então, os homens vieram.

– E chamaram todos os bois p’ra fora do pasto rapado.

– E foram levando a gente p’ra longe.

– Muitos dias, muito longe.

– Depois, chegamos…

– E puseram os bois nós todos num pasto diferente, desigual de todos os pastos,

– E que era todo num morro frio, serra a-pique, sem capim conhecido de nenhum de nós…

– Aí a gente pegou a comer, quase sem levantar as cabeças…

– Mas o boi Rodapião…

– O boi Rodapião foi espiando tudo, sério.

– E falando: “Em todo lugar onde tem árvores juntas, mato comprido, tem água. Lá, lá em-riba, quase no topo do morro, estou vendo árvores, um comprido de mato. Naquele ponto tem água!”

– E ficou todo imponente.

– E falou grosso: “Vou pastar é lá, onde tem aguada perto do capim, na grota fresca!…” 

– Eu também olhei p’r’a ladeira, mas não precisei nem de pensar, p’ra saber que, dali de onde eu estava, tudo era lugar aonde boi não ir.

Mooooooooouuuuuuuuuuugh

– Mas boi Rodapião falou como o homem: “Eu já sei que posso ir por lá, sem medo nenhum: a terra desses barrancos é dura, porque em ladeira assim parede, no tempo das águas, correu muita enxurrada, que levou a terra mole toda… Não tem perigo, o caminho é feio, mas é firme. Lá vou…”

– Eu não disse nada, porque o sol estava esquentando demais.

– E boi Rodapião foi trepando degrau no barranco: deu uma andada e ficou grande; caminhou mais, ficou maior. Depois, foi subindo, e começou a ficar pequeno, já indo por lá, bem longe de mim…

– Escutei o barulho dele: boi Rodapião vinha lá de cima, rolando poeira feia e chão solto…

– Bateu aqui em baixo e berrou triste, porque não pôde se levantar mais do lugar das suas costas…

– Ajudar eu não podia e nem ninguém… Chamei os outros que não vinham e não estavam de se ver…

–  Aí, olhei p’ra o céu, e enxerguei coisa voando…

– E então espiei p’ra baixo e vi que já tinham chegado e estavam chegando desses urubus, uns e muitos…

– E fui m’embora, por não gostar de tantos bichos pretos, que ficaram rodeando aquele boi Rodapião.

A igreja de Capela do Saco, município de Carrancas.

A morte de um herói

Consumindo as dores, ruminando a estória, não tardei a chegar a Capela do Saco, vilarejinho mínimo, quase só um arraial, pertencente a Carrancas.

Tudo eram hipóteses. Na escada em frente à igreja, um homem, uma mulher e um cachorro, sentados, almoçam. Contei meu caso, me observaram. Tem posto de saúde aqui? Só em Caquende, mas não tem médico. Onde tem médico? Ou inverte o caminho para Carrancas, ou tora a São Sebastião da Vitória; hospital, só São João Del Rei. Para atravessar? Desce até o porto, o barqueiro está ali. A pousada em Capela? Está fechada, não se viu o dono a semana toda, deve de estar viajando.

Agradeci, fiz minhas fotos. E me empurrei com a bicicleta até a borda da represa, em frente à balsa atracada. Não há vivalma.

Na curva da represa apareceu um homem. Perguntei se era barqueiro, ele me acenou que esperasse, fez meia-volta e perdeu-se do visível, mas voltou em seguida mandando um sinal de positivo. Pouco depois, veio o barqueiro, um moço corpulento, gordo até. Embarquei, juntei minhas coisas no chão, meio arrependido de ter deitado a mochila, pois a operação é penosa. Mas assim vou averiguando o teor de minhas dores.

Atravessando a represa, medindo as dores no ombro e na clavícula.

A travessia é curta, nem quatro minutos de porto a porto. No entremeio, fui apalpando a clavícula e mexendo o ombro, examinando a imagem do inchaço.

– A travessia é dois reais.

Eu só tinha uma nota de cinco, ele não tinha troco, ficou por isso mesmo. Expliquei minha situação.

– Eu vi o senhor ali, sentindo dor – testemunhou. Em seguida, confirmou as informações sobre os serviços médicos na região, acrescentando um dado que me encorajou: – Daqui até São Sebastião da Vitória é mais plano, a pior ladeira é essa aí na saída.

Caquende: polvilhado de casas nas faldas da igreja. Na porta do boteco da praça, um grupo de velhos contempla a tarde. Aproximei-me.

– Ah, o posto de saúde fechou, a moça já foi embora, só amanhã. Mas eu tenho aqui um remédio bom pra dor – sacou uma cartela do bolso, me oferecendo. Agradeci, disse que já tinha tomado um Dorflex – Tá bom, esse seu é até melhor que o meu.

– Acho que não quebrou não, né? – verifiquei com meus colegas de dores.

– Quebrou não. De outro modo o senhor não estava em pé.

Senti que poderia seguir e, fosse o caso, pegaria uma carona com um carro ou caminhão.

Hora de ajustar o aplicativo de mapas com o próximo trecho. O celular fica num bolso externo da mochila, de fácil acesso, do meu lado es-quer-do… intuí o desastre antes mesmo de tomá-lo nas mãos, o aparelho ficou bem embaixo de mim na queda. Com valentia canina, evitou que uma pedra ferisse o osso da bacia de seu dono. Pagou o heroísmo com a própria vida: a tela esmigalhou, não respondia a toque nenhum. Em respeito ao soldado caído em batalha, guardei silêncio, mas era preciso continuar. Segui os marcos da Estrada Real.

Pedalei bem uns 20 quilômetros desse jeito, com dor, ganhando confiança com a expansão do hodômetro. Nas primeiras subidas, desci da bicicleta e empurrei, mas logo me dei conta de que o mais difícil era essa operação mesma, pois toda quebra de estabilidade gera esforços doloridos. Se permaneço montado, no início de um trecho inclinado, rearranja-se em novo equilíbrio esse maço de vetores que incide sobre as costas, depois o conjunto estabiliza.

O carinho ontológico de um pão-de-queijo

Já bem próximo de São Sebastião da Vitória, encontrei o asfalto e, 100 metros adiante, um posto de gasolina. Parei ali. Era final de tarde, restavam apenas três quilômetros até meu destino.

– Para começar, um pão-de-queijo, por favor.

– Com ou sem recheio? – respondeu um homem com pinta de ser o dono.

– Tem recheio? De quê?

Ele mostrou o cardápio com mais de uma dúzia de possibilidades, pão-de-queijo recheado é a especialidade da casa.

– Com linguiça e queijo, por favor.

– Na chapa?

– Sim! – quase verti uma lágrima.

Deixei a mochila na cadeira e perscrutei o lugar. Uma lanchonete de posto de estrada, muito bem montada, com um amplo balcão, uma porção de mesas e, ao redor, prateleiras expondo produtos. Cachaças estão à venda. Que curioso, muitas das marcas são de Januária, tradicional cidade produtora, mas em todo caso distante, ao noroeste do estado de Minas, à beira do rio São Francisco.

Em São Sebastião da Vitória, cachaças de Januária.

A moça trouxe o pão-de-queijo, quentinho. À primeira mordida, o conforto tomou conta de mim pela primeira vez ao longo desse dia. Como é exaustiva a dor incessante, mesmo em intensidade que pareça suportável. Pedi um suco, para hidratar, depois um capuchino com canela, pois o fim da tarde traz frio, que reforça a dor e o incômodo. Mais um pão-de-queijo com linguiça e queijo. Ocorreu-me o famoso verso de Pessoa: “tudo vale a pena se alma não é pequena”. A medida de minh’alma era aquele pão de queijo recheado.

Comi quatro, devagar, concedendo-me tempo.

De volta à estrada, juntei-me a um ciclista que ia na mesma direção, fomos lado a lado por uns dois quilômetros. Ao entrar na cidade, deixei-o seguir e parei na farmácia. Comprei mais remédio para dor muscular e um spray para contusões esportivas com anti-inflamatório.

Encontrei a pousada, muito simples. Demorou um pouco, mas um homem veio me atender. Caladão, me mostrou o quarto. Perguntei se podia entrar com a bicicleta, ele disse que sim, mas que não precisava, ali ninguém mexe. Como seria um esforço descomunal carregá-la, inclusive escada acima, decidi deixar em um corredor mais largo, perto da porta. O homem então falou:

– Eu vi o senhor chegando.

Caiu a ficha, era o ciclista da estrada! Eu o reconheci, ele relaxou, ficou mais gentil.

Set’Dezoito

Chegaram dois homens. Aquela era uma pousada bem simples e barata, usada principalmente por quem vem à cidade a trabalho. Um homem magro, de uniforme verde e gorro de lã, sorrisão largo na cara, os dentes brancos em contraste com a tez negra.

– Olha só a sua bicicleta, está viajando com ela? O senhor está de parabéns.

Seu rosto é muito plástico, a máscara se molda sublinhando a intenção de cada frase – parecia um personagem de quadrinhos.

– Vem de onde? (Olhos bem abertos, inquiridores.) Resende… Resend’Costa? Ah, Resende, no estad’do Rio… É long’demais, gente! (Muito sério, cenho apertado, bico fino.) Está de parabéns mês’, sô! (Sorriso aberto, sobrancelhas altas, em curva.) Ah, tá visitando alambiques?! Então o senhor não pod’sair daqui da nossa região sem visitar meu amig’Nando. (Cabeça gira alguns graus à direita, sorriso com o canto esquerdo da boca, olho esquerdo semiaberto.) Ele faz a cachaça Set’Dezoito. É, Set’Dezoito. Vir aqui por alambiques e não visitar o Nando é o mês’ que não conhecer nada. (Rosto repreensivo.) Fica em Coroas. Quando for lá, diz que conheceu o Tião, Tião da Lavras Tratores, La-vras-Tra-to-res. (Desenha bem cada sílaba com os lábios.) Já fiz muito serviço para ele lá. Dá gosto de passar lá. (Sorriso.) Pode ser qualquer um, o Nando, qualquer funcionário, todo mundo vai lhe tratar bem, com um sorriso no rosto. (Sorriso desliza para os cantos da boca, cola o queixo no peito e ergue muito as sobrancelhas.) Dá gosto! Amanhã você vai lá? Ah, vai a Bichinho? (Pergunta com os olhos, bico apontado para baixo.) É sim, Bichinho tem artesanato – mas artesanato bom mês’ é em Resend’Costa. Vai passar lá? Ou melhor ainda (ergue o dedo como um político que discursa): Desterro de Entrerrios. Tem cachaça também, uai! (Sorriso franco, os dentes entreabertos.) Você procura meu xará Tião Gouveia, cachaça boa. Mas igual a do Nando não tem não. (Cenho franzido.) Set’Dezoito, isso. (Máscara neutra.) Cê tá de parabéns, eu tô admirado co’ocê! (Sorrisão generoso.)

Agradeci a conversa e as dicas, e me recolhi no quarto, hora de me cuidar. Subir a escada, banho, spray no ombro, vestir-se – cada operação é um acontecimento complexo, pois todo movimento demanda atenção integral.

Fui jantar. Tomei uma única pinga, a de curar. Tive uma luz: a cachaça que o Tião me indicou é a Século Dezoito! Claro que eu vou visitar, está programado, já até falei com o Nando!

Ruminações sobre a queda

Balanço: fratura não é; minha aposta é que a contusão não é grave, apesar do forte incômodo; rodei uns 25 quilômetros depois da queda, não piorou, bom sinal; a tese de que a viagem continua, mesmo com dor, ganhou força.

As vacas e os bois também têm a sua literatura. Ilustração de Poty para “Conversa de Bois”, conto do livro “Sagarana”, de João Guimarães Rosa.

Fui deitar – com analgésico e relaxante muscular, spray anti-inflamatório, canseira acumulada, bons cobertores e uma noite muito fria, não podia haver receita melhor para eu mergulhar num sono profundo.

Peguei a lembrar da conversa das vacas. O boi Rodapião teve sorte pior que a minha, ele não se ergueu, ficou para os urubus. Quiçá esse meu tombo tenha sido o melhor que podia me acontecer. Pois se eu não caio agora, a próxima queda poderia ser grave. A vida treina para os grandes erros – diz uma peça de teatro do iraniano Nassim Soleimanpour. Você comete muitos pequenos erros sem consequência, e é isso que lhe encoraja para cometer o grande erro, que é fatal.

A queda tem seu itinerário. Raramente acontece sem aviso. Veja o caso de Augusto Matraga – perdeu o dinheiro, perdeu as posses, perdeu a mulher e a filha, perdeu seus homens, ainda assim, sem mais nenhum chão para sustentar o seu castelo, arroga-se a valentia de enfrentar sozinho os jagunços de seu rival, Major Consilva. Os mercenários tentam reduzi-lo a gado, marcam a ferro antes do abate; mas Augusto berra como um homem e salta barranco abaixo, materializando a imagem-símbolo de sua derrocada. É só quando salta, quando realiza (com o perdão do oportuno anglicismo) sua queda, que ele faculta a si a chance de se reerguer.

