Revistas científicas ou túmulos do saber?

Por trás do suposto rigor das publicações “de excelência” pode estar tendência da Academia a sepultar pensamento dissidente. Mas há alternativas

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Por trás do suposto rigor das publicações “de excelência” pode estar o epistemicídio — a tendência da Academia a sepultar pensamentos dissidentes. Mas há alternativas

Por Alex Martins Moraes

O que a entrega do prêmio Nobel de medicina 2013 e a divulgação dos resultados da avaliação trienal do sistema de pós-graduação no Brasil têm em comum? Além de ambos os eventos terem ocorrido na primeira quinzena de dezembro, eles também convergem, por razões distintas, em outro sentido: representam uma boa oportunidade para repensar e criticar as modalidades vigentes de produção do conhecimento em nosso país.

O biólogo molecular estadunidense Randy Wayne Schekman, que recebeu o prêmio Nobel junto com seus pares James Rothman e Thomas Südhof, aproveitou a visibilidade pública proporcionada pela premiação para instaurar uma forte polêmica com algumas das publicações científicas mais importantes no campo das ciências biológicas. Em coluna publicada no The Guardian um dia antes da cerimônia do Nobel (versão em espanhol publicada pelo El País), Randy Schekman acusou as revistas Nature, Science e Cell de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, difundindo práticas propriamente especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Entre estas práticas, Schekman menciona a redução artificial da quantidade de artigos aceitos para publicação, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção das colaborações e um total descompromisso com a qualificação do debate científico. Schekman conclui sua intervenção com o seguinte chamado à comunidade científica: “Da mesma forma que Wall Street precisa terminar com o domínio da cultura dos bônus, que fomenta certos riscos que são racionais para os indivíduos, mas prejudiciais para o sistema financeiro, a ciência deve se libertar da tirania das revistas de luxo. A consequência dessa escolha será uma pesquisa que sirva melhor aos interesses da ciência e da sociedade”.

Aparentemente refratária a esse tipo de crítica – que, aliás, vem se tornando cada vez mais comum em todas as áreas do conhecimento–, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) confere um peso decisivo às publicações em revistas de alto impacto no momento de avaliar o desempenho e a qualidade dos cursos de pós-graduação brasileiros. Para a antropologia, área da qual provenho, a avaliação da CAPES atribui um peso de 40% sobre a nota final à produção intelectual dos docentes de cada instituição. Na prática isto significa que, para atingir os conceitos máximos de avaliação (6 e 7), um determinado programa de pós-graduação deve esperar que todos os seus professores de mestrado e doutorado efetuem – para citar diretamente o roteiro de avaliação da CAPES – “a publicação de resultados de pesquisa, sob a forma de artigos em periódicos científicos, livros e capítulos de livros qualificados, com destacada proporção e média por docente nos estratos A1, A2 e B1 do Qualis Periódicos”. Levando em conta a quantidade de artigos publicados pelos docentes permanentes dos programas de pós-graduação em antropologia mais produtivos no triênio 2010-2012, o “ideal” seria, em média, cerca de duas publicações por ano por docente em revistas indexadas – isto sem mencionar as demais publicações, como livros, capítulos de livros, audiovisuais, relatórios técnicos, etc.

A avaliação da CAPES na área antropologia/arqueologia não leva em conta o fator de impacto das publicações, dado que a maioria das revistas de ciências humanas não dispõe dos meios para quantificá-lo. Neste caso, a classificação dos periódicos nos estratos A1 e A2 exige, entre outras coisas, que eles figurem em indexadores internacionais. Já o estrato B1 requer que figurem em pelo menos dois indexadores, sejam eles internacionais ou não. Outras áreas, como a medicina, adotam diretamente uma classificação elaborada com base na mediana do fator de impacto das revistas, obtidos junto ao Journal Citation Reports (JCR) e calculados anualmente pelo ISI Web of Knowledge. Isto implica o condicionamento da avaliação da produção científica às dinâmicas do mercado editorial internacional, com todas as consequências aventadas por Randy Schekman em seu artigo no The Guardian. Pior ainda, ao aplicar classificações desta ordem, a CAPES enfraquece o próprio parque editorial nacional e favorece uma forma questionável de internacionalizar a produção científica, colocando as revistas mantidas por universidades públicas e entidades de classe em detrimento de periódicos estrangeiros, financiados, em sua maioria, pela iniciativa privada e aferrados aos cânones da propriedade intelectual.

