Resistência na ponta da agulha

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Documentáriconta, por meio de bordados e das mulheres que os tecem, uma história da violência associada ao setor elétrico brasileiro 

Por Inês Castilho
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Arpilleras: Atingidas por barragens bordando a resistência
Lançamento: 29 de agosto, às 19h
Cine Odeon – Praça Floriano, 7 – Centro — Rio de Janeiro (mapa) — Metrô Cinelândia
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Bordar a dor para denunciar a violência. Um trabalho tradicional de mulheres no ambiente doméstico é transformado em instrumento de luta e vira tema do longa-metragem Arpilleras: atingidas por barragens, bordando a resistência.

O filme conta a história de dez mulheres cujas comunidades foram atingidas por barragens de mineradoras e hidrelétricas, nas cinco regiões do Brasil. Seus relatos de dor e luta pelas violações sofridas em suas vidas cotidianas foram transformados em cenas bordadas. A costura, inofensiva tarefa feminina, usada transgressivamente, transforma-se em potente ferramenta de resistência e denúncia.
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Grandes obras do setor elétrico, além de destruirem comunidades inteiras, têm impacto ainda mais predatório para as mulheres. Com elas chegam em pequenos municípios milhares de operários desgarrados e sem família, criando um ambiente propício ao assédio sexual, ao estupro, ao tráfico de mulheres e à violência sexual contra menores.

A partir de cada personagem, o filme mostra os problemas criados pela hidrelétrica de Belo Monte, que impactou a vida de aproximadamente 40 mil pessoas em Altamira (PA); a barragem de rejeitos de Fundão, que se rompeu em novembro de 2015 e causou a morte de 19 pessoas em Mariana (MG); a barragem do Castanhão, que canaliza água para a região metropolitana de Fortaleza (CE); a hidrelétrica de Itá (RS), idealizada no período da ditadura militar; e as hidrelétricas de Cana Brava e Serra da Mesa, ambas em Goiás.
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A técnica
A Arpillera é uma técnica têxtil cujas raízes estão fincadas numa antiga tradição popular de bordadeiras de Isla Negra, no litoral chileno. Recriada para denunciar a ditadura de Pinochet, a técnica foi adotada a partir de 2013 no Brasil pelo MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, que há 26 anos defende os direitos das populações atingidas por barragens.

“As arpilleras são como cancões que se pintam”, teria dito a compositora Violeta Parra, que expôs suas arpilleras no Museu do Louvre em 1964.

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Detalhe Arpillera “Homem com violão”, de Violeta Parra

O filme é uma produção do MAB e foi viabilizado por meio da plataforma de financiamento coletivo “Catarse”.

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Alternativas: e se energia for um Bem Comum?

Eletricidadade e combustíveis são vitais para atividade humana — mas produzi-los pode causar enormes impactos sociais e ambientais. Por isso, não podem continuar submetidos aos interesses do mercado

Como estender os benefícios e conforto oferecidos pela eletricidade a todos os seres humanos — inclusive a um bilhão de pessoas que não têm, hoje, acesso a uma lâmpada elétrica? Como evitar que, a pretexto de garantir este direito, mega-empresas, quase sempre financiadas por recursos públicos, desenvolvem imensos projetos que afetam a natureza e as populações locais?

A Assembleia Europeia dos Comuns (AEC), uma articulação da sociedade civil impulsionada pela Fundação Peer to Peer (saiba mais aqui) propõe uma resposta inovadora. Ela quer alterar o paradigma que orienta, hoje, tanto a produção de eletricidade e combustíveis quanto sua distribuição e suas receitas. Ao invés de subordinarem-se a interesses de mercado, estas atividades devem ser consideradas Bens Comuns da Humanidade. As decisões essenciais precisam ser transferidas das mega-empresas a comunidades organizadas.

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Itaipu: as hidrelétricas não precisam destruir

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Corredor ecológico de 43 milhões de árvores: um dos vinte programas do Cultivando Água Boa

Após pressões da sociedade, usina estimula vinte programas ecológicos de grande relevância. Teólogo Leonardo Boff foi um dos criadores da mudança

Em novembro do ano passado, ao participar de um encontro em Foz de Iguaçu, o teólogo Leonardo Boff não economizou palavras. Ele qualificou o programa Cultivando Água Boa (CAB), articulado pela usina hidrelétrica de Itaipu como “a experiência ecológica mais bem realizada em escala mundial”. Dois anos antes, já havia publicado artigo em que equiparava o CAB a uma “miniatura de biocivilização”. Continuar lendo

Muito mais grave que Belo Monte

Parque Nacional da Amazônia, cartão postal da floresta e um dos oito que podem ser atingidos: quase 1 milhão de hectares, 99% dos quais de floresta densa

Hidrelétrica projetada para Rio Tapajós, no Pará, pode ser a quarta maior do país – e abrir clareira do tamanho de São Paulo numa das áreas de maior biodiversidade do planeta

Por Antonio Martins

São Luiz do Tapajós: os movimentos que lutam por uma uma nova política energética e pelas causas ambientais no Brasil precisam ficar atentos a este nome. É como está sendo chamada a possível usina hidrelétrica a ser instalada no Pará, em meio a um santuário amazônico, até agora intocado. Projetada para produzir 6 mil megawats (um quarto de Itaipu), a usina é peça importante do projeto estratégico da Eletrobrás – que quer explorar intensamente, nas próximas décadas, o potencial energético da Região Norte.

Uma rica reportagem de André Borges, publicada no Valor de 25/7, ajuda a compreender as dimensões e riscos de São Luiz do Tapajós. A usina chama atenção pelo ponto em que poderá ser construída: numa área cerca de 700 quilômetros a oeste de Belém e em meio a doze unidades de conservação que formam o Complexo do Tapajós, considerado por alguns o maior mosaico de biodiversidade do planeta. Continuar lendo