Os edifícios, os clubes de futebol, os presidentes, os ciclistas, todos caímos porque avançamos na direção do buraco que nos cabe. Refiz o itinerário de meu tombo. Primeiro, a evitação, quando eu passava o mata-burro empurrando a bicicleta, procedimento que reduzia o risco a zero. Segundo, a quebra desse procedimento, ao abrir a possibilidade de não o seguir. Terceiro, a ideia: passar na diagonal. Quarto, a primeira execução da ideia, que é bem-sucedida. Quinto, a dúvida que polui a espontaneidade. Sexto, a quase falha tratada não como manifestação do risco real, mas como um erro que eu posso consertar com atenção e habilidade, mas agora se quebrou também a confiança do principiante. Sétimo, eu caio.

Sabe que piorou?

Pela manhã, o ombro estava sensivelmente melhor, o que é bom sinal. No entanto, evitei o otimismo, pois a dor, embora menos intensa, ainda era forte – a festejar era a mudança de tendência, não o teor da variação. O café da manhã foi pão com margarina. Peguei o bonde andando da conversa da faxineira com o porteiro.

– É mal-estar, disenteria… não sei mais o que eu faço.

– Precisa parar com a pinga, seu moço!

– Nada, minha amiga, eu nem não bebo mais. Todo mundo bebe e a minha está lá. Vai fazer um mês que nem sinto cheiro de cachaça.

– Parou, foi?

– Foi. Depois que eu parei, sabe que até piorou?

– Piorou, é?

– Piorou – e riram.

Amarre as botas, se for capaz

Fui organizar os trapos para seguir até São João del Rei.

A maior das dificuldades surgiu aqui: amarrar as botas. Descobri que a dor mais intensa e a instabilidade maior do ombro está no movimento de puxar para fora. Não tinha força nenhuma e o ombro dava trancos fortíssimos, muito doloridos. Por um lado, entendi que não era o ombro que se deslocava e sim a musculatura local que, com o edema provocado pelo choque, impedia o movimento fluido, o que resultava nos estalos. Não havia alternativa, enfrentei a dor para amarrar os cadarços. Ficou meio solto, tive que refazer tudo, com mais força, mais dor, estalos e coragem.

A praia de São João del Rei.

Resumindo o final dessa história, pedalei uns 25 quilômetros até São João del Rei, mais uns 5 quilômetros dentro da cidade, e ali gastei a tarde comprando e habilitando um novo celular. Segui para Tiradentes, e estiquei até o vilarejo conhecido como Bichinho, distrito da cidade de Prados, oficialmente denominado Vitoriano Veloso, em homenagem ao único inconfidente negro. Um motoqueiro a quem pedi informação me levou até a pousada Vó Cota, muito arrumadinha, de frente para a igreja. Ainda peguei os últimos minutos de supermercado aberto e comprei algum mantimento, pois à noite não há restaurante aberto.

Em Bichinho, minha principal expectativa era conhecer o alambique da cachaça Tabaroa. Quem sabe ela não ajudava na minha recuperação? Bêbado tem anjo forte, treinado, e também conta com os seus remédios. De todo modo, estava confiante de que podia seguir viagem, afinal, foram quase 50 quilômetros pedalados apenas neste dia, com dor e incômodo, mas com sinais consistentes de melhora.

[1] Com trechos de “Conversa de Bois”, Sagarana, de João Guimarães Rosa.

Cachaça da roça em caminho de tropeiro

Chegada ao palácio de Traituba, em Cruzília, Minas Gerais.

Incursão ciclística pelo interior de Minas chega a um alambique informal — e o descobre mergulhado na cultura, história e paisagem de uma região essencial para a formação do Brasil

Crônica de viagem por Maurício Ayer (texto e fotos)

Cruzília (MG) surpreendeu com seus queijos finos, assim como Aiuruoca (MG) e Resende (RJ), com cachaças de alta qualidade. Cada trecho da Mantiqueira e do sul de Minas, entrementes, ensina sobre as pessoas desse pedaço do mundo, e muito sobre a cultura cachaceira, principal objetivo desse itinerário pela antiga rota do ouro. A viagem segue entre Cruzília e Carrancas.

Pelos marcos da Estrada Real

O domingo amanheceu encoberto e frio, depois de toda uma semana de sol. As noites, em contraponto, estiveram muito frias.

Contei no episódio anterior dessa viagem que alguns dos parafusos que prendem o bagageiro à bicicleta não davam aperto. Achei que colar silver tape por cima lhes daria estabilidade suficiente para não soltar e de fato não soltou. Mas o que vi nesta manhã me causou espanto: as principais hastes do bagageiro, as mais grossas, que ficam presas no quadro junto ao eixo da roda traseira, estavam completamente tortas! Tentei entender o que aconteceu. A hipótese que me pareceu mais plausível é que, por não estar bem preso em um dos lados houve má distribuição do peso do bagageiro, o que então forçou as hastes e o metal começou a torcer – uma vez que começa, cada rabeada do saco estanque que estava atrás resultava em mais deformação do metal.

Mais tarde, escrevi relatando a ocorrência para meu amigo e professor Guilherme Cavallari, autor de vários livros sobre mountain bike e cicloturismo; como bom mestre, me devolveu uma resposta bem didática: “Não tem essa de bagageiro entortar, o seu deve ser muito ruim”. Quando comprei, me disseram que era bom… enfiei o orgulho no saco estanque, espero ter aprendido mais uma.

Como solução para seguir viagem, usei os extensores de borracha para desenvolver um “bagageiro estaiado”, tracionando-o por baixo a partir do canote do selim. Firmou: pé na estrada.

Minha atenção, porém, estava toda voltada para o desempenho da roda de trás. Na véspera, um mecânico de motos de Cruzília trocou as pastilhas para mim, mas não ficou bom, o disco estava pegando na pastilha, o que emperra a roda. Na descida o santo ajuda e, na subida, o problema fica menos evidente, então é nas partes planas da estrada que se sente quando a rolagem está aquém, pois dá-lhe perna para ganhar impulso e basta interromper o pedal que a velocidade arrefece. Rouba energia demais, mais que isso, rouba o prazer de pedalar, pois para tudo há esforço onde deveria haver fluidez. Quanto a frear, até que estava funcionando bem – o problema não é parar, mas rodar bem.

Selfie com bicicleta, em um dos marcos da Estrada Real, entre Cruzília e Traituba.

Ao sair de Cruzília, depois de dois quilômetros de subida pelo asfalto, quebrei à esquerda para um caminho de chão. Pela primeira vez na viagem, peguei um trecho do percurso oficial da Estrada Real, que se reconhece logo na entrada, pelos marcos de concreto que pontuam o percurso, identificados por um mapa esquemático com os traçados do Caminho Velho e do Caminho Novo, respectivamente ligando Paraty e Rio de Janeiro a Ouro Preto, e o prolongamento no chamado Caminho dos Diamantes, até Diamantina. Ao lado dessa sinalização principal, há um marco baixinho, de concreto com uma plaquinha metálica, que indica a quilometragem que falta até o próximo ponto de parada da Estrada Real – e o quanto ficou para trás desde o anterior. Este primeiro apontava Cruzília – 2 km para um lado, Traituba – 27 km para o outro.

A cada encruzilhada essa sinalização se repete, o que assegura o viajante do percurso correto e do bom controle das distâncias, essencial quando se viaja de bicicleta. Uma vez que se encontra os marcos da ER, não há como se perder.

Alambique de roça

A minha próxima parada, no entanto, era a visita a um alambique no meio do caminho, cujo dono, segundo me informaram, se chamava Zé Rato. Já próximo da quilometragem que me indicaram (20 quilômetros do início da terra), cruzei dois homens saindo de carro de uma porteira.

– Alambique? É ali na frente, do Zé Rato – respondeu de pronto o jovem. O velho esperou, o jovem se calou após a fala afobada; o velho assumiu a palavra.

– O senhor vai passar uma igreja, em seguida tem o laticínio, é ali. Mas se o senhor sair aqui à direita tem um alambique ali também, do meu primo. Só acho que ele não vai estar lá agora.

Barris de carvalho da destilaria do Zé Rato.

Devolvi-lhes um respeitoso e grato sorriso. Ficaria feliz de visitar o outro alambique, mas o tempo é curto, devo me manter no caminho principal para torar até Carrancas ainda nesta tarde. Ele ouviu, acedeu, e repetiu a explicação, com variantes.

– O senhor segue por aqui mesmo, está perto. Depois dessa curva. O senhor vai ver o laticínio, aí tem uma fazenda branca, é ali mesmo.

Eu agradeci, ele repetiu uma terceira vez, enfatizando que era fácil e que não tem como se perder, quando vir a igreja, o laticínio, a fazenda branca (com janelas amarelas, precisou), tem o portão, onde às vezes pode ter alguma vaca. Sorri mais uma vez, agora montando na bicicleta ao mesmo tempo que agradecia. Enquanto se está diante do mineiro ele jamais o deixará constrangido pelo silêncio, porém, cumprida a devida etiqueta – que inclui a repetição do ritual de informar e agradecer ao menos duas vezes –, é possível partir entre as falas sem que o interlocutor se ofenda, pois na conversa não existe ponto final.

Lá estava a igrejinha, com seu estilo peculiar meio moderno, geométrico, com uma cruz de vidro na única torre. Passado o laticínio, com ares de desativado, avistei a fazenda branca e entrei pelo portão – a indicação estava corretíssima: havia vacas (provavelmente, na próxima versão da indicação eu seria informado da presença das galinhas, que de fato eram multidão). Uma mulher varria a varanda e uma menina brincava ao lado, no pátio. Contei que viera conhecer o alambique por indicação do Luiz Sergio, do laticínio de Cruzília, que é conhecido da casa. Ela chamou seu marido Carlos, o responsável pelo alambique.

Carlos me contou que neste ano eles não vão produzir cachaça. Ainda assim fez a gentileza de me receber e me mostrar as instalações, prevenindo-me de que elas não estavam limpas e preparadas nem para a produção nem para receber uma visita. Tranquilizei-o de que levaria isso em conta, mas que ainda assim queria conhecer o alambique, que me fora bem recomendado. Informei-lhe do meu projeto de viagem em curso, o que satisfez a última lacuna no protocolo de recepção do Carlos, afinal, ele recebeu uma moeda valiosa: uma história para contar aos seus parceiros, a do ciclista que roda por aí atrás de cachaça.

A destilaria do Zé Rato é um alambique de roça, simples, mas correto, com uma boa faxina e algumas melhorias poderia talvez obter o registro do ministério, se assim quisesse. De todo modo, esse tipo de estabelecimento funciona apenas para abastecer o consumo do dono e da comunidade local, é, portanto, peça importante para compreender uma autêntica cultura cachaceira.

A moenda fica em uma área separada, descoberta. Depois há uma casa com dois ambientes, onde ocorrem a fermentação e a destilação, e, ao lado, uma outra casa para abrigar os barris de carvalho. Ao abrir a sala de envelhecimento da cachaça, surpreendemos uma família de morcegos – a disputar com os anjos as emanações dos barris. Os alados explodiram em voos bêbados, perfazendo trajetórias estocásticas que, num extremo esforço de síntese, descreveria como “circulares”.

Abelhas fizeram casa em um barril.

Seo Carlos me ofereceu a cachaça de um dos barris, “o melhor” deles, me garantiu. Era uma caninha muito bem elaborada, com notas de doce de coco queimado, como às vezes acontece com barris de carvalho. A cachaça estava ali há uns bons três anos, mas a cor era ainda pouco intensa, donde se conclui que os barris eram antigos e bastante usados. Perguntei se havia diferença entre os barris.

– Este barril aqui é de cachaça destilada, não está boa.

Não entendi, perguntei de novo. Carlos explicou: a “água fraca” era levada de volta ao alambique, então ficou claro de que se tratava: a cauda da destilação, a parte final, mais “aguada” e geralmente separada do coração (que é a cachaça propriamente dita), é redestilada para aproveitar o álcool que restou nela. Segundo me disseram amigos alambiqueiros, misturar a cauda a um novo mosto fermentado é prática aceita em alguns bons alambiques, pois os resíduos da cauda serão novamente separados na destilação. No entanto, o destino mais comum para a cauda e a cabeça, conforme tenho constatado, é um outro tipo de redestilação, com o objetivo de produzir etanol, usado como combustível em motos e carros.

Saímos da sala de envelhecimento por uma porta lateral que dava para uma espécie de varanda. Havia ali alguns barris sem uso. Um deles foi tomado por abelhas, que ali fizeram sua colmeia. Carlos me mostrou, recomendando cuidado. Como era o mel delas? Carlos não soube dizer.

A fermentação é feita em caixas d’água adaptadas, usando o fermento preparado ali mesmo, a partir do caldo da cana, no início da safra.

Alambique da marca Osório.

O alambique de fogo direto, com um volume de cerca de 300 litros, é da marca Osório, que eu nunca tinha visto, pois quase sempre o que eu encontro são equipamentos da fábrica Santa Efigênia. Décadas atrás, quando o patrão comprou esse alambique, o representante da marca veio ensinar como fazer cachaça, e este foi o único treinamento pelo qual o Carlos passou. No mais, aprendeu observando produtores vizinhos e experimentando na prática a colaboração com as leveduras e o comando da fornalha.

Seo Carlos, mestre alambiqueiro, em frente às instalações onde produz cachaça.

