Fenômeno Kony: redes, manipulação e resposta

Fundadores do grupo Invisible Children com rebeldes Sudaneses eles próprios acusados de graves crimes de guerra contra civis

Fundadores do grupo Invisible Children com rebeldes Sudaneses eles próprios acusados de graves crimes de guerra contra civis

Como um documentário oportunista tornou-se maior viral da História. Que ele revela sobre ingenuidade na rede e antídotos da colaboração

Por Marina Barros

O ineditismo de um vídeo de 29 minutos não é o único fator que faz de KONY2012 um fenômeno da internet. Com mais de 100 milhões de “views” em menos de uma semana, o documentário produzido pela organização humanitária californiana Invisible Children tornou-se o “viral” de difusão mais rápida desde o surgimento da internet, e a campanha de captação de recursos mais bem sucedida dos últimos anos.

Personagens reais, celebridades como Oprah, Rihanna, exércitos de jovens lindos e loiros interagindo com políticos “do bem” compõem uma trama nada simples mas com uma mensagem clara: Precisamos parar KONY! E faremos isso pela mobilização da opinião pública para a autorização da instalação de uma base militar americana em Uganda que vai…parar KONY. (Stop KONY!)

KONY é o vilão, um ditador que, segundo o vídeo, pratica atrocidades contra a população ugandense há mais de 20 anos. Cooptação de menores, mutilações e estupros são alguns exemplos. As imagens e os depoimentos das crianças são de fazer qualquer um marear os olhos.

A organização Invisible Children faz um chamado simples: para continuarem a luta contra o ditador (ou a guerra pela paz na Uganda), é preciso torná-lo conhecido. KONY é o numero 1 da lista da Corte Penal Americana; Torná-lo famoso é o primeiro passo para mobilizar a opinião pública e exigir da Casa Branca o envio de tropas e reforço para o exército local, que luta contra o exército de KONY.

A campanha em si é de tirar o chapéu. Focada em um público jovem e antenado, constrói um mosaico de elementos que tocam o coração: crianças americanas lindas falando sobre o “homem mau”, crianças africanas chorando e pedindo ajuda, artistas e políticos de alta reputação dando credibilidade à causa. Pressão de tempo é outro elemento indispensável: tudo tem que ser feito agora, não há tempo a perder.

A cereja do bolo é o convite para a adesão à campanha: “não queremos o seu dinheiro, queremos sua participação, sua iniciativa em ir às ruas e colar cartazes KONY 2012, juntar-se à multidão no dia 12 de Abril”. A fórmula é infalível e muito bem aplicada, em tempos de Occupy, KONY 2012 é a possibilidade de compra do seu próprio Occupy. Para adquirir o KIT, paga-se 25 dólaras e recebe-se em casa uma caixa contendo cartazes e 2 pulseirinhas, uma para você e outra para presentear.

Até aqui nada de novo, mas vale refletir um pouco sobre KONY 2012.

Um viral que se espalhou com tamanha velocidade foi compartilhado predominantemente por adolescentes meninas (13 a 17) e jovens meninos (18 a 24). Na flor da idade, eles envolveram-se apaixonadamente pela causa de um amigo ugandense da mesma idade – o personagem real que clama por ajuda, gerando uma forte identificação com este público. É inegável o forte engajamento demonstrado por estes adolescentes e jovens, demonstrando sua potência em “fazer justiça pelas próprias mãos”. Mas a ausência de um filtro mais crítico deste público pode ter sido a causa do compartilhamento indiscriminado do vídeo, gerando tamanho sucesso.

Fica evidente que um espectador crítico e atento fará alguns questionamentos ao vídeo. Prova disso foi o “rebote” que este sofreu, com artigos em importantes veículos em menos de dois dias após seu lançamento. A rede não deixa barato, as pessoas não tardaram a buscar a versão oficial, ou melhor, as outras versões. Alguns exemplos podem ser encontrados no Huffington Post e The Guardian.

As críticas frisaram alguns aspectos centrais do viral:

Neo-colonialismo: o vídeo reforça o estereótipo do americano bonzinho que salva a África, “continente de mazelas infinitas”, desconsiderando todas as iniciativas sociais e políticas bem sucedidas de dentro de Uganda. Trata-se de uma postura claramente neo-colonialista. Não são consideradas questões políticas regionais, que agravam o contexto do país. Nem mesmo é mencionada a existência de instituições estabelecidas no pais, como um governo federal, do presidente Yoweri Museveni, que também deveria ser alvo de pressão política. Finalmente, desconsidera-se a responsabilidade das grandes potências pelo que a África é hoje.

