Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.) Continuar lendo

Combate ao zika em imóveis abandonados mostra função social da propriedade

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Piscina abandonada no Rio (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Cinismo das elites em relação ao “sagrado direito à propriedade” cai por terra diante das ameaças do Aedes aegypti; sem-terra e sem-teto sempre estiveram certos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Estadão de hoje mostra, ao lado da manchete, agentes de saúde e soldados do Exército visitando casas em São Paulo em busca de focos do Aedes aegypti. O jornal informa que, desde ontem, a Medida Provisória 712 autoriza ingresso à força em imóveis abandonados “públicos e particulares”. O plural disfarça o objetivo da MP: os imóveis particulares parasitas. E que oferecem risco à população. Ao bem comum.

Está demonstrada a função social da propriedade.

Ela está prevista na Constituição. E costuma ser ignorada pelos cínicos de plantão, que invocam certo “direito sagrado à propriedade”, uma evocação mística e sem base na história das propriedades. Estas não podem estar acima do bem público. E nem se trata do debate entre propriedades “produtivas e improdutivas”. E sim que há limites para a percepção de que são intocáveis. Continuar lendo

Ocupações de escolas em GO têm perseguição e espancamento de adolescentes

Pela versão de estudantes e de testemunhas, policiais retiraram ocupantes sem mandado de reintegração de posse; jovens são intimidados; um foi atropelado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Policiais à paisana acompanharam pessoas que se apresentaram como pais de alunos e espancaram adolescentes que ocupavam desde o dia 17 de dezembro o Colégio Estadual Ismael Silva de Jesus, em Goiânia. A ação ocorreu nesta segunda-feira, conforme o relato dos estudantes. Eles estavam dormindo quando acordaram, às 5h40, levando chutes e cadeiradas. “Acorda vadia, acorda vagabunda“, diziam. Uma adolescente que tem tatuagem na perna foi espancada. Pois decidiram que a imagem era de um palhaço – o que policiais consideram uma ofensa.

Um estudante conta no vídeo acima que os populares não eram pais – o que caracterizaria a formação de milícia. E que, em seguida, policiais em cinco viaturas entraram na escola e retiraram os alunos à força. Algumas pessoas estavam com pedaços de pau, outras com cadeira. Armas foram apontadas. O advogado Hugo Hescer conta que os policiais não tinham mandado de reintegração de posse. Ou seja, participaram de um ato completamente ilegal. A Secretaria de Educação do Estado de Goiás sustenta que somente pais entraram na escola. Continuar lendo

Estadão diz que MST “invade” fazenda de político; só que a terra é pública

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Jornal utiliza o verbo “invadir”; mas se esquece de informar que as terras ocupadas são públicas; nos anos 50, veículo classificava de criminosos os esbulhos na região

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Utilizemos a própria notícia do Estadão para demonstrar que a notícia do Estadão não tem nenhuma sustentação. Apenas o propósito de defender proprietários de terra que  não são proprietários de terra. E sim senhores que se apropriaram de terras públicas.

Em pauta, a velha utilização do verbo “invadir”. Mas somente quando se trata de movimento social reivindicando seu espaço. Vejamos: “MST invade fazenda de político no extremo oeste paulista“.

Trata-se de Agripino de Lima, ex-prefeito de Presidente Prudente. Um pobre e inocente proprietário de uns nacos de terras, importunado injustamente pelos camponeses? Não exatamente. E é o próprio texto que informa isso: Continuar lendo

2015 – Mais um ano de naturalização da violência policial

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Agressão a professores em Curitiba (Foto: José Gabriel Tramontin / Lente Quente)

Tortura, chacinas, grupos de extermínio, execução de crianças, repressão a protestos; show de horrores da PM ganha noticiário, mas de forma dispersa, sem coesão

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

As chacinas ainda ganham algum destaque na imprensa – em ciclos. Em 2015, a matança em Osasco em Barueri foi uma das principais notícias de segurança publica, ao lado da tradicional truculência em manifestações de estudantes, professores e movimentos sociais. Esta, disfarçada em “confronto”. De um modo geral, porém, a sociedade brasileira segue assimilando a violência policial. Sem que ela apareça – apesar da ampla escala – nas retrospectivas televisivas ou impressas de fim de ano.