Seo Carlos me conduziu entre as vacas até a saída. No meio do pasto, vi umas ruínas de construção e ele me contou que ali existiu uma fábrica de manteiga, uma das mais antigas da região. Minas Gerais é toda assim – por ter vivido tempos gloriosos que se esvaíram quase repentinamente, com o fim do Ciclo do Ouro, ficam para trás muitas construções que vão sendo deglutidas pela paisagem e que poderiam ser objeto da arqueologia.

Meu caminho agora passava justamente por uma construção histórica. Mais 10 quilômetros, precisou seo Carlos, e encontro o “palácio” de Traituba. Taí um caminho com jeito do itinerário de tropeiro, passando em um alambique da roça para encher os garrafões – ou até os barris, se for levar em quantidade para vender – e depois encontrar uma velha fazenda para pousar e, no dia seguinte, retomar a estrada.

O elefante e os cavalos

A essa altura, eu estava satisfeito com meus freios, creio que com o uso ele se ajusta às pastilhas novas. Com a “queima” das pastilhas, isto é, as primeiras dez freadas bem dadas, também melhorou um pouco a rolagem das rodas, o prognóstico era bom e eu recuperava o prazer de rodar por aqueles caminhos de terra. Com vento no rosto, após uma descida, vi ao longe o palácio surgir entre as araucárias, uma linda imagem que eu via se aproximar.

O palácio de Traituba, construído entre 1826 e 1830.

Traituba, um vasto casarão, foi construído no final da década de 1820, a meio caminho entre Cruzília e Carrancas. Segundo soube, foi construído para que Dom Pedro I o utilizasse – versões atestam que ele tinha uma amante na região, não pude confirmar o boato. Porém, o monarca não chegou a hospedar-se no palácio, pois abdicou em 1831 para retornar a Portugal e o palácio, que foi rebaixado em um andar para reduzir os custos de manutenção, teria tudo para se tornar mais um elefante branco na paisagem brasileira. Porém, a história do lugar ainda estava por ser escrita.

Sabe-se que à cidade de Cruzília atribui-se ser o berço da raça de cavalos Mangalarga Marchador, a partir de animais selecionados no sul de Minas e que ganharam fama na fazenda Mangalarga, no interior do estado do Rio de Janeiro. Foi na fazenda Traituba, entretanto, que várias gerações após gerações da família Junqueira desenvolveram a raça, famosa pela suavidade de sua marcha, excelente para as viagens longas. Trata-se, pois, de uma raça brasileira com mais de 150 anos de história e que não foi cruzada com nenhuma outra raça estrangeira.

Bovinos de Traituba, em formação defensiva, me observam curiosos.

Hoje, pelo que soube, Traituba se transformou em um hotel-fazenda. Neste domingo de início de julho, porém, estava fechado. Aproximei-me do portão, trancado, e a sensação geral era de abandono e solidão. No entanto, vi através do portão que o pátio não estava sem uso: um grupo de novilhas e garrotes pastava. Quando os notei, eles já tinham dado pela minha presença e me observavam, como eu a eles, com grande curiosidade. Cumprimentei-os, permaneceram bem calados, mas com os olhos firmes sobre mim. Havia eletricidade no ar. Abri a bolsa e peguei a câmera bem devagar, mas ao apontar meu grande olho de vidro os bovinos se assustaram e moveram-se. Baixei a máquina, pararam. Estavam em formação defensiva, em grupo, observando, mas prontos para correr.

Deixei-os em paz e fiz o meu lanche. Saquei sanduíche e frutas da mochila, comi em pé, ali mesmo, olhando para o chapadão no horizonte, e as colinas que o precedem. Que belo lugar para um palácio!

Sem queijo

Segui meu rumo. Em uma encruzilhada, parei um motoqueiro que me explicou:

– A Estrada Real é seguindo reto, mas se virar aqui à direita é mais perto.

Peguei o caminho mais curto, devo ter economizado uns bons cinco quilômetros, em compensação peguei muitos e muitos morros. No cômputo geral, terá valido a pena? Difícil saber… toda vez que peguei uma alternativa no final da jornada, fui presenteado com lindas cenas de cair da tarde e pôr-do-sol, e dessa vez não foi diferente. Não sei dizer se o outro caminho oferecia belezas similares.

Na Estrada Real, a caminho de Carrancas.

O que posso afirmar é que suei mais naquelas ladeiras, pois cortei um trecho pelo meio das colinas. Lá no topo de um morro, depois de rodar 50 quilômetros, a mente busca estímulos para terminar sua jornada. Aí é que me veio à mente o maravilhoso queijo que eu ganhei do Luiz Sergio, do Laticínio Cruzília, e… Nãããããããooooo! Esqueci o queijo!!! Refiz na memória a preparação da bicicleta antes de sair, pela manhã, e me lembrei perfeitamente que esqueci o queijo no frigobar da pousada. Não havia hipótese de voltar, a constatação era dolorosa. Em silêncio de réquiem, lamentei profundamente ter guardado na geladeira um queijo que foi escolhido, justamente, por dispensar a refrigeração.

Viajantes

Meu atalho desembocou de volta na Estrada Real oficial. Pouco adiante, havia um Toyota Bandeirante parado, quando passei ao lado, ali estavam um senhor e sua esposa, ele puxou assunto. Conversamos, contei do projeto de minha viagem, da cachaça, da Estrada Real, de Minas Gerais. Moram em Pindamonhangaba, lembrei da boa cachaça Sapucaia, uma marca tradicional da cidade que recentemente transferiu-se para Pirassununga. Percebi na fala dele um sutil sotaque francês, perguntei de onde eram, soube que ele se chama Roland e nasceu na Suíça francesa, embora viva no Brasil há várias décadas, onde trabalhou por muito tempo na indústria farmacêutica. Valéria é professora, natural do vale do Paraíba.

Já estava chegando em Carrancas, faltava apenas uma relaxante descida. Encontrei uma pousada a preço justo e com wi-fi, desfiz minha montaria, tomei um banho e descansei umas duas horas. No celular, mais uma dica do Luiz Sergio: “Tem uma produção de cogumelos bacana aí em Carrancas. Mas não é do que o passarinho não come, é cogumelo que passarinho come!”. Dessa vez não vai dar pra conhecer, mas fica anotado para quando eu voltar.

Através do mar de morros de Minas.

Quando saí a jantar, encontrei por acaso o casal Roland e Valéria, que me convidaram à mesa para retomarmos a conversa. Roland é nostálgico da Minas Gerais de 20 ou 30 anos atrás, sem tanto asfalto e mercantilização nas cidades históricas. Falamos também sobre cachaças de qualidade. Mas o que mais estranha no presente é a política:

– Nunca vi tamanha degradação e apatia!

Em viagem, evito o confronto, não era o caso. Ainda procurando entender a posição de meus interlocutores, afirmei, cauteloso:

– Quando você reúne a delação, a gravação da conversa por telefone, a filmagem da entrega da mala de dinheiro, a operação controlada pela Polícia Federal, todo um conjunto de provas, e ainda assim você deixa impune esse político escancaradamente criminoso, a mensagem que você passa ao povo é muito degradante, e isso é muito perigoso, pois destrói o caminho da reconstrução política democrática, pode abrir espaço para os aventureiros autoritários.

– E só prende de um lado! – exclamou Roland, eu assenti.

Minha passagem por Carrancas serviu para anotar umas dezenas de coisas que deixei de conhecer, como cachoeiras, restaurantes, cogumelos e, naturalmente, alambiques, pois os há por toda parte. No dia seguinte, minha bússola apontará na direção de São João Del Rei.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Carrancas, Minas Gerais.

Em cena, a escrita sem fim de Marguerite Duras

Foto de Bruna Pezzutti.

Espetáculo teatral em cartaz no Sesc Consolação entrelaça personagens e motivos das obras de Marguerite Duras situadas na Índia e Indochina.

Por Maurício Ayer

“A história de minha vida não existe”, respondeu Marguerite Duras, peremptória, a uma jornalista que lhe propôs escrever sua biografia. Mas acrescentou em seguida que estava interessada em ler o que a jovem autora escreveria a seu respeito, a sua história. Mais do que negar a “realidade factual”, ainda que reconhecendo que ela é tão frágil quanto a memória e o esquecimento, Duras chamou a atenção para um ponto central de sua poética: entre o vivido e o narrado, ela não enxerga uma cisão, ao contrário, há um trânsito, alimentação mútua, e vastas regiões de indistinção. E também que as histórias pertencem tanto a quem as vive quanto a quem as conta. Histórias que, a rigor, só existem porque alguém vai lê-las, ouvi-las, assisti-las.

É nesse fio de navalha entre o vivido e o escrito que acontece Marguerite mon amour – Recital.Duras, espetáculo teatral criado pelo Grupo Macunaíma/CPT. Assim, Marguerite adolescente – que vive, na virada dos anos 1920, na Indochina, um amor proibido –, seu amante chinês, a mãe, Anne-Marie Stretter (a pálida embaixatriz francesa com seus incontáveis amantes), a mendiga louca e o vice-cônsul de Lahore, personagens que participam da vida e da escrita de Duras, presentes em mais de uma obra, estão também no Recital. Em meio às falas, gestos, cenas, música, objetos, figurino, surgem passagens de Uma Barragem contra o Pacífico, Cinema Éden, O Vice-cônsul, India Song, A mulher do Ganges, O amante, O amante da China do Norte, entre outros livros, peças de teatro e filmes escritos e realizados por Duras.

Porém, mesmo os leitores e espectadores durassianos mais fiéis poderão ser traídos pela memória. Pois o espetáculo é como um pequeno universo que se desdobra a partir de um ponto, talvez a única coisa permanente em uma obra em que tudo é transitório: o lugar onde a dor e o amor formam uma só palavra, em torno do qual gravita uma fantasmagoria viva – como a dança de fragmentos melódicos em música de câmara.

Motivos e personagens se encontram como ressonâncias que uns e outros provocam entre si. São ecos, invenção de um passado remoto ou próximo, a formar aquilo que Duras descreveu em India Song como uma “melopeia feita de cacos de memória, e no decurso da qual, às vezes, uma frase emergirá, intacta, do esquecimento”. O delicado emaranhado desse espetáculo, sem dúvida, só pode ter sido o tecido de um longo e amoroso convívio do diretor e do elenco com Marguerite Duras e suas criações.

A vida escreve o tempo todo. A bem dizer, para Duras, não faz mesmo qualquer sentido essa separação entre viver e escrever. Não porque se escreve a partir da vida, mas porque a própria vida decorre do escrever: não é sobreviver, mas presença intensa, testemunho singular do que é singular, dor compartilhada como amor, o avesso do banal.

Por tudo isso, sinto que Marguerite Duras é uma presença nesse Recital e continua a escrever através dele.

Informações sobre o espetáculo: 

Título: Marguerite, mon amour – recital.Duras

Com Nara Chaib Mendes, Jui Huang, Thais Velasques, Kaio Pezzutti, Rafaela Cassol, Fabio Martinelli e Evandro Netto.

Direção: Emerson Danesi

Espaço CPT/SESC – SESC Consolação – 7º andar

Quintas às 20h até 24 de agosto de 2017.

Classificação Indicativa: 16 anos.

Bactérias e Filosofia no interior de Minas

Região de Cruzília, terra de queijos.

Ou de como se descobre (entre queijos e mesa de bar) que a vida ultra-virtualizada das metrópoles nos aliena tanto da natureza quanto das chances de sentir e transformar o mundo

Crônica de viagem de Maurício Ayer (texto e fotos)

Estou há quase uma semana em viagem cachaciclística pela Estrada Real. Nos dias passados em Aiuruoca em visita à cachaça Tiê, descansei as pernas do pedal nas pirambeiras da Mantiqueira e das desventuras das primeiras horas, salvas pela poesia da cachaça Reserva do Nosco. Já estava seco por uma estrada e meu próximo destino é Cruzília, onde talvez encontre alambiques, mas minha expectativa é conhecer seus premiados queijos.

De Aiuruoca a Cruzília

Manhã de sexta-feira, deixei para trás a Fazenda Guapiara, casa da cachaça Tiê, rumo a Cruzília. A viagem, a princípio, não teria complicações. Havia um elemento simbólico que incorporei à estrada: o dia é de Greve Geral, convocada por movimentos sociais para exigir Diretas Já e opor-se às contrarreformas trabalhista e previdenciária, entre outros desmandos do governo ilegítimo de Michel Temer e seu escalão de investigados. Dediquei os quilômetros pedalados em apoio aos protestos.

Dali até o centro de Aiuruoca, são 15 quilômetros de terra. Numa encruzilhada, parei um carro para confirmar o caminho, e o motorista – de cara amarrada, mas nem por isso menos solícito – me indicou uma variante: “tem menos morro, é mais perto e o senhor vai cair na praça da igreja de Aiuruoca”.

Passada a cidade, subi pacientemente uns três quilômetros, em seguida não tardei a chegar ao trevo da BR. Esta rodovia liga Juiz de Fora a Varginha, é mais estruturada e tem acostamento, o que faz toda a diferença para o cicloviajante. Calculei que estava na metade do caminho, restavam 25 quilômetros. Meu plano era escapar de novo para a estrada de chão, mas… três problemas inesperados surgiram.

