O peso do acaso na sociedade do desempenho 

Pressão pelo sucesso suscita questão filosófica: há limites para a autonomia humana? Odo Marquard e Schopenhauer dão pistas sobre este mal-estar coletivo: compreender que não somos autores absolutos de nós mesmos – e isso não é defeito existencial

Arte: “Tarde. Melancolia I”, de Edvard Munch (1863-1944)

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Ninguém percebe que algumas pessoas gastam
uma energia tremenda apenas para serem normais.
Blanche Balain, atriz e escritora francesa (1903-2013).

Na sociedade do desempenho, a liberdade entendida ao modo liberal é um dogma de fé, pois a meritocracia é baseada na crença de sermos unicamente o resultado de nossas escolhas sem interferência de qualquer contexto, herança histórica e biológica, e de tantas outras contingências de percurso. O idealismo progressista adoece do mesmo mal quando não consegue passar de um voluntarismo cujo resultado final seria a comunhão de todos os homens convertidos milagrosamente em santos, sem necessidade já de Estado ou de outras instâncias políticas mediadoras. Mas, e se cada um de nós não fosse tão dono da sua própria existência como gostamos de crer?

Em 1973, o filósofo alemão Odo Marquard publicou um ensaio no qual diferenciou aquilo que poderia ser de outra maneira e podemos mudar, e passou a chamá-lo de contingente por arbitrariedade, e aquilo que poderia ter sido de outra forma, mas não podemos mudar (ter nascido, onde e quando, família ou a falta dela, doenças, etc.) que denominou contingente por destino. Pois bem, segundo Marquard, este segundo tipo de contingência tem muito mais peso na nossa vida que o primeiro. Marquard não cai num binarismo reducionista nem afirma que sejamos simples marionetes do destino, mas a força do seu argumento reside em chamar a atenção para uma realidade existencial que costuma ser negligenciada. Vale dizer, indo além do próprio filósofo, que há grandes interesses sociais, políticos e econômicos em negá-la. Considere por uns segundos a violência da frase: se você não conseguiu, é porque não se esforçou o suficiente.

No seu ensaio, Marquard não trata de afirmar que a liberdade não passa de uma ilusão, mas de refletir sobre os limites conscientes e inconscientes da nossa margem de manobra, sem por isso ceder à má-fé tal como definida por Jean-Paul Sartre — isto é, ter uma escusa sempre à mão a fim de nunca se responsabilizar pela própria vida e o mundo ao redor. No entanto, para Marquard, o que é contingente por destino é a realidade das nossas vidas, pois “os seres humanos estão sempre ‘enredados em histórias’. As ações tornam-se histórias quando algo lhes acontece. Uma história é uma escolha na qual irrompe algo inesperado. Por isso as histórias não podem ser planejadas, mas sim narradas. As nossas vidas são constituídas por esta mistura de fazer e acontecer que constitui as histórias”. Precisamente por esta razão, sustenta o filósofo, o que é contingente por destino predomina nelas. É também uma questão de destino que estejamos sujeitos às leis naturais descobertas pelas ciências naturais. Poderíamos estar sujeitos a outras determinações, mas acontece que estamos sujeitos a estas, que não podemos mudar.

Demos um passo a mais e consideremos Schopenhauer. Para o autor de O mundo como vontade e representação (1818), nossa conduta, determinada por nosso caráter, permanece fixa e é essencialmente idêntica desde o nascimento até o fim. Nesta linha de pensamento, a experiência acumulada ao longo dos anos não nos ensinaria nada e só nos mostraria como realmente somos. Exagerado? Seguramente. Completamente equivocado? Penso que nem tanto assim. Schopenhauer escreveu que:

não há nada como sentir-se si mesmo, e sentir do que se é capaz em todos os gêneros, e os limites em que se é mantido, para permanecer em paz, tanto quanto possível, consigo mesmo. Pois vale para o interior o mesmo que para o exterior; não há fonte mais segura de consolos do que ver com perfeita evidência a necessidade inevitável do que acontece. […] daí, todos os acontecimentos nos aparecem como os ditados de um destino poderoso; e o mal que nos atingiu nada mais é do que o inevitável efeito do encontro entre os acontecimentos do exterior e nosso estado interior. O consolador é o fatalismo.

