Raça, gênero e sexualidade na educação popular

Mesa de debate do segundo dia da II Jornada de Educação Popular contou com falas de ativistas trans e do movimento negro

Por Yasmin Klein, da equipe de Comunicação da II Jornada de Educação Popular

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A mesa “Educação e Democracia” abriu o segundo dia de atividades da ll Jornada de Educação Popular na manhã deste domingo.

Estorvo Silva, educadora de História no cursinho Transformação, voltada para a população trans, e Thaís Santos, mestranda em Sociologia e integrante do Hub das Pretas, dialogaram sobre temas como juventude, racismo, gênero e sexualidade, entendimento do lugar do outro, poder e o papel da educação no caminho para a representatividade.

A fala de Estorvo Silva deu início ao debate com questionamentos acerca do sentido das palavras que davam nome à mesa, em um momento histórico em que diversas terminologias estão sendo reavaliadas, dentro e fora do ensino educacional.  A educadora chamou atenção para as palavras que usamos em sala de aula, afirmando que não sabemos da realidade dos alunos fora do ambiente escolar e o que podem passar em seus lares ou na rua.

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Educação popular: pontos positivos e desafios na visão de educadores e educandos

 

Primeiro dia da “II Jornada de Educação Popular”  reuniu acadêmicos, educadores e alunos para discutir função social dos cursinhos populares

Por Rodrigo Emannuel, da equipe de Comunicação da II Jornada de Educação Popular

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Neste sábado (30), na Escola Estadual Oswaldo Catalano, em São Paulo, aconteceu o primeiro dia da “II Jornada de Educação Popular”. Iniciativa conjunta de diversos cursinhos populares da capital paulista e região metropolitana, o evento visa discutir o papel da educação popular como forma de transformação progressiva da sociedade e também promover um espaço de interação e troca de experiências entre acadêmicos, educadores e educandos.

Para compreender a dinâmica de funcionamento dos cursinhos populares, ou seja, suas estruturas, modos de organização e atuação, conversei com educadores e alunos sobre suas experiências e perspectivas essa forma inclusiva e participativa de educação, tanto no que tange aos aspectos positivos quanto às dificuldades enfrentadas. Antes de entrar nos méritos dessas perspectivas, é importante compreendermos no que consiste a educação popular e como ela contribui em diferentes instâncias do processo de integração social.

O que são educação e cursinhos populares?

A educação popular é um instrumento fundamental para o estímulo e desenvolvimento do pensamento crítico em  jovens e adultos das periferias que não têm acesso à educação comercial. Por meio da aproximação entre o conteúdo teórico e a realidade em que esses sujeitos estão inseridos, a educação popular propicia um ensino que transpassa o ambiente de sala de aula ao formar pessoas capazes de pensar, política e culturalmente, a transformação das comunidades em que vivem. Dessa maneira, tanto os indivíduos quanto a comunidade ganham em autonomia e tornam-se cada vez mais independentes em relação ao Estado e ao setor privado.

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Educação, conjuntura e cursinhos populares

Mesa “Brasil em crise: os efeitos da crise política e econômica na educação” reuniu especialistas na primeira atividade da II Jornada de Educação Popular

Por Beá, da equipe de Comunicação da II Jornada de Educação Popular

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A II Jornada da Educação Popular começou logo cedo, às 9h30, com a mesa “Brasil em Crise: os efeitos da crise política e econômica na educação” com Lúcia Bruno, Mirian Helena Goldschmidt, Marcos Cassin e Denise Carreira, todos estudiosos da área.

O debate teve início com a fala da Denise Carreira a respeito dos esforços conservadores em minimizar o Estado e sua responsabilidade em garantir os direitos sociais conquistados pelas minorias políticas ao longo dos últimos anos. “Há atualmente um movimento para transformar direitos em mercadorias”, disse a coordenadora-adjunta da Ação Educativa.

Para Denise, é preciso entender o Plano Nacional de Educação (PNE) como um instrumento de luta. “A participação ativa da população na agenda política do Brasil traz colaborações importantes, como as metas 12 e 13, do PNE, que demandam não só um ensino superior de qualidade, mas também uma universidade diversa, com ações afirmativas de acesso e permanência das minorias. Tais pontos estão hoje ameaçados pelas políticas de austeridade econômica que estão sendo implementadas”, alertou.