O primeiro não era exatamente desconhecido, mas se agravou: os parafusos do bagageiro estavam soltando – coisa de magrela velha, com as roscas espanadas por milhares de léguas de buracos. O segundo me surpreendeu: me dei conta de que meu pneu de trás, em um ponto, já mostrava os fios por baixo da borracha – talvez tenha a ver com o furo que aconteceu no primeiro dia de viagem: quando a câmara murchou, a roda pode ter mordido o pneu, mas é impossível afirmar e, para resumir, o pneu estava nas últimas e precisava ser substituído sem demora. Por fim, o freio de trás fazia um barulho estranho de lata com lata, verifiquei que a pastilha de um dos lados, de tão gasta, caiu. O freio funciona, mas com um barulhão e pode danificar o disco. Pois é, a magrela está precisando de uma reforma, mas vamos aguentando bem.

Troquei dois parafusos e fiz uma gambiarra enrolando-os com silver tape, o que pareceu momentaneamente satisfatório. Fora isso, eu tinha pneu e pastilhas de freio reservas, mas, sobretudo quanto ao último problema, seria prudente resolvê-lo em uma bicicletaria, porque a troca exige certa prática e deveria reposicionar o lado da pinça do freio que ficou sem pastilha. Dava para seguir, mas com redobrada atenção. Por tudo isso, preferi me manter no asfalto que, além de menos buracos, tem mais movimento de pessoas a quem recorrer, se necessário.

A “guarita” do ônibus, onde parei para o lanche e descobri os problemas na bicicleta.

“Ciclista treinado sobe, mas o senhor também consegue”

– Boa tarde. Cruzília? É meio perto, mas é meio longe, daqui lá são oito quilômetros, nove quilômetros, o senhor segue por aí mesmo. Vem de onde? Aiuruoca? Mas o senhor não é de lá não, é? Ah, São Paulo. Eu sou de lá, nascido e criado em Aiuruoca, aí vim trabalhando de fazenda em fazenda, cheguei aqui. Hoje eu estou velho, mas trabalho um pouco. Cuido de um gadinho do meu patrão. É perto daqui, a fazenda é ali atrás. Diz que boiadeiro, se parar, aí é que a velhice chega, fica rijo, não aguenta mais nada, então eu trabalho, não é pesado, é o que eu sei fazer. O senhor deve de seguir por esse asfalto mesmo. Vai ter uma subida forte, coisa de um quilômetro, ou dois, ou três, não é longe, depois de uma baixada da estrada e de uma curva assim. Gente jovem e preparada sobe, mas o senhor mesmo assim pesado é capaz que consegue subir também. Senão empurra a bicicleta, não é humilhação pra ninguém. O senhor tem disposição, com fé sobe. Depois desse tope, aí já está perto, continua sempre igual e chega a Cruzília. Boa tarde, vai com Deus. Amém.

Meu informante subestimou minhas pernas, ou superestimou minha barriga, a subida nem era tão dura assim.

O caminho foi mais longo do que previ, 60 quilômetros no total, até a ótima pousada do Lelinho, no centro de Cruzília. Ela me fora indicada pelo Luiz Sérgio, o dono do laticínio de Cruzília e meu contato na cidade.

Conserto

O Luiz Sergio é amigo de amigos meus, que muitos anos atrás foram seus colegas no Conservatório Dramático e Musical de Tatuí – ouvi dizer que é um excelente violoncelista. Hoje, junto com os irmãos, dedica-se à fábrica de queijos que herdou do pai, mas ainda dá aulas de violoncelo como voluntário em uma escola em Caxambu, onde estão batalhando para montar uma orquestra. Marcamos de nos encontrar no dia seguinte.

De manhã, minha prioridade era consertar a bike. Fui à bicicletaria que me indicaram, mas sábado a oficina não funciona, apenas a loja de peças, então ali só pude comprar um pneu. Lá mesmo me mandaram a outro lugar, uma oficina de motos que também conserta bicicletas, mas o bicicleteiro estava doente, não foi trabalhar. O mecânico das motos, Edemir, se compadeceu de minha situação e topou correr comigo o risco de mexer na bicicleta. O freio a disco hidráulico é parecido com o de algumas motos, mas não é exatamente igual. Eu tinha receio de mexer nela sozinho, principalmente porque, como disse, o lado da pinça do freio que ficou sem pastilha tem que ser reposicionado, meio na marra meio no jeito, e meu medo era forçar a peça de um modo errado e danificá-la de vez.

Edemir trocou as pastilhas, não tenho dúvida de que fez o melhor que pôde, mas, pra ser sincero, não ficou bom. A roda estava meio travada, com o disco pegando um pouco na pastilha, e o freio, sem muita potência. Passamos um tempão tentando resolver, mas não melhorou. Agora, imagine subir morros de Minas tendo que vencer, além de meu próprio peso, o travo da roda? Pior, encarar descidas sem confiar no breque? Edemir ligou para um amigo bicicleteiro, ele garantiu que, piorar, o freio não piorava, capaz até de melhorar. Não me restava alternativa senão aceitar minhas condições momentâneas e buscar a solução definitiva na próxima cidade.

O queijo e o encontro de perspectivas

Toca o celular, é o Luiz Sergio. Combinamos de nos encontrar na porta da pousada. Ele chegou acompanhado de seu genro Matheus, de BH.

Queijaria Cruzília, ao lado do local onde ficava o antigo laticínio da família.

Na queijaria Cruzília, sentamos na mesa de fora, à beira da estrada que parte em direção a Minduri e Carrancas, onde antigamente ficava a fábrica de queijos do pai de Luiz Sergio, antes de mudarem para as instalações atuais. Nosso anfitrião abriu para nós um Azul de Minas, um Santo Casamenteiro e uma peça grande de queijo “tipo emmental”. O queijo deu mote à conversa:

– Eu sou obrigado a dar a esse queijo o nome de “tipo emmental”, mas é outro queijo. Posso seguir exatamente a mesma receita, mas o clima aqui não é o da Suíça, as bactérias são outras, a alimentação das vacas não é igual, então o gosto, a cor e a textura vão ser diferentes também. Eu queria dar nomes originais para os queijos, só que o Ministério não deixa.

O Azul de Minas foi uma vitória – é um queijo “tipo gorgonzola”, produzido no terroir do Sul de Minas.

Azul de Minas e “tipo emmental” harmonizados com cerveja artesanal.

– A gente faz gorgonzola também, e as vendas se mantêm mais ou menos estáveis, já o Azul de Minas cresce muito mais rápido. É uma tomada de posição. Na Europa isso nem seria uma questão, não se concebe um queijo que não seja produzido na região de Parma e Reggio Emilia se chamar “parmesão” (ou Parmigiano Reggiano), ou um queijo “roquefort” que não seja da sua região de origem. Não é a marca, é o terroir, o queijo pertence à sua terra.

Evidentemente, não é nenhuma novidade, então, por isso mesmo, por que tanto empecilho para admitir a criação de novos nomes? Por que seguir a norma de dar nomes que vêm de outro lugar, como se fossem mais legítimos, em vez de entender o queijo como um processo vivo, que conta com a inventividade de bactérias, leveduras, bovinos e humanos de cada lugar? O valor das raízes profundas só se mostra quando a árvore frutifica, e o ciclo se completa quando se tem a autoridade da autoria do nome de seus próprios filhos. Mas esse é o eterno retorno brasileiro, ficamos a reboque do Norte Maravilha – até que, quando a subautoridade local se dispersa, algo acontece que reinaugura o país. Distraídos venceremos, disse o poeta.

Luiz Sergio tinha um argumento forte: acabara de chegar da França com uma medalha de prata no peito, conquistada por seu queijo Santo Casamenteiro, um preparado de Azul de Minas com damasco seco e nozes. Outros queijos mineiros feitos com leite cru venceram entre os artesanais, já sua láurea foi em uma das categorias industriais.

Para ilustrar a conversa, Matheus trouxe cerveja artesanal para conciliarmos com os queijos Cruzília. Uma cerveja mais doce, com forte nota de canela, me pareceu harmonizar com o Azul, em contraste e complementação com seu sal e acidez, sem prejuízo do equilíbrio de corpo e intensidade de sabor. A canela, supus, decorre da maturação da cerveja em tonéis de amburana, tal como indicado no rótulo, o que levantou a bola para o meu tema primordial: é madeira de envelhecimento de cachaça, que hoje influencia outras bebidas.

Um dos queijos Cruzília com nome original: Serra da Mantiqueira.

Refletir sobre o micropoder castrador da autoridade local sobre a criatividade dos queijeiros nos levou sem intermediários à (dita) grande política. Lembramos da greve da véspera – e de como ela praticamente não se fazia sentir por lá. Contei que no café da manhã da pousada, no entanto, um hóspede carioca comentou sobre a greve, pois passou por bloqueios de estradas na saída do Rio. Estava contrariado pelo tempo a mais gasto no percurso, mas de dentro de seu cansaço aceitava que “alguma coisa” precisa ser feita diante do caos político e do assalto ao país. Outro hóspede – vendedor de ração para cavalo que estava ali a trabalho – entrou no papo. Numa situação dessas, espero ouvir todo tipo de opiniões fantasiosas, como manifestação da florescente cultura da pós-verdade e suas usinas de boatos delirantes, então me surpreendi que a conversa se manteve no campo do razoável. Ninguém tomava um partido explícito, não posso afirmar se falei com “coxinhas” ou “mortadelas”, o que denota que um trato social mínimo se manteve, mesmo num debate entre estranhos sobre política. Era como se, de repente, eu tivesse saído do Facebook.

Na mesa dos queijos, constatamos nossas afinidades, podíamos falar sem muita mesura. Eu tinha notícias de São Paulo, a greve fora menor que a anterior, porque algumas centrais roeram a corda, mas não deixou de ser uma grande paralisação. Meus interlocutores, preocupados, queriam saber sobre o João Dória e, também, minhas impressões sobre a experiência do Fernando Haddad na prefeitura. A conversa enveredou pelas alternativas eleitorais de 2018, o que logo se esgotou, diante da inevitável pergunta:

– E se não houver 2018?

O jogo é bruto, e as exceções proliferam e espalham, daqui até 2018 há uma jornada dura a percorrer. Imaginei que a riqueza de nossa situação não estava em especular sobre eleições, mas em constatar um encontro de perspectivas – a do paulistano em viagem, a do empresário de Cruzília, a do jovem de BH. Entre nós, nos interessamos por nossas distintas visões do momento político, até que chegamos a um lugar comum:

– Os golpistas não têm um projeto, eles têm um programa de retrocessos e entreguismos, que estão executando a toque de caixa porque não prestam contas a ninguém. Mas não formulam nada que construa o país.

– E nós, o que queremos, além de tirá-los do poder?

Era como se o jardim de nossa conversa bifurcasse em temporalidades irredutíveis – e lá vem minha imaginação procurando nexos de índole saber-sabor: como o mesmo leite gera um queijo azul e um gouda. Uma vereda segue a narrativa de 2018, que nos lança em ferrenho pragmatismo e nos faz perguntar despudoradamente “quem pode ser?”; a outra tem sua própria bifurcação de tempos simultâneos, o radical instante do momento vivido aqui agora e o horizonte utópico ideal, dualidade que deve encontrar uma síntese no gesto de agir agora em função de um projeto político cujos fundamentos precisam ser repensados, sob risco de travar a ação e iniciativa do presente. De um lado, a eleição e sua Realpolitik, de outro, a retomada do sentido sem o qual não nos movemos senão a reboque. E será que se não recriarmos o projeto e o sentido conseguiremos garantir qualquer coisa em 2018?

As questões circularam, viajamos com elas. O que queremos para as cidades como Cruzília? E para São Paulo e BH? O que fazer da zona rural? O que queremos para as empresas? O trabalho e os trabalhadores? Qual será a política para a Amazônia, a Mata Atlântica e o cerrado, e para os outros biomas? Os rios, como ficam? Que modelo energético? O que nossa educação deve nos entregar? E a pesquisa? Que culturas serão fomentadas?

– Esses debates tiveram tanta vida no país desde o fim da ditadura e agora parecem interditados, porque a gente vive uma agenda sem amanhã.

– Exceto para os insistentes, que só têm como caminho a possibilidade de repetir e repetir as perguntas.

– Quando a selvageria alcança o nível de matarem sem-terra e isso ser tratado como normal, quando um bando de homens mata uma mulher depois de estuprar e a primeira pergunta é se ela “topou a orgia”, quando demolem as leis trabalhistas e ninguém se dá conta, a gente tem que gritar. O grito será nosso programa mínimo comum, que é a única coisa que pode garantir que haverá 2018 de verdade.

Não sei bem quem disse qual dessas falas, cuja autoria atribuo coletivamente à mesa e aqui reconstruo acelerando um pouco os ritmos. De minha parte, compreendi que talvez essa tenha sido uma das razões para colocar a bicicleta na estrada: me reconectar com um sentido de país e comunidade menos descartáveis, vivenciar frações de mundo que ficam bloqueadas na hipervirtualidade de minha metrópole. Em viagem, sinto respirar um ar menos tóxico – não só no sentido literal, óbvia verdade, mas sobretudo na simbologia política.

