As razões de ser Guarani-Kaiowá

Explosão de novos nomes nas redes sociais expressa projeto civilizatório para século 21. Mas na mídia, prefere-se cultuar velhos fracassos…

Por Rafael Azzi

O conflito dos índios da etnia Guarani Kaiowá com fazendeiros do Mato Grosso do Sul, que segundo a vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat, pode converter-se na maior tragédia contemporânea relacionada à questão indígena em todo o mundo, tem sido praticamente ignorado pela grande mídia. Em contrapartida, a causa dos índios Guarani Kaiowá tem despertado bastante receptividade e difusão nas redes sociais. Uma forma original de manifestação de apoio mostrou-se particularmente popular: a mudança do nome no perfil de cada usuário da rede. Acrescenta-se ao avatar o termo Guarani Kaiowá, como se o indivíduo também fosse parte da tribo em questão. De certa forma, forma-se uma nova “tribo”, composta pelos “Guarani Kaiowá” virtuais. Trata-se de um gesto simbólico, uma forma interessante e original de divulgar a causa, além de se mostrar uma maneira de empatia com uma comunidade indígena vítima de violência e de opressão.

Surpreendentemente, esse singelo ato inofensivo gerou uma onda de reações agressivas por parte de diversos articulistas da grande mídia. Em sua maioria, eles flertaram com argumentos do século XIX que, infelizmente, ainda fazem parte do senso comum. Apresentaram os índios como um povo atrasado, cuja cultura deve ser assimilada em nome do avanço do “progresso” da civilização ocidental. Alguns foram além na argumentação e, semelhantes aos primeiros jesuítas, há cinco séculos, compararam os índios a uma comunidade ainda em estado infantil. Colunista de um dos principais jornais do país chegou a defender a ideia de que as pessoas que acrescentam um nome índio ao seu devem ser classificadas como doentes mentais.

Toda essa ira desproporcional conduz à reflexão sobre o fato de nós, brasileiros, ainda termos vergonha da identidade indígena presente em nossa história social e individual, em maior ou menor escala. Parece que o processo colonizador causou danos permanentes na psique nacional, pois refutamos veementemente a ideia de sermos confundidos com os índios, o povo “primitivo”. Queremos nos assemelhar ao colonizador: europeu ou norte-americano, ocidental, branco e “civilizado”. O fato interessante é que, se tivermos coragem e curiosidade, e perguntarmos para qualquer norte-americano ou europeu veremos que, por mais que isso atinja nosso orgulho, eles não nos consideram ocidentais. Em sua visão, não somos ocidentais (e nem brancos, não importa o quão alva sua pele seja ou o quanto você destaque o ramo europeu da sua ascendência). Tal fato parece chocante e difícil de aceitar. Seríamos uma ex-colônia que recebeu influência de pelo menos mais duas culturas em sua constituição: a negra e a índia. Pensamos e agimos diferente. Eles nunca nos aceitarão em seu clube deles, por mais que tentemos desesperadamente macaqueá-los.

Agora vem a boa notícia: ao contrário do que o senso comum pensa, ser não ocidental é o que pode nos dar prestigio e valor internacional. Atualmente, os países ocidentais vivem uma grande crise de valores. A crença no progresso e em seus ideais vem sendo questionada e criticada no ocidente desde a metade do século passado. A promessa de felicidade contida na ideologia do progresso mostrou-se falsa. Ela produz cada vez mais ansiedade, estresse e depressão; sociedades fragmentadas, ambiente em constante degradação.

Os ocidentais perceberam isso e estão querendo mudar. Para muitos deles, a busca pela resposta a tais problemas passa pelo diálogo com outras culturas. Elas podem oferecer um novo olhar para velhos problemas. Compreendendo as coisas de maneiras diferentes, é possível estimular a criatividade na resolução de problemas. Outras culturas podem nos oferecer respostas diferentes e criativas.

A cultura brasileira é única justamente por ter sido construída em meio à da peculiar interação e da coexistência entre pelo menos três culturas: europeia, negra e indígena. Esse um valor perante a comunidade internacional. É nossa maior riqueza. É isso que podemos oferecer de diferente, que eles não têm.