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Para tramar um feminismo descolonizado e não-burguês

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Ciclo de encontros com a boliviana Julieta Paredes debate a hipótese de um Feminismo Comunitário, capaz de superar o individualismo e de compreender que o patriarcado oprime também os homens e a natureza

Por Serpente Coletiva

Fortalecer a atuação de mulheres e seus espaços de resistência ao neoliberalismo e ao patriarcado, a partir das contribuições do Feminismo Comunitário é o objetivo do Ciclo de encontros Feminismo Comunitário: propostas desde o Sul, que acontece de 27 a 30/09, em São Paulo.

O evento promove uma série de atividades abertas e gratuitas com Julieta Paredes, feminista boliviana, uma das criadoras do Feminismo Comunitário de Abya Yala (nome originário da América). Nos encontros, serão discutidos temas como descolonização e desaburguesamento do feminismo; força revolucionária das mulheres latino-americanas quando decretam que são metade dos povos, das comunidades, dos movimentos; saberes ancestrais dos povos originários, como o próprio conceito de comunitário; propostas decoloniais de atuação política; entre outros. E uma festa celebra a alegria das conversas, trocas, reflexões e aprendizados para a construção de outros mundos possíveis. Continuar lendo

Avança a proposta de anular atos de Temer


Lula e Ciro começam a defender – ainda que tímidos – a revisão, pelo povo, dos atos do governo e Congresso ilegítimos. Iniciativa pode ser central para mudar o cenário político

Por Antonio Martins

Debatida em abril, num seminário da Plataforma pela Reforma Política, e difundida desde então por Outras Palavras, a proposta de submeter a referendo popular as principais medidas do governo Temer teve um impulso importante, nas últimas semanas. No final de agosto, foi defendida por Lula, numa entrevista a rádios comunitárias de Pernambuco. Hoje (26/9), foi a vez de Ciro Gomes, mencionar a revogação. Falando na sede do Twitter, ele respondeu a internautas que o questionaram: estas medidas, disse, “têm a ferida da ilegitimidade” e “portanto, serão todas substituídas”.

Dois fatores principais dão alento à ideia. O primeiro tem a ver com a necessidade de conquistar o apoio da sociedade, e se possível as ruas, num cenário de enorme instabilidade. O ambiente está carregado de frustração e raiva. Mesmo os que defenderam o impeachment percebem que seus direitos estão sendo roídos por um governo e uma casta política corruptos, aliada ao grande poder econômico. Esta revolta precisa e pode ser convertida em ação transformadora – por exemplo, reivindicando a democracia direta dos plebiscitos. Do contrário, cria-se um enorme vácuo político, favorável ao ressentimento, à antipolítica, aos Bolsonaros Continuar lendo

Como os soldados-robôs tornarão as guerras mais devastadoras

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Máquinas não comandadas por humanos estão sendo desenvolvidas em potências bélicas para atuar no lugar de combatentes; organizações humanitárias preocupam-se com possível cenário

Por Mariana Gonçalves*

Os sistemas de armas autônomas são tecnologias desenvolvidas para buscar, identificar e atacar alvos num conflito armado sem nenhuma intervenção de um operador humano. Sem alguém que a comande para agir, o sistema pode aprender a adaptar seu funcionamento de acordo com as circunstâncias em que é posto, a partir de algoritmos e programas que lhe são registrados.

Essa tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento, e armas desse tipo ainda não foram levadas aos campos de batalha. Os principais países que têm estudado e buscado aprimorar esses robôs são Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e Israel, querendo reforçar seu potencial militar. Apesar de as armas mais avançadas ainda não existirem, sistemas autônomos mais básicos, como drones capazes de selecionar e mirar alvos, já foram levados a batalhas no Iêmen, por exemplo. O tema está no centro de debates e pesquisas da área, e é possível que se torne uma característica da guerra no futuro.

Defensores desses sistemas argumentam que, além de poupar vidas de combatentes, os sensores sofisticados e a inteligência artificial empregada pelas máquinas as torna melhores que os humanos na hora de identificar objetivos militares para atacar, evitando danos não intencionais (à população civil, por exemplo) num conflito. Outra vantagem é que as armas não seriam influenciadas por emoções negativas como medo, raiva ou desejo de vingança.