Uma vez que, devido ao seu pessimismo, Schopenhauer costuma ter má reputação, não custa lembrar que outros filósofos mais admirados, como Spinoza ou Nietzsche, tampouco tinham uma opinião muito elevada do livre arbítrio, para dizer as coisas de uma forma bastante branda.

Tanto no caso de Schopenhauer como no de Marquard, a reflexão é uma atualização da distinção que os estoicos já sugeriram entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende de nós, cuja potência, de acordo com a filósofa Céline Belloq, nos liberta da falsidade segundo a qual merecemos aquilo que nos acontece, quer seja bom ou ruim. Porém, em sintonia com a abertura deste texto, Belloq assegura que “o desafio não é pequeno, tanto mais quanto a sociedade em que vivemos incita-nos tacitamente a pensar de outra maneira. Por toda parte, ela estimula em nós o delírio de onipotência. Faz-se o indivíduo acreditar que o sucesso de sua vida depende de seus méritos, de sua iniciativa, da sua força de vontade. Antes, a religião instaurava uma ordem do permitido e do proibido. Estava então em nosso poder transgredir a proibição, sob pena de sentir culpa. Agora, essa ordem normativa é das mais vagas e a proibição pode ser contornada por uma estratégia individual eficaz. Mas o que perdemos em sentimento de culpa ganhamos em sentimento de ‘deficiência’. “Não obtivemos o que queríamos por falta de competência, de astúcia, de perspicácia, de audácia etc. […] Temos um destino medíocre quando todas as sirenes nos murmuram que depende de nós alçar-nos a alguma posição invejável”. Como resultado, o sentimento de fragilidade, inferioridade, instabilidade e precariedade diante da vida deixa o sujeito capturado pela sensação de profunda insuficiência, e a vergonha substitui, ou melhor, se junta ao sentimento de culpa. Logo, não pode ser casual que, num movimento quase instintivo, indivíduos se fechem em si mesmos, cansados de serem julgados por pessoas que, parece, sempre sabem o que é bom para a vida dos outros.

Que a vida é luta é uma sentença fácil de aceitar, incorpora um elemento vital simpático aos temperamentos ativos, cuja idoneidade nunca se discute, mas vale lembrar que também é a base sobre a qual se erguem os poderosos de todo tipo para melhor subjugar seus súditos. Que a vida é sofrimento já não é uma sentença tão bem-vinda, mesmo sendo simplesmente a outra cara da primeira, porque ordinariamente implica lassidão, debilidade e falta de vontade, características avessas aos valores da sociedade do desempenho. “Só quem compreendeu que a existência é sofrimento –escreve Belloq no seu comentário a Schopenhauer – deixa de culpar o outro por sofrer e não procura ter sobre ele uma influência que sabe ser inútil. […] A recusa da queixa do outro é suspeita; a indiferença voluntária à sua dor é cegueira; a recusa de sua dor é crueldade”. Há quem viva dando conselhos tirados da própria vida, impermeável à presença do outro. Neste sentido, caberia lembrar que a empatia, longe de ser uma palavra de enfeite, é um exercício difícil de imaginação moral que escapa à razão, consistente em entender que, embora compartilhe uma causa geral comum com o meu, o sofrimento do outro é sui generis, é próprio, diferente, irredutível, é o seu, e, em primeiro lugar, pede o meu respeito. Mostrar aos outros como são pequenas e fúteis as dificuldades que não os deixam dormir pode incorrer numa indelicadeza de consequências imprevisíveis. Cada um sofre à sua maneira por motivos parecidos ou diferentes dos nossos. Saber escutar a dor alheia consiste, primeiramente, em não desvalorizá-la, em reconhecer a importância que merece por si mesma, pois só começamos a respeitar os outros quando deixamos de submetê-los sistematicamente à comparação conosco.

