Um templo à música, à resistência e aos cinco sentidos

170311_Tupi or not Tupi - João Donato - Foto Cristina Granato (03)

João Donato, que fará o show de abertura em 16/3 (Foto: Cristina Granado)

Surge em São Paulo “Tupi or not Tupi”, espaço para os sons, a culinária, os encontros — e para tramar, em meio à destruição do país, a retomada dos sonhos

Por Inês Castilho

Uma cidade com efervescência cultural só comparável à das grandes metrópoles do planeta. Um país com a riqueza musical extraordinária do Brasil. Foi para manifestar essa potência que se criou a Tupi or not Tupi, a nova casa de música de São Paulo. No matriarcado de Pindorama. No país da cobra grande.

A proposta envolve mobilização cultural. “É um espaço de resistência ao desmonte da cultura que a gente está vendo acontecer. Estamos vivendo uma situação de catástrofe econômica, política, cultural. O projeto não está ligado apenas a planilhas e racionalidade, mas envolve ousadia e coragem”, diz Angela Soares, mãe da ideia. “Foi realizado em tempo recorde, com enorme esforço — de trabalho e financeiro — de sócios, amgos, fornecedores, colaboradores, todos movidos por paixão.” Expressão mascarada de todos os individualismos, todos os coletivismos.

Tudo na casa — um casarão que por 16 anos abrigou a Oca Tupiniquim, primeiro bufê infantil com valorização da cultura brasileira — soa cuidado, delicadeza, excelência. Para proporcionar prazer não apenas auditivo, de escuta apurada, mas para alimentar os cinco sentidos – como sacou Guto Lacaz, criador do slogan e do logo da casa. “Um espaço colorido, afetivo, gostoso, com boa comida e boa bebida.” O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Viciei em Novos Baianos, por Priscila Tieppo

Em 1971, fase mais sombria da ditadura, um grupo de músicos muito jovens refugiou-se num sítio-comunidade e compôs “Acabou Chorare”, um dos álbuns mais criativos da música brasileira. Que ele pode dizer ao Brasil de hoje?

Curadoria e narração: Alexandre Machado

 

O que o samba pode te ensinar

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Não pense que a denúncia da desigualdade surgiu com o rap. Vasto repertório de canções expressa, há décadas, re-existência e criatividade dos negros, num país que os queria apenas como braços

Por Stephanie Ribeiro, do site Alma Preta | Edição de Imagem: Vinícius de Almeida | Imagem: Elifas Andreato

(Um texto para o meu avô, que aos domingos
colocava um álbum do Martinho da Vila
e me tirava pra dançar)

Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.

São canções feitas há anos, nas décadas de 1950 a 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:

“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.

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David Bowie, um guia para iniciantes

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Em breve retrospectiva, os sucessos e as múltiplas fases de alguém que, além de criativo e inovador, soube cultivar a difícil arte da auto-transformação

Por Brad Reed, em BGR | Tradução: Gabriela Leite

Admito ter ficado surpreso ao ouvir que David Bowie morreu na noite passada, principalmente porque nunca me ocorreu que David Bowie poderia morrer. Racionalmente, eu entendo que ele era um homem mortal e não um deus, mas ao mesmo tempo sua música e sua persona tem sido uma força vital para o mundo do entretenimento por tanto tempo, que eu nunca realmente imaginei que ele pudesse ir embora. Para aquelas almas infelizes por aí que estão se perguntando o porque de tanto estardalhaço sobre David Bowie, eu ofereço um guia com algumas de suas melhores músicas.

De coração, Bowie era um camaleão criativo. Ele não apenas transformou sua música ao longo dos anos, mas também toda a sua persona, fosse no papel do deus do rock marciano Ziggy Stardust, ou no fascista Thin White Duke. Diferente de outros músicos que fazem fortuna com um único som específico, e depois o espremem até a morte (estamos olhando pra vocês mesmo, Foo Fighters e Red Hot Chilli Peppers!), Bowie não se satisfazia em ficar parado em um único lugar por muito tempoVamos começar com “Space Oddity”, seu primeiro sucesso e uma música que mostrou o que seria seu duradouro interesse em temas de ficção científica:
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Nina Simone e a música como expressão dos direitos civis

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No rastro do documentário “What happened, Miss Simone”, vale refletir sobre vida, música e lutas da compositora negra que dizia: “É obrigação artística refletir meu tempo”  

Por Kauê Vieira, no Afreaka

O movimento dos direitos civis é um dos momentos mais importantes da história dos Estados Unidos, concentrado principalmente em estados do sul do país, os fatos ocorreram entre 1954 e 1968 e foram uma forma de resistência da comunidade negra que exigia o fim da segregação racial imposta por supremacistas brancos. O objetivo era questionar e boicotar decisões claramente racistas, como as proibições sociais cotidianas impostas aos negros e os direitos cedidos apenas às pessoas brancas o que, na visão dos estrategistas do movimento, provocaria uma crise e consequentemente um diálogo com as autoridades. Continuar lendo

Africa: Takoublet, o incrível Festival do Deserto

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Símbolo de intercâmbios culturais, em região conflagrada pela guerra, encontro-caravana funde, no Mali, músical tradicional com raggae e suscita esperança de continente pacificado