No caso das ciências sociais e humanas, o produtivismo amparado pelas avaliações da CAPES se materializa numa miríade de efeitos preocupantes, alguns deles inesperados. Não me refiro apenas à precarização do trabalho de professores e estudantes ou à perda de organicidade da produção intelectual decorrente da ênfase obsessiva na escrita de artigos e de apresentações para congressos. Talvez o aspecto mais assustador e menos criticado de uma avaliação da pós-graduação inspirada pela ideologia produtivista seja que ela ampara o epistemicídio. O epistemicídio – noção desenvolvida, entre outros, por Boaventura de Sousa Santos – consiste na eliminação ou inferiorização ativa de algumas formas de conhecimento em favor de outras, consideradas mais desejáveis no marco de uma dada estratégia de poder. Por exemplo, a anulação de certos saberes locais, sua folclorização ou deslegitimação pública foi e é uma modalidade de epistemicídio aplicada sobre diversas populações ao longo das experiências coloniais na América, Áfria e Ásia. O produtivismo está a serviço do epistemicídio porque bloqueia ou dificulta seriamente e emergência de outras formas de construção e enunciação do conhecimento em um momento de relativa democratização das universidades públicas brasileiras. Em poucas palavras, o produtivismo compromete a diversidade das formas de fazer ciência e a própria criatividade humana no exato momento em que se converte em critério valorativo hegemônico para a distribuição dos recursos necessários à produção de conhecimento. Ao erigir-se como critério chave de avaliação da relevância da produção intelectual, ele impõe sistemas de hierarquização que só fazem reiterar privilégios epistêmicos de longa data e comutá-los, logicamente, em privilégios político-institucionais. Só as modalidades mais conservadoras e pouco imaginativas de fazer ciência se adaptam, sem grandes problemas, aos atuais imperativos de quantificação. Já os estudos guiados pela co-investigação prolongada e participativa, os amplos panoramas exploratórios, as práticas colaborativas e situadas de escrita científica, etc. não conseguem sobreviver a esses imperativos.

As ciências sociais e humanas hegemônicas, legitimadas pelo produtivismo, marginalizam – ou produzem como inexistentes – outras práticas de produção intelectual; elas impõem seu universalismo abstrato ao pluralismo real dos discursos e das práxis intelectuais vigentes na universidade e fora dela. As instituições encarregadas de produzir conhecimento humanístico manejam orçamentos que, sem serem os mais robustos do sistema universitário brasileiro, não podem, ainda assim, considerar-se insignificantes. Trata-se de orçamentos conformados com dinheiro público acumulado através da cobrança de impostos majoritariamente regressivos a populações empobrecidas. Estes recursos têm sido aplicados, frequentemente, no estímulo de uma dinâmica universitária tendente a afastar estudantes e professores da problematização dos dilemas reais suscitados pela vida democrática em nosso país. Na prática, os chamados “problemas de investigação” acabam sendo inventados nos corredores da academia – ou importados dos debates prestigiosos e “de ponta” do norte global – para serem “resolvidos” no “lado de fora empírico”, com as “pessoas comuns” e depois convertidos em digressões que atendem apenas à agenda editorial vigente no mercado das publicações acadêmicas. Como se não bastasse, o dinheiro público destinado à formação de jovens pesquisadores no exterior é por vezes “investido” na perpetuação da subalternidade epistêmica das academias do sul global mediante editais que reiteram regimes de legitimidade científica diretamente coloniais.

Com a hegemonia da quantificação na elaboração dos sistemas de avaliação científica, cada vez menos a universidade poderá ser concebida como espaço de estímulo ao florescimento de “ciências sociais de outra forma”, baseadas no sentido de responsabilidade e colaboração em pesquisa, no cultivo de vínculos duradouros e qualificados com comunidades e sujeitos e na articulação entre problemáticas investigativas e dilemas socialmente compartilhados. Nossos prestigiosos programas de pós-graduação mais se assemelham organismos autistas, imersos em transe profundo, alheios a qualquer preocupação com a importância social do conhecimento científico. O que parece dinamizar a produção de conhecimento é a própria vontade de produzir racionalizada e eficientemente. Grosso modo: produção pela produção. Eis o círculo virtuoso (ou seria círculo vicioso?) do saber.

