Golpe de 2016 se afirma também como um golpe ruralista

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Assim como em 1964, combate à reforma agrária ganha centralidade na chegada direta das oligarquias ao poder; não à toa, medidas de Temer alegram agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O filme brasileiro com a premiação mais badalada da história, “O Pagador de Promessas” (1962) é um belo exemplo de como a reforma agrária era apresentada, nos anos 60, como um bicho de sete cabeças. Como se fosse algo comunista – e não algo do próprio capitalismo. Resultado: foi um dos principais motivos para a derrubada de João Goulart, em 1964. O que mudou de lá para cá? Troquemos a palavra “latifundiários” por “agronegócio” e teremos uma das chaves para entender o golpe de 2016.

O golpe de 2016 é também um golpe ruralista. Continuar lendo

Como assim, paralisar reforma agrária por fraudes? Vão parar o INSS também?

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Este vilarejo na Transamazônica era para ser um assentamento (Foto: Alceu Castilho)

TCU vai proibir o comércio de madeira até acabar o desmatamento? O Brasileirão até a limpeza da CBF? As obras em todo o país até o fim da corrupção nas empreiteiras?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Por meio de medida cautelar movida pelo Tribunal de Contas da União (TCU), a elite brasileira exerce seu escárnio contra o andar de baixo ao paralisar a reforma agrária no país. Alegação: fraudes. O Estadão informa que mais de 578 mil pessoas foram beneficiadas irregularmente nos últimos anos; entre elas, 1.017 políticos. Ótimo que se passe o pente-fino. Na reforma agrária, no Incra. Mas a paralisação prima pelo absurdo.

Todos sabem que há fraudes no INSS. Alguém imaginaria a interrupção da Previdência Social no país? Fraudes em bancos: existem. Vamos interromper a ciranda financeira? Corrupção das empreiteiras. Que tal paralisar todas as obras no país? Diante dos descalabros na CBF, cancelemos o campeonato brasileiro. Florestas destruídas? Aguardemos a interrupção do comércio de madeira. Violação sistemática de direitos humanos nos presídios? Que sejam todos derrubados, como fizeram com o Carandiru. Continuar lendo

Reportagem do Fantástico sobre Incra está correta; mas falta mais reforma agrária

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S. Antônio do Matupi: vilarejo em Manicoré (AM) deveria ser assentamento (Foto: Alceu Castilho)

Globo não errou na reportagem sobre desvio de lotes destinados a assentados; só que precisa fazer o mesmo em relação à grilagem; MST e FPA disputam o discurso

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Fantástico exibiu no domingo uma reportagem sobre utilização indevida de assentamentos do Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Em determinado momento, o chefe de gabinete do órgão nega ao repórter que o Incra seja “uma bagunça”. Quase isso. De fato, o órgão não tem controle sobre as terras no país – seja\m elas assentamentos, sejam propriedades rurais. Mas é preciso tomar cuidado para não jogar fora o bebê junto com a bacia. Precisamos de mais reforma agrária, não menos.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) emitiram notas com propósitos distintos em relação à reportagem. O MST reconhece os desvios e quer que a Controladoria-Geral da União (CGU) faça outras investigações, não somente em assentamentos. A FPA, expressão institucional da bancada ruralista, defende os interesses dos grandes proprietários, no contexto de uma CPI que investiga o Incra e a Funai – que visa paralisar ainda mais as demarcações de terras indígenas e a reforma agrária. Continuar lendo

Gilberto Mendes (1922-2016) e a homenagem aos sem-terra de Eldorado

Falecido no dia 1º, compositor musicou poema de Haroldo de Campos sobre os 19 sem-terra assassinados em 1996 no sudeste do Pará; foi militante do PCB

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O compositor vanguardista Gilberto Mendes (1922-2016) deixou também sua marca na história social da música brasileira, ao musicar, em 1997, o poema “O Anjo Esquerdo da História”, de Haroldo de Campos. O texto é uma homenagem aos 19 sem-terra assassinados no dia 17 de abril de 1996, em Eldorado dos Carajás (PA). A data é considerada o Dia Mundial da Luta Camponesa e Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Mendes faleceu no primeiro dia do ano, aos 93 anos, em Santos (SP). Era professor aposentado da Universidade de São Paulo e foi militante do Partido Comunista Brasileiro entre os anos 40 e 60. Um dos pioneiros da música concreta no Brasil, destacou-se também no teatro musical. Segundo o crítico Sidney Molina, da Folha de S. Paulo, a música sobre os sem-terra é uma de suas melhores obras. Ele diz que a força da elegia fez Mendes “passar abruptamente de um registro sacro para a pura declamação do rap”. Continuar lendo

“Invasões” x “Ocupações”. Por um curso intensivo para jornalistas

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Como ensinar a editores distraídos a diferença entre ocupação e invasão? Sem complicar muito, com rápidas pinceladas de Constituição e história do Brasil?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Foto: Roberto Parizotti/ Comunicação CUT

Não se trata de algo inocente, como sabemos. Chamar uma ocupação de “invasão” tem consequências graves para a luta política. Para a disputa por espaços. A favor de quem detém o poder, e a favor do nivelamento por baixo, da banalização das verdadeiras invasões. Invasões = assaltos. Uma coisa feia. Um abuso. Violência.

(Como, invadir não significa exatamente assaltar? Deem um Google em “Invadir” e “assaltos” ou “assaltantes” e vejam como as palavras estão estatisticamente associadas.)

Ocupação = um ato político. Quando um grupo – e não um bando – se apropria de algo sem dono, ou abandonado. Ou ilegítimo. Continuar lendo