O capitalismo precisa de Celso Roth para substituir o Celso Roth

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

O sistema precisa de medidas mirabolantes – e duras – para se dar a impressão de que está sendo consertado, quando se está fazendo apenas um remendo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Com o Inter de Porto Alegre praticamente rebaixado no Brasileirão, as piadas de adversários tomaram as redes sociais. A melhor delas – e a mais inquietante – é a seguinte: “O Inter precisa contratar o Celso Roth para substituir o Celso Roth”.

Celso Roth comandou o time – que nunca caiu – durante a maior parte do campeonato. Não é um técnico conhecido pela criatividade, ou por um vasto repertório de jogadas, pelo conhecimento tático. Mas como aquele que vai “dar um jeito”, nem que seja na base do grito, da pressão. Por isso ficou conhecido como técnico que salva times do rebaixamento. Paradoxalmente, participou do rebaixamento do Vasco, no ano passado, e do provável rebaixamento do Inter. Continuar lendo

A lama da Samarco na Bahia também representa a “crise”

últimos refúgios

Foto: Instituto Últimos Refúgios

Palavra “crise” também está em disputa; que modelo queremos para o planeta, para além da conjuntura econômica? Por que não se fala das crises inerentes ao sistema?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A palavra “crise” costuma ser enunciada de forma direcionada no Brasil. Como se apenas retrações econômicas devessem motivar a utilização do termo. As crises mais amplas do capitalismo – inerentes ao modo de produção – não costumam ser mencionadas. Como se coubesse somente a determinados governos prevenir ou não a “crise”. Os aspectos sociais são tomados de modo periférico – um indicador de desemprego aqui, outro ali. Os aspectos ambientais, nunca.

É como se não vivêssemos uma gigantesca crise ambiental, a exaurir os recursos naturais. A lama da Samarco/Vale/BHP (de mineradoras multinacionais, portanto) chega ao litoral baiano – como governo, empresas e certos pesquisadores garantiram que não chegaria – e tomamos como se fosse um acidente natural. Não como um resultado da… crise… do sistema. De um modelo que, para garantir o lucro de alguns (os primeiros a reclamar de crises econômicas sazonais), coloca em risco o próprio planeta. Continuar lendo

De Paris ao Rio Doce: do horror político ao horror econômico

eiffel

Os atentados em Paris e o crime ambiental em Mariana não são hierarquizáveis; o problema consiste em minimizar uma das tragédias por determinadas conveniências

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Muita gente no Brasil está falando sobre os atentados em Paris, com mais de cem mortos, em comparação com a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI, o rompimento de barragens em Mariana (MG), com mais de 20 mortos e desaparecidos e uma destruição incalculável do ambiente, entre espécies extintas, impacto por décadas e ameaça direta à sobrevivência de um rio importante, o Rio Doce.

Existe a percepção de que a tragédia francesa abafará a tragédia brasileira. E a verbalização dessa percepção gera um ruído: como se quem dissesse isso fosse indiferente a cada francês morto e ao horror específico dos massacres em Paris, à covardia e ao fanatismo. Com isso se cria um falso problema. Ou, no mínimo, secundário: a nossa suposta insensibilidade. A dos cidadãos, a dos internautas. Continuar lendo