O que fazer num cenário em que a quase totalidade da produção de conhecimento promovida pelas ciências sociais e humanas encontra-se submetida a um estandarte geral de avaliação caracterizado pela (in)determinação quantitativa de toda a qualidade? Michael Eisen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que reagiu positivamente às criticas levantadas por Randy Schekman nas vésperas da entrega do Nobel, sugere a criação de sistemas alternativos de legitimação das práticas intelectuais. Para ele, todos os cientistas deveriam “atacar o uso das publicações para avaliar os pesquisadores, fazendo-o sempre que possível quando contratarem cientistas para o seu próprio laboratório ou departamento, quando revisarem as solicitações de financiamento ou julgarem os candidatos para uma vaga” (ver matéria no El País:). Mais próximos de nós, os estudantes de mestrado em Antropologia Social da UFRGS, que paralisaram suas atividades acadêmicas na primavera de 2011 para questionar o produtivismo e as genealogias institucionais estabelecidas também oferecem uma alternativa: “paremos para pensar”. Esta, que foi a consigna da sua greve, nos alenta com a perspectiva de que a desestabilização da engrenagem produtivista é possível através da conformação de uma ética e de uma prática intelectual alternativa. Ao comentar a greve dos estudantes de Porto Alegre, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos concluiu o seguinte: “O vosso movimento (…) é parte dessa sociologia das emergências, porque é gente que está em busca de uma renovação epistemológica, política e o faz entre si, em pequenos grupos. Certamente os meios de comunicação não noticiaram, certamente não foi útil para o currículo deles ou para o programa de estudos deles, mas estão a emergir outras realidades” (entrevista completa na Tinta Crítica).

Talvez estas práticas “dissidentes” sejam um caminho para explorar novas lealdades e alianças políticas que conduzam a vias alternativas de legitimação da produção intelectual. O desafio, portanto, é erigir espaços profissionais dignos e reconhecidos mais além das aparelhagens institucionais produtivistas, de forma a superar as tentativas de epistemicídio e abrir passagem à proliferação de práticas intelectuais indisciplinadas, ecumênicas e participativas. Assumindo tal postura, corremos o risco de perdermos, num primeiro momento, o aval dos números, dos mercados editoriais e da tecnocracia, mas ganhamos um valioso terreno para construir objetividade e provar a validade dos nossos postulados: a práxis humana. Neste terreno pode vicejar uma ciência sucessora, amparada em novas redes de diálogo em política; uma ciência aberta a programas de investigação nos quais a verdade reside, parafraseando novamente a Boaventura de Sousa Santos, naquele conhecimento “que nos guia conscientemente e com êxito na passagem de um estado de realidade para outro estado de realidade”.

A tarefa parece hercúlea e certamente nem todos os pesquisadores estarão interessados em aceitá-la. Uma coisa, no entanto, é certa: ao desenvolver investigações, emitir laudos de demarcação de terras indígenas, frequentar eventos acadêmicos, escrever textos, produzir imagens, enunciar discursos políticos, etc. os cientistas sociais incorporam e colocam em ato suas disciplinas. E é por esta mesma via que também estão em condições de colocá-las em questão, disputando seus efeitos e funções. Nós podemos, portanto, atuar no registro da reprodução, abastecendo o aparelho disciplinar herdado, ou podemos bloquear a atualização de certas dinâmicas produtivas, exercendo uma reflexão crítica e pragmática a respeito das ferramentas político-institucionais disponíveis à ação transformadora.

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16 comentários para "Revistas científicas ou túmulos do saber?"

  1. Impecável e necessário! Parabéns!

  2. Alexsandro disse:

    Compartilho dessa sua posição e, por isso, cada dia que passa me sinto incomodado por essa “qualificação” baseada na quantificação produtiva encabeçada pela CAPES. Já faz algum tempo que venho lendo sobre a metodologia avaliativa da CAPES (relatórios, fichas de avaliação, artigos, etc.) e, assim como você também faço parte da área das Ciências Humanas, fiquei impressionado, e ao mesmo tempo assustado, com esse absurdo que consiste esse tal fator de “impacto”.
    Parabéns pelo texto!