Praticamos o exercício do delírio utópico e conspiratório em prol da invenção do país, sem chegar a conclusões, mas semeando em nós mesmos alguma esperança. Esperança que nasce do próprio encontro de perspectivas.

Santo Casamenteiro, recém-chegado da França, onde conquistou uma medalha de prata.

Imaginei um país com um peso menor de São Paulo na balança política. E que o Brasil é um continente inteiro, e assim poderia se mostrar se fizesse da imensa riqueza cultural de suas infinitas localidades a plataforma de seu destino nesse mundão.

A conversa se alongou, ultrapassou a hora de ir à fábrica. Pedi ao Luiz Sergio um queijo que “pode ficar fora da geladeira” para levar na viagem, ele separou um belo queijo de massa firme, que seria bem acolhido em minha mochila. Podem imaginar minha alegria.

Queijos em maturação.

No labirinto da fábrica de queijo

Depois de vestir avental, máscara, touca e botas, entramos no Laticínio Cruzília. Tarde de sábado, final de expediente, alguns poucos funcionários higienizavam a área, que foi ficando cada vez mais quieta ao longo de nossa visita. Conosco ficaram apenas os queijos, ali reunidos em estado meditativo, sob o trabalho do tempo, alinhando seus chacras para revelar toda sua essência.

Nessas máquinas começa o trabalho das bactérias que descobrem no leite os sabores dos queijos. Neste momento, elas estavam sendo higienizadas para o descanso de domingo.

Há algo de maravilhoso em toda fábrica que é sua capacidade de produzir fartura. Tudo chega em profusão e é transformado e proliferado em abundância, mesmo sendo aquela uma pequena indústria – “mais de dez vezes menor que as grandes”, alertou Luiz Sergio, o que significa processar nada menos que (para mim) impressionantes 50 mil litros de leite por dia!

Começamos nosso tour pela área onde há o maquinário de pasteurização e onde o leite recebe o primeiro tratamento com bactérias selecionadas para iniciar a sua fermentação. São máquinas enormes, onde alguns milhares de litros de leite são processados. Ao lado, fôrmas redondas comprimiam a massa coalhada que se tornará queijo.

Ao lado, há o laboratório, onde o leite recebido das fazendas da região em caminhões-tanque é testado – por exemplo, para saber se houve uso descontrolado de antibióticos nas vacas. Se aprovado, o leite é liberado para a produção. Ali também são cultivadas as cepas das bactérias usadas na elaboração dos diversos tipos de queijo.

Caminhando dentro da fábrica, passando de porta em porta, com esquemas de higiene e segurança sanitária, não demorou nada para eu me sentir perdido.

– Mas isso aqui é um labirinto!

Queijos em salmoura.

Luiz Sergio explicou que as alas, naturalmente, estão dispostas conforme o fluxo de produção, mas de dentro da planta isso não é óbvio. Na minha memória, creio que organizei nosso percurso do jeito que me pareceu mais lógico, pois em seguida lembro que passamos pelos tanques de salmoura, onde queijos de diferentes formatos ficam boiando.

– Essa água é bem salgada – disse ele –, se você entrar aí dentro, vai boiar também.

Ao contrário do que a afirmação sugeria, não senti nenhuma identificação com os queijos, ao contrário, meu sentimento era o do predador. Na sala de maturação, com altas prateleiras repletas de queijos de todo tipo, não estivesse eu na plenitude de minhas faculdades civilizadas, atacaria toda aquela raça, raposão no galinheiro. O queijo que permanece mais tempo ali é um alcunhado A Lenda, grande e com um formato peculiar, parecido ao desenho de um sol com a circunferência do abraço de um homem adulto.

Ainda no edifício principal, encontramos a área dos queijos de mofo branco – os “tipo” brie e camembert. Depois os setores de embalagem, armazenamento e expedição.

Antes de ser fracionado, o Santo Casamenteiro parece um apetitoso bolo.

Em algum momento, uma porta se abriu e saímos do labirinto para o local onde o processo começa, com a chegada do leite das fazendas. O caminhão-tanque estacionado sairá pela manhã em busca de milhares de litros de matéria-prima.

Passamos a outro edifício, onde são feitos os queijos de mofo azul – o gorgonzola, o Azul de Minas e suas derivações, como o mencionado Santo Casamenteiro. Terminamos na área externa, onde se realiza o tratamento da água. Todo o soro retirado do leite e outras águas utilizadas na fábrica passam por um tratamento de decantação e filtragem. A água é devolvida à natureza sem poluir e os resíduos retirados são desidratados até ganhar o aspecto de um pó, que é utilizado em outras indústrias, em função de sua riqueza nutricional, em particular de proteínas.

O Laticínio Cruzília é uma indústria que se reinventa. Há centenas de laticínios de mesmo porte em Minas Gerais, estado que é o maior fornecedor de queijos para o país, mas são raros os que produzem tamanha diversidade de queijos com tanta qualidade. Começou com uma loja no Mercado Municipal de São Paulo, onde o pai de Luiz Sergio vendia queijos que comprava em sua terra natal. Depois resolveu começar a produzir seus próprios queijos, sobretudo o minas padrão, e montou sua fábrica. Quando Luiz Sergio deixou a carreira de músico para se dedicar ao laticínio de seu pai, foi aprender a fazer outros queijos, o que mudou o rumo dos negócios da família. Mais tarde, adquiriram a fábrica atual de uma empresa familiar de dinamarqueses – os Sorenssen –, e em breve será preciso expandir as instalações, já existe até o projeto. Hoje, os queijos Cruzília ganham diversos prêmios no Brasil e no exterior e levam por aí afora o nome de sua pequena cidade do sul de Minas.

Meus amigos e nossos sonhos

Ainda revi Luiz Sergio e sua família no jantar, no restaurante da pousada do Lelinho, com comida boa e farta, a preço justo. Contei ao pessoal sobre minha viagem e o projeto que a anima, e um dos cunhados do queijeiro me indicou o alambique do Zé Rato, na estrada para Carrancas, bem na sequência do meu caminho. Quando nos despedimos, passei o endereço do blog, onde certamente iríamos nos reencontrar dali a alguns dias, quando o relato da viagem alcançasse o nosso “presente”. Ao saber que estou hospedado no Outras Palavras, Matheus se surpreendeu:

– Nossa, é um site que eu sempre leio!

Percebemos que temos referências de leitura comuns, entre elas sites cujas redações ficam em São Paulo e nas quais tenho bons amigos, como é o caso dos Jornalistas Livres e da Revista Fórum.

Meu pensamento se encantou com a potência de se subverter a lógica centralista que nos isola em São Paulo e criar situações que nos coloquem em contato mais direto com outras realidades às quais estamos ligados quase sem saber. Sem medo de errar, afirmo que em São Paulo ignoramos o que acontece em Cruzília, e isso não muda muito em relação a centros importantes como BH. Esses lugares, no entanto, estão atentos ao que acontece em São Paulo.

Minha primeira ideia foi que talvez eles consigam ter uma perspectiva mais livre, porque mais múltipla e dotada de algum distanciamento. Dialeticamente, refleti em seguida que também é genial estar em uma cidade como São Paulo, onde posso em poucos passos sair da redação do Outras Palavras e trombar com Jornalistas Livres e Advogados Ativistas, tomar uma cerveja no Djalma e logo esticar até o Al Janniah, onde refugiados e paulistanos desterrados criam uma comunidade utópica, e se pá caminhar pra (vi)ver a Macumba Antropófaga do Teatro Oficina, sem sair do bairro.

Nada como um tempo após um contratempo. As vias são feitas de encontros de perspectivas. E avenida em russo, canta Jorge Maravilha, quer dizer perspectiva.

O queijo A Lenda, no início do processo de maturação, que vai durar três meses.

Pedalo para conhecer lugares, pessoas, comunidades e produtos – como as cachaças e queijos – e levar meus sentidos a passear fora do labirinto social de São Paulo. Entro em contato com outras visões de mundo e a cada momento me vejo em situação de reordenar o altar de meus valores. Inclusive – e talvez sobretudo – a dimensão política.

No fundo, o que roda nas rodas da minha bicicleta é o sonho de mundo ao qual eu gostaria humildemente de servir. Quais são este sonho e este mundo? Pergunta que vale muitos queijos e cachaças.

 

Cachaça Tiê e suas raízes na Mantiqueira

Alambique da Tiê, no bairro rural de Guapiara, em Aiuruoca, Minas Gerais, tendo ao fundo o Pico do Papagaio.

No interior de Minas, entre cumes e vales, destilar a bebida compõe uma cultura marcada por culinária, festas, reciprocidades e ritmos de vida singulares

Texto e fotos de Maurício Ayer 

A viagem cachaclística segue pela Serra da Mantiqueira. Nos episódios anteriores, contei o início da viagem em Resende, Rio de Janeiro, e minhas aventuras e desventuras de bicicleta até chegar em Aiuruoca, onde desfrutei da hospitalidade de Cris Amin e Arnaldo Ramoska, os produtores da cachaça Tiê. A viagem até lá foi extenuante, mas nada como uma noite de sono e um dia de expectativas para restaurar o ânimo do cidadão pedalante.

O despertar na serra

De manhã, a névoa escorre para os vales e o Pico do Papagaio se mostra.

Dentro do chalé ainda está frio, como na noite que passou. Caminho sobre o chão gelado com os pés descalços, e abro a porta – o sol bate forte, fecho os olhos e sinto aquecer o rosto e os braços. Baixo a cara, abro novamente os olhos. O gramado diante do chalé é ritmado por arbustos ao longo de toda sua extensão de uns 500 metros à esquerda e à direita. Uma mancha amarela na grama me faz pensar que geou. O Pico do Papagaio está lá, dominando a paisagem como no fim da tarde de ontem, quando cheguei, só que agora, com a luz intensa da manhã, é sua constituição rochosa que aparece, com uma silhueta dura, já não tem o contorno delicado que o pôr-do-sol pintava na véspera. Mas um pouco de suavidade resta na névoa ao pé do morro, que vai escorrendo para o vale entre os pinheiros.

Uma única rosa resistiu à geada da madrugada.

Há uma roseira, com uma única flor, cujas pétalas estão cobertas de orvalho. As manchas amarelas no gramado são muitas, é provável mesmo que tenha geado, nesta noite ou ao longo da semana, o frio foi muito forte. Mas agora o sol traz um calor confortável. Ao voltar ao chalé, percebo no parapeito da varanda uma garrafa térmica com café, sem dúvida colocada ali pela Rose, a responsável por me receber.

Tomo meu café sem nenhuma pressa, segurando a caneca com as duas mão para esquentar. Alguém vem andando, é a Rose, uma moça com a fala da Mantiqueira e piercing no supercílio. Agradeci as chaves e o café, ela perguntou se eu precisava de algo. Pedi-lhe panelas para cozinhar e também que me explicasse como chegar ao alambique.

– Fica do outro lado da fazenda, não é difícil de achar – ela disse, e imaginei que pedalaria um bocado até lá, mas tudo bem, a noite me restaurara.

Também me passou a senha do wi-fi para acessar na sede, e para lá caminhei.

O alambique da Tiê

Acabei demorando um pouco além da conta em meus contatos virtuais. Subi na bicicleta rumo ao alambique já passadas 11 horas. Após uma descida, passei a porteira e tomei o caminho da direita, com uma subida forte, mas não muito longa, que serviu para acordar as pernas. Parei em um canavial para ver a palha fresca no chão, imagino que dali veio a cana moída no engenho naquela manhã mesmo.

Um dos alambiques, com capacidade de receber 800 litros de mosto fermentado e de produzir cerca de 100 litros de cachaça por destilação.

O alambique, na verdade, não fica tão longe, dá menos de dois quilômetros do chalé. Ao longe já se vê a construção, com um grande mural com a marca da Tiê sobre pintura representando a paisagem do lugar.

Parecia tudo fechado – será que cheguei tarde demais? Apareceu um rapaz, o Flávio. Solícito e sorridente, contou que corta cana na fazenda, e que era a pausa do almoço. Não sabia falar muito sobre a produção do lugar, mas me contou de outro alambique ali perto, do Ricardo, e me ensinou como chegar lá. Nisso chegou a van da Tiê e o Tobias veio me atender. Ele sabia que “o moço de bicicleta” estava para chegar.

Tobias é um moço alto e magro, 25 anos de idade, que me recebeu com um sorriso calmo e inteligente, de quem domina o que faz e está em casa.

– A gente começa a trabalhar às 5 da manhã, por hoje já encerramos.

A essa hora, só as leveduras trabalham, preparando o mosto que será destilado amanhã.

Tobias foi buscar as chaves e, no interregno, Otacílio, seu pai e mestre, veio saudar-me. Tinha lugar um sutil cerimonial: o filho conduziu as primeiras mesuras diplomáticas, deixou-me confortável, e, em seguida, o pai honrou-me com sua presença altiva e respeitável. Tobias retornou e me convidou a acompanhá-lo, Otacílio assentiu com os olhos.

Tobias ajuda o pai na Tiê e ensina a produzir cachaça em outros alambiques.

O alambique é grande, muito bem estruturado e impecavelmente limpo. Dois montes de cana, uma clara e outra escura – duas variedades que eles estão experimentando, conforme explicou o Tobias –, aguardam o dia seguinte ao lado do engenho.