Ainda não há consenso, no entanto, sobre a capacidade dessas armas de fazer avaliações complexas e dependentes de contexto durante as ações. Algumas questões que levantam dúvidas dizem respeito à sua competência para diferenciar objetivos militares de bens de caráter civil e para alterar, cancelar ou suspender ataques quando é evidente que seus danos serão desastrosos. Uma máquina também não teria emoções positivas, como a compaixão.

. Por que essas armas podem ser um problema

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A dura — e indispensável — construção dos Comuns

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Claramente anticapitalista, ideia de proteger das lógicas de mercado cada vez mais aspectos da vida precisa tornar-se popular. Como fazê-lo?

Por Georgia Nicolau

Entre os dias 10 e 14 de julho deste ano participei da 16ª Conferência Bienal da Associação Internacional para os Estudos do Comum (International Association for the Study of the Commons- IASC) cujo tema, este ano, era “Praticando os Comuns – auto-governança, cooperação e mudança institucional”. Com sedes rotativas, o evento deste ano aconteceu na cidade universitária de Utrecht, na Holanda, e teve como organizadores, além da própria IASC, a Universidade de Utrecht e seus programas de pesquisa Instituições para Ação Coletiva e Instituições para Sociedades Abertas.

Sendo parte da construção do Instituto Procomum, desde ano passado, ando debruçada em textos e reflexões sobre os comuns (os commons, em inglês, e procomún ou común em espanhol). Nesse sentido, a ida à Conferência da IASC foi uma experiência bastante rica para reafirmar algumas ideias surgidas a partir das nossas imersões e conversas, como por exemplo de que o comum ainda é uma agenda, um conceito, bastante ligado à pesquisa acadêmica. Mas temos, cada vez mais, praticantes e comunitários envolvidos nesse debate (os comuneiros). O comum ainda é muito identificado à gestão e governança de recursos naturais (rios, florestas, agricultura). Além disso, percebi que não se trata de um conceito que finda em si mesmo, mas uma lente, um enquadramento possível para compreender o mundo. Abrange, portanto, uma série de pessoas, grupos e pesquisadores atuando nos mais variados campos, os quais, de alguma forma, propõem formas de governança coletiva de um bem seja para preservá-lo, geri-lo ou construí-lo.

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Oficina: o ativismo dos acionistas rebeldes

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Em diversos países, os atos das grandes corporações estão sendo denunciados nas próprias assembleias de acionistas. Vamos fazê-lo também no Brasil


Roda de Conversa com Christian Russau
Sexta-feira, 15/9, às 19h30, em Outras Palavras

Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – S.Paulo (mapa) – Metrô S. Joaquim ou Brigadeiro)
Confirme presença aqui

Muito mais que os governos, as grandes corporações são hoje o verdadeiro poder global. É preciso enfrentá-las de várias formas – em especial as surpreendentes. Outras Palavras convida para uma oficina sobre nova forma de ativismo: o dos acionistas críticos e rebeldes.

Nesta sexta-feira, em nossa redação em São Paulo, o jornalista e ativista alemão Christian Russau coordenará oficina de introdução sobre o tema. Christian é, em seu país, referência nesta forma de ativismo. Comparece, todos os anos, a assembleias de grandes empresas como a Siemens, Volkswagen, Thyssenkrupp, Bayer (que está adquirindo a Monsanto). Faz denúncias. Exige explicações e documentos. Suas descobertas e falas alimentam novas ações. Continuar lendo

O nosso 11 de setembro

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11 de setembro de 1973: o Palácio La Moneda, onde estava o presidente socialista Salvador Allende, é bombardeado pelo Exército chileno sob o comando do general Augusto Pinochet

Um brasileiro que vivia no Chile registrou o dia fatal do golpe que despedaçou a democracia de Allende, em 1973, Aconteceu muito antes do 11 de setembro dos EUA – que ajudaram a instalar a ditadura em Santiago

Por Cid Benjamin

Ontem, 11 de setembro, foi aniversário do sangrento golpe militar que assassinou Salvador Allende e implantou a sangrenta ditadura do general Pinochet.

Na ocasião eu estava no Chile, onde tinha ingressado com documentos falsos para voltar clandestinamente ao Brasil, depois de ter sido trocado, juntamente com outros 39 presos políticos, por um embaixador sequestrado pela guerrilha.

Reproduzo aqui o trecho do meu livro de memórias Gracias a la vida (Editora Jośe Olympio, 2013), em que falo desse dia.