  3. Martha Maria Junior disse:

    Sua análise é perfeita. Compartilho com suas ideias. Vale lembrar que muitos professores/pesquisadores adoram nos eventos científicos fazer críticas a política da CAPES, porem são os mesmos que ajudam a criar as normas de avaliação e também adoram ser os consultores que analisam e julgam os projetos dos colegas.

  4. David disse:

    Existem duas revista que gostaria de indicar e que vão na contramão das linhas editoriais exigidas pela CAPES. A História & Luta de Classes e a Contracorrente…

  5. Isaac Dantas disse:

    Gostei muito das observações. Por isso que público minhas pesquisas em qualquer periódico, desde que tenha ISSN. Sem mais, parabéns.

  6. Daniel disse:

    Caro Alex,
    Muito oportuno. Mas existe um problema com a adaptação do que o Randy Schenkman disse quando aplicamos tal crítica ao Brasil. Primeiro, não é verdade que a CAPES, na área de ciências biológicas, dê importância a publicação nas revistas de luxo. Ela não dá. O Qualis A1, para a maioria das áreas é para revistas com o impacto acima de 5. Essas revistas tem todas impacto próximo ou acima de 30. Mais, a escala da dificuldade para publicação é logarítmica em relação ao fator de impacto, fazendo uma publicação numa revista de impacto 10 ser muito mais difícil que em uma revista de impacto 5 e não o dobro.
    Logo, não existe a valorização por esse esforço aqui no Brasil. O exagero desse “esforço”, que o transforma em obsessão, é o motivo da crítica do Randy Schenckman. Nos EUA, EU e até China, financiamentos e empregos são decididos pela publicação nessas revistas de luxo e aí sim o desserviço é enorme.
    O fator de impacto é uma falácia para medir pesquisadores e os trabalhos, está errado, ele mede a visibilidade das revistas (e mesmo assim pode ser manipulado). No entanto gostaria de lembrar que no Brasil ainda estamos brigando na parte de baixo da tabela, considerando qualquer publicação em revistas da esquina como a mesma coisa (ou parecido) do que com revistas respeitadas pela comunidade científica (e não estou falando das de luxo). Valorizamos o número de publicações, mesmo que essas só sirvam para poluir a literatura, nunca serão lidas, e nunca serão reproduzidas, podendo estar inclusive erradas.
    Por isso acho que a crítica, aqui no Brasil, não tenha que ser anti-revistas ou anti-impacto, mas pró-ciência. Pergunte ao seu colega qual problema ela está tentando resolver, como ele está fazendo isso e não o que ele publicou. Tenho confiança que se adotarmos essa postura, dado um certo período, as publicações de qualidade virão e a paranoia com quantidade e o impacto deixarão de existir.
    Como outros colegas já frisaram, a CAPES somos essencialmente nós mesmos, então somos independentes para mudar, basta querermos.
    Abraços!

  7. Henrique Esteves disse:

    Alex, concordo com muitas das coisas que você escreveu, mas discordo de que devemos privilegiar publicações nacionais em detrimento das internacionais.
    Se a ciência brasileira quer ter algum destaque internacional, essa ciência deve, necessariamente, ser transmitida em inglês. Algumas revistas brasileiras até aceitam artigos em inglês, mas isso ainda é uma grande exceção.
    Temos, no Brasil e em muitos outros países, um grave problema em aceitar o inglês na comunicação em geral. Enquanto mantivermos esse nacionalismo linguístico ultrapassado, continuaremos a nos comunicar apenas com os membros da nossa oca.

  8. Para fazer ciência não é necessário se apropriar muito bem dos cânones do método científico? Então isso é epistemicídio ou é avaliação do rigor científico? Se for para criticar os cânones científicos é preciso substitui-los por outros cânones.
    Quando se fala em uma ciência nacionalista e voltada para problemas sociais eu tenho a impressão de que se está falando de ciência aplicada voltada a estudo de caso para solução de problemas locais. Mas esse contextualismo aplicado à construção do conhecimento não é válido, existem artigos sobre isso.
    Não consigo perceber como o diálogo internacional seria uma subserviência colonista, pois falta diálogo internacional na ciência brasileira.
    Esse texto não conseguiu me convencer embora eu saiba que as avaliações tenham origem nas ciências duras.
    O número de citações pode não ser um indicador perfeito mas tem algo de verdade em avaliar a relevância do pesquisar na comunidade científica.
    Se a comunidade científica é quem faz a ciência, avaliação e políticas científicas cabe a ela discutir essas questões.
    Essa forma de pensar me parece um diagnóstico do atraso relativo da ciência brasileira, pois tenho impressão que há algo de errado nesse localismo.
    Quem sabe um dia eu consiga articular melhor essas questões.

