A perigosa tentação do meio ambiente sem gente

O caboclo Darci Sant’Ana, condenado por fazer duas roças em seu território ancestral, é símbolo do desrespeito aos direitos do povos tradicionais em nome de uma falsa proteção ambiental

“Somos caboclos, nosso território é a floresta Atlântica, no Alto Vale do Ribeira. Nossa cultura é criminalizada pelas instituições públicas do estado de São Paulo por produzirmos nossa vida.”

Assim afirma a petição pela absolvição de Darci Sant’Ana, vice-presidente da Associação das Comunidades Caboclas do Bairro Ribeirão dos Camargo, em Iporanga (SP), no Alto Vale do Ribeira. Darci é símbolo da criminalização dessas comunidades. Nascido e criado no sítio Sete Quedas, sem estrada e sem luz, que o pai herdou do avô e ele do pai, e onde vive com a mãe ainda viva, Darci foi condenado por ter realizado duas roças coivaras em seu território ancestral.

“A lei é muito clara, ela deixa o direito desses povos fazerem a roça da forma tradicional, que é a roça de coivara, a roça de corte e queima. O SNUC permite isso, a Lei da Mata Atlântica  permite isso”, afirma Raquel Pasinato, coordenadora do Programa Vale do Ribeira do ISA (Instituto Socioambiental).

Continuar lendo

TEXTO-FIM

Para conhecer outra agricultura

Seminário e feira no Vale do Ribeira debatem papel cultural da roça para comunidades quilombolas e promovem troca de sementes que ajuda a garantir segurança alimentar

Por Taís Capelini

De onde vem o que nos alimenta? Das prateleiras de supermercados? O hábito de consumir produtos cuja origem desconhecemos quase nos impede de enxergar que a agricultura pode ser, além de produção e comércio, uma forma de… cultura! Dois eventos programados para o final de setembro, em Eldorado (Vale do Ribeira) ajudam a superar esta cegueira. Estão relacionados à prática e à teoria da agricultura dos quilombos.

O trabalho agrícola é a principal atividade produtiva nos quilombos do Vale do Ribeira, sustentando há dois séculos a produção de alimento da região. Mas a atividade de cultivo vai muito além do simples plantio de sementes. Envolve um conjunto de relações, saberes e práticas que, ancorados em valores compartilhados, serve de base para a organização sociocultural quilombola. A roça, que é o centro deste sistema agrícola está também no cerne da manutenção do patrimônio cultural dessas comunidades. Por isso, o reconhecimento de sua importância para a subsistência e segurança alimentar das comunidades quilombolas é imprescindível para a sustentação das mesmas e para a difusão dos valores culturais desses grupos. Continuar lendo