Agenda oculta: seria KONY o novo Bin Laden? Qual o interesse em criar uma base militar em Uganda? Quem sabe, descoberta, em 2009, de uma grande reserva de petróleo na região? Talvez, mas eu sempre desconfio de uma agenda oculta, quando há interesses dos Estados Unidos, Reino Unido e ONU. Basta olhar para o Vietnã, o Iraque, a Libia, o Afeganistão e, agora, o Irã. Além de toda a história de apoio a ditaduras militares na América Latina, África e Ásia.

Credibilidade da organização: o relatório financeiro da organização Invisible Children aponta que apenas 30% dos recursos são destinados para as comunidades em Uganda. É claramente o que poderíamos chamar de uma organização social midiática, que vive para e de suas campanhas. Uma reflexão sobre este tema precisa ser aprofundada. O retorno financeiro das campanhas é diretamente proporcional ao investimento em mídia e criação de conteúdo (vídeos, fotos, textos). Não é de hoje que as organizações que adotam investimentos agressivos em imagens e campanhas, são criticadas por captarem mais para seus executivos e publicitários que para os objetos de suas campanhas. Vejam o documentário Enjoy Poverty Please, do artista plástico Renzo Martens, sobre os Médicos sem Fronteira. (http://youtu.be/yREqd8QYtsQ)

A complexidade do funcionamento da rede e das suas relações extrapola uma visão dualista de bem e mau. O episódio KONY 2012 pode ser marcado como uma grande farsa que caiu na rede e virou sucesso. Mas um ilustre desconhecido, David Childerley, chamou atenção para alguns pontos interessantes em seu programa, update 2012 no seu canaldo youtube. No 11/9, lembrou ele, as pessoas demoraram anos e anos para questionar a versão oficial; KONY 2012 levou dois dias para ser desvendado; o próximo viral do gênero não terá mais que seis horas para ser escarafunchado, testado e aprovado – ou não. A rede é implacável, o poder de mobilização é infinito.

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10 comentários para "Fenômeno Kony: redes, manipulação e resposta"

  1. Marcos Nóbrega disse:

    Essas manobras são perigosas,pois quem propõem sempre quer se instalar e tomar conta do local.Campanha tem fins econômicos difícil ser só pelo social e como entender o sofrimento de pessoas que vivem em guerrilha a anos??Observe o percurso de todas essas ações e depois compare com outras intervenções.Quem na verdade saiu ganhando e quais os problemas que foram resolvidos??!!!

  2. Felipe Eugênio disse:

    Excelente texto, Marina!!
    Uma pergunta (dividida em duas) que pode ser boba: Seria possível, a partir do seu artigo, tratarmos de uma episteme (no sentido que Foulcaut usa, que seria um conjunto de condições, de regras, de princípios, de enunciados que funcionam como condições de possibilidade para que algo seja pensado em determinada época) marcada por uma “síndrome do conto de fadas”, que apresenta narrativas maniqueístas nos quais, de antemão, precisa-se de um vilão puro sangue para ser fiel da balança da redenção do mundo? E se isso se dá, nossa capacidade (geracional) de pensar de modo complexo e cético para tomarmos posições políticas, se estiver falida – ou mesmo demagogicamente condicionada -, não pode resultar também em adesões a tantas quantas causas a rede seja capaz de veícular e daí a adesão a bandeiras se tornar tão acrítica, tão a-histórica que chegaremos a uma paródia do que seja mobilização – sem mais projetos com crítica ao que é hegemônico?
    Beijos!
    e que venham mais textos desse naipe!

  3. Marcelo disse:

    Muito bem! Parabéns pelo post!
    Aqui vai outra análise numa direção similar: http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2012/03/13/propaganda-a-arma-do-negocio/

  4. Arturo disse:

    Errata: a mobilização para colagem dos cartazes foi sugerida pela Invisible Children para 20 de abril, e não para 12 de abril, como citado no texto.