Ao abrir a sala de fermentação, o primeiro grande impacto: o cheiro fresco, doce e muito agradável da cana-de-açúcar somado a um azedinho cítrico. Uma das fermentações mais cheirosas que já conheci! Esses aromas vão reaparecer na destilação, de modo que a qualidade do aroma exalado pelas leveduras diz muito da cachaça.

Para a destilação, a casa dispõe de quatro alambiques, dois de 800 litros e dois menores, de 350 litros. Por serem aquecidos por sistema de fogo direto, espera-se uma destilação mais demorada, o que de certo modo limita a capacidade de produção, mas de todo modo é possível destilar 300 litros de cachaça por dia, em média.

– O fogo direto é como meu pai sempre fez cachaça, a gente mantém o método tradicional – explicou o rapaz.

Conduziu-me às salas de maturação, com as dornas de inox e os tonéis de carvalho. A Tiê conta ainda com algo pouco comum: um laboratório próprio, onde são realizados alguns testes prévios, antes mesmo de enviar amostras para análise em laboratórios acreditados. Finalmente, visitamos uma adega recém-construída, cavada dentro do morro, com uma atmosfera de caverna, que em breve será preenchida por barris.

Otacílio nos acompanhava à distância, como a ratificar a fala do filho, porém sem interferir.

Otacílio entre as dornas de armazenamento da cachaça Tiê.

As origens da Tiê

– O alambique é muito bem estruturado, dá pra entender por que a cachaça tem recebido tantos prêmios pelo mundo – eu disse ao Otacílio, com sinceridade, mas também como um gesto de reverência ao artista que agora assumia a condução do rito diplomático. O mestre agradeceu com um sorriso discreto e cordato. Pedi que me contasse como começou a fazer cachaça e ouvi atentamente sua história.

Quase trinta anos atrás, a fazenda dedicava-se ao gado leiteiro, mas uma queda no preço do leite colocou o empreendimento em forte crise. Otacílio, que já trabalhava na fazenda, formulou uma proposta.

– A gente tinha um pequeno canavial, então eu disse, por que não produzimos cachaça? Conseguimos aquele alambique ali, pequeno, um primo meu veio aqui me ensinar como se faz. Eu comecei a produzir e conseguimos salvar a fazenda. Mas, um tempo depois, o proprietário desistiu, então eu aluguei o alambique dele e continuei produzindo e vendendo aguardente na região.

A “cachaça do Otacílio” criou fama. Quando a Cris Amin e o Arnaldo Ramosca compraram a fazenda com mais um sócio, descobriram que havia ali um produtor de cachaça. Cris contou que eles buscavam uma atividade para a aposentadoria – hoje o Arnaldo e seu sócio, Antonio Carlos, fazem projetos de engenharia e têm uma empresa de reciclagem de eletrônicos e a Cris é produtora cultural. Mas a descoberta do alambique lhes inspirou novos planos: resolveram que valia a pena investir em uma infraestrutura consistente e na criação de uma marca forte. Aí nasceu a Tiê.

Seo Otacílio, mestre alambiqueiro da cachaça Tiê.

Otacílio me explicou mais da cultura cachaceira local, falou de muitos alambiques pequenos que ali existem e que, na realidade, hoje perdem espaço com o vigor da produção da Tiê.

– Com a fama da nossa cachaça, tem gente por aí que vende cachaça em garrafa PET e garante que é Tiê – contou.

Nossa conversa se estendeu por mais uma boa hora. Senti que era o momento de ir, com a promessa de retornar no dia seguinte mais cedo para acompanhar a produção. Porém, fui surpreendido com um convite para almoçar, que não poderia recusar.

A tradicional família mineira

Confesso que fiquei meio perdido, sem saber muito bem como me portar, ao entrar na cozinha da família. Veio em meu auxílio a memória de minha avó Elísia, pois aquele era o ambiente dela, e com sua presença senti-me encorajado a continuar sendo minimamente espontâneo, confiando que meus anfitriões saberiam perdoar minha falta de jeito.

Otacílio sentou-se à mesa. Fiquei em pé aguardando que todos se sentassem, enquanto seguia a conversa, pois ali estavam Tobias e sua mãe, Helenice, ambos próximos ao fogão de lenha, onde as panelas se mantinham aquecidas. A conversa seguia cordial, e nisso passou um minuto, dois, sem novas movimentações. Achei que devia me sentar, coloquei-me à mesa, perto do dono da casa.

– O senhor pode se servir – convidou Otacílio, e percebi que havia um prato à minha disposição.

Igreja no arraial de Guapiara, onde há séculos acontecem as festas da comunidade.

No fogão tinha arroz, feijão, suã de leitoa e filés de frango – ah, como lembrei de minha avó! Depois de mim, seu Otacílio se serviu, então foi a vez do Tobias. Helenice permaneceu sentada ao lado do fogão, é possível que já tivesse almoçado pois já era um tanto tarde. Mas ficava claro que eu estava em uma respeitável casa tradicional, com dignidade e hierarquia, o patriarcado em seu estado mais puro.

A comida estava maravilhosa. Elogiei muito, sentindo-me profundamente honrado de estar ali, vivendo algo tão especial como a possibilidade de ser recebido dentro de casa, na cozinha – o que para uma família mineira não é pouco. Dona Helenice agradeceu, parecia satisfeita.

Creio que nunca mais poderei dissociar a cachaça Tiê dos momentos que vivi com essa família. Tomamos café – adoçado, como sói em Minas – e comemos doce de leite caseiro, mais uma obra de dona Helenice. Finalmente, despedi-me, busquei a bicicleta e tomei meu rumo.

Pulando a cerca

Resolvi visitar o tal do alambique do Ricardo, que ficava a uns 5 quilômetros dali. Pedalei até lá, encontrei a porteira fechada, mas pulei a cerca, já concebendo a desculpa de pedir água, caso alguém me surpreendesse e se mostrasse contrariado. Logo encontrei o funcionário responsável, um senhor baixo e simpático.

– O senhor desculpe, eu tranquei a porteira porque logo vou embora. Seja bem-vindo!

Ele me mostrou todo o alambique, bem menor que o da Tiê, mas bem estruturadinho. A cachaça se chama Prêmio Líquido e está em vias de obter seu registro no ministério da Agricultura. Perguntei-lhe como aprendeu a fazer cachaça.

– Como eu aprendi? Durante um ano era o menino quem cuidava aqui, foi ele me ensinou. Ele se chama Tobias. Ah, o senhor conheceu? Pois ele me ensinou. Quando ele foi trabalhar com o pai dele, o patrão falou que agora era eu que ia cuidar.

De volta ao chalé, encontrei sobre o fogão três panelas, uma de arroz, uma de feijão e uma vazia, além de uma vasilha com folhas e cenoura da horta. Meu jantar foi salada, arroz, feijão e banana, e de sobremesa um doce de leite que comprei em Alagoa.

Trabalhadores cortam cana.

Alambique em produção

Na manhã seguinte, como não tinha pão (e a venda mais próxima fica a uns 12 quilômetros dali) mas tinha arroz e molho de tomate, inventei um prato matinal de risoto de tomate com queijo ralado e folhas de rúcula. Exótico, talvez, mas um verdadeiro luxo para um ciclista solitário, excelente para aquecer o corpo na manhã gelada.

Voltei à destilaria umas 10h. Três dos quatro alambiques estavam em operação – mesmo sendo uma área aberta, ela estava tomada de um aroma gostoso, que remetia à fermentação da véspera. Não me lembro de ter sentido um aroma tão intenso durante a destilação. Esta se tornou a lembrança sensorial mais marcante da experiência de degustar o alambique da Tiê.

Otacílio chegou com uma acha de lenha, que alimentou a fornalha do alambique maior. Controlou o termômetro, notei que havia diferença de temperatura de um alambique para outro, ele disse que era assim mesmo, cada equipamento trabalhava com uma temperatura – percebe-se sua intimidade com aquelas máquinas.

Tiê brotando da fonte.

A cachaça escorre de cada alambique através de uma pecinha de gaze, que faz uma primeira filtragem, e é recolhida na caixa de coleta. Dali ela será bombeada para as dornas de inox, onde descansa por pelo menos seis meses. Então passa por um filtro de carvão ativado e é direcionada a outras dornas ou a barris de carvalho europeu, onde vai envelhecer por mais dois anos. Antes de engarrafar, o líquido é filtrado novamente, e Otacílio ajusta o ponto de cada cachaça.

– Eu não bebo, o Tobias também não. Mas pelo cheiro eu sei reconhecer e acertar a cachaça.

Eventualmente, eles até degustam, mas só como parte do trabalho. Controle de qualidade mesmo, quem faz, são a Cris e o Arnaldo, que degustam e trazem outros degustadores para apoiá-los.

Percorremos toda a destilaria novamente, enquanto Tobias se ocupa em moer a cana para o dia seguinte. Otacílio se divide entre dar-me longas aulas sobre minúcias de cada etapa do processo e tarefas pontuais que mantêm tudo no bom fluxo. Os bagaços caem sobre uma carreta, algumas vezes Otacílio sobe para pisotear, comprimir e permitir a chegada de mais bagaço.

Ele me explicou que, começada a safra, não podem parar um único dia, pois as leveduras precisam se alimentar. Se por qualquer razão eles não forem destilar em um dia, ainda assim é preciso moer cana e levar a garapa às dornas de fermentação, mesmo que depois se descarte o vinho resultante.

Segundo Otacílio, eles tentaram usar leveduras selecionadas, um pacote vendido pela Universidade de Lavras que muitos alambiques usam. Mas não deu certo, então voltou ao preparo tradicional da levedura a partir do próprio caldo da cana no início da safra, um processo que leva cerca de duas semanas. Muitos alambiques da região, como o do Ricardo, entre outros, compram levedura da Tiê, seja no início ou durante a safra. Concebi que talvez esse seja um dos mecanismos que dão materialidade a uma cultura cachaceira: o intercâmbio dos “bichinhos” que produzem o álcool de um alambique a outro, e também o aprendizado que passa de um mestre a outro. Além do gosto dos consumidores locais, claro.

O outro filho de Otacílio e Helenice é formado em enfermagem e está estudando fisioterapia. Já o Tobias seguiu os passos do pai, a quem ele ajuda desde os 12 anos de idade.

– Um dia ele me disse “pai, eu não vou mais estudar, eu vou fazer cachaça como o senhor”. Então eu lhe disse, está bem, você vai cuidar do alambique do Ricardo, onde eles estão precisando de alguém. Enchi dois baldes com 50 litros de levedura, coloquei nos alforjes do burro e levei até lá, para ele começar a produção. Um tempo depois, quando eu precisei dele, chamei de volta. Agora estamos juntos todos os dias.

Adega recém-construída, ainda será preenchida por novos barris.

Embora eu já conhecesse bem a Tiê, quis prová-la em sua casa e Otacílio me serviu. A Tiê tem a característica das cachaças tradicionais, que não perdeu com a modernização de suas instalações: tem forte presença alcoólica e sabor intenso de cana, com aquele suave toque cítrico que me surpreendeu na fermentação e que, agora, reencontrei na garrafa. A Tiê ouro tem a cor suavemente dourada e uma nota de coco queimado com suave toque de baunilha e doce de leite.

Otacílio me mostrou um novo produto que ele acabou de desenvolver e que em breve será colocado no mercado: uma aguardente composta com canela. Não tem nada a ver com a especiaria que usamos para temperar doces, a chamada canela-da-china, trata-se de uma árvore chamada canela, nativa da Mata Atlântica – embora não da região de Aiuruoca: ele usa a casca de uma árvore que foi plantada no sítio de um vizinho há uns 30 anos, a partir de uma muda trazida de Belo Horizonte. O equilíbrio e integração das madeiras não é o de uma aguardente composta, o preparado bem merecia ser chamado de blend, pois são usados pedaços grandes da casca da árvore, semelhantes às aduelas de um barril – mas a nomenclatura precisa seguir a legislação.

Mestre de reisado

Fui novamente honrado com o convite ao almoço – o que me apaziguou, pois não devo ter cometido nenhuma grosseria no dia anterior! Estava à mesa quando quis saber até quando vai a safra:

– Até começarem as chuvas, em novembro – disse Otacílio, e completou – Dá pra esticar até dezembro, às vezes, quando está mais seco. Mas no máximo até dia 20.

– Por causa das festas de Natal, naturalmente – acrescentei.

– Sim, pois no Natal temos que estar prontos para a folia de reis.

Mestre Otacílio e sua bandeira de reisado.

Soube então que Otacílio é violeiro e mestre de reisado, herdeiro de pelo menos três gerações, desde seu bisavô. A partir do dia de Natal – com viola, sanfona, caixa e outros instrumentos –, o grupo caminha de bairro em bairro da zona rural de Aiuruoca e outras cidades.

– No Tamanduá, no Nogueira, no Matutu, em Alagoa, a gente anda muito.

Seguem vários dias, tocando, cantando e narrando as histórias dos reis. Se alguém fez alguma promessa e preparou a casa para recebê-los, com comida e uma decoração especial, eles então improvisam versos sobre a promessa, a fé e a graça daquela família.