Numa época em que eram praticamente desconhecidos dos europeus, Schopenhauer foi leitor dos textos sagrados da tradição oriental, sobretudo do budismo e do bramanismo, sem usá-los, no entanto, como argumentos de fé. Simplesmente, sua filosofia, nascida de sua experiência e de seu olhar sobre a vida, ia ao encontro de mensagens ancestrais, o que enfatiza o caráter universal do seu pensamento. Entre outros elementos e para o que aqui nos interessa, Schopenhauer compartilhava com a cosmovisão budista a intuição fundamental de que a compaixão é o reconhecimento de que a existência é sofrimento. Portanto, só quem acredita ser possível viver sem sofrer e, por conseguinte, pensa que os que sofrem são totalmente responsáveis pelo que lhes acontece pode deixar de ser compassivo com os seus contemporâneos.

Ao contrário, quem compreendeu a base dos seus próprios sofrimentos a reconhece também nos do outro e, deste modo, pode praticar para com ele uma compaixão sem desprezo nem discurso voluntarista. O “tu” torna-se um “eu”, esse é o fenômeno da compaixão, que Schopenhauer qualifica em O fundamento da moral como “a participação absolutamente imediata, sem nenhuma segunda intenção, primeiro das dores de outro, depois e consequentemente da cessação, ou da supressão desses males, pois é esse o fundamento de todo bem-estar e de toda felicidade”. Céline Belloq comenta com acuidade que “o pessimista com frequência é percebido como indiferente à sorte do outro, pois não crê na renovação moral da humanidade. Aqui, ao contrário, o pessimismo de Schopenhauer implica saber-se um entre os outros e afetado pela sorte deles”.

Para Odo Marquard, nunca poderemos escolher nossas vidas e sua realidade de forma essencial ou absoluta. Atravessamos a vida mais por meio de nossas contingências do que por meio de escolhas e planos, e isso não é uma desgraça, pois a contingência não é um desvio, mas nossa normalidade individual e histórica a partir da qual, e até a qual, construímos. Já para Arthur Schopenhauer, nossa inteligência permite-nos chegar apenas à superfície dos elementos, enquanto outra coisa, que ele chama de Vontade, age aquém deles. O querer-viver é o esforço para existir, se perpetuar, crescer ou resistir que todo ser faz no mundo. Não mais do que o fenômeno visível de uma Vontade que, por sua vez, permanece invisível e inapreensível. Mas, a eternidade do querer-viver mostra, segundo o filósofo, a inanidade de nossos esforços para sermos diferentes do que somos e a vanidade de nossa crença em nosso progresso, nosso crescimento ou nossa alteração. Parece claro que, sem grandes entusiasmos, Odo Marquard concedeu mais campo ao livre arbítrio do que o velho Schopenhauer, mas os pensamentos tanto de um como do outro apontam para os limites da nossa ação e é aí onde eles me parecem mais frutíferos num momento histórico no qual as exigências da vida quotidiana provocam que tantas pessoas se sintam julgadas e excluídas por não conseguirem, ou não desejarem, levar uma vida considerada normal.


Referências recomendada:

Arthur Schopenhauer, O mundo como vontade e representação, São Paulo: Unesp, 2015.

Arthur Schopenhauer, Tratado sobre o fundamento da moral, Petrópolis: Vozes, 2024.

Arthur Schopenhauer, Aforismos para a sabedoria da vida, São Paulo: Edipro, 2022.

Céline Belloq, Desapegar-se com Schopenhauer, Petrópolis: Vozes, 2021.

Odo Marquard, Aplogía de lo contingente, València: Institució Alfons el Magnànim, 2000.

Jean-Paul Sartre, O ser e o nada, Petrópolis: Vozes, 1997.

Sandra Edler, Luto e melancolia: à sombra do espetáculo, RJ: Civilização Brasileira, 2022.

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