O problema é que temos vergonha de ser diferentes. Temos vergonha de ser índios. No fundo, achamos que, se nos livrarmos dos índios e do que há de presumidamente primitivo em nós, os povos que acreditamos serem superiores (norte-americanos e europeus) finalmente nos aceitarão como iguais, como “civilizados”.  Preferimos ser vistos como um país vendedor de soja e de suco de laranja do que um país de grande diversidade cultural. O motor da economia do século XXI são as ideias, a criatividade e a cultura, mas não acompanhamos ainda essa mentalidade. Demonstramos mais orgulho por produtos agrícolas de exportação do que dos povos que fazem parte da pluralidade cultural brasileira. E, paradoxalmente, ficamos irritados quando consideram nosso país república de bananas. Não percebemos o fato de que, se preservássemos a essência dessas culturas, seríamos um modelo de ação em qualquer país “civilizado”.

Como é possível mudar isso? Como deixar de associar o indígena a atraso e finalmente perceber o valor da diversidade humana que existe no país? Para aceitar, primeiro devemos nos conhecer.

Na verdade, o que se chama genericamente de índios é um grupo de mais de trezentos povos que, juntos, falam mais de 180 línguas diferentes. Cada um desses povos possui diferentes histórias, lendas, tradições, conceitos e olhares sobre a vida, sobre a liberdade, sobre o tempo e sobre a natureza. Em comum, tais comunidades apresentam a profunda comunhão com o ambiente em que vivem, o respeito em relação aos indivíduos mais velhos, a preocupação com as futuras gerações, e o senso de que a felicidade individual depende do êxito do grupo. Para eles, o sucesso é resultado de uma construção coletiva. Estas ideias, partilhadas pelos povos indígenas, são indispensáveis para construir qualquer noção moderna de civilização. Os verdadeiros representantes do atraso no nosso país não são os índios, mas aqueles que se pautam por visões preconceituosas e ultrapassadas de “progresso”.

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20 comentários para "As razões de ser Guarani-Kaiowá"

  1. Ainda ontem fiz um comentário na coluna the Eliane Brum, a respeito de sua crônica "Sobrenome: 'Guarani-Kaiowá' "que reproduzo aqui: "Sou Guarani-Kaiowá porque tenho sangue indígena, assim como sou quilombola porque tenho sangue negro. Sou brasileiro, tenho a identidade formada pelas 3 etnias que forjaram o Brasil. E reconheço essa herança ancestral indígena como uma herança cultural fundadora do Brasil.Aliás, todos somos Guarani-Kaiowá, ou seremos, um dia!" Também ontem vi um documentário com o Márcio Souza sobre a Amazônia em que anunciava sua aposta nos indígenas para o Brasil sair do séc. XIX e entrar , finalmente, no séc. XXI, como uma civilização de lazer! Parabéns pelo artigo de muito descortino!

  2. pois eh/ enquanto os articulistas idosos e coagulados associam os indios a atraso, cientistas vao a Amazonia estudar o Xamanismo. Tanta cultura desperdiçada por uma elite cancerigena que desconhece a propria alma/.

  3. Rafael Zago disse:

    É ótimo ler um artigo que é facilmente encorporado como uma opinião própria. Ao texto eu acrescentaria um "Sem mais, tenho dito." – ASS: Bananeiro dos gringos sonhando com Portugal e seu catolicismo algoz.

  4. Veja: "Preferimos ser vistos como um país vendedor de soja e de suco de laranja do que um país de grande diversidade cultural".
    Essa afirmação é, de fato, O FUTURO. Pois reconhecer a diversidade cultural no perfil é meramente um sintoma. Não um reconhecimento em si. É um sintoma de parte de uma vanguarda. Louvável. Assim como reconhecer os efeitos sociais urbanos the venda de soja e suco de laranja.
    A organização política se dá na diversidade. Não se trata the doença mental, certamente. Mas os perfis são apenas indícios de uma superação the ideologia do progresso. Eles não são a superação em si.
    http://damarginalpraca.blogspot.com.br/

  5. Sou tricolor até nas " 3 etnias que forjaram o Brasil"

  6. Infelizmente, meu caro Rafael Azzi, não é só passadismo, senso comum e a idéia do atraso que movem essa gente, tipo Luiz Felipe Pondé.
    É MEDO DO ÍNDIO.
    É medo do seu respeito às crianças.
    É medo do seu respeito aos velhos.
    É medo das suas roças comunitárias.
    É medo das suas caças e pescas coletivas.
    É medo de não geração de excedentes (comercializáveis).
    É medo de não acumulação.
    É medo de vida comunitária.
    O índio é um péssimo exemplo para o mundo Capitalista.
    Imagine se a “moda índio” pega e contamina toda a sociedade Ocidental?

  7. Ricardo Almeidas disse:

    O pensamento conservador detesta qualquer manifestação de dissenso. No entanto, a manifestação considerada no texto – ou melhor, o seu tipo – serve como desencargo de consciência. É entusiasmo adolescente ver nisso traços de um “outro projeto civilizatório”. O arrebatamento pueril não é bom substituto para a autocrítica e lucidez.