– Se tiver presépio, então, a gente fica mais de hora e meia cantando. Tem casa que faz almoço, e a dona insiste para a gente entrar. Para não faltar ao respeito, a gente entra, mas não pode prolongar, tem muito chão para caminhar. E tem os lugares certos para pousar, onde tem banho e jantar e as camas para nós.

Cada casa doa alguma coisa: um frango, um porco, um bezerro, arroz, cebola, feijão… Com o cortejo, segue uma carroça ou até uma caminhonete, que recolhe tudo. A caminhada dura até o dia 4; no dia 5 os animais são mortos e preparados, e em 6 de janeiro, Dia de Reis, ocorre a grande festa no arraial de Guapiara, com farta comida e muita cantoria ao longo do dia e da noite.

Esta bandeira de reisado pertenceu ao avô de Otacílio e há mais de 100 anos é levada pela mesma família pelas comunidades da Mantiqueira.

Eles não são o único grupo de reisado da região, e acontece de se encontrarem no caminho. Aí eles tocam e cantam uns para os outros.

– Antigamente era diferente, se dois reisados se encontrassem, os mestres se desafiavam, podiam ficar horas fazendo versos rimados, até que saísse um vencedor. Não bastava ser bom nos versos, tinha que mostrar que conhecia as histórias corretas dos reis.

A tradição do desafio terminou porque acabava sendo inconveniente, a casa onde acontecia o encontro não estava preparada para receber aquele tanto de gente o dia todo, então os donos ficavam constrangidos de não poder dar almoço e jantar.

– No tempo do meu avô era sério, quando um mestre ganhava o desafio, ele tomava todos os instrumentos do grupo perdedor. Meu avô ganhou muitos desafios, era um grande versejador. Mas uma vez ele disse a outro mestre que ele não tinha nada que estar ali, que aquele não era caminho para ele. O mestre respondeu que no tempo dos reis não havia cercas, os reis não perguntavam o nome do lugar para poder passar. E meu avô perdeu. Muitos anos depois, ainda se lamentava “eu nunca podia ter dito aquilo para ele…”.

Otacílio me mostrou a bandeira que leva nas folias, a bandeira que seu avô já carregava muito antes de ele nascer, e que por décadas pertenceu ao seu pai. Provavelmente tem mais de 100 anos e ela ainda percorre as estradas de terra levando a tradição do reisado pelas estradas e comunidades da Mantiqueira.

Ao me despedir, perguntei ao Tobias se ele não acompanhava o pai nas folias de reis, ele disse que não.

– Ainda dá tempo de aprender – brinquei.

– Tem tempo sim – ele brincou de volta, sabendo que vai continuar muito do trabalho de seu pai, mas que também tem sua própria estrada, não será ele a carregar todas as bandeiras.

O voo da Tiê

Conheci a Tiê por meio do assessor de imprensa Matias Ribeiro, e a inclui na carta de cachaças da Tupi or not Tupi, uma casa de shows que abriu em março deste ano e já é referência da melhor música na cena paulistana. Depois fui conhecer a Cris Amin, por acaso, no lançamento do CD da banda Isca de Polícia e a reencontrei, junto com o Arnaldo, no show do grupo viajante franco-brasileiro Cao Laru (pronuncia-se “Tchau Larrú”, uma saudação à rua) na Lajinha do Elvis Campello. São dois projetos culturais que a Tiê patrocinou.

TIê, cachaça nascida do encontro das tradições da Mantiqueira com uma visão de mundo moderna e terna.

A Tiê é fruto dessa delicada parceria entre uma produção tradicional, profundamente enraizada na cultura da Mantiqueira, com empresários sensíveis, com visão de cultura, meio ambiente e inovação e vontade de levá-la ao mundo, sem nunca perder a ternura. Gosto de pensar que foi desse encontro que nasceu o feliz slogan dessa cachaça com nome de passarinho: “Nascida na serra, pronta para voar”. Suas fortes raízes são a plataforma para seus voos ousados por novos espaços. Cris e Arnaldo querem que a Tiê esteja presente em todos os estados brasileiros, querem também exportar sua cachaça. Esse passarinho ainda vai voar muito longe.

Voltei ao chalé. No dia seguinte pedalarei com destino a Cruzília, uma viagem de uns 50 quilômetros. Lá deve ter cachaça também, mas quero conhecer principalmente a sua famosa e premiada produção de queijos.

Cachaciclismo: a viagem segue, pelas curvas e cores da Mantiqueira

Da Garganta do Registro, na divisa entre Rio e Minas, até Aiuruoca, casa da cachaça Tiê.

Ê Minas Gerais! Aqui a linha reta não existe, no caminho e no pensamento. As estradas cobreiam pelos morros e a cada instante a perspectiva é outra. É preciso enxergar além do horizonte curto para seguir

Crônica de viagem, por Maurício Ayer

No capítulo anterior, contei que, após a visita ao alambique da Reserva do Nosco, o criador dessa fina cachaça, Marcelo Nordskog, me deu uma carona serra acima até a divisa com o estado de Minas Gerais, de onde segui pedalando.

O nome deste lugar é Garganta do Registro. No tempo dos tropeiros, era uma espécie de “aduana”, um local onde os produtos transportados eram identificados e registrados, inclusive o ouro. Com os tropeiros, muita cachaça circulou pela Estrada Real e suas ramificações.

Nas bordas do Parque Nacional de Itatiaia

Quebrei pelo caminho de terra que me levaria “mais diretamente” a Alagoa, por dentro do Parque Nacional de Itatiaia. Fiz as contas, seriam 33 quilômetros até a cidade, depois mais 15 até a fazenda onde fica o alambique da cachaça Tiê, meu próximo objetivo.

Comecei a subir, subir, subir… três, quatro, cinco quilômetros e nenhuma perspectiva de chegar ao topo. Marcha leve, o pedal gira rápido e a bicicleta quase não sai do lugar, a 5 ou 6 km/h, mas com paciência se vence os morros. O incessante circular do pedivela libera o calmo pensar, fui ao tempo dos tropeiros, como se eu fosse um deles, e minha carga fosse cachaça, farinha, peixe seco… Na verdade, mais do que o tropeiro, nessa hora sou mesmo é um perseverante burrico de carga – e humildemente extraio força dessa identificação. Continue lendo

Reserva do Nosco, história destilada no Vale do Café

Acervo de garrafas de cachaça antigas encontrado na sala de envelhecimento da Reserva do Nosco.

Na primeira parada da viagem ciclística aos alambiques da Estrada Real, a descoberta de uma cachaça rara, produzida por um descendente de noruegueses que seguiu, ao contrário, a trajetória de Rimbaud

Por Maurício Ayer

Contei em outro post como nasceu minha aventura cachaciclística pela Estrada Real. Estou de bicicleta na rota dos alambiques, e aqui se inicia a narrativa da viagem, com o relato de meus (des)caminhos até a excepcional Reserva do Nosco.

Um longo caminho até Engenheiro Passos

Domingo, 25 de junho, seis e meia da manhã. Entro no Metrô Butantã com mochila, capacete, bicicleta e as minhas “malas” (os sacos estanques) amarradas nela. Nos alto-falantes, avisam: “o serviço de trens não será prestado entre as estações Fradique Coutinho e Paulista”. Caramba, o tempo que era tranquilo de chegar na rodoviária de repente ficou bem curto! Subi as escadas quase aos pulos com bicicleta e tudo e saí pedalando alucinadamente pela avenida Rebouças acima, e então voltar ao metrô.

Precisamente às 7h20, horário da saída de meu ônibus para Resende, eu estava no guichê da companhia trocando meu bilhete. Rolei a bicicleta pelo saguão, carreguei-a escadas abaixo e pronto, cheguei. A plataforma 12 era a mais pura paz. Do outro lado do vidro, um funcionário guardava as coisas. Gesticulei, ele esboçou um meio sorriso solidário apontando a plataforma: o ônibus partiu e não tem com quem chorar. Mas me tranquilizou, dá pra trocar a passagem para o próximo ônibus, duas horas depois. Continue lendo

De bicicleta, na rota brasileira da cachaça de alambique

Barris de carvalho da Reserva do Nosco, em Engenheiro Passos (RJ), primeiro alambique a ser visitado.

Plano de uma viagem em curso: partir do pé da Mantiqueira, no estado do Rio e subir Minas adentro, visitando os lugares onde se produzem algumas das melhores cachaças do país

Por Maurício Ayer

Confesso, sou um procrastinador de meus próprios projetos; mas nunca dos compromissos que assumo com os outros, seja de trabalho, diversão, um favor… Acontece que eu tinha um desejo do qual não queria abrir mão: viajar a Estrada Real de bicicleta, visitando os alambiques de cachaça. Para ser mais esperto do que eu mesmo e driblar minha capacidade de autoboicote, pus em prática um plano: comecei a anunciar o projeto para amigos e amigas, para os parentes e alguns conhecidos; assim, se não o realizasse, o assunto já não era só meu, eu teria que me haver com todos eles, amargar a vergonha, inventar desculpas convincentes – seria bem mais fácil fazer a viagem. Pois deu certo, consegui me enganar direitinho, e aqui estou eu, na estrada.

Cachaciclismo e sua ética

Mas cachaça com bicicleta? Isso não combina! É invariavelmente a reação que encontro. Calma, gente, ninguém está falando em encher a cara de cachaça e depois cambalear na bicicleta em qualquer beira de estrada. Quando alguém diz que vai fazer determinada “rota do vinho” e vai de carro, não vejo ninguém se desesperar e achar que as pessoas vão misturar as duas coisas. No máximo dar um cheiro na visita e guardar a garrafa pra degustar mais tarde.

Visitar o alambique, como visitar a vinícola, é ir à fonte conhecer como aquele precioso líquido se formou, quem fez, em que lugar, com que cuidados. É a cultura que envolve a bebida e que, uma vez apreendida, passa a fazer parte da cor, do aroma, do sabor. Quando tomo uma cachaça que eu “vi sair do alambique”, são outros afetos que se movem, é outra a profundidade da apreciação. É isso que estou buscando. Portanto, partamos desse pressuposto: ninguém vai encher a cara, é para degustar, apreciar, aprender, conhecer. Continue lendo

Visita a João Guimarães Rosa, regada a finas cachaças

Uma viagem à história, ao ambiente natural e aos grupos de brasileiros que povoaram o palco regional de Sagarana, no 70º aniversário da obra

Por Mauricio Ayer

“– Saltem um cálice de branquinha potabilíssima de Januária, que está com um naco de umburana macerando no fundo da garrafa!…”

Pois sim, senhor João Rosa, que seja pelos 70 anos da publicação do Sagarana, o seu primeiro livro de narrativas, que o inseriu de pronto e definitivamente na literatura brasileira. Tudo bem que 10 anos antes o senhor vencera um importante concurso da Academia Brasileira de Letras com um livro de poemas – Magma, que só veio a ser publicado mais de meio século depois – e que 10 anos mais tarde o senhor colocaria em nossa balança um peso de desequilibrar o que é viável pensar da nossa cultura e de nossas letras – com as novelas e romances de Corpo de Baile e o gigante Grande Sertão: Veredas.

Mas é sobre Sagarana, de onde a citada fala foi extraída, no conto “Minha Gente”, que gostaria de começar a conversa, se o senhor permitir.

 

Pois bem: quem cala consente, pois não.

Para a circunstância e cerimônia abrideira, entendi que o senhor sugere uma cachaça de Januária, como tantas boas há. Poderia acatar-lhe o mandado, mas… como haveria de alcançar a dimensão do respeito pelo grande mestre se não for ramificando suas ideias, usando o adorno de suas flores, para que, sem mesmo percebermos, ensejem raízes tanto mais profundas na terra que compartilhamos?

Vamos, bem entendido, harmonizar o imaginário com o calor de uma selecionada cachaça de alambique, e que seja amadurecida na amburana, como o senhor quer. Mas o tempo modificou um pouco as coisas. Ainda hoje se usa a amburana para dar aroma, cor e sabor à cachaça, e é de forte interesse ler que, lá nos anos 1930 e 40, quando o senhor escreveu, revisou e publicou essa fala, essa prática era célebre em Januária, onde até hoje a tradição viceja. Só que não mais pela infusão de uma lasca de madeira na garrafa, o que atualmente se chama de “chipagem” e se proíbe por força de lei, ao menos para a produção das marcas oferecidas no mercado. Faz-se, ainda assim, seja ao modo informal, para servir em casa aos amigos, seja clandestinamente, com o intuito desleal de acelerar a transmutação da cachaça, sem o devido tempo da espera. Em vez da infusão, a amburana hoje é aplicada na tanoaria para a produção de tonéis voltados ao armazenamento de bebidas. Hoje como ontem, Januária armazena suas cachaças na amburana, como comprovam algumas marcas tradicionais da região: Claudionor, Januária, Velha Januária e Caribé, entre outras.

A fala que selecionei aqui sugere que Januária carimbou seu nome nas garrafas com o aroma da amburana. Não é de se crer que isso antecipa, para todos os efeitos, a própria tanoaria?