Esta sequência diz muito sobre o que aconteceu em Osasco:

14/08 (Osasco, Barueri, SP): Série de ataques deixa ao menos 18 mortos e 6 feridos na Grande SP
27/08 (Osasco): Adolescente morre em hospital e é a 19ª vítima de chacina na Grande SP (Letícia tinha 15 anos.)
28/10 (Osasco e Barueri): PMs queriam vingança e mataram 23 inocentes na Grande SP, diz secretário
07/11 (Osasco): Principal testemunha de chacinas é assassinada a tiros na Grande SP
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Estudantes de SP refundam a cidade; Alckmin não é o único derrotado

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A revogação do decreto que fechava 93 escolas comprova que ocupações são um método político legítimo; jornais que falaram em “invasões” também perderam

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O governador Geraldo Alckmin levou um xeque-mate já na primeira semana de ocupações em São Paulo. E demorou a perceber. Mais até do que a presidente Dilma Rousseff levou para perceber a dimensão da catástrofe em Mariana (MG). Os estudantes fizeram uma jogada de mestre. Ocupar as escolas que seriam fechadas levou ao governo estadual a imagem de truculento – que só seria agravada em caso de reintegrações de posse.

Foi uma alternativa aos protestos de rua, precocemente abortados pelos black blocs. Estes foram isolados pelos secundaristas, em frente do Palácio dos Bandeirantes, enquanto tentavam derrubar as grades. O método violento servia para o governo – e para a opinião pública – desqualificar o movimento. Mas a nova geração de adolescentes paulistanos mostrou-se mais madura que os militantes tradicionais. Não desistiu. Reuniu-se em assembleias e conquistou territórios. Continuar lendo

Jornais definem agressões da PM em SP como “confusão”

Lógica de guerra e violência é atenuada por certos títulos e textos; seria um jornalismo impreciso, se não fosse um jornalismo com compromissos políticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra a consagração da palavra “confusão” nas chamadas para os filmes da Sessão da Tarde, na Globo. A falta de imaginação do redator acaba nos fazendo rir. O problema maior é quando o jornalismo brasileiro revive o clichê para atenuar um confronto político – ou simplesmente agressões praticadas por policiais militares.

Notícia do G1, na noite de terça-feira (01): “Protesto de estudantes em São Paulo termina em confusão“.

Título no UOL, também na noite de ontem: “Após confusão, quatro são detidos em protesto contra reorganização“. Continuar lendo

Multiplicação de escolas ocupadas em SP vai além de reação a Alckmin

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Fenômeno em SP já extrapola o combate ao fechamento de escolas; tornou-se expressão da periferia e do público; negação da invisibilidade e da “decadência”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho) | Arte: Laerte

No começo era uma resposta à “reorganização”. Ao projeto eufemístico do governo estadual paulista que previa o fechamento de 94 escolas. Aos poucos, porém, as ocupações de escolas em São Paulo vão ganhando uma dimensão que vai muito além da resposta ao governador Geraldo Alckmin (que perdeu, fez um movimento absurdo no jogo de xadrez e perdeu), afirmando uma necessidade muito maior de milhares de adolescentes em São Paulo: a do protagonismo.

O crescimento foi viral. Em uma progressão aritmética com momentos de progressão geométrica. E, enquanto se escrevia este texto, eram mais de 170 escolas ocupadas em São Paulo. Quase o dobro das escolas que o governo queria fechar. Ou seja, por um lado há solidariedade de outros estudantes àqueles que iam perder sua escola. Por outro, uma mensagem adicional, a comunicação de que há algo mais, uma demanda dos adolescentes por expressões que a educação bancária não está dando conta. Continuar lendo

“Invasões” x “Ocupações”. Por um curso intensivo para jornalistas

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Como ensinar a editores distraídos a diferença entre ocupação e invasão? Sem complicar muito, com rápidas pinceladas de Constituição e história do Brasil?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Foto: Roberto Parizotti/ Comunicação CUT

Não se trata de algo inocente, como sabemos. Chamar uma ocupação de “invasão” tem consequências graves para a luta política. Para a disputa por espaços. A favor de quem detém o poder, e a favor do nivelamento por baixo, da banalização das verdadeiras invasões. Invasões = assaltos. Uma coisa feia. Um abuso. Violência.

(Como, invadir não significa exatamente assaltar? Deem um Google em “Invadir” e “assaltos” ou “assaltantes” e vejam como as palavras estão estatisticamente associadas.)

Ocupação = um ato político. Quando um grupo – e não um bando – se apropria de algo sem dono, ou abandonado. Ou ilegítimo. Continuar lendo