Rio Preguiça

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“Naquele momento, entendi que a vida a gente acha em horinhas de descuido; que somos feitos de encontros, curvas, caminhos”

Por Mariana Caldas, na coluna Outro Lugar

A vida apenas tem encontros; tudo o resto são descoincidências”
(Mia Couto)

E foi assim, nas conjunções improváveis das órbitas instáveis, que o Rio Preguiça entrou na minha vida. Meu coração mesmo nem imaginava tudo o que me esperava.

Nossa primeira parada foi em Vassouras. Duas traves, um mar infinito de areia e uma casa-restaurante de uma família querida. Difícil era acreditar naquele pedacinho de céu perdido e encontrado nas águas da preguiça, entre pequenas montanhas de areia intocadas. Era a presença divina dos Pequenos Lençóis Maranhenses na imensidão.

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Seguimos em direção ao Farol de Preguiças. Diz que vista igual não há. Eu bem não sei. Preferi me embrenhar no universo das crianças que, agitadas, nos dão boas vindas ao som de um coral desengonçado que canta “Mandacaru quando fulora na seca, é siná que a chuva chega no Sertão…”.

TEXTO-MEIO

Nossos guias em Mandacaru são as crianças. Mão na mão, nos mostram o caminho. E seguem contando, sem parar, sem pausar, sem nem mais pensar, a história decorada da pequena comunidade ribeirinha, até a entrada do Farol.

Entrar mesmo, elas não entram. Ouso pensar que nunca entraram. Nunca subiram aquelas escadas que abrem as janelas do seu próprio mundo. Contentam-se com o caminho repetido de falas decoradas, que resulta em gorjetas agradecidas ou sorvetes coloridos. Às vezes até os dois.

Do Cais ao Farol, toda vez que ensaiávamos uma pergunta, como qual o seu nome ou quantos anos você tem, a resposta era sempre a continuação da frase que tínhamos interrompido segundos antes.

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Em frente ao portão, bagunçamos o protocolo. Eles nos olhavam confusos e demoraram um pouco para entender que a gente não queria subir e sim se embrenhar no universo deles. Desfrutando o pouco tempo que tínhamos vivendo aquela pequena vila de areia.

Eles, então, nos levaram para conhecer o seu mundo, sua vizinhança, sua escola e até suas professoras. Dançaram e jogaram capoeira no meio da sala de aula, recheados de si, sem nem conseguir conter a alegria pelo carinho que estavam recebendo. E foram nos conduzindo entre as vielas. Um comentário aqui, outro ali, olha a minha casa lá.

Mandacaru fulorô no meu coração. E de volta ao barco, já não conseguia pensar em outra coisa senão na vida inteira que tinha vivido ali, nesse espaço tão pouco de tempo, tão cheio de universos.

Caburé chegou tão rápido que nem vi. Fomos das águas doces do Preguiça ao mar salgado do Maranhão. No infinito azul, ganhamos um cantinho na Barraca do Seu Zé. Um mulato cheio de carinho, de expressão forte torneada pelas curvas da vida, que nos ofereceu sua rede, seu peixe e sua farinha. Papo vai, papo vem, descobrimos que era ele avô de Raílson,um dos pequenos que havíamos conhecido em Mandacaru.

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Fiquei olhando Seu Zé enquanto ele nos contava mais sobre a sua história, sua rotina e seus entes queridos. Pouco tempo antes eu estava em frente a sua casa. Assistindo a dança das roupas coloridas que voavam no seu varal, sentindo a brisa leve que batia no seu quintal. Afogada nos olhos de jabuticaba do seu neto, que plantou mistérios no meu coração.

E de repente eu estava ali, aconchegada na ventania da sua barraca feita de palha buriti, toda cheia de intimidades. Bendita seja, pensei. Essa vida que cai em mim, aqui e agora. Porque se a vida não é arte do encontro, eu não sei bem o que é.

Fazia mais de um mês que estávamos na estrada, atravessando os nossos próprios labirintos, expandindo nossa consciência com amor, numa colcha de retalhos que ganhava novos sentidos a cada experiência vivida e sentida.

E naquele momento eu entendi. Entendi que a vida a gente acha é em horinhas de descuido; que o real se dispõe é no meio da travessia; e que somos feitos de encontros, curvas e caminhos.

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Fui embora pensando nesse turismo que passa, fotografando instantes de vistas, só porque quer ser visto. E depois de trezentos cliques, sorrisos abertos e carões de felicidade, seguem para o próximo mirante.

Hoje, pouco mais de dois anos depois, sei que poderia passar muitas vidas naquele balanço. Acho que de fato passei. Arrisco-me a dizer que de lá também nunca voltei. Mergulhada na proa que ia e vinha, embalando os meus sentidos; fiquei. Afinando meus silêncios naquele mundo de águas sem fim.

TEXTO-FIM
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Mariana Caldas é jornalista, fotógrafa e autora do projeto poeme-se (http://poeme-se.tumblr.com/). A estrada, o amor, os encontros e a floresta são suas maiores inspirações. Ela tem 24 anos e muito amor no coração.

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