Bafejo à cachaça, quando o pasto da prosa era pra ser a literatura. Mas os acasos tampouco são gratuitos. A cachaça não é só elemento da paisagem do centro-norte de Minas Gerais, onde as estórias do Sagarana nascem e circulam. Historicamente, ela foi um fator essencial na formação desse pedaço de mundo. Farinha de mandioca e cachaça eram os produtos obrigatórios no “portfolio” dos tropeiros que circulavam por todas essas terras, desde o século XVIII, quando os eixos eram as rotas do ouro, conhecidos como Estradas Reais. São os dois alimentos que forneciam energia aos trabalhadores – principalmente os escravizados, mas não exclusivamente – das minas. Assim se cria uma tradição alimentar e uma cultura de produção e consumo.

Para fins e efeitos turísticos, fixou-se a “Estrada Real” como um caminho em forquilha partindo de Diamantina e bifurcando em Ouro Preto para chegar ou em Paraty (Caminho Velho) ou no Rio de Janeiro (Caminho Novo). Mas na verdade tratava-se de um conjunto de vias mais ramificado e complexo1. Havia, por exemplo, um ramal do Caminho Velho que corria pelo vale do Paraíba até São Paulo e o porto de Santos, refazendo ao contrário o percurso bandeirante que, tendo índios como guias, levou até o tesouro escondido.

Havia também uma outra rota, pouco mencionada hoje mas de grande importância naquele tempo, conhecida como Caminho da Bahia, que subia o rio das Velhas, depois o São Francisco mais ou menos até a altura de Bom Jesus da Lapa, aí despegava do rio e cortava pelo sul da Chapada Diamantina para chegar a Salvador – que era a capital da colônia até a metade do século XVIII. Em sentido inverso, este caminho foi um vetor para que, atraída pela demanda de alimentos da população que chegava de toda parte para se concentrar na região da mineração de ouro, como Ouro Preto (então Vila Rica), Sabará e Mariana (então Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo), a cultura dos vaqueiros do sertão nordestino gerasse fazendas nas margens do São Francisco e do das Velhas e, depois, ocupasse a extensão do norte de Minas. A cidade de Januária, à margem do grande rio que amarra Minas à Bahia, está ali, como uma pedra bem no meio do caminho.

O senhor sabe disso tudo, muito mais do que eu poderia, mas agora estou falando com quem nos lê, não é mesmo. A geografia da ficção do Sagarana é a dos arraiais, vilarejos, fazendas e do sertão, dos chapadões e das veredas, do cerrado, com muitos ribeirões e alguns poucos grandes rios (além dos dois mencionados, há também o Paraopeba e o Pará). Essa terra é ocupada por vaqueiros, seleiros, ferradores, tropeiros, pequenos agricultores e comerciantes, mulheres territoriais das casas, igrejas ou prostíbulos, ofícios de gente nascida em um norte de Minas que, tendo prosperado com a pujança da atividade aurífera no setecentos, quedou-se assim um tanto ao-deus-dará, e ali desenvolveu uma cultura peculiar. Também terra de valentões – pois, como diz Antonio Candido, “o valentão armado, atuando isoladamente ou em bando, é fenômeno geral em todas as áreas onde a pressão da lei não se faz sentir, e onde a ordem privada desempenha funções que em princípio caberiam ao poder público”2. Mas vale também um a ética, construída a cada gesto compartilhada, negociada e reafirmada a cada ato social, a cada fala, cada gesto.

Já temos aí um pouco do caldo de fermentação do Sagarana: cachaça (herança do ciclo da cana, amplamente plantada nos engenhos de açúcar pernambucanos, baianos, paulistas e fluminenses); farinha de mandioca e o milho (legado índio incorporado em definitivo na dieta, principalmente dos caipiras); a cultura vaqueira do sertão de Pernambuco e Bahia (que continua Minas Gerais adentro); e, por fim, a formação dos arraiais e vilarejos como extensão de um modo de vida caipira, paulista, dos pequenos agricultores, produtores de alimento.

Isso aqui vale um parêntese. Os bandeirantes, empreendedores ferozes, herdeiros terrestres e silvícolas dos portugueses desbravadores de mares, depois de estabelecidos os locais das minas, foram trucidados ou expulsos da região mineira na chamada Guerra dos Emboabas – exceto por alguns que, seduzidos pela coroa, incorporaram-se como donos de terras ou administradores a essa civilização curtida na brutalidade. Foi aliás um bandeirante que se ocupou da construção do Caminho Novo, ligando por via direta a Vila Rica ao Rio de Janeiro, passo definitivo para a prosperidade daquela que viria a ser a capital da Colônia, do Império e da República do Brasil, que por outro lado reduziu consideravelmente a relevância de São Paulo.

Se os brutos sapadores foram excluídos, foi principalmente a gente comum de São Paulo que estendeu o tapete de sua cultura caipira pelo território mineiro. Isso, desde a expedição de Fernão Dias e Borba Gato que chegou às minas nas cabeceiras do rio das Velhas, cuja grande inovação foi plantar ao longo do caminho, com roças de milho e mandioca e algumas criações como galinhas e porcos, a semente dos arraiais que se tornariam as futuras cidades. Em Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre compara, nos séculos XVI e XVII, a cultura paulista, muito antes do domínio do café – horizontal, policultora, produtora principalmente de alimentos (até para abastecer o restante da colônia), fundada no trabalho próprio e incorporadora de alimentos, hábitos e parentescos indígenas – com a cultura do nordeste canavieiro (sobretudo a Zona da Mata pernambucana e o recôncavo baiano) – fundada, como ele bem distingue, na escravidão, na monocultura canavieira e exportadora e numa estrutura social aristocrática, em que o senhor de engenho concentra praticamente todos os poderes, e a massa trabalhadora é escravizada. Então foi a estrutura social gestada em São Paulo que proliferou para além da Mantiqueira.

É preciso lembrar aquilo que surge, pela primeira vez, nas Minas Gerais. O ouro, além da ganância, de brutal escravidão – que impulsiona imensamente o tráfico de escravos africanos no século XVIII, numa intensidade que o ciclo da cana jamais imaginaria – e das cidades, permitiu também formar, já naquele tempo, centros de cultura letrada ainda inéditos no Brasil, e que deixariam também o seu legado. Antonio Candido, novamente, conta desse início na Formação da Literatura Brasileira. Vamos vendo aí alguns dados de formação da paisagem que irá fermentar a imaginação deste mesmo Guimarães Rosa que agora recebemos como ilustre visitante.

A cachaça estava ali, estabelecida. É célebre a fórmula de Câmara Cascudo segundo a qual “Onde mói um engenho, destila um alambique”3, ou seja, a produção de cachaça sempre esteve presente junto da produção açucareira. Mas agora, na região mineira, se não havia uma produção de açúcar visando a exportação, pequenas plantações de cana serão estabelecidas para se produzir a rapadura, o açúcar e a cachaça para o consumo local. E lá estavam os tropeiros para circular pelas Estradas Reais com produtos do reino e da terra, entre os quais, obrigatoriamente, a cachaça.

O território do Sagarana, Guimarães Rosa conheceu primeiro como um nativo e morador, na infância, da cidade de Cordisburgo. Foi lá que muito cedo se interessou pelas línguas e leituras. Diz-se que aos 6 anos começou a aprender sozinho o francês e aos 7 tinha lido um livro nesta língua. Por esta época, com a chegada à cidade de um frei franciscano holandês, o padre Canísio Zoetmulder, começou a ter aulas de francês e de holandês. Aos 9 foi viver em Belo Horizonte e estudar no colégio Arnaldo, de padres alemães, onde ampliou consideravelmente seu cabedal linguístico, não só pelo alemão e o inglês, como também o grego e o latim, que faziam parte da formação clássica da época.

Aos 16 anos, João Guimarães Rosa entrou na faculdade de Medicina, onde veio a se formar aos 23. Foi então que ele fez uma nova incursão no território, agora com um olhar transformado, que se adicionava de sua formação médica, a um só tempo técnica e interessada pelas relações de homens e mulheres entre si e com o meio. Essa lente lhe renderá muitas observações para as tramas do Sagarana. E sabe-se que desde muito novo o escritor mineiro comportou-se como um pesquisador, por um lado, da língua e das línguas, mas também profundamente da paisagem, sua fauna e sua flora, sua gente, com suas idiossincrasias e universalidades. Vivia munido de um caderninho em que anotava tudo o que via, perguntando os nomes de cada planta ou bicho, saboreando as palavras e seus usos (e usando também seu conhecimento de outras línguas para “enriquecer” a sua, como ele dizia).

Como esculápio da roça, o doutor João Rosa foi recebido em casas das pessoas, pôde conversar com elas, observar seus modos de viver, saber de seus bens e de seus males, conhecer as suas alegrias, os seus dramas e as suas tragédias – que tratava de integrar na compreensão de seu ofício. Seu ofício, que era sim, também, o do cuidado, porém não restrito à medida do possível, com as pessoas dali e suas precárias condições, mas ainda mais genuinamente na medida do impossível com a formação de seu imaginário – imanente-transcendente, formador e parabolar.

São todas coisas que aparecem no relato do senhor, João Rosa, ao editor João Condé, que contém as explicações da escolha da terra-mãe – tão real, quão fabular, e que fabulosa – para situar sua ficção. Aliás, vou ler aqui um trecho dessa carta que o senhor escreveu, tal como publicada na edição da Editora Nova Fronteira que tenho em mão:

Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, “poses” – dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.4

Então essa é a matéria-prima (a paisagem local onde está impregnada, por força de formação, no território do imaginário universal da arte – do europeu ao chinês, para ficar em apenas dois exemplos –, o saber popular e o clássico, o conhecimento médico e a superstição, e por aí vai) que vai fermentar na produção de seus contos. Isso vai ser intimamente aquecido, para retirar aquilo que é mais o próprio , como o senhor mesmo, João Rosa, afirma, por uma “depuração”. Leio agora esse outro trecho, tal como o senhor conversou com Fernando Camacho, em 1966:

A criação da minha obra corresponde a uma depuração, à procura de um ideal […]. Esse ideal, essa procura, dentro de si próprio, aliás, permite-me às vezes um contato com qualquer coisa de […] comum a todos os homens. Paradoxalmente, o contato com os outros raramente se consegue quando se é extrovertido.5 (citado por Fantini, 2003, p.44)

Ou destilação, claro, para chegar à quintessência – da terra opaca e fabular à potência transparente do sentido. Então deixar as estórias maturarem nas madeiras da terra ou dos reinos, e assim nuançar seus caracteres, ásperos ou azeitados, com cores e humores os mais sutis – a ironia, o espanto, o sarcasmo, a crueldade, a ruindade.

Olhe o senhor, e ouça: entusiasmado, cheio de si, empavonado no proscênio, solando sobre o senhor, alcancei o extremo de olvidá-lo, o senhor. Rogo-lhe a vênia, é comum em homenagens nos engancharmos nos emaranhados de nossas admirações, a ponto de nossa imagem do herói, tão louvada de sincero amor, apagar da cena o homem – e a cachaça é o homem.

Devo-lhe oferecer, para o tanto, da melhor penicilina, apta a curar minha estima pelo senhor e pelo que nos legou. Não será de Januária, antes ofereço-lhe uma do lugar que veio a tornar-se seu rival, superando-a talvez em fama, mas, há que dizer, filha dos mesmos vaqueiros e cosedeiras, localizado em um atalho para o Caminho da Bahia – porquanto se chegava mais retamente do arraial de Diamantina aos cotovelos da Chapada, já em terra baiana, prolongando o vale do Jequitinhonha ao setentrião.

Mas, você sabe, a cachaça que escolhi não deixa de ter o seu laço com a cidade franciscana: é envelhecida em tonéis de amburana (e também de carvalho), equilibrando ambas no nariz e na língua. Isso redunda em um rosário de doçuras, rezadas no fundo ferroso de melado de cana, no mel especiado do lenho brasileiro e na baunilha frutada da madeira europeia. Como que permeando isso tudo há um toque de anis, fresco, que me provoca, por estranha sinestesia, a sensação da cor verde, em meio aos tons terra das madeiras.

Nomeio, pois, já que este era, desde o princípio, o nosso fim: uma cachaça que é uma obra prima, a Encantos da Marquesa Ouro. Ela tem algo singular, um sabor quase cítrico, que até se sente mais em sua versão prata mas que se prolonga sob a maturação das madeiras.

Espero que seja de seu agrado, já que é erguida e vertida, singelamente, em sua homenagem.

***

Esta carta é o começo de uma série de visitas a João Guimarães Rosa, que será benzida pelo “mais brasileiro dos prazeres”, no dizer do meu mestre o cachacista pernambucano Jairo Martins. As cachaças foram generosamente cedidas pela Amburana.

 

1. As informações sobre as Estradas Reais foram obtidas no livro de Márcio Santos, Estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e dos diamantes no Brasil, Belo Horizonte, Editora Estrada Real, 2001.

2. Antonio Candido, “Jagunços mineiros de Claudio a Guimarães Rosa”, Vários Escritos, São Paulo, Duas Cidades, 2004, p. 99.

3. Luís da Câmara Cascudo, Prelúdio da Cachaça: etnologia, história e sociologia da aguardente no Brasil, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, p. 25.

4. João Guimarães Rosa, “Carta a João Condé”, Sagarana, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2001, p.25.

5. Citado por Marli Fantini, Guimarães Rosa: Fronteiras, Margens, Passagens, São Paulo, Ateliê Editorial e Editora Senac São Paulo, 2003, p. 44.