Brasil à la Roussef

As garras do país sombrio recolheram-se, mas voltarão. Como Lula, primeiro operário a chegar à presidência, Dilma não pode errar

Por Elisabeth Carvalho

Passado o vendaval da mais agressiva campanha eleitoral do Brasil pós-ditadura militar — mas ainda assim incapaz de desviar a nação dos trilhos de um projeto que vai agora inaugurando sua terceira etapa — é possível antever o caminho traçado pela primeira mulher escolhida por quase 60% dos 190 milhões de brasileiros para governar seu país.

Mais importantes que o fato de Dilma Roussef se tornar a primeira mulher presidente de um país em grande parte conservador e machista são as qualidades da presidente. Sementes de boa cepa, resistentes à seca e às tempestades, elas se desenvolveram num solo dizimado pela idéia de que não passava de uma “invenção política” do presidente Lula. Cresceram teimosamente a cada golpe desfechado pelo jogo desleal de uma oposição disposta a reconquistar a qualquer preço o poder. Terminaram por vicejar frondosamente, a ponto de derrubar o mito com que geralmente se procura desclassificar as eleições presidenciais brasileiras — travadas entre os “dois Brasis” que coexistem num país de proporções continentais, com um eleitorado dividido em “segmentos” de classe. Dilma seria, segundo tal ponto de vista, a candidata dos pobres e analfabetos de regiões atrasadas, derrotada nos estados “modernos” dos ricos e educados.

Dilma venceu no conjunto do Brasil, e em todas as classes sociais, pela franqueza, coragem e sentido pragmático com que colocou na boca de cena da política brasileira a competente executiva dos bastidores dos oito anos do governo Lula e sua extraordinária familiaridade com os grandes problemas e a complexidade do Brasil. Por maior que tenha sido o empenho dos grandes meios de comunicação, e por milhões que tenham sido as mensagens apócrifas que se espalharam como vírus pela internet nos últimos meses, Dilma desconstruiu, uma a uma, as falsas personagens com que tentaram manchar sua candidatura.

Além de “criatura” de Lula, ela foi a “terrorista de alta periculosidade” que iria levar o Brasil a uma sangrenta luta armada; foi a doente em estado terminal que morreria ao assumir, deixando o governo para seu vice Michel Temer, fruto da coalizão com o velho PMDB, que a esquerda não consegue engolir. Foi também a mulher “libertina”, que viveu relações fora do casamento e que provavelmente teria se tornado lésbica (como explicar o fato de se candidatar à presidência sem um marido, senão através de uma possível atração por outras mulheres?); e, na versão da casta candidata a primeira-dama de seu adversário José Serra, tornou-se até mesmo uma potencial “assassina de criancinhas” por ter considerado a gravíssima questão do aborto no Brasil um caso de saúde pública.

Foi esta a mulher que, em seu primeiro pronunciamento como presidente eleita, cercada por correligionários do Partido dos Trabalhadores, leu, durante 25 minutos, (Lula falaria de improviso, provavelmente) o discurso com que carimbou cada uma de suas promessas de campanha, e que em última instância podem ser traduzidas num mesmo e único esforço: o de manter e ampliar um projeto político visando a redistribuição de renda, sem que isso implique num processo de radicalização ou estimule uma polarização na sociedade brasileira.

De um lado, Dilma passou a borracha na tinta ainda fresca dos jornais que conspiraram abertamente contra ela e fez o elogio e a defesa intransigente da liberdade de imprensa. Estendeu à mão à oposição, comprometendo-se com uma proposta de pacificação e diálogo e, para surpresa de todos, chegou a citar nominalmente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como um político de quem guarda “as melhores impressões”.

Do outro lado, deixou claro que não haverá ajuste fiscal às custas do social: ao contrário da Europa, onde os governos estão dilapidando o Estado do Bem Estar, o Brasil à la Roussef vai gastar mais ainda que o de Lula nos programas sociais, nos serviços essenciais e dos investimentos em infraestrutura. Ela sabe que o Brasil jamais será um país desenvolvido enquanto houver brasileiros com fome, famílias morando nas ruas e crianças abandonadas à sua própria sorte.

Em tempos de crise como a que o mundo se encontra mergulhado, este Brasil seguirá estimulando seu mercado interno e sua poupança. Vai aprovar um fundo social para investimentos na educação com os recursos do pré-sal e no modelo de partilha na exploração do petróleo. E vai manter inalteradas as diretrizes da política externa dos últimos anos, principalmente no que toca ao fortalecimento das relações Sul-Sul, especialmente com a América Latina — ao mesmo tempo que deve bater mais fortemente na luta contra o protecionismo dos países ricos e contra a guerra cambial.