  9. Alex Martins Moraes disse:

    Caros e caras, vou tentar esboçar alguns desdobramentos para as ponderações que vocês vêm tecendo até aqui.
    Quanto aos comentários do Daniel, talvez fosse interessante pensar as reflexões do Schekman sobre “revistas de luxo” e o peso atribuído pela CAPES a publicação de artigos em revistas de estratos superiores como expressões distintas de uma mesma problemática. Seguramente não existe no Brasil uma transposição direta dos parâmetros avaliativos praticados pelos sistemas acadêmicos do norte global. No entanto, aqui e em outros lugares, a avaliação da produção baseada em fator de impacto das revistas científicas é uma realidade controversa que precisa ser problematizada. Há poucas semanas, quando conversava sobre o tema com uma colega da genética, ela me comentava que os laboratórios melhor financiados da universidade pública procuram, em primeira instância, divulgar os resultados de suas investigações em publicações internacionais de luxo. Somente em última instância apelam para revistas nacionais com o qualis análogo. Uma vez publicados por certas revistas estrangeiras, os artigos dos pesquisadores brasileiros ficam sujeitos às limitações dos regimes de propriedade intelectual impostos pelos bancos de dados — por exemplo jstor, sage — que armazenam tais periódicos. Como organizar um sistema de fomento à prática investigativa que supere essas distorções e ao mesmo tempo garanta o diálogo de cientistas brasileiros com seus pares em outros países? Creio que ainda não temos uma boa resposta para esta questão.
    Quanto aos comentátios do Henrique, eu diria que não se trata de colocar revistas estrangeiras em detrimento das nacionais, muito antes pelo contrário. A pergunta seria como garantir a existência e a expansão de uma parque editorial nacional democrático — e de livre acesso — em condições de ingressar de maneira efetiva nos circuitos internacionais de divulgação científica.
    Quanto a questão do idioma, eu não naturalizaria tão apressadamente o monoglotismo científico. A fixação do inglês como “esperanto” científico é um fenômeno relativamente recente e não se aplica para todas as áreas do conhecimento. Talvez o cosmopolitismo e a democratização das práticas científicas não passem pela uniformização idiomática, mas sim pelo desenvolvimento de uma sensibilidade a diversos idiomas. Porque podemos ler em inglês, francês, espanhol, etc. e nossos pares, em outras latitudes, não podem ler em português?
    Quanto a escrever em outros idiomas, países como a China subsidiam, através das suas entidades de fomento, a tradução de artigos para línguas ocidentais. No Brasil, entretanto, os pesquisadores-estudantes de pós-graduação dependem, exclusivamente, do seu capital linguístico (que, na maioria dos casos, estriba no capital social e econômico acumulado por suas famílias) para traduzir artigos. Sendo assim, o problema talvez não seja exatamente “nacionalismo” e sim a falta de políticas mais integrais de divulgação científica internacional.
    Algumas objeções ao que foi pontuado pelo Eduardo:
    1)o método científico está em constante atualização porque a ciência não deve ser canônica. Ela acompanha o movimento, a mutabilidade dos fenômenos do mundo e de nossa experiência frente a eles.
    2) Em nenhum momento falei em ciência nacionalista. Não compreendi muito bem o que defines por contextualismo. De qualquer forma, quando penso em critérios alternativos para auferir objetividade aos enunciados científicos, procuro dialogar com as propostas da epistemóloga — e bióloga — estadunidense Donna Haraway, muito bem sintetizadas no texto “Situated Knowledges” (versão em português:http://www.pagu.unicamp.br/sites/www.pagu.unicamp.br/files/pagu05.02.pdf)
    3) Confesso que sinto algum incômdo quando me deparo com expressões do tipo “comunidade científica”. O que seria, afinal, essa tal “comunidade”? Pelo menos em minha área, a antropologia, eu não identifico qualquer espírito comunitário a priori. Particularmante, prefiro falar em “sistema-mundo” da antropologia, ou seja, um campo plural, cruzado por circuitos transinstitucionais de diálogo e poder nos quais se reproduz, com maior ou menor dificuldade, certo senso comum disciplinarista a respeito do que deve(ria) ser o trabalho antropológico legítimo. Geopoliticamente, o gradiente de legitimidade começa no norte e termina no sul global. Institucionalmente, as universidades aparecem como âmbito privilegiado de onde falar sobre antropologia e ser
    antropólogo/a. Epistemologicamente, o sistema de validação dos conhecimentos produzidos se circunscreve, quase exclusivamente, ao espectro do consenso hegemônico fixado transitoriamente em torno das matrizes teóricas na moda.Sabemos muito bem que a transcendência de determinada teoria não tem nada a ver com seu potencial analítico-descritivo. O que existe são condições específicas de enunciação partir das quais se torna possível falar ou escrever algo desta ou daquela maneira – e ser ouvido. No establishment da antropologia, a atuação profissional está condicionada pelos critérios vigentes de publicação, pelo predomínio de uns poucos idiomas, pelas estratégias de perpetuação de certas genealogias institucionais e, claro, pela tácita exigência de um voto de fidelidade disciplinar. Não sei se tal panorama se aplica a outras áreas…
    Muito instigante ler os comentários de vocês. Estamos em diálogo!
    Abraço!

