O que vocês diriam desta vida que não dá mais pé?

No Brasil, rebeldia das praças exigiu direito à consciência e à cidade. Marchas da liberdade, pós-automóvel. Queremos Copas ou coração?

Da Redação

As grandes metrópoles brasileiras não passaram incólumes pelo amplo movimento internacional que, em 2011, conclamou os cidadãos de todo o mundo a ocupar ruas e praças públicas na luta por mais justiça social, mais liberdade, mais alegria e menos capitalismo. É claro que as acampadas em São Paulo ou Rio de Janeiro não chegaram nem perto das mobilização de Nova York, Madri ou Telavive. Porém, deixaram seu recado para quem estava disposto a ouvi-lo — e o Outras Palavras não deixou de registrar a iniciativa de alguns poucos paulistas e cariocas inspirados na onda de indignação internacional.

No entanto, mais incisivas e condizentes com a realidade das grandes cidades brasileiras talvez tenham sido a Marcha da Maconha e, posteriormente, a Marcha da Liberdade. Em 2011, como costumava fazer todos os anos, o Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu que os cidadãos da capital saíssem em passeata pela Avenida Paulista pedindo a descriminalização da cannabis. Inspirados pelo direito constitucional à liberdade de expressão, os manifestantes foram às ruas mesmo assim — e sentiram na pele a repressão da Polícia Militar. Então, em protesto, costuraram alianças com outros movimentos sociais paulistanos — ciclistas, sem-teto, homossexuais — e organizaram a Marcha da Liberdade. Mais tarde, conseguiram no Supremo Tribunal Federal uma liminar que permitirá a realização da Marcha da Maconha nos anos vindouros.

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O cerceamento das liberdades — e principalmente da liberdade de questionar as leis e os poderes estabelecidos — também foi a questão central da mobilização estudantil que acabou provocando a ocupação da Reitoria da Universidade de São Paulo. Assim como ocorrera meses antes, na Marcha da Maconha, na USP tudo começou por causa de um baseado. Não por coincidência, a repressão policial foi violenta e desproporcional em ambos os casos: estrito cumprimento do dever e da lei, para uns, sinais inequívocos de fascistização da sociedade, para outros.

Nesse mesmo pacote (do direito à própria consciência) também se encaixa a luta crescente dos cidadãos paulistanos e de outras metrópoles do país por cidades mais humanas, destinadas às pessoas — e não para carros. São ciclistas que, pouco a pouco e em silêncio, vão tomando o cantinho das grandes avenidas e vias expressas, disputando aos cotovelos e gritos o espaço que até muito recentemente eram exclusivos dos veículos motorizados. Infelizmente, há vítimas no caminho. Em São Paulo, são lembrados por singelas bicicletas brancas que eternizam o local do crime — para muitos, um mero acidente de trânsito. É a luta pela desprivatização das urbes, impossível sem a liberalização do pensamento.

Confira nossos melhores textos publicados em 2011 sobre proibicionismo, rebeldia e novas formas de urbanização:

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