Com estes elementos, é possível entender Dilma Roussef pela lógica de consolidação de uma novíssima social democracia brasileira, ou pelo espírito revigorado de uma esquerda da qual os países centrais foram sistematicamente se afastando a partir dos anos 70, até abandoná-lo definitivamente com a adesão incondicional aos princípios neoliberais globalitários dos anos 90. Dilma terá mais facilidades neste processo de consolidação: os dez partidos da base governista, liderados pelo PT, conquistam pela primeira vez ampla maioria no Congresso Nacional e governar, aparentemente, vai ficar mais fácil.

Ao mesmo tempo, o Brasil sombrio e subterrâneo que emergiu do ódio e da polarização que alimentaram a campanha presidencial deste ano deu provas da resistência de sua sobrevida. Foi possível sentir no ar, o tempo todo, o desconforto anti-igualitário de uma classe média temerosa de perder seus privilégios diante do novo contingente de brasileiros que chega enfim a seu patamar.

Não é a primeira vez que isto acontece: foi assim nos momentos críticos que antecederam a morte trágica de Getúlio Vargas em 1954; na resistência à posse de Juscelino Kubitschek, em 1955; na manobra constitucionalista que evitou que o vice de Jânio Quadros, Jango Goulart, o substituísse depois de sua renúncia, e na desconstrução da liderança de Goulart como presidente, que culminou com o golpe militar que o depôs de 1964.

As garras afiadas deste Brasil sombrio voltaram a se retrair, mas a campanha para 2014 já começou. Como Lula, o primeiro operário a chegar à presidência, Dilma, a primeira mulher, não pode errar. Oxalá suas qualidades a levem a impor sua própria marca nos próximos quatro anos, de importância fundamental para o futuro do Brasil e de toda a América do Sul.

Elisabeth Carvalho é jornalista no Rio de Janeiro e apresentadora do programa de entrevistas Milênio, na Globonews

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12 comentários para "Brasil à la Roussef"

  1. wilson aragao disse:

    exelente materia esta,sobre a nossa presidente dilma,e assim que eu acho que todos os brasileiros de norte a sul deviam agir e nao ficar remoendo que o sul e rico e norte e pobre ate porque,um dia o norte sera tao ou mais rico quanto o sul e so a humanidade acordar e ver que a mazonas brasileira nao tem preço, obrigado e mais uma vez continuem assim,torcendo pra um brasil cada vez melhor e respeitado.

  2. Leandro Parejo disse:

    Belo texto, espero sinceramente que a distribuição de renda se dê de forma mais correta dando reais condições dos mais pobres terem acesso a uma melhora de vida efetiva. Principalemente conseguir gerar emprego para que essas pessoas consigam se estabelecer definitivamente numa melhor condição de vida.

  3. Milton Guedes Guimaraes disse:

    Li sua matéria “Brasil à la Roussef” achei-o encantador como conto de fada. A ilustre sabe o significado real de “vendaval”? Pois é dona Elizabeth Carvalho, salvo engano, tivemos a eleição mais insossa, fria, desmotivada talvez, diria melhor, seguramente do período pós-ditadura.
    Se não fora o “aborto” , tema tornado polêmico, em face da d. Dilma ter emitido opiniões contrárias. Outro assunto, que não foi trazido pelo PSDB, foi do “controle” da mídia.O mesmo já tinha sido objeto de um ante-projeto do Lula e causou muita polêmica e a dona Dilma o elogiou. Agora, foi a vez de declara ao Povo , que defenderá coma vida , a Liberdade da Imprensa. Ela vai se ajustando como como luva, ao sabor dos acontecimentos. A ilustre observou o IDH, o Brasil vai mal, muito mal, atras do Peru, imagina dona Elizabeth. Depois de oito anos gloriosos de Lula, estamos na rabeira na America do Sul. A nossa Educação é um lixo, dona Elizabeth e sabe que a Dilma destacou: vamos dá uma aumento no bolsa familia e aumentar mais os seus quadros. A Educação fica para depois, isso não é importante pra a estratégia do PT, o Nordeste que o diga. Ali tivemos média 70% de votos. A classe média está assustada com “esse pessoal” pessoal, pois teme perder seus empregos …
    Quem deve está assustado deve ser o Ministro das Finanças,pois o dinheiro está curto, tem o INSS e o funcionalismo.. Mas a Dilma o acalmou, pois já declarou” vou criar um novo imposto” e tudo se resolve. Volte à realidade dona Elizabeth, comece a analisar os dados econômico-financeiros e a ilustre irá ficar preocupada. Quanto ao lado moral dessa história,estamos dentro da lama…..

  4. moroni disse:

    Cara Elizabeth,
    Poucas vezes li um texto sintético que aborda de forma tão precisa a realidade de nossa história política recente.
    Não serão poucos os momentos que ainda seremos achincalhados e tratados como retrógrados, mas “quem sabe faz a hora não espera acontecer”.
    Há muitos IDH a galgar, sem dúvida, a peleia, felizmente, esta somente começando!
    E ainda mais felizmente que é em nossa geração!!!!