  10. Marilia disse:

    Bom texto, mas tem dois pontos importantes que não podem faltar ao debate.
    Em primeiro lugar, existe uma diferença MUITO grande entre revistas como Science, Nature e as gringas em geral, e as revistas brasileiras classificadas como A1: as gringas pertencem a editoras privadas; as brasileiras são geridas por universidades e corpos universitários de unis públicas, e bancadas com dinheiro via edital e afins. A própria variedade de revistas do mercado nacional é muito maior. Não dá pra botar na comparação exatamente da mesma maneira, apenas aplicando o discurso do ganhador do Nobel, como se fosse exatamente a mesma coisa. Tem uma diferença estrutural aí.
    Em segundo lugar, também há uma diferença MUITO grande entre o modelo de carreira que existe no Brasil e os modelos dominantes de carreira acadêmica nos EUA e na Europa. No Brasil, goza-se se uma estabilidade; quer dizer, ninguém será demitido (por exemplo) porque não publicou em revista A1. Essa mesma estabilidade do funcionalismo público me faz colocar outra questão importante: essas pessoas desenvolvem pesquisa e são pagas com dinheiro público. Não me parece nada absurdo cobrar que quem ganha R$20mil/mês pagoos com dinheiro PÚBLICO periodicamente faça publicações, colocando o conhecimento produzido para circular (lembrando que as revistas nacionais em geral disponibilizam os artigos gratuitamente pela internet, e que as bibliotecas de universidades públicas têm acesso aos periódicos pagos mais importantes, garantindo que a comunidade universitária tenha acesso também e, em alguns casos, a extra-universitária idem).
    A questão é a maneira de estabelecer essas marcas e cobranças. Mas é preciso muito cuidado, porque o discurso hegemônico que brada “contra o produtivismo” nas ciências humanas e sociais, em geral traz consigo uma ideologia de que o pesquisador/acadêmico não deve nada a ninguém. Mentira. Deve sim. Ao público que sustenta seu trabalho e que, na maior parte das vezes, não vai passar nem perto das universidades onde trabalham.