  5. Bruno disse:

    Não tenho posição com relação a essa campanha, mas se é pra gerar questionamento, os caras dessa foto não parecem nada com rebeldes mas sim militares, estão fardados, será que alguém não está distorcendo as informações?

  6. Essa peça de desinformação está completamente esmiuçada no site http://kony2012agora.blogspot.com
    Bom trabalho!

  7. Cris O Orlando disse:

    Quem apoia Kony e LRA, sob quaisquer aspectos, não passa de estrume igual aqueles que apoiaram regimes de genocídio no leste europeu e outros genocídios nazi-fascistas ocorridos no passado.
    Apoiar uma ditadura sanguinolenta, não importa qual o lado, mostra bem, que quem realmente tem agenda oculta, são grupos de esquerda, que parecem tentar justificar todo tipo de barbarie com apenas uma coisa = anti imperialismo.
    “KONY é o vilão, um ditador que, segundo o vídeo, pratica atrocidades contra a população ugandense há mais de 20 anos. Cooptação de menores, mutilações e estupros são alguns exemplos. As imagens e os depoimentos das crianças são de fazer qualquer um marear os olhos.”
    Não é segundo o vídeo, e sim segundo a história de terror que a LRA (um grupo que quer impor cristianismo, nos moldes das cruzadas) fez e faz por lá.
    Apoiar esse lixo apenas para ser de “esquerda”, mostra que vocês apoiam tal estrume, apenas por serem anti “império”

  8. Anna Bossin disse:

    É esse discurso anti-imperialista estúpido que fortalece esses grupos e os permite perpetuar as atrocidades cometidas todos os dias contra seu próprio povo, o povo africano. Sua cegueira anti-imperialista é tão grande que até a ICC (International Criminal Court) , que no português é conhecida como Tribunal Penal Internacional, virou “Corte Penal Americana”. Por favor, tente não defecar pela boca quando for tratar de um assunto tão delicado e fazer críticas infundadas e estúpidas sobre temas do cenário internacional. O MÍNIMO que você pode fazer é pesquisar bem sobre o tema antes de sair falando o que vier a sua cabeçinha limitada que só consegue pensar nas teorias conspiratórias anti-imperialistas. O sistema internacional de Estados é MUITO mais que apenas “potências” dominando países “subdesenvolvidos”, essa idéia é por demais primitiva.

  9. Cristiano Alves disse:

    Como ser humano, peço desculpas à autora do artigo pelos comentários de Cris O. Orlando, Anna Bossin e Lucas Medeiros, imensa é a minha vergonha alheia pelo intelecto de barata que tem alguns, especialmente por aqueles que matavam as aulas de Interpretação de texto na escola.
    Quando o artigo critica o vídeo de Kony, isso não quer dizer que ele “apoia Kony”. O mundo NÃO é preto e branco como alguns pensam. Se eu critico A, isso não quer dizer que eu apoio B, eu posso muito bem apoiar N, J, Z… Se algo não é preto, isso não quer dizer que seja branco, pode ser cinza, lilás, carmesim, lazúli, amarelo…
    Este brilhante artigo elucida algo óbvio, que a farsa do “Kony 2012” foi em pouco tempo desmascarada, e ela não foi “desmascarada pela esquerda”, ela foi desmascarada pelos próprios CIDADÃOS DA UGANDA! O problema é que no ocidente existe essa mania doentia de querer dizer como outros povos tem que viver, como outros povos tem que pensar, como outros povos tem que se comportar, o que vestir, o que escutar, etc. Será que esses críticos de meia-tigela se deram ao menos ao trabalho de escutar o que os ugandenses tem a dizer sobre o vídeo? Será que se deram ao menos ao trabalho de ler o artigo sério de um periódico como o The Guardian, que foi mencionado aqui? Foi no jornal britânico, a propósito, que tomei conhecimento do vídeo.
    Para os incautos que continuam acreditando nessa fantasia de que “é preciso enviar forças americanas para a região”, saibam que os EUA já enviaram forças para a região, não foi qualquer militar, foi somente o USMC(Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos), 300 Marines, isto é, a nata das FFAA dos EUA, que atuou em colaboração com forças da Uganda e da República Popular do Congo. As forças de Kony, conforme atestado por vários jornalistas da Uganda e RD do Congo já foram destruídas há mais de 6 anos atrás. Hoje se limitam a não mais que 200 ou 300 soldados e de acordo com muitos, Kony está doente e incapaz de lutar.
    Repetindo tudo para aqueles que tem o discernimento reduzido, NINGUÉM está apoiando Kony ou o que ele faz, muito menos defendendo a sua impunidade, o que o povo da Uganda, além de jornalistas da mais alta credibilidade atestam é que as forças de Kony não apresentam mais uma ameaça e o cenário atual da Uganda é muito diferente do cenário apresentado no vídeo, feito há anos atrás.
    O objetivo deste vídeo é apenas um, criar um “novo Bin Laden” para justificar a invasão de um país onde foram descobertas grandes reservas de petróleo. Quem conhece a história dos Estados Unidos e dos demais países da OTAN, especialmente o primeiro, sabe que para invadir, sempre é preciso uma “historinha”, mostrar o inimigo como alguém “insuportável que precisa ser destruído”, como também é preciso mostrar que suas “bombas humanitárias” irão ajudar a “difundir o cristianismo”, “promover a democracia” e desta vez “promover ajuda humanitária”.
    Kony é um criminoso repudiável, mas não é o único, a Organização do Tratado do Atlântico Norte/União Européia transformou a bela e desenvolvida Líbia num monte de escombros, chacinou mais de 50 mil líbios, deixando milhares de crianças desabrigadas e órfãs, naquele país atualmente há até jaulas de zoológico para negros. O próprio governo da Uganda atual, apoiado pelos Estados Unidos, introduziu uma lei que prevê pena de morte para homossexuais. Então, por que falar de um “homem mau” doente e desabilitado quando deveríamos estar falando de “homens maus” que sentam na Casa Branca e no Parlamento Europeu para promover genocídio em nome de sua ideologia nefasta?