  8. Antony Jacobi disse:

    Tenho Sangue indígena, Sou negro sou brasileiro. isso quero respeito, samos humano como qualquer outra pessoa, temos nossos direito

  9. Antony Jacobi disse:

    Tenho Sangue indígena, Sou negro sou brasileiro. isso quero respeito, samos humano como qualquer outra pessoa, temos nossos direito, o povo indígena e uma grande parte do brasil.

  10. luisa disse:

    Muito bom! Parabéns.

  11. Nessas horas se mostra com clareza aonde estão os ditadores atuais, a esquerda se levanta para defender o direito de um povo manter SUA TERRA, seus valores e o seu modo particular de pensamento e filosofia não nocivas à sociedade de maneira alguma. A direita, a libertadora, se coloca na posição de Deus, ela tem o direito de ultrapassar essa bobagem de liberdade de expressão, credo e o direito de tirar a terra de seus habitantes por seus maravilhosos e irrepreensíveis ideais que são o que no final das contas? O interesse ao próprio bolso e a auto-afirmação de seres extremamente inseguros.

  12. Sami Guaraná Kuat disse:

    “Colunista de um dos principais jornais do país chegou a defender a ideia de que as pessoas que acrescentam um nome índio ao seu devem ser classificadas como doentes mentais.”
    E ele está certo. Acahr que isso vai proteger? Isso não passa de mais uma palhaçada sofativista dos revolucionários de sofá.

  13. Este foi o melhor texto sobre a cultura indígena, que é uma das raízes da arvore genealógica brasileira. Em 2006 teve na minha cidade a COP8 MOP3 e neste evento a atual ministra do meio ambiente disse:
    “O Brasil é responsável por 11% da superfície de água doce do planeta, por 20% das espécies vivas do mundo e tem a maior floresta tropical da Terra. Isso já é o suficiente para reafirmar nossa grande responsabilidade nos temas que estão sendo discutidos durante os encontros. Para fazer valer este potencial e buscar recursos, o Brasil vai mostrar durante a COP8 os conhecimentos tradicionais e biodiversidade existentes em terras indígenas e quilombolas. “
    Ministra Marina da Silva
    O Brasil já vende uma imagem sustentável e consciente, basta agora ser.

  14. Ronan disse:

    Basta ler poucas páginas do reacionário Gilberto Freyre (Casa-Grande e Senzala) para ver o quanto os brancos católicos eram (e são) “civilizados”: Amarrar índios entre duas canoas ou dois cavalos e colocá-los para puxar até parti-los ao meio; amarrá-los junto a canhões para, quando disparados, lançar seus pedaços contra o inimigo (o índio); etc. Acho que tenho um problema com o vernáculo, não sei como civilizado significa aquele que invade e mata sem piedade, ao passo que bárbaro é o que muitas vezes sabe viver sem arruinar o meio ambiente à sua volta.

  15. Basta ler poucas páginas do reacionário Gilberto Freyre (Casa-Grande e Senzala) para ver o quanto os brancos católicos eram (e são) "civilizados": Amarrar índios entre duas canoas ou dois cavalos e colocá-los para puxar até parti-los ao meio; amarrá-los junto a canhões para, quando disparados, lançar seus pedaços contra o inimigo (o índio); etc. Acho que tenho um problema com o vernáculo, não sei como civilizado significa aquele que invade e mata sem piedade, ao passo que bárbaro é o que muitas vezes sabe viver sem arruinar o meio ambiente à sua volta.

  16. Só queria deixar aqui minha indignação , o meu lugar está sendo desapropriado para fazer uma Reserva Indígena , mais eu não tenho direito também , pois qual é a minha etnia , pois sou Brasileira , e quantas etnia tem o Brasileiro , Então se for assim temos que todos sair do Brasil ,

    • Ela esta falando de Palhoça, SC. Litoral, onde uma colonia com mais de 200 anos esta sendo despejada. Onde maricultores e pescadores artesanais com mais de 60 anos vão receber míseros mil reais para sair de sua propriedades adquiridas com suor da sua família para ir morar de baixo da ponte. Ela ta falando de 20 milhões de metros quadrados de Parque que vão ser explorados pela FUNAI e suas parceiras ONGs. Ela ta falando das nossas vidas que vão ser entregues a esse povo mercenário!

  17. Catharine disse:

    A parte final do texto está em uma questão no ENEM 2013. Achei super interessante 😉

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