  11. Alex Martins Moraes disse:

    Marília, em primeiro lugar, essa suposta “estabilidade” de que o docente brasieliro usufrui é uma verdade parcial. Se bem não podem ser demitidos das suas universidades, os docentes que não cumprem certas metas de produção podem ser afastados dos programas de pós-graduação, ficando circunscritos, apenas, às salas de aula da graduação. Eles perdem portanto, acesso à financiamentos de pesquisa.
    Em segundo lugar, questionar a priorização das revistas de estratos superiores no momento de avaliar a produção científica não é, de forma alguma, advogar pela ideia de que o pesquisador “não deve nada a ninguém”. Muito pelo contrário. Diversas pesquisas na área de ciências sociais abordam problemáticas que dizem respeito a populações e espaços relativamente circunscritos. Muitas vezes, os resultados dessas investigações são difundidos em revistas locais ou regionais e até mesmo em publicações de movimentos sociais. Pois bem, este tipo de intervenção não investe qualquer valor para a CAPES no momento de ponderar sobre a qualidade da produção intelectual. Levando em conta minha experiência pessoal em programas pós-graduação em antropologia, posso te dizer o seguinte: justamente esses professores estabilizados, pouco comprometidos com a democratização da ciência, que chegam a ganhar 20 mil reais e trabalham em linhas de pesquisa da moda para conseguir espaço nos periódicos famosos são os privilegiados pela CAPES em sua avaliação. Outros quadros docentes, com investigações muito mais aprofundadas, contatos qualificados com as comunidades e participação sistemática nos debates públicos através de meios não exclusivamente científicos terminam alijados da pós-graduação.
    Para concluir: tu disseste que as revistas A1 brasileiras não se comparam com as revistas de luxo internacionais, pois pertencem a universidades e são bancadas com dinheiro público, enquanto as segundas pertencem, em muitos casos, a organizações privadas. É verdade. Um dos alertas que fiz em meu texto é que, em se tratando de determinadas áreas, o sistema de avaliação da CAPES está inclusive precarizando o parque editorial nacional em favor das publicações estrangeiras proprietárias e de luxo.
    Abraço!

  12. Quã disse:

    Ni!
    Discussão importantíssima, ótima pegada.
    Republicamos o texto no blog do grupo Ciência Aberta:
    http://www.cienciaaberta.net/revistas-cientificas-ou-tumulos-do-saber/
    Só tomei a liberdade de lá trocar as imagens por outras, de licença livre.
    Um abraço!

  13. Lincoln Secco disse:

    ótimo

  14. Fernando disse:

    Ótimo texto e discussões!
    Em tempo, Marilia, qual universidade pública essa que paga R$ 20.000,00 mensais aos pesquisadores? Fiquei muito curioso!
    Abs

  15. Full Name disse:

    O QUALIS da CAPES contém muitos periódicos auestionáveis. Leia mais em:
    http://observatoriodauniversidade.blog.br/

  16. Galera, o topo da carreira das universidades federais (professor titular, dificílimo de se conseguir), com doutorado e dedicação exclusiva ganha um salário de R$17.057,74 (a partir de março de 2015). Fonte: https://www.ufmg.br/prorh/wp-content/uploads/2014/02/TABELA-SALARIAL-MAGIST%C3%89RIO-SUPERIOR.pdf E cá pra nós, com os descontos, pode morder uns 4 mil reais daí, segundo o meu chutômetro, pois imposto é retido na fonte. E, em muitas das vezes, tem que tirar do próprio bolso para viajar e apresentar trabalhos em congressos.
    É CLARO QUE, se o docente PRODUZ MUITO, ele consegue ganhar um tanto de bolsa produtividade do CNPq. Tenho uma professora que é bolsista nível 2, e ganha algo mais que mil reais de bolsa, e produzindo como uma desgraçada.
    Estou postando isto, como um simples professor de geografia na educação básica, especialista, e novamente graduando (Serviço Social), para mostrar que a realidade do professor universitário não tá esse docinho todo não! Para ele chegar no topo da carreira ele tem que:
    – se graduar, às vezes fazer uma especialização, quase sempre um mestrado e com certeza um doutorado, e vivendo de bolsa (o que, pra aposentar, não serve pra NADA!);
    – prestar um concurso e rezar pra banca já não ter o escolhidinho antes mesmo da avaliação começar. E passar, é claro;
    – começar do início da carreira, dando mais aulas na graduação do que qualquer coisa;
    – conviver com outros professores de pensamento diferente, inclusive antagônico;
    – participar de reuniões malucas de cunho administrativo;
    – publicar, publicar e publicar, submetendo artigos em congressos e revistas, torcendo pra estes também não terem seus escolhidinhos;
    – uma hora, mais cedo ou mais tarde, fazer um pós-doc;
    – ser avaliado em toda a progressão para, no fim, na maioria das vezes, não chegar a professor titular porque o tempo de carência em cada nível torna isto improvável.
    E aí chega aos 70ão, aposentadoria compulsória. Vai aposentar com o salário integral? NÃÃÃÃÃÃÃÃO. Viva o desmonte na previdência.
    E quem não consegue isso, ou algo parecido nas estaduais? Fica aos trancos e barrancos nas particulares, na maioria das vezes com contratos precarizados. Mais alguém ainda acha que é moleza?

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