Novas ferramentas para a comunicação compartilhada

Além de provavelmente irreversível, a emergência da comunicação horizontal está provocando o surgimento rápido de ferramentas democratizantes. Em fase de desenvolvimento, mas já prontos para o uso, o SpotUs e o Ushahidi empoderam o público e os jornalistas, ao permitirem a qualquer um estabelecer relações antes mediadas obrigatoriamente pelo dinheiro.

O SpotUs, ainda em inglês, visa levantar recursos para produzir reportagens. É obviamente útil para jornalistas free-lancers. Ao invés de recorrer a um número limitado de jornais e revistas, é possível lançar uma proposta de pauta ao público e viabilizar a matéria por meio microdoações. Mas o sistema dá autonomia também aos leitores. Permite que eles desempenhem o papel (antes reservado aos proprietários e editores de jornais) de decidir que reportagens merecem contar com apoio financeiro. A tendência a ampliação da diversidade é  clara. Se o sistema vingar, haverá sempre interessados em reportagens profundas e de qualidade sobre qualquer assunto.

O funcionamento do SpotUs é simples. Qualquer pessoa pode propor (e descrever sucintamente) a investigação jornalística que deseja realizar. O proponente orça o valor do trabalho e abre imediatamente a captação de recursos. O sistema tem ferramentas para que os usuários construam, por meio de comentários e pontuação, a reputação de cada autor.

O Ushahidi busca a des-hierarquização por um caminho distinto (e complementar). Seu foco não é colocar em contato os  jornalistas e o público, mas criar facilidades para que o exercício do jornalismo seja um direito de [email protected] A plataforma cria redes entre pessoas que estão acompanhando um fato, ou um processo, a partir de diferentes locais. Estabelece, portanto, uma cobertura compartilhada — em certos  casos, muito potente.

Foi utilizada, por exemplo, para relatar os ataque cometidos contra a população civil da Faixa de Gaza por tropas israelenses, em 2008-09 (na época, a rede Al Jazeera associou-se ao projeto e utilizou intensamente as reportagens cidadãs como fontes). Ou para apontar necessidades humanitárias no Haiti, em especial nas semanas que se sucederam ao terremoto recente.

TEXTO-MEIO

Construído por uma rede de desenvolvedores na África (Quênia, África do Sul e Malawi), EUA e Holanda, o Ushahidi tem, entre seus charmes, a facilidade de criar um mapa para cada nova cobertura iniciada. Por meio dele é possível visualizar rapidamente onde se concentram fatos que podem gerar mobilização.

Estas facilidades estão animando um grupo de ativistas brasileiros a empregar o sistema para estimular participação popular nas eleições de 2010. Num país onde as fraudes eleitorais eram corriqueiras há alguns anos,, e onde a compra de votos prossegue, a ideia é permitir que denúncias de fatos como estes (ou de intimidações, detenções arbitrárias, alistamento fraudulento e outros) possam ser feitas instantaneamento — e mobilizem respostas cidadãs.

Entre a equipe de desenvolvimento do Eleitor2010 (o nome da iniciativa) estão Diego Casaes (@diegocasaes, no Twitter) e Paula Goes (@paulagoes). O vasto trabalho que desenvolvem inclui traduzir o Ushahidi para o português, adaptá-lo para as necessidades das eleições, dar-lhe forma gráfica atraente. Uma primeira versão, que ainda será bastante aperfeiçoada, pode ser vista aqui. Também na net, em plataforma Prezi (que valeria outro post…), pode-se acessar um diagrama didático sobre a indispensável proposta.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras