Mário lê Memórias sentimentais, de Oswald

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“No fundo o eterno sentimentalismo. Não faz mal. Sentimental é o brasileiro. Realista é Joyce, moderníssimo. O brasileiro também, ao menos para o Brasil”

Por Mário de Andrade | Imagem Tarsila do Amaral, Estrada de Ferro Central do Brasil (1924)

“Outras Palavras” dá prosseguimento à série “Oswald 60″ procurando mapear para o seu leitor a extensa obra do escritor modernista.

Sabemos o quanto isso é bastante difícil, mas é exatamente esse grande desafio que nos estimula.

Nessa semana, chegamos às “Memórias sentimentais de João Miramar”, romance de Oswald de Andrade, cuja edição ocorreu dois anos após a Semana de Arte Moderna.

TEXTO-MEIO

Para entender um pouco o significado da obra, publicamos dois textos significativos.

Primeiramente, um artigo-resenha do Mário de Andrade, de 1924, sobre a obra e o seu autor: Osvaldo de Andrade. Assim mesmo: Osvaldo! Essa era a forma carinhosa com a qual o pai do Macunaíma chamava o amigo. Assim, abrasileirava, a seu modo, Oswald, um lord do romance Corina, escrito no início do século XIX, por Madame de Staël. O personagem, por quem a heroína na história sofre e morre de paixão, serviu de inspiração, para a avó do escritor, escolher o nome do seu neto.

Genealogias à parte, interessa-nos acompanhar de perto as observações e análises que Mário de Andrade realiza sobre o romance “João Miramar”.i Nesse texto, encontramos o esboço de um estudo comparativista em que o escritor contrapõe as memórias oswaldianas ao romance “Os Condenados”.ii

Além disso, chamaríamos atenção para maneira como pensa a dimensão que o modernismo, já naquela época, trouxera para a literatura brasileira. Apesar de tanto tempo, o texto ainda soa inovador. E aí, cabe a pergunta: como avançar em novos conteúdos se não se avança na linguagem, na forma?

O outro texto é intitulado “À Guisa do prefácio“, e vem assinado por um tal de Machado Penumbra. É com ele que Oswald de Andrade abre as “Memórias sentimentais de João Miramar”.

Como observa Haroldo de Campos, em seu ensaio “Miramar na Mira”, Machado Penumbra, típico subliterato provinciano, “faz a apresentação do livro em estilo empolado e arrebicado, recheado de clichês acadêmicos, num contraste gritante com o estilo do próprio autor, João Miramar-Oswald”. iii

Não podemos nos esquecer que o “Brasil intelectual das primeiras décadas” daquele século, em torno à Semana de 22, “era ainda um Brasil trabalhado pelos ‘mitos do bem dizer’ (Mário da Silva Brito), no qual imperava o ‘patriotismo ornamental’ (Antonio Candido)”.iv

É um texto para se ler com calma, por que ele “camufla uma série de considerações programáticas sobre a experiência oswaldiana”. v

De fato, ele informa sobre uma série de elementos da poética do escritor criando uma espécie de mascarada. Assim, percebemos que, nas suas linhas, ele diz não dizendo. Ou, se quisermos, através do Machado Penumbra, Oswald fala de outra maneira, por vias transversas.

Assim sendo, o texto soa como um “antimanifesto”. vi

Boas leituras!


O mais curioso talvez dos modernistas brasileiros. “É um blagueur!” dizem. É. Mas quase sempre blague em perspectiva. Não organiza a brincadeira nem é farsista de intenção. Toma sempre a sério o que empreende. Acredita no que faz. Está certo de que descobriu a pólvora e agora a arte vai se remodelar. Faz. E muitas vezes a empreitada vira blague. Tem assim duas das maiores riquezas do artista: fé criadora e dom de divertir. Inalterável confiança em si mesmo e nos outros. Admiráveis qualidades de clown.

Osvaldo crê nas ideias que prega e nos seus próprios gestos. Daí viver assim entregando a alma como distribuidor de anúncios. As mais das vezes quebra a louça toda, concordo. Mas eu me lembro duns excêntricos… Espatifavam não sei quantas dúzias de pratos. De repente a rodela de papel sobre a plateia. O susto era fatal. A gente não se cansava inutilmente a pensar nas verdades-preconceitos e saía divertido do espetáculo. Uma das qualidades que mais admiro em Osvaldo é esse poder de interessar e divertir. E no claunismo do criador do mito futurista brasileiro há uma qualidade ainda por destacar: não é clown de profissão. A raridade do bom palhaço vem disso. Não digo que se surpreenda neste quando trabalha, a miséria do lar distante. Muito menos paixões sem eco e outras invencionices da psicologia oitocentista. Não. Mas empana-lhe quase sempre o brilho do trabalho a monotonia da continuidade. Pois já disse que Osvaldo de Andrade acredita no que faz. Age com alma e vida, isto é: imprevisto. Sai farsa. Pois ele diverte-se também. Há muito tempo já que vivo a pensar secretamente ser Osvaldo o melhor espectador de si mesmo. É. Disso vem a perfeita alegria dos seus passes. Essa alegria verde, irrompente, natural. De bem disposto, sem doenças. Nem doenças de inteligência sequer. Saúde fazendeira. Como que sente o belo visceral de que falava esse coió do Mário Pilo. Afirmo segunda vez: Osvaldo de Andrade é inconscientemente o maior espectador de si mesmo.

Isso conscientemente seria um pouco vil; eu ainda creio que o homem tem de ir além do espetáculo que dá… Mas é fácil provar inconsciência: Osvaldo escreve. Depois a dança vem. Música de pancadaria, já se sabe. E ele fica surpreso, divertido. Tão! Meio assustado até. Sei disso porque somos velhos companheiros. E espero que a camaradagem com o meu sempre caro Osvaldo continue pela nossa ainda longa vida, com trinta e poucos cada um.

Com as Memórias Sentimentais de João Miramar Osvaldo de Andrade se incorporou praticamente ao grupo dos modernistas brasileiros. Afinal Os Condenados eram mais uma contemporização.[1] No fundo obra realista. Na forma o discurso corria lento, arreado de bugigangas sonoras. Assim a prosa não podia correr. Quanta campainha! Só o processo dos capítulos saíra eficaz, simultâneo, seguindo a benéfica lição do cinematógrafo. Com as Memórias dentro da roupa o corpo é já moderno. Subsiste, é certo, a formação analítico-realista. No fundo o eterno sentimentalismo. Não faz mal. Sentimental é o brasileiro. Realista é Joyce. Psicólogo é o Papini de Uomo finito. Exemplos moderníssimos estes. O brasileiro também? Também. Ao menos para o Brasil.

Osvaldo de Andrade permitiu ao prefaciador das Memórias sentimentais expusesse algumas intenções do escritor. Francamente construtivas. O livro saiu a mais alegre das destruições. Quase dadá. Pretendeu a “volta ao material”. Isso indicava respeitar o material e trabalhá-lo. Ou pelo menos a apresentação do material literário puro, em toda a sua infante virgindade. Foi o que fez Aragon assinando um poema que continha unicamente as letras do alfabeto. Também Maiakovsky nos versos:

Ainda há letras boas
R
G H
C H T S C H
Basta de verdades sem valor!

Palazzeschi na admirável cançoneta “Lasciatemi Divertire!” também se aproveitou das letras do alfabeto combinando-as. Osvaldo de Andrade utilizou-se de palavras. Ainda bem. Mas quando cria neologismos, ou estes são insustentáveis pela formação antipsicológica ou são de monotonia gasta e cansativa. Quase todos se resumem a uma vasta criação de adjetivos por meios do sufixo “al”. Há porém um largo, ensolarado “beiramarávamos” e mais duas ou três deliciosas invenções. O resto uns “pianais”, “aleguais”, “alexandrinais” a muque, preguiçosos. Talvez cômicos?

Aliás essa preguiça de completar empresas difíceis é feição distintiva de Osvaldo de Andrade. Por isso toda essa destruição jovial incruenta, vai-lhe admiravelmente. Deixa-se levar. O trocadilho enxameia. Muitas vezes a expressão nasce da própria frase: “As Britinhas vizinhas fazendinhas traziam-nos sátiras à sociedade de sátiros dos nossos dias”; “na sala violeta de Monsieur Violet”; “Ao longo do longo viaduto bandos de bondes iam para as bandas da Avenida”; “e sobre a cidade dado montes montaram”; “a Serra dos Órgãos serrava” etc. etc.

A volta ao material implicava por certo dar toda atenção à língua brasileira que está se formando. Mas ainda aqui a solução aparece bem outra da pretendida pelo autor. Uma língua se forma segundo fenômenos psicológicos perfeitamente fixados e quase sempre inalteráveis. Ora Osvaldo finge ignorar essas verdades e na parte que lhe pertence propriamente no livro, isto é, quando não encarna qualquer dos personagens, apresenta dicção eminentemente artística e personalíssima. “Ia na frente bamboleando maleta pelas portas lampeões eu menino”. “E foi o pai plácido, gordo e charutal das Britinhas faladeiras quem me deu amigo abraço no passo que levaria a todos ao Corcovado do dinheiro pelo funicular da atividade paulista”.

Nessa maneira de manejar a frase atinge muitas vezes expressões excelentes. Sintético marcante abandona então todo pormenor, usando apenas o essencial expressivo. De repente Miramar lembra-se da amante: “Fora, no escuro fofo da minha William Six, esperava no volante feliz o braço branco de Rolah”. Ainda: “Rosas vermelhas buscaram madama Rocambola na gare cautelosa do Brás”.

O que mais caracteriza as Memórias é esse apego exclusivo à expressão. Que não só abandona todos os preconceitos mas salta sobre todas as regras e as ignora. Sintoma de romantismo e da nossa época. Há uns construtores por aí, não nego. Cubistas, orfistas, não-sei-que-lá. Mas negar a estridentistas mexicanos, a expressionistas alemães, aos fauves de França, aos futuristas de Itália e Rússia, multidão, negar-lhes o direito de representar a época atual, interrogativa e caótica, seria sobrepor-se vaidosamente à realidade contemporânea. Um dos fenômenos essenciais do presente é esse apego quase doentio à expressão. Esse faz de Oswaldo de Andrade um improvisador sem tese. É então legítimo fauve à maneira de Matisse. “Porteiras batiam pás! longínquos por todo o Brasil” eis um exagero magistral, de grande artista. Como dizer melhor da confusão pressa nos bastidores do teatro? “Mangas de camisas e bombeiros com pedaços de florestas impressionistas rolavam ordens do céu como de praias verticais”. Vejam estas imagens: “Lá dentro uma máquina de costura saía da gare”; “A tarde suicidava-se como Petrônio”; “A costa brasileira, depois dum pulo de farol, sumiu como um peixe”. Esta sensação de arraiada: “O vento batia a madrugada como um marido. Mas ela perscrutava o escuro teimoso. Uma longe claridade borrou a esquerda na evidência lenta duma linha longa”.

Para mais energicamente expressar às vezes mistura imagens, recordações confusas e objetivação direta da realidade. Cria então frases arrojadíssimas, a que seria preconceito negar grande poder expressivo. “O Martha ia cortar a Ilha Fiscal porque era um cromo branco, mas piratas atracaram-no para carga e descarga”. Morre alguém na família e Miramar vem a S. Paulo. “Longo soluço empurrou o corredor conhecido contra o peito magro de tia Gabriela no ritmo de luto que vestia a casa”. É porém quando evoca a infância que estão as mais expressivas frases desse gênero. João Miramar criança leu a história de Carlos Magno e “Roldão num combate espetou com um pau a gengiva aflita do Maneco que era filho da venda da esquina e mamãe botou no fogo a minha Durindana”. Ou: “Napoleão que era um grande guerreiro que Maria da Glória (velha criada negra) conheceu em Pernambuco disse que o dia mais feliz da vida dele foi o dia em que eu fiz a minha primeira comunhão”. Toda a infância de Miramar é admirável e capítulos como Gatuno de crianças, Perigo das armas, Felicidade, Fraque do ateu, Mudança, Claque, Gare do infinito (essa mania de dizer gare por estação!… Osvaldo quer escrever brasileiro e usa gare que só raro noticiarista ainda emprega) tais capítulos são das melhores páginas do modernismo.

Osvaldo de Andrade não tem carinho no pintar a criança. É demasiado vivedor para isso. Mas soube registrar como ninguém a néscia bobagem infantil.

Compreende-se porém: a criação dessa linguagem que tudo abandona pela expressão, mesmo leis universais e básicas, é exemplo fundamentalmente destrutivo que ignora as necessidades do material e lhe desrespeita mesmo a razão de existência. Um erro se justifica por aceitação inconsciente e unânime. E então não é mais erro. Ainda, acidentalmente, por necessidade passageira de expressão. Mas uma língua existe porque nela tal dicção é certa e tal errada. E provém de colaboração coletiva. O escriba fixa a filha de todos, trançando-lhe os cabelos, limpando-lhe o nariz porventura; e se o faz com genialidade chama-se Dante ou Camões. Com a língua de que Osvaldo se serviu não há como censurar-lhe defeitos de técnica. Assim o autor resolveu muito bem e com o melhor bom-humor deste mundo o problema de não errar o, digamos agora: português e não inçá-lo de barbarismos internacionais, como nos Condenados. Justificou todos os erros. Fez deles meios de expressão. Não se sabe mais o que é voluntário e o que nasceu da inadvertência.

