Apresentação do Tradutor

Uma nota introdutória importante ao texto “Nova” Guerra Fria e o velho método da mentira

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Repete-se, de forma impressionante, a mesma farsa da “posse de armas de destruição em massa” pelo Iraque, que justificou a invasão do país pelos Estados Unidos em 2003. Fabrica-se um dossiê completamente fajuto para demonizar, via mídia capitalista, o alvo de uma operação de guerra híbrida. Dessa vez o contexto é diferente: não se trata do frágil Iraque de Saddam Hussein, mas de uma China poderosa, com capacidade de resposta geopolítica de grande espectro. No entanto, o modus operandi é absolutamente idêntico, o que nos leva a suspeitar não só de uma senilidade flagrante na capacidade de ação geopolítica norte-americana, como também de que, não fosse por um “jornalismo” que se tornou, ele próprio, promotor de fake news, os recursos retóricos da ordem liberal norte-americana poderiam estar chegando ao limite da sua credibilidade. A “pós-verdade” parece ser sua última salvação. E isso não é coisa para amadores, como Trumps e Bolsonaros. Isso é coisa para profissionais. Afinal, por trás de um Bolsonaro (o espantalho “iliberal” descartável) sempre está um Paulo Guedes; e por trás de um Paulo Guedes sempre está uma Rede Globo; e por trás da Rede Globo sempre está a mesma velha casta senhorial… que o lulopetismo fez de conta que não existia (e nesse sonho de fadas continua perdido até hoje). E, assim, continuamos nos entretendo com espantalhos iliberais, com placebos identitários, com sustentabilidade, com empreendedorismo, com Black Lives Matter… (esqueci alguma coisa da pauta jornalística da Rede Globo?). Enfim, entretenimento para todos os gostos. O que? Regime de regulação social, pelo qual se pode pensar uma nação como um todo? Esquece! O Lula ― o único personagem em tempos de covid a ganhar mais oxigênio do que merece ― não faz a menor ideia do que seja esse conceito.

No caso do tema do artigo que se segue, o enredo da pós-verdade é tão rocambolesco, tem um jeito tão Olavo de Carvalho de ser, que até sugere que aqueles “profissionais”, na verdade, podem não ser mais do que diletantes entupidos com financiamentos generosíssimos, seja vindos de um Estado rico e afeito ao desperdício, seja vindos de magnatas fundamentalistas. O enredo da fraude do genocídio Uigur é singelo: uma universidade picareta, obscura e caça-níquel se mostra o habitat ideal para um punhado de neocons espumantes, que não têm espaço nas universidades sérias ― o que tampouco quer dizer que até essas não sejam pré-condicionadas por agendas estreitas e prescritivas ―, e, assim, precisam fazer florescer uma selva exuberante de think tanks como se fosse um campo de cogumelos. Nesse mundo paralelo, as espécies venenosas são capazes de produzir os mais inusitados delírios, sem quaisquer escrúpulos, amparados apenas pela lógica das relações corporativas (no duplo sentido da corporação medieval de próximos e da corporação empresarial de negócios). Que a imprensa comercial (igualmente corporativa) embarque nesse mesmo delírio é sinal do quanto o veneno se disseminou pelas veias do organismo desse monstrengo. O mundo da pós-verdade, na realidade, é um mundo de cumplicidades inconfessáveis, onde já não se pode mais estabelecer qualquer diferença entre boa e má fé. Não é possível remediá-lo, evocando alguma virtude heroica esquecida. Só é possível recusá-lo por completo; sair por inteiro das suas engrenagens. E isso só se consegue com um pesado e permanentemente refinável aparato crítico, e sem fazer concessões (sobretudo às traiçoeiras boas intenções).

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