Faltam empregos, mas sobra cinismo

Em todo o mundo, propagam-se medidas que visam precarizar empregos e favorecer demissões. Sem ação rápida, mundo pós-covid-19 será marcado por uberização geral, salários rebaixados e trabalhadores descartáveis

Por José Álvaro de Lima Cardoso |Imagem: Otto Griebel, A Internacional (1929-30)

A intensidade dos problemas econômicos nos EUA, epicentro do capitalismo mundial, é um termômetro da gravidade da crise atual. O Fundo Monetário Internacional (FMI) calcula que a economia norte-americana irá apresentar retração em 5,9% no seu Produto Interno Bruto (PIB), o que é, possivelmente, inédito. Este resultado interrompe um ciclo de 10 anos de crescimento, iniciado em 2010, a partir da grande recessão mundial ocorrida no período 2007-2009. Período de crescimento considerado incomum, não só pela sua duração, como também pela taxa razoável de crescimento (2% ao ano, em média).

A queda abrupta e profunda do PIB com a crise atual levou a um crescimento dramático do desemprego na maior economia do planeta. O país registrou em abril um índice de desemprego de 14,7%, o mais elevado em mais de 70 anos, desde que os registros começaram a ser realizados em 1948. O desemprego saltou de 3,5% em fevereiro, menor percentual da história, para os 14,7% de abril, resultado direto da depressão causada pela pandemia. Segundo o Departamento de Emprego dos EUA, até 20,5 milhões de pessoas perderam o emprego em abril último.

Segundo o governo dos EUA a crise atual já destruiu, em um mês, todos os empregos gerados após a grande crise econômica de 2007/2009. Para efeito de comparação, durante aquela crise, os Estados Unidos, alcançaram um pico de desemprego na casa de 10%, em outubro de 2009. No período todo da crise foram liquidados 8,7 milhões de postos de trabalho, contra mais de 20 milhões em um mês, nesta crise. A brutal taxa de desemprego nos Estados Unidos, é agravada pela imensa desigualdade, que aflora no indicador de desemprego: o índice geral, por si só já explosivo, ainda varia bastante entre as etnias. Entre os brancos o desemprego foi de 14,2% em abril, para os afro-americanos foi de 16,7% e, entre os hispânicos chegou a 18,9%.

No regime capitalista o mercado de trabalho sempre foi uma variável de ajuste do capital. Na hora H, quando a crise aperta, o empresariado demite os trabalhadores sem pestanejar. Daí também a luta histórica entre as classes sociais em torno da legislação trabalhista. Se dependesse dos empresários não haveria nenhum tipo de regulamentação para o mercado de trabalho, na medida em que “atrapalha” o ajuste dos custos quando vem a crise econômica. Ou seja, os empresários querem liberdade para demitir sumariamente quando a crise aflora, como acontecia antes da existência dos sindicatos. Ou como acontece hoje com os trabalhadores da economia informal. É inclusive o apoio empresarial ao programa ceifador de direitos de “Bolguedes”, que explica, em parte, a resistência de Bolsonaro, apesar das atrocidades cometidas diariamente no cargo de presidente. Mas o fato é que a existência do posto de trabalho, no sistema capitalista, só se justifica se o capitalista puder se apropriar de uma parte do valor produzido pelo trabalhador. Não é uma questão de o capitalista ser “bom” ou “mau”, faz parte da natureza do sistema.

Entre países subdesenvolvidos, regra geral, nunca houve uma cultura de preservação dos empregos. Esta, aliás, é rara de encontrar mesmo nos países capitalistas centrais, como fica evidente nos dados de emprego nos EUA, descritos acima. Na hora do agravamento da crise econômica os empresários têm uma hierarquia de estratégias para enfrentar o problema, na qual o sacrifício do emprego é uma das primeiras. A taxa de rotatividade no Brasil, inclusive, que sempre esteve nas alturas, revela como as demissões estão entre as estratégias preferidas dos patrões na hora do aperto trazido pela crise. Se a taxa de rotatividade é monstruosa, a ponto de em algumas categorias rodar 100% do quadro em um único ano, é porque não é oneroso demitir, como os patrões alegam no Brasil.

No Brasil estão aproveitando a pandemia para transferir o principal do ônus da crise para o trabalhador, como são exemplos a Medida Provisória 937 e a MP 905, e outras. Ao final da pandemia, inapelavelmente o trabalhador estará mais pobre e o padrão de renda e emprego, que já vinha em processo de deterioração nos últimos anos estará em um patamar inferior.

Um exemplo de como as elites endinheiradas no Brasil tratam a população. O Ministério Público do Estado Mato Grosso, instituiu no mês de abril um “Bônus covid” de até R$ 1.000 para procuradores, promotores e servidores usarem em gastos de saúde durante a pandemia. A medida, de 04 de maio de 2020, terá um custo de R$ 680 mil por mês. Procuradores e promotores têm direito a R$ 1.000 e os demais servidores a R$ 500. O ato administrativo do Ministério Público de Mato Grosso, surge num momento em que a população mofa nas filas da Caixa Econômica Federal tentando sacar os miseráveis R$ 600,00, para não morrer de fome.

Um segundo exemplo da “consideração” com que tratam o povo no Brasil. No dia 06 a Câmara dos Deputados aprovou em segundo turno a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 10/2020, que permite ao Banco Central (BC) adquirir papéis podres dos grandes bancos e investidores, sem nenhum limite de valor. Especialistas que acompanham de perto o assunto, afirmam que a PEC irá aumentar a dívida pública em vários trilhões de reais. Enquanto o governo propõe destinar R$ 200 reais mensais para os desempregados e desamparados (os R$ 600,00 vieram através de negociação, a partir de uma proposta de R$ 1.000,00 da oposição) aprovam uma PEC que irá aumentar exponencialmente a dívida pública, a qual, no final das contas, será paga pela população.

O grande empresariado se sente tão à vontade, num país onde metade da população está dependendo dos R$ 600,00 da Renda Emergencial para não morrer de fome, que às vezes alguns deles têm ataques de “sinceridade inconveniente”: Guilherme Benchimol, presidente e fundador da XP Investimentos, afirmou na semana passada que o Brasil está indo no caminho certo e já superou o coronavírus nas classes altas e médias. Afirmou em entrevista: “Acompanhando um pouco os nossos números, eu diria que o Brasil está bem. Nossas curvas não estão tão exponenciais ainda, a gente vem conseguindo achatar. Teremos uma fotografia mais clara nas próximas duas a três semanas. O pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta” (Revista Fórum na Internet, 05.05.20).

A crise atual é muito grave, porque é uma combinação de:

1. Crise econômica mundial inusitada;

2. Crise econômica brasileira muito violenta: Brasil vem de três anos de estagnação, após dois anos de brutal recessão (2015/2016) (muito piorada por um golpe de Estado);

3. Uma pandemia que já é a mais grave do último século;

4. Crise política dramática, com grande polarização na sociedade.

Como, segundo a sabedoria popular, “desgraça pouca é bobagem”, essa combinação de crises acontece no momento em que o Brasil tem o pior governo da história, em todos os aspectos.

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