  5. moroni disse:

    Aí vai o novo IDH!!!!!
    Evolução recente
    Esta não é a primeira vez que o IDH passa por mudanças — a disponibilidade de novos dados e as sugestões de alguns críticos fizeram com que o índice se adaptasse ao longo das últimas duas décadas. Porém, a fim de possibilitar que sejam verificadas tendências no desenvolvimento humano, a equipe responsável pelo relatório usou a nova metodologia não só para calcular o IDH de 2010, mas também o de 2009 e de outros seis anos de referência: 1980, 1985, 1990, 1995, 2000 e 2005. Para o Brasil, há dados completos desde 2000.
    Desde aquele ano, o IDH brasileiro teve um ganho de 7,6% (73ª maior variação numa lista de 137 países). O progresso foi mais rápido que o latino-americano (6,6%) e mais lento que o global (9,3%). De 2005 para cá, a alta foi de 3,1% (92º mais veloz em uma lista de 169 países e territórios). De 2009 para 2010, o aumento foi de 0,8%, o 53º mais elevado entre 169 países. Com isso, o Brasil subiu quatro posições desde o ano passado, a maior alta mundial — apenas França, Irã, Indonésia, Iêmen e Nepal chegaram perto disso (avançaram duas posições).
    Na última década, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou 2,7 anos, a média de escolaridade cresceu 1,7 ano e os anos de escolaridade esperada recuaram em 0,8 ano. A renda nacional bruta teve alta de 27% no período.

  6. angakok hanna disse:

    gostei da reportagem da Senhora Carvalho. Creio que estamos nos, como mulheres, surpresas da vitoria de uma mulher, Senhora Roussef, eleita para o cargo da presidencia da republica brasileira. Acho que o texto é jornalistico e nao uma dissertaçao de economia ou sociologia, caro Senhor Guedes Guimaraes, onde o autor coloca pos e contras e avaliar analitica e profundamente a situaçao socio politica, economica do brasil. Nao acompanhei de camarote a campanha pois que nao vivo no Brasil. Portanto, as questoes do aborto, da homossexualidade, da maternidade indesejada, da MESTRUACAO, da violencia feitas contra as mulheres,e etc devem ser ao menos debatidas, se a cultura brasileira esta aberta à problematica especifica da mulher brasileira. A educaçao no Brasil é um problema, portanto, nao conheço uma cultura que saiba debater dos problemas da vida publica e privada como os brasileiros: de todas as idades e classes sociais. O espirito critico nao se aprende na Escola, meu caro senhor. A renda distribuida sera possivel se for colocada em marcha uma previdencia social que garanta a saude para todos e os direitos dos cidadaos. Senao, sem chance.

  7. Elza Alves Rabelo disse:

    Lindo texto, ganhamos nós brasileiras(os) perde a igreja que fica do lado da estrema direita deste País>
    Perde Bispos que não querem discutir a pedofilia, abuso das crianças e adolescentes, das mulheres violentadas.
    A pedofilia vai continuar dentro e fora da Igreja do Brasil e a CNBB?
    Nós te desejamos boa sorte que Deus te ilumine Dilma.
    Conte conosco mulheres e homens brasileiros de luta e muita garra.

  8. Neuza Ldira disse:

    Matéria boa
    O presidente foi bom a presidenta também será
    Na jangada o flutuante
    No mar o azul
    Na porta a memória febril
    Na fonte a sede morta NL

  9. NOELIO DANTASLÉ SPINOLA disse:

    Como dizia Horácio em seu tempo “Est modus in rebus, sunt certi denique fines“”.
    Não gostei do estilo usado no texto. Está cheio de ódio reprimido. Isto é ruim. Principalmente numa jornalista.
    Só poderei julgar a Presidente Dilma daqui a quatro anos. Se é que poderei, pois JC dizia que não julgássemos para não sermos julgados.
    Observação: Estou na classe média alta e sou a favor do aborto, da legalização da maconha, da mais absoluta liberdade de imprensa (que o PT é contra), das mulheres (sempre as escolhi para dirigir setores quando era dirigente, pois as considero mais competentes que os homens), simpatizo com todas a minorias (apesar de não gostar do uso político desta expressão). E sobretudo, não odeio ninguém!

  10. Roberto Luz disse:

    meu total apoio às palavras de Noelio Dantaslé: há um furor agressivo e vingatiivo no texto da jornalista de forma gratuita; bajuladora na parte que afirma “(…)sua extraordinária familiaridade com os grandes problemas e a complexidade do Brasil”. Desde quando a janela do gabinete da Casa Civil é domínio da realidade brasileira ? “classe média temerosa”: abra os olhos, Beth Carvalho, leia mais, converse mais, exercite mais o senso crítico e elimine seu senso de crítica e, acima de tudo, não bajule pois a baba mancha os seus textos.
    Roberto

  11. Teto Machado disse:

    É preciso prestar muita atenção no jogo político e nos interesses poderosos envolvidos na trama para derrubar o projeto democrático popular que dirige o Brasil, desde Lula até Dilma. Eles conspiram nas sobras e vomitam na grande imprensa comprada.

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