Além da parte narrativa o livro consta de larga cooperação de personagens por meio de cartas, prefácio, discursos. Sátira extraordinariamente feliz de certa formação brasileira em que o pernóstico do cafuzo se junta a um doirado de cultura quase indigente. Nitidez de observação espantosa. Abundam cartas e discursos que são obras-primas de fatura. Assombra essa capacidade de fotografar a estupidez. O discurso de Minão da Silva, Finanças Matrimoniais, as cartas de Célia, do administrador, de Nair, de Pôncio Pilatos, do Pantico, o prefácio e o discurso de Machado Penumbra: que maravilhas de comicidade e exatidão! Fácil fotografar assim? Experimentem! Ainda aqui o autor não copia. Deforma para expressar com maior verdade; e tão hábil, com tamanha perfeição que o artifício e o exagero desaparecem. É como um verdadeiro que fosse mais exato que a verdade. Mas sob o ponto de vista de construção ainda aqui o autor destruiu. Porque não apresentou os elementos com que contamos para uma diferenciação entre o falar brasileiro e o lusitano, nem descobriu os meios por onde essa diversidade poderia se acentuar, tornar-se básica. Organizou um dicionário satírico de imbecilidade e ignorância, de tudo o que não se deve dizer. É um Candido de Figueiredo do riso.

Mostrei sobretudo a acentuada formação destrutiva das Memórias sentimentais. Apesar do seu esperto fracionamento episódico o romance está excelentemente bem construído. Movimento e intensa vida.

E é sátira que fixou com exatidão o ambiente paulista de nosso tempo, de modo especial o conflito quotidiano entre a… agilidade estrangeira e a estúpida moleza almofadada em sacas de café do paulista sem bandeiras. Estamos quase a cair naquela pacata expectativa em que já dormira o paulista-mineiro da segunda metade de 1800. Que acontece? O estrangeiro vem e suga o mel. Faz muito bem, moscone!…

Mas por ser o registro do ambiente paulista na época atual seria injusto acoimar o livro de regional. Expressão brasileira, de interesse brasileiro. O ser regional é antes de mais nada restringir-se a dados particulares e peculiares a determinada região, servindo-se de preferência, quase que unicamente do que a torna exótica. E a individualiza. A vida de S. Paulo, na maneira com que Osvaldo de Andrade a sintetizou é a mesma das grandes partes progressistas e portanto atuais do Brasil e mesmo da América. E se a predominância que dá à cooperação italiana localiza mais ou menos o recinto do livro, o que ressalta é a competência entre o elemento estrangeiro, aqui teuto, adiante luso, além espanhol, e o elemento indígena, consolidando-se ambos em mútua, vaidosa e irrisória incompreensão.

É muito sabido já que um grupo de moços brasileiros pretendeu tirar o Brasil da pasmaceira artística em que vivia, colocando a consciência nacional no presente do universo. Grande espanto, indignação mesmo, provocados pela grita desses galos suculentos e nem sempre razoáveis. Mas estes já sabiam que sempre se irrita quem acorda no meio do sono. O erro deles foi imaginar que os cocoricos adiantam a aparição da madrugada. Tinham de transportar a consciência nacional para o presente do universo. Muito bem. Mas onde estava essa consciência nacional? Havia a fonte dos escritores… Mas essa tradição (!) não dizia nada. As poucas tentativas dum Basílio da Gama, dum Gonçalves Dias, dum Alencar eram falhas, porque intelectuais em vez de sentidas, porque dogmáticas em vez de experimentais, idealistas em vez de críticas e práticas, divorciadas do seio popular, descaminhadas da tradição, ignorantes dos fatos e da realidade da terra. Apenas alguma coisa da ironia do caboclo, da sua melancolia, do sentimentalismo do brasileiro urbano, da petulância pernóstica do mulato e sua chalaça lusa se podia aprender na obra dum Gregório de Matos, dum Casimiro de Abreu, dum Álvares de Azevedo. Outros pouquíssimos. O resto eram pátrias-latejo-em-ti gritalhões, idealistas, inócuos. Nesse sentido os regionalistas tinham grande valor.

Verdade é que se todos esses homens de grande talento mas paupérrimos de inteligência crítica (esta observação não é minha) nada conseguiram, isto se deu também porque ainda não existia uma consciência nacional. Pode-se dizer que houve uma consciência paulista durante o bandeirismo. Ainda uma consciência baiana, ou quase, no segundo século. Consciência verdadeiramente brasileira ainda não se caracterizou nem mesmo nos trabalhos da independência, nem mesmo na guerra do Paraguai. O fato de em tais períodos existir um grupo de homens orgulhosos da sua nacionalidade e cuidadosos dos destinos do país não implica e infelizmente nem gera uma consciência nacional que tem de ser íntima, popular e unânime.