  10. Marina Barros disse:

    Lucas, Cris e Anna,
    1. não sou jornalista e este não pretende ser um texto jornalístico, mas uma leitura pessoal do fenômeno Kony 2012. Obrigada pelas correções e colocações, buscarei ser mais precisa nos próximos textos.
    2. trabalho com organizações sociais e campanhas de captação de recursos e mobilização há 6 anos. Já trabalhei com mais de 20 organizações e acredito que conheço e entendo os dilemas e contradições das organizações sociais e procuro orientá-las no sentido de dar maior transparência às suas causas. Conheço o “canto da sereia” da mobilização, sei o quanto ele é perigoso.
    3. Criticar a campanha Kony 2012 não significa ser a favor de Kony e do LRA. Eu posso, quero e devo ter uma leitura crítica sobre o formato da campanha e as soluções propostas por ela, que sim, são simplificadas e por isso merecem sim questionamentos.
    4. Eu também acredito que o fenômeno Kony 2012 trouxe conseqüências favoráveis, especialmente para a África, que está ganhando voz a partir da possibilidade de criticar Kony 2012. Repito: o mais importante é que a Áfricae os ugandenses ganham voz, mostrando que a solução proposta pela Invisible Children não é a única.
    5. Me encanto com a capacidade da rede em dar conta de responder às perguntas que eu e outras muitas pessoas fizemos ao assistir Kony2012. As pessoas, milhares ao redor do mundo, fizeram perguntas e buscaram respostas.
    Resumindo, estas são algumas perguntas que circulam na rede nos últimos dias e que são minhas perguntas também. São pertinentes e ajudam na resolução da questão Kony pois esclarecem pontos importantes.
    • Se a solução para Kony é o envio de “especialistas” para ajudar o exército ugandense, qual será a solução para os próximos africanos listados na ICC? O envio recorrente de especialistas americanos não pode se transformar numa desculpa para o estabelecimento definitivo de uma base militar americana na Africa.?
    • Quais outros interesses estão vinculados a uma ação militar em Uganda? E nos países Africanos?
    • O que as organizações, governo e sociedade civil da Uganda tem feito a respeito de Kony e de outros lideres?
    • O que sabemos sobre a África e sobre Uganda de sua história e política a ponto de nos sentirmos aptos a defender a solução proposta pela Invisible Children como a melhor solução?
    • Que tipo de envolvimento temos com o território e que envolvimento teremos durante e depois da ação proposta?
    • Quais são as consequencias a longo prazo para as pessoas que moram em Uganda apos a Campanha?
    A Africa e suas questões devem ser tratadas com mais responsabilidade.

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