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Afreaka

Extinguindo um modo de vida milenar, os últimos séculos testemunharam o fim das grandes caravanas trans-saharianas que viajavam do sul do Marrocos a Timbuktu, no norte do Mali. Com o fim das caravanas, a região passou a enfrentar um desafio ideológico. As dificuldades da vida no deserto trouxeram fenômenos como a migração, conflitos, problemas econômicos e instabilidade política. Para lutar contra a erosão do patrimônio cultural e do conhecimento local, nasce no Mali, em janeiro 2001, o Festival do Deserto. Um momento para comemorar e relembrar os encontros anuais históricos da cultura Tuareg. A festa original, conhecida como Takoubelt ou Temakannit, simboliza o final da temporada nômade, quando os povos se encontravam para trocar novidades, bens materiais e cantos. Festividades, que também se consagraram como um importante lugar para tomada de decisões e encontros comunitários. Hoje, o festival celebra a cultura local, regado de poesia, música, dança e costumes tuaregues, incluindo passeios de camelo e outros jogos tradicionais. Continuar lendo

Rrose Sélavy: cinco anos de uma banda incomum

140105-RroseGrupo de Belo Horizonte lança, na internet, seu novo álbum, “Bossa Punk”. E revela, no texto abaixo, suas influências musicais e poéticas

Por Rrose Sélavy

Madame Rrose Sélavy é uma banda de “eletro frevo bossa punk” que comemora cinco anos de lançamento do seu primeiro álbum demo Duchamp C’est La Vie (2009). São frutos frutos da geração digital, na qual as novas tecnologias possibilitaram muitas criações inventivas, cheias de erros, surpresas e experimentações. Com ações também na produção de vídeos, instalações sonoras e visuais, além de curtas e longas, a banda é um grupo de amigos e parceiros que há mais de dez anos produz audiovisual nas artes. A música era uma experiência paralela e complementar.

A partir de 2007 é que foi se intensificando e caminhando para a canção. O grupo já tinha experimentado de tudo, feito vários grupos musicais, todos bem experimentais e com a pegada punk. Duchamp para nós é o punk DIY (do inglês do it yourself, ou faça você mesmo) das artes. Existem outras referências, mas ele tem a ironia que gostamos de experimentar em nossas músicas e vídeos. Uniu-se essas referências com a escola brasileira do pop experimental, entre os quais Mutantes, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Akira S e As Garotas Que Erraram, Karnak, Os Mulheres Negras, Pato Fu, entre outras. E também acrescentou-se a poesia marginal de Ana Cristina Cesar, Leminski, Chacal, Cacaso… Temos influência também da cultura popular, no sentido de absorver tanto o repente, o frevo e o brega sem soar folclórico. Continuar lendo

“Debaixo de tanta pele corre sangue africano”

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Autor de um som próximo ao samba-soul, Wesley Nóog diz que caminhamos para uma antropofagia brasileira, dada a riqueza cultural do país

Por Keytyane Medeiros | Imagem Catraca Livre

Depois de vencer as escadinhas de barro que avançam por trás de uma escola municipal do Capão Redondo, chego ao CEU da região. A unidade ainda é nova, com apenas quatro meses de existência, e na noite de sábado (31/08) recebeu o cantor elétrico e performático Wesley Nóog. O show apresentou algumas músicas de seu novo CD, Soul Assim, e canções mais consagradas como “Nega, Neguinha”, “Pixaim” e “Povo Brasileiro”.

Apesar de ser contra rótulos ou divisões musicais, Wesley faz um som que se aproxima do samba-soul, tem notas afro-brasileiras evidentes e letras inteligentes. Sobre a cultura de periferia, o artista é bastante enfático ao dizer que “o CEU ainda é um elemento inusitado dentro da comunidade, não há um apropriação de fato desse espaço”.

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Tem gaúcho no samba

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Clube do Pandeiro de Porto Alegre populariza, na Usina do Gasômetro, típico instrumento brasileiro

Por Katia Marko

Sábados pela manhã. Um som bem familiar ecoa da sala 505 da Usina do Gasômetro. Chama a atenção de quem passa pela porta sempre aberta e convidativa. Após dois anos de oficinas, faça chuva ou faça sol, o Clube do Pandeiro de Porto Alegre vai ganhando forma e novos adeptos a cada semana.

Originário da Arábia, o pandeiro tornou-se um instrumento legitimamente representante da música brasileira. Presente em todas as rodas de samba, é popular, prático e muito eficiente. O seu toque bem característico, hoje é difundido no mundo inteiro.  Continuar lendo

Para acalentar Dominguinhos

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Às 14h de domingo, em São Paulo, forrozeiros, músicos e amantes da MPB fazem caminhada artística para grande mestre da sanfona

Dominguinhos nasceu em Pernambuco, mas é do Ceará, do Rio Grande do Sul, da Paraíba, de Brasília e — por que não? — de São Paulo, cidade que escolheu para morar. Dominguinhos é do Brasil e por isso neste domingo parte do país caminhará com ele e cantará pela saúde dele.

Em São Paulo, local donde foi dado o pontapé inicial deste movimento, a concentração será às 14h do domingo (24/3), no MASP,  onde se encontrarão forrozeiros, músicos, amantes da MPB e todos os que conhecem, admiram e amam este musico incrível que é hoje o grande nome da sanfona e do forró. Continuar lendo