É caso de me perguntarem se essa consciência nacional existe agora. Não existe. Eu já disse que imaginávamos com os cocoricos adiantar o momento da aurora.

Era preciso auscultar, descobrir, antes: ajudar o aparecimento da consciência nacional. As pesquisas se multiplicam nesse sentido entre os modernistas brasileiros. Estão nos Epigramas irônicos e sentimentais, embora tímidas e esparsas. Da mesma forma no próximo Meu de Guilherme de Almeida. Existem já francas e confiantes na tendência pau-brasil de Osvaldo de Andrade. Falo só de obras de ficção. E luminosas, violentas na obra pós-cubista de Tarsila do Amaral. O Brasil não é para tais artistas um assunto literário escolhido entre mil. É preocupação imperiosa que abrange mesmo os seus gestos europeus. A realidade brasileira, agora criticada e não apenas sentimental caracteriza já claramente o trabalho desse grupo, não escola, grupo que por vário caminho se dirige para o mesmo fim. É trabalho consciente. E deve ser sobretudo prático, tradicional e experimental. Muito nos ajudará a obra dos historiadores, dos folcloristas, dos regionalistas, dos sociólogos. Não nos deve preocupar a opinião que essa gente séria possa ter de nós. Somos naturalmente para eles: loucos, pândegos e talvez mesmo cabotinos, ah!… Mordamos-lhes a polpa das obras. Quando boas. Alimentemo-nos com elas. Esse consciente, comum trabalho é bela e útil coisa.

Qual a contribuição trazida nesse sentido pelas Memórias sentimentais de João Miramar? Não creio que seja essa a “língua brasileira do século XXI”. Se tal foi a pretensão do autor, como o prefácio indica, a tentativa falhou. Mas continuam as Memórias sentimentais eminentemente brasileiras pelo colorido, ambiente, certa melancolia e inalterável bom-humor. Sim senhores! Porque a sátira assim não rebaixa o satírico. Não se trata nem de inveja nem de ódio. Muito menos de desprezo. Caçoada de companheiro. Sem irritação. E quando a melancolia aparece, é melancolia de rede de mangueiras ao Sol. Feliz. Muito gostosa. Vejam Tarsila do Amaral. Leiam Ronald de Carvalho. Lerão o Meu. E todas as Memórias sentimentais. Pois esta gente está satisfeita com a terra e com tal povo! Que novidade! É certo que já começamos a abandonar a saudade e a encarar a nossa pátria imensa e cheia de bichinhos venenosos como tiguera que ainda pode dar milho. Graças a Deus!

Conhecem aquela história do caipira que ganhou umas botinas para votar no dr. Tal, deputado de profissão? Pois calçou-as e avançou na estrada. Os pés começaram a doer. O cabra não pode mais. Tirou as botas e acariciou com olhos paternos os dedos que se mexiam livres, reconhecendo a terra amiga. “Tá contente, canaiada!” Estes modernistas brasileiros parece-me que descalçaram as botas.

Publicado originalmente na Revista do Brasil, 105, São Paulo, set. 1924, p. 26-32.

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i# Com o tempo, Mário de Andrade se revelaria um dos mais sensíveis críticos de obras literárias, formados na tradição modernista. É dele um livro indispensável: Aspectos da literatura brasileira.

ii#Os Condenadosfoi lançado pela Editora Monteiro Lobato, com capa de Anita Malfatti, em 1922.Outras Palavrasestá publicando-o, em capítulos, aqui: http://outraspalavras.net/category/os-condenados/

iii# Campos, Haroldo de. “Miramar na mira”, In: Andrade, Oswald. Memórias sentimentais de João Miramar. São Paulo: Globo, 2004, p. 25.

iv#CAMPOS, Haroldo de. “Uma poética da radicalidade”. In: ANDRADE, Oswald de. Obras completas – 7: poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971, p. 10.

v# Campos, 2004, p. 25.

vi# Campos, 2004, p. 25.

 

[1] Os Condenados foi lançado pela Editora Monteiro Lobato, com capa de Anita Malfatti, em 1922.Outras Palavras está publicando-o, em capítulos, aqui: http://outraspalavras.net/category/os-condenados/

TEXTO-FIM
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Mário de Andrade

Mário de Andrade (1893-1945) foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro. Ele foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Paulicéia Desvairada em 1922.

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