“Empresas”, 7, “vítimas”, 1 – uma análise do discurso de Dilma sobre Mariana

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Como Dilma enxerga a tragédia de Mariana? (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Pescadores e povos indígenas receberam uma menção cada durante a fala de 21 minutos da presidente; ela celebrou 24 vezes o acordo e não citou a palavra “crime”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Que palavras a presidente Dilma Rousseff utilizou no discurso que anunciou o polêmico acordo com Samarco, Vale e BHP, na quarta-feira, relativo à catástrofe em Mariana (MG)? “Catástrofe”, por sinal, não foi um termo enunciado. Ela preferiu “tragédia” (5 vezes), “desastre” (8) e “acidente” (1). Mas uma oposição específica sintetiza o espírito do evento: aquela entre “empresas” e “vítimas”. O placar foi de 7 x 1.

Claro que análises de discurso qualitativas são mais do que bem-vindas. Mas essa abordagem quantitativa traz algumas informações no mínimo curiosas. Outras, bastante representativas. Seja pela quantidade de vezes que a palavra foi utilizada – ela enunciou 24 vezes o termo “acordo” -, seja pela absoluta ausência ao longo dos 21 minutos de fala. Por exemplo: Dilma não mencionou a palavra “crime”. Continuar lendo

Primeiros dias de 2016 confirmam roteiro do massacre indígena no Brasil

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Povo Kaiowá na terra Kurussu Ambá, no Mato Grosso do Sul (Foto: Cimi)

Em BH, homem tem cabeça esmagada; no MS, criança morre sem ambulância e povo Guarani Kaiowá está cercado por pistoleiros; ano novo, violência velha; e a indiferença

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Cena 1: Urbana. Um indígena tem a cabeça esmagada em Belo Horizonte. Levou 15 chutes e pisões. Foi na sexta-feira, dia 15. “A vítima morreu sem etnia, sem nome e sem idade“, informa o El País Brasil. Ele dormia na rua, em uma calçada chamada 21 de Abril.

Cena 2: Rural. Em Juti, no Mato Grosso do Sul, povos Guarani e Kaiowá estão sendo atacados por pistoleiros. Sete veículos com jagunços cercam as terras. “Estão atirando todos os dias“, conta a líder indígena Valdelice Veron. “Estamos cercados, estou esperando notícias da ONU”.

Cena 3: Rural. Um menino de 1 ano, Kaiowá, morre por falta de ambulância em Coronel Sapucaia (MS). Chamava-se Jadison Batista Lopes. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) alega más condições da estrada. Os profissionais têm medo dos fazendeiros. Trata-se de região de conflito, na terra Kurussu Ambá. Fronteira. Continuar lendo

De Paris ao Rio Doce: do horror político ao horror econômico

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Os atentados em Paris e o crime ambiental em Mariana não são hierarquizáveis; o problema consiste em minimizar uma das tragédias por determinadas conveniências

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Muita gente no Brasil está falando sobre os atentados em Paris, com mais de cem mortos, em comparação com a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI, o rompimento de barragens em Mariana (MG), com mais de 20 mortos e desaparecidos e uma destruição incalculável do ambiente, entre espécies extintas, impacto por décadas e ameaça direta à sobrevivência de um rio importante, o Rio Doce.

Existe a percepção de que a tragédia francesa abafará a tragédia brasileira. E a verbalização dessa percepção gera um ruído: como se quem dissesse isso fosse indiferente a cada francês morto e ao horror específico dos massacres em Paris, à covardia e ao fanatismo. Com isso se cria um falso problema. Ou, no mínimo, secundário: a nossa suposta insensibilidade. A dos cidadãos, a dos internautas. Continuar lendo

Tragédia em Mariana: quem recebe dinheiro da Vale

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Doações eleitorais da empresa que controla Samarco “explodem”. Metade vai para PMDB, partido que controla mineração no governo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O PMDB recebeu R$ 23,55 milhões dos R$ 48,85 milhões destinados por empresas da Vale a comitês financeiros e diretórios na campanha de 2014. O partido controla o setor de mineração no Brasil, indicando o ministro das Minas e Energia e a maioria dos chefes dos Departamentos Nacionais de Produção Mineral (DNPM). Essas cifras se referem às doações eleitorais de seis empresas ligadas à Vale: Vale Energia, Vale Manganês, Vale Mina do Azul, Minerações Brasileiras Reunidas, Mineração Corumbaense Reunida e Salobo Metais.