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“No dia 11 de setembro veio o golpe, que, em seu momento inicial, talvez tenha sido o mais violento dentre todos os acontecidos na América Latina.

“Na ocasião, já estávamos há poucas semanas, eu, Isolde e Ani, em outra casa, melhor do que o apartamento em que, até então, tínhamos morado. No dia do golpe, saí cedo para uma reunião política com brasileiros. Na rua, senti um clima estranho. E havia grande movimento de helicópteros e aviões. Perguntei a um transeunte se tinha acontecido algo.

“Los milicos se alzaran”, foi a resposta.

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Em defesa da Reforma Psiquiátrica

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Integrante do governo Temer propõe volta dos manicômios públicos. Pesquisadores e docentes lançam mobilização por uma política de Saúde Mental digna e contemporânea

Por Inês Castilho

O sistema de saúde brasileiro encontra-se ameaçado pelo subfinanciamento e a falta de planejamento, avaliação e gestão, mais o abandono da política de formação e qualificação permanente de seus profissionais.

Mereceu repúdio de docentes e pesquisadores em Saúde Mental a proposta levada ao Conass (Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde) e Conasems (Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde) pelo coordenador para Saúde Mental Álcool e outras drogas do ministério da saúde, Quirino Cordeiro, em reunião no dia 31 de agosto. Ele propõe abandonar a orientação atual, da Reforma Psiquiátrica, e expandir os hospitais psiquiátricos nos próximos vinte anos — quando as verbas para o SUS, o Sistema Único de Saúde poderão ficar congeladas.

Manifesto lançado pelo grupo de trabalho em Saúde Mental da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) considera retrógrada e obscurantista a proposta do atual coordenador de Saúde Mental.

“Ao longo de pelo menos 10 anos de implantação da Reforma Psiquiátrica, um grande número de trabalhos publicados em periódicos nacionais e internacionais, e mesmo uma importante publicação no renomado periódico Lancet, têm apresentado evidências dos inegáveis efeitos positivos da Reforma Psiquiátrica Brasileira sobre a vida de usuários e usuárias de saúde mental que têm acesso aos serviços territorializados”, afirma o manifesto.

A assistência à saúde mental no Brasil atravessou profundas mudanças a partir da Constituição de 1988. Graças à luta antimanicomial, transitou do modelo hospitalocêntrico adotado no regime militar para um sistema em que os recursos são gastos principalmente com os serviços comunitários e não com hospitais.

O psicanalista Antonio Lancetti, personagem fundamental do movimento antimanicomial no Brasil – “que se organizou em torno da utopia de uma sociedade sem manicômios” – recentemente falecido, conta um pouco dessa história no primeiro episódio da série audiovisual Psicanalistas que Falam.

Serviços comunitários como os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), unidades especializadas em saúde mental para tratamento e reinserção social de pessoas com transtorno mental grave e persistente, tiveram entre 2001 e 2014 uma expansão importante, chegando em 2006 à inversão do padrão do gasto público.

Com isso, o Brasil alinhava-se à tendência mundial de qualificar, com respeito e liberdade, os cuidados comunitários para portadores de doenças mentais, mantendo-os perto de suas famílias – uma tendência que vinha desde o fim da segunda guerra mundial. Esta é a orientação proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-americana de Saúde (OPAS): “reestruturação da atenção em saúde mental articulada à rede de serviços territoriais, inseridos na comunidade onde vivem os usuários, suas famílias, amigos e referências pessoais e reabilitadoras, de forma a viabilizar a substituição de hospitais e manicômios como espaços preferenciais de cuidado.”

“A mudança traria um enorme prejuízo”, afirma Pedro Henrique Marinho Carneiro, que atuou na coordenação de saúde mental do ministério. A redução do uso de leitos de hospitais psiquiátricos não ocorreu à toa, observa. “Há um acúmulo de relatos de histórias de violação de direitos humanos nessas instituições. Isso trouxe para o Brasil até mesmo condenação em cortes internacionais”.

A despeito de seu crescimento, o modelo brasileiro de assistência à saúde mental ainda precisa expandir os serviços comunitários, dos que menos se expandiram no país, fragilizando as redes de atenção – o que tem sido usado como argumento para justificar o retrocesso.

“O nosso compromisso, portanto, é com a ampliação e fortalecimento desse modelo, e não com o seu retrocesso e desestruturação”, conclui o manifesto de docentes e pesquisadores.