Em 2010, a soma das doações da Vale alcançava R$ 29,96 milhões, para todas as siglas. Isso mostra um aumento exponencial do investimento do grupo Vale em campanhas políticas. Mas é mais que isso: naquele ano, a empresa só doava para os comitês e diretórios. Em 2014, doou também para candidaturas específicas, do Congresso à Presidência. Isso soma mais R$ 39,32 milhões drenados da Vale para políticos do governo e da oposição, perfazendo um total de R$ 88 milhões – três vezes mais que em 2010. Continuar lendo

Lama da Samarco: biólogo aponta impacto por 100 anos na vida marinha

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André Ruschi denuncia “assassinato da 5ª maior bacia hidrográfica brasileira”, diz que Samarco precisa ser fechada e critica uso do mar para dispersão da poluição

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES), defende o fechamento da Samarco, mineradora responsável pelo rompimento da barragem de resíduos em Mariana (MG). Ele usou uma rede social para falar do impacto em três Unidades de Conservação, em particular o Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz, um dos mais importantes criadouros marinhos do Oceano Atlântico.

“O fluxo de nutrientes de toda a cadeia alimentar de 1/3 da região sudeste e o eixo de ½ do Oceano Atlântico Sul está comprometido e pouco funcional por no mínimo 100 anos”, afirma. Ele aponta “assassinato da quinta maior bacia hidrográfica brasileira”, diz que a empresa é reincidente e debochou da prevenção.

Ele também critica o licenciamento para o projeto: “Barragens e lagoas de contenção de dejetos necessitam ter barragens de emergência e plano de contingência. Como licenciar o projeto sem estes quesitos cumpridos?” Continuar lendo

Minas Gerais: onde estão Ana Clara, Mateus, Yuri e Thiago?

Tragédia em Minas não terá sua “foto de criança síria”; postura das autoridades e da imprensa, até agora, é protocolar, sem empatia com a população atingida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Imagem: Gustavo Ferreira/Jornalistas Livres

Há uma história dentro da história do desabamento das barragens em Mariana (MG): a das crianças, tratadas com um descaso protocolar pela imprensa brasileira. Emanuele Vitória Fernandes, de 5 anos, foi encontrada morta a 70 quilômetros de Mariana, e o UOL registra de forma contábil: “Garota de 5 anos é quarta morte confirmada em MG”. Quem era ela? Onde estudava? Lemos apenas – como em uma necrópsia – que a criança foi reconhecida pela família “por conta do cabelo, formato do pé e arcada dentária”.

Quatro crianças entre os 22 moradores e trabalhadores da Samarco ainda estão desaparecidas, conforme a lista divulgada pela prefeitura e pelos Bombeiros. São elas: Thiago Damasceno Santos, de 7 anos; Ana Clara dos Santos Souza, de 4 anos; Mateus Dias Batista, de 5 anos; e Yuri Dias Batista, de 3 meses. (Os dois irmãos desapareceram com a mãe, outra Ana Clara.) Onde elas estão? Continuar lendo

A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois

Bento Rodrigues: povoado soterrado pela Samarco sintetizava um modo de vida tão esquecido pela imprensa quanto os impactos sociais e ambientais do mundo corporativo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Por trás da lama da Samarco afirma-se o gosto amargo de um jornalismo subserviente, a serviço do mercado. Dezenas de pessoas estão desaparecidas em Mariana (MG). Entre elas, crianças. O vídeo acima mostra como era o cotidiano de um povoado destruído. Mas a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI  já começa a ser soterrada pelos jornais, após uma cobertura protocolar. Da lama à ordem: ignoram-se os conflitos, minimizam-se as contradições e se assimilam os discursos cínicos de executivos e de membros do governo. Com a clássica blindagem dos sócios da empresa.

Primeiro enumeremos os donos. Já se sabe que 50% da Samarco pertence à Vale, a Vale que tirou o Rio Doce de seu nome e nele despejou lama tóxica. A outra metade pertence à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru (onde tomou uma multa ambiental de US$ 77 mil após contaminação por cobre), no Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos, na Argélia, no Paquistão e em Trinidad & Tobago. Já protagonizou na Papua Nova Guiné uma contaminação fluvial histórica. As maiores mineradoras